O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 43 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Quarenta

Coloquei o bispo em perigo. Silas olhou sem ver para o soalho de madeira, pensando em pôr fim à própria vida. Afinal, fora Aringarosa quem a dera... no pequeno reitorado na Espanha, instruindo-o, dando-lhe um propósito.

— Meu amigo — dissera-lhe Aringarosa —, você nasceu albino. Não permita que os outros te façam ter vergonha disso. Não vê como o torna especial? Não sabia que o próprio Noé era albino?

— Noé da Arca? — Silas nunca ouvira falar disso.

Aringarosa sorrira.

— Sim, Noé da Arca. Como você, tinha uma pele branca como um anjo.

Pense nisso. Noé salvou toda a vida da Terra. Está destinado a grandes coisas, Silas. O Senhor te libertou por uma razão. Foi chamado. O Senhor precisa de você para fazer o Seu trabalho.

Com o tempo, Silas aprendera a ver em si mesmo a uma nova luz. Sou puro.

Branco. Belo. Como um anjo.

No momento, no entanto, naquele quarto da residência, foi a voz do pai que lhe sussurrou, desapontada, do passado. Tu est un désastre. Un spectre.

De joelhos no chão de madeira, Silas rezou pedindo perdão. Então, despindo o hábito, voltou a pegar a Disciplina.

C A P Í T U L O 40

Em luta feroz com a alavanca de mudanças, Langdon conseguiu levar o táxi “desviado” até ao outro lado do Bois de Boulogne deixando o motor apagar apenas duas vezes. Infelizmente, o indesmentível humor da situação era ensombrado pela voz da despachante da central, que não parava de tentar contatar o táxi pelo rádio.

— Voiture cinq-six-trois. Ou êtes-vous? Répondez!

Quando chegou à saída do parque, Langdon engoliu o machismo e pisou o freio.

— É melhor você dirigir.

Sophie pareceu aliviada quando se instalou atrás do volante. Instantes depois, tinham o carro correndo suavemente para oeste ao longo da Avenue Longchamp, deixando para trás o Jardim das Delícias Terrenas.

— Qual é o caminho para a Rue Haxo? — perguntou Langdon, vendo Sophie levar o ponteiro do velocímetro acima dos cem quilômetros/hora.

— O motorista disse que era perto do estádio de tênis Roland Garros —

respondeu ela, sem desviar os olhos da estrada. — Conheço a área.

Langdon voltou a tirar a chave do bolso, sentindo-lhe o peso na palma da mão.

Adivinhava que era um objeto de enorme importância. Muito possivelmente, a chave para a sua própria liberdade.

Momentos antes, enquanto falava a Sophie dos Cavaleiros do Templo, percebera que aquela chave, além de ter gravado o selo do Priorado, tinha uma ligação mais sutil à organização secreta.

A cruz de braços iguais era um símbolo de equilíbrio e harmonia, mas

também dos Templários. Todas as pessoasviram imagens de Cavaleiros do Templo envergando túnicas brancas com uma cruz de braços iguais. Era verdade que os braços da cruz dos Templários abriam ligeiramente nas extremidades, mas continuavam a ter o mesmo comprimento. Uma cruz quadrada. Como a desta chave.

Langdon sentiu a imaginação pôr-se a correr solta enquanto pensava no que poderiam ir encontrar. O Santo Graal. Quase riu alto face ao absurdo da ideia.

Pensava-se que o Graal se encontrava mm algum lugar na Inglaterra, enterrado em uma câmara secreta por baixo de uma das muitas igrejas dos Templários, onde permanecia escondido desde pelo menos 1500. A era do Grão-Mestre da Vinci.

A fim de garantir a segurança dos poderosos documentos, o Priorado fora obrigado a mudá-los muitas vezes de lugar ao longo dos séculos anteriores. Os historiadores

suspeitavam agora de que passara por seis esconderijos diferentes desde que chegar a à Europa, vindo de Jerusalém. O último “avistamento” do Graal ocorrera em 1447, quando numerosas testemunhas falaram de um incêndio que quase destruíra os documentos antes que pudessem ser postos em segurança dentro de quatro arcas tão grandes que cada uma delas tivera de ser transportada por seis homens. Depois disso, ninguém voltara a afirmar tê-lo visto. Tudo o que restava era rumores dispersos de que estava escondido na Grã-Bretanha, a terra do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda.

Estivesse onde estivesse, dois fatos importantes permaneciam: Leonardo conhecera a localização do Graal no seu tempo. Esse esconderijo não fora provavelmente alterado até ao presente.

Por isso, os entusiastas do Graal continuavam a examinar sob a lupa a ar te e os diários de da Vinci na esperança de encontrar uma pista escondida que desvendasse a sua atual localização. Havia quem afirmasse que o montanhoso fundo de A Madonna dos Rochedos correspondia à topografia de determinadas colinas crivadas de grutas existentes na Escóc ia. Outros insistiam que a suspeita disposição dos discípulos em A Ultima Ceia era uma espécie de código. Outros ainda pretendiam que raios-X feito à Mona Lisa revelavam que fora inicialmente pintada c om um pendente de Isis, de lápis-lazúli, no pescoço, pormenor que Leonardo teria mais tarde decidido cobrir. Langdon nunca vira qualquer sinal do

tal pendente, nem conseguia imaginar de que modo poderia ele revelar o esconderijo do Santo Graal, o que não impedia os apaixonados de discutirem ad nauseam em sites e chat-rooms da Internet.

Todas as pessoas adoram uma conspiração. E as cons pirações não paravam de aparecer. A mais recente fora, claro, a tremenda descoberta de que a famosa Adoração dos Magos de da Vinc i escondia um negro segredo por baixo das suas camadas de tinta.

O perito de arte italiano Maurizio Seracini revelara a perturbadora verdade, que o New York Times publicara com destaque sob o título: “O Escândalo Leonardo”.

Seracini provara, sem qualquer sombra de dúvida, que embora o esboço cinzento-esverdeado subjacente da Adoração fosse indiscutivelmente da autoria de da Vinci, a pintura propriamente dita não era. A verdade era que um pintor anônimo qualquer preenchera o esquisso de da Vinci, como um desses quadros de pintar-por-números, anos após a morte do mestre. Muito mais perturbador ainda, no entanto, era o que estava por baixo da pintura do impostor. Fotografias tiradas com reflectografia de infravermelhos e raios-X sugeriam que o desconhecido pintor, ao cobrir o estudo esboçado, introduzira algumas alterações suspeitas ao desenho original... como que para subverter as verdadeiras intenções do autor. Fosse ela qual fosse, a natureza do desenho original nunca chegara a ser tornada pública. Em todo o caso, os embaraçados diretores da galeria dosUffizi, em Florença, tinham imediatamente banido o quadro para um armazém situado do outro lado da rua. Os visitantes que procuravam a Sala Leonardo da galeria passaram a encontrar estes enganadores e secos dizeres no lugar onde a Adoração estivera exposta:

ESTA OBRA ESTÁ SENDO SUBMETIDA A TESTES DE DIAGNÓSTICO

PREPARATÓRIOS PARA RESTAURAÇÃO.

No bizarro submundo dos modernos procuradores do Graal, Leonardo da Vinci continuava a representar o grande enigma. As suas obras pareciam desejosas de revelar um segredo que no entanto, fosse ele qual fosse, continuava escondido, talvez debaixo de uma camada de tinta, talvez codificado e à vista de todos, ou talvez até inexistente.

Talvez a tantalizante plétora de pistas deixada por da Vinci mais não fosse do que uma promessa vazia destinada a frustr ar os curiosos e a pôr um sorriso nos lábios da Mona Lisa.

— Será possível — perguntou Sophie, tr azendo Langdon de volta ao presente — que essa chave abra o esconderijo do Santo Graal?

A gargalhada de Langdon soou falsa, até a ele.

— Não me parece muito provável. Além disso, acreditasse que o Graal encontra-se Em algum lugar no Reino Unido, não em França.

E contou-lhe abreviadamente a história.

— Mas o Graal parece ser a única conclusão racional — insistiu ela. —

Temos uma chave extremamente segura, marcada com o selo do Priorado de Sião e que nos foi entregue por um membro do Priorado de Sião... uma irmandade que, conforme acaba de me dizer, é a guardiã do Santo Graal.

Langdon sabia que o argumento era lógico, e, no entanto, recusava instintivamente aceitá-lo. Havia rumores de que o Priorado teria jurado levar um dia o Graal de novo para França, onde repousaria para todo o sempre, mas nenhuma prova histórica indicava que já tivesse feito. E mesmo que o Priorado tivesse conseguido trazer o Graal para França, o número 24 da Rue Haxo, perto de um estádio de tênis, dificilmente par eceria um nobre e condigno lugar de repouso final.

— Sophie, sinceramente, não vejo como possa esta chave ter alguma coisa a ver com o Graal.

— Porque se supoe que o Graal está na Inglaterra?

— Não só por isso. A localização do Santo Graal é um dos segredos mais bem guardados da História. Os membros do Priorado passam décadas provando ser dignos de confiança antes de serem elevados aos escalões mais altos da irmandade e ficarem sabendo onde está o Graal. O segredo é protegido por um intricado sistema de conhecimento compartimentado, e embora a irmandade tenha muitos membros, apenas quatro deles, em certa altura, o conhecem: o Grão-Mestre e os seus três senescais. A probabilidade de o seu avô ser uma dessas quatro pessoas é muito baixa.

O meu avô era um deles, pensou Sophie, pisando no acelerador. Tinha gravada na memória uma imagem que confirmava para além de qualquer dúvida

a posição do avô dentro da irmandade.

— E mesmo que o seu avô pertencesse ao escalão superior, nunca lhe seria permitido revelar fosse o que fosse a alguémfora da irmandade. A ideia de ele a ter chamado para o círculo mais íntimo é inconcebível.

Já estive lá, pensou Sophie, recordando o ritual na caverna. Perguntou a si mesma se teria chegado o momento de falar a Langdon do que tinha visto na casa da Normandia. Durante dez anos, a pura vergonha impedira-a de contá-lo fosse a quem fosse. Toda ela tremia só de pensar nisso. Ouviu ao longe o uiv o de sirenes, e sentiu um manto de cansaço descer-lhe sobre os ombros.

— Ali está! — exclamou Langdon, excitado, ao ver o complexo do estádio Roland Garros surgir diante deles.

Sophie dirigiu-se para lá. Ao fim de várias passagens, encontraram o cruzamento com a Rue Haxo e m eteram por ela, seguindo na direção dos números mais baixos. A rua tornou-se mais industrial, ladeada de empresas.

Precisamos do número vinte e quatro, disse Langdon para si mesmo, percebendo que estava sondando o horizonte em busca dos campanários de uma igreja. Não seja ridículo. Uma igreja dos Templários esquecida neste bairro?

— É ali — disse Sophie, apontando.

Os olhos de Langdon seguiram a direção do dedo dela.

Que diabo!

Era um edifício moderno. Uma cidadela atarracada, com uma gigantesca cruz quadrada, de néon, encimando a fachada. Por baixo da cruz, as palavras: BANCO DEPOSITÁRIO DE ZURIQUE

Langdon ficou contente por não ter partilhado com Sophie as suas esperanças a respeito de uma igreja dos Templários. Um dos riscos do ofício, para os simbologistas, era a tendência para procurar significados ocultos em situações onde eles não existiam.

Naquele caso, esquecera completamente que a pacífica cruz de braços iguais fora adotada com o símbolo ideal para a bandeira da Suíça.

Esse mistério, pelo menos, estava resolvido.

Sophie e Langdon tinham em seu poder a chave de um cofre de depósito de