O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 68 de 109

Páginas do PDF

O Código Da Vinci

Capítulo Sessenta e Cinco

Fechou a tampa e olhou. Era uma pequena peça de madeira, semelhante à peça de um puzzle. A Rosa de madeira soltara-se da tampa e caíra em cima da mesa.

Incapaz de falar, Langdon olhou para o espaço na tampa da caixa onde a Rosa estivera. Ali, gravadas na madeira, escritas numa caligrafia perfeita, havia quatro linhas de texto em uma língua que nunca vira.

Os caracteres parecem vagamente semitas, disse Langdon para si mesmo, e, no entanto, não reconheço a língua!

Um súbito movimento atrás dele chamou-lhe a atenção. Vinda de parte nenhuma, uma súbita pancada na cabeça o fez cair de joelhos.

Enquanto caía, julgou por instantes ver um fantasma pálido pairando por cima dele, empunhando uma pistola. Depois, ficou tudo escuro.

C A P Í T U L O 65

Apesar de ser tecnicamente uma agente da lei, nunca, até àquela noite, Sophie Neveu se vira sob a mira de uma arma. Quase inconcebivelmente, a arma para que estava olhando naquele momento era empunhada pela pálida mão de um grande albino de longos cabelos brancos. O homem cravava nela uns olhos vermelhos que irradiavam uma qualidade desencorpada, assustadora.

Vestindo um hábito de lã preso na cintura por uma corda, parecia um monge m edieval. Sophie não fazia a mínima ideia de quem ele pudesse ser, mas começava a sentir um súbito respeito pelas suspeitas de Teabing de que a Igreja estava provavelmente por trás de tudo aquilo.

— Sabem o que vim buscar — disse o monge, e a sua voz soou cava.

Sophie e Teabing estavam sentados no divã, de braços erguidos, como o inesperado visitante ordenara. Langdon jazia estendido no chão, gemendo. Os olhos do monge pousaram imediatamente na Chave de Abóbada que Teabing tinha no colo.

— Não será capaz de abri-lo — disse Teabing, em tom de desafio.

— O meu Professor é um homem sábio — respondeu o monge, avançando um passo, com a arma oscilando de Teabing para Sophie.

Sophie perguntou a si mesma onde estaria o mordomo. Será que não ouviu Robert cair?

— Quem é o seu professor? — perguntou Teabing. — Talvez possamos chegar a um acordo financeiro.

— O Graal não tem preço — disse o homem, e avançou mais um passo.

— Está sangrando — observou Teabing calmamente, apontando com a ponta do queixo o tornozelo esquerdo do monge, onde um fio de sangue escorrera pela

perna. — E coxeia.

— Você também — replicou o monge, olhando para as muletas de alumínio encostadas ao lado do divã. — Agora, entregue-me a Chave de Abóbada.

— Sabe da Chave de Abóbada? — perguntou Teabing, parecendo surpreendido.

— Não interessa o que eu sei. Levante-se, muito devagar, e entregue-a.

— Levantar-me é uma operação difícil para mim.

— Precisamente. Preferia que ninguém tentasse quaisquer movimentos rápidos.

Teabing enfiou o braço direito por uma das muletas e segurou a Chave de Abóbada com a mão esquerda. Inclinando-se para a frente, conseguiu pôr-se de pé, segurando o pesado cilindro na palma da mão esquerda e apoiando-se instavelmente à muleta com a direita.

O monge aproximou-se mais, mantendo a arma apontada para a cabeça de Teabing. Sophie viu, sentindo-se impotente, o monge estender a mão para pegar o cilindro.

— Não vai conseguir — disse Teabing. — Só os que disso são dignos podem abrir esta pedra.

Só Deus julga quem é e não é digno, pensou Silas.

— É muito pesado — disse o homem das muletas, com o braço cedendo. —

Se não pegar depressa, receio deixá-lo cair! — E cambaleou perigosamente.

Silas avançou rapidamente para pegar a pedra, e, no momento em que o fez, o homem das muletas perdeu o equilíbrio. A muleta escorregou para o lado e ele começou a cair para a direita. Não! Silas saltou em frente para salvar a pedra, baixando involuntariamente a mão armada. Mas a Chave de Abóbada es tava afastando-se dele.

Enquanto caía para a direita, o homem rodou o braço esquerdo para trás e o cilindro caiu-lhe da mão em cima do divã. Ao mesmo tempo, a muleta metálica que estava escorregando pareceu acelerar o movimento, descrevendo um amplo arco em direção à perna de Silas.

Uma onda de dor intolerável subiu pelo corpo de Silas quando a muleta acertou com uma precisão assassina no cilício, cravando as farpas na carne já martirizada. A pistola disparou-se com uma detonação ensurdecedora, mas o

projétil enterrou-se, inofensivo, no soalho de madeira enquanto Silas caía. Antes que pudesse voltar a levantar a arma, o pé da mulher apanhou-o em cheio por baixo do queixo.

No seu posto junto ao início do caminho de acesso, Collet ouviu o tiro. A detonação abafada disparou-lhe uma onda de pânico através das veias. Com Fache a caminho, já perdera toda a esperança de reclamar qualquer crédito por ter encontrado Langdon. Mas que o matassem ia permitir que o ego de Fache o levasse perante uma comissão de inquérito por procedimento policial negligente.

Foi disparada uma arma dentro de uma casa particular, e o senhor esperou junto ao caminho de acesso?

Collet sabia que a oportunidade de uma aproximação discreta tinha há muito passado. E também sabia que se continuasse ali sem fazer nada por mais um segundo que fosse, quando rompesse a manhã toda a sua carreira teria passado à história.

Olhando para o portão de ferro, tomou uma decisão.

— Amarrem-lhe o guincho e atirem-no abaixo.

Nos distantes recessos do seu cérebro atordoado, Langdon ouvira o tiro. E

ouvira também um grito de dor. Seu? Tinha um martelo-pneumático abrindo-lhe um buraco na nuca. Em algum lugar ali perto, havia pessoas falando.

— Onde diabo você estava? — gritava Teabing.

— Que aconteceu? — Era a voz do mordomo. — Oh, meu Deus! Quem é esse? Vou chamar a Polícia.

— O inferno! Nada de Polícia. Seja útil e arranje-nos alguma coisa para amarrar este monstro.

— E gelo! — gritou Sophie.

Langdon voltou a derivar para a inconsciência. Mais vozes. Movimento.

Agora, estava sentado no divã. Sophie segurava um saco de gelo contra a nuca dele. Doía-lhe o crânio todo. Quando conseguiu finalmente focar os olhos, viu um corpo caído no chão.

Estarei com alucinações? O corpo pertencia a um enorme monge albino, amarrado e amordaçado com fita isolante. Tinha o queixo aberto por um profundo corte e o hábito ensopado em sangue, do lado direito, sobre a coxa.

Também ele parecia estar recuperando os sentidos. Langdon voltou-se para

Sophie.

— Quem é ele? Que... aconteceu?

Teabing aproximou-se coxeando.

— Foi salvo por um cavaleiro que empunhava uma Excalibur fabricada pela Acme Orthopedic.

Huh? Langdon tentou endireitar-se. Sophie pousou-lhe no braço uma mão trêmula mas meiga.

— É melhor repousar por um minuto, Robert.

— Receio — continuou Teabing — ter acabado de demonstrar à sua amiga as infelizes vantagens da minha condição. Parece que todos nos subestimam.

Sentado no divã, Langdon baixou os olhos para o monge e tentou imaginar o que tinha acontecido.

— Ele estava usando um cilício — explicou Teabing.

— Um quê?

Teabing apontou para a ensanguentada tira de couro eriçada de pontas que estava caída no chão.

— Uma correia de Disciplina. Usava-a na coxa. Apontei com todo o cuidado.

Langdon esfregou a cabeça. Sabia o que eram as correias de Dis ciplina.

— Mas como... como soube?

Teabing sorriu.

— O Cristianismo é a minha área de estudo, Robert, e há certas seitas que trazem um sinal na testa. — Apontou com a muleta para a mancha de sangue no hábito do monge. — Por assim dizer.

— A Opus Dei — murmurou Langdon, recordando a história recentemente divulgada nos meios de comunicação a respeito de vários destacados homens de negócios de Boston que eram membros da Opus Dei. Colegas e subordinados apreensivos tinham-nos falsamente acusado de usarem cilícios por baixo dos elegantes ternos e coletes. Na realidade, nenhum dos três homens em causa os usava. Como muitos membros da Opus Dei, tinham o grau de “supranumerários”

e não praticavam qualquer espécie de mortificação corporal. Eram católicosdevotos, pais exemplares e membros profundamente empenhados da comunidade. Como seria de esperar, a imprensa não tinha demorado muito a destacar estas virtudes, concentrando-se de preferência nos membros