O Código Da Vinci
Capítulo Cento e Quatro
— Monsenhor, para onde vai agora?
Exatamente a mesma pergunta que lhe tinham feito na noite anterior, quando se preparava para sair de Castel Gandolfo.
— Suspeito de que o meu caminho vai ser tão incerto como o seu.
— Sim. — Fache fez uma pausa. — Julgo que vou me aposentar mais cedo do que esperava.
Aringarosa sorriu.
— Um pouco de fé faz obras maravilhosas, capitão. Um pouco de fé.
C A P Í T U L O 104
Rosslyn Chapel — com frequência chamada “a Catedral dos Códigos”
— ergue-se dez quilômetros a sul de Edimburgo, na Escócia, no local de um antigo templo mitraico.
Construída pelos Cavaleiros do Templo, em 1446, a capela está coberta de uma estonteante profusão de símbolos ligados às tradições judaica, cristã, egípcia e maçonica.
As coordenadas geográficas do templo coincidem exatamente com o meridiano que passa por Glastonbury, a Linha da Rosa longitudinal que marca tradicionalmente a ilha de Avalon do rei Artur e é considerada o pilar central da geometria sagrada britânica.
Foi desta Linha da Rosa sagrada que Rosslyn — originariamente escrevia-se Roslin — recebeu o nome.
As recortadas torres projetavam longas sombras vespertinas quando Langdon e Sophie pararam o carro alugado na ervosa área de estacionamento junto à base da elevação no topo da qual a capela se erguia. O curto voo de Londres até Edimburgo fora repousante, embora nenhum dos dois tivesse dormido, excitados como estavam pela expectativa que os aguardava. Ao olhar para o austero edifício recortado contra um céu riscado por nuvens, Langdon sentiu-se como Alice caindo de cabeça na toca do coelho.
Deve ser um sonho. E no entanto, sabia que o texto da última mensagem de Jacques
Saunière não podia ter sido mais específico.
The Holy Grail neath ancient Roslin waits.
O Santo Graal sob a antiga Roslin espera. Langdon imaginara o “mapa do
Graal” como um diagrama, um desenho com um “X-marca-o-lugar”, mas o derradeiro segredo do Priorado fora revelado na mesma linguagem que Jacques Saunière usara para falar com eles desde o princípio. Simples versos. Quatro linhas muito explícitas que apontavam sem a menor dúvida para aquele lugar.
Além de identificar Rosslyn pelo nome, os versos referiam várias das mais famosas características arquiteturais da capela.
A despeito da clareza da revelação final de Saunière, Langdon ficara sentindo-se mais desorientado do que esclarecido. Rosslyn Chapel parecia-lhe uma localização excessivamente óbvia. Durante séculos, a capela de pedra ecoara com murmúrios da presença do Santo Graal. Murmúrios que tinham se transformado em gritos quando, em décadas recentes, pesquisas feitas com ondas de radar capazes de penetrar o solo tinham revelado a existência de uma surpreendente estrutura por baixo da capela — uma vasta câmara subterrânea.
Este enorme cofre escavado na rocha era não só muito maior do que a capela que o encimava, como parecia não ter entrada ou saída. Os arqueólogos tinham de imediato começado a pedir autorização para abrir caminho através da rocha, à força de explosivos, até à misteriosa câmara, mas a Comissão Zeladora de Rosslyn proibira especificamente qualquer escavação no local sagrado. O que, claro, só viera colocar lenha na fogueira da especulação. Que estaria a Comissão tentando esconder?
Rosslyn tornara-se, assim, um local de peregrinação para os caçadores de mistérios. Uns afirmavam ser atraídos pelo poderoso campo magnético que emanava
inexplicavelmente
daquelas
coordenadas,
outros
diziam-se
empenhados em procurar no flanco da colina entradas escondidas para a câmara subterrânea, mas a maior parte reconhecia ter ido simplesmente para perambular pelo local e impregnar-se da tradição do Santo Graal.
Apesar de nunca antes ter estado em Rosslyn, Langdon ria sempre que ouvia a capela referida como o atual esconderijo do Santo Graal. Admitia que Rosslyn podia em dado momento ter albergado o Graal, há muito tempo... mas com toda certeza não no presente. A capela atraíra muita atenção nas últimas décadas e, mais cedo ou mais tarde, alguém acabaria por descobrir a entrada para a cripta.
Todos os verdadeiros acadêmicos do Graal estavam de acordo que Rosslyn era um engodo — um dos muitos ilusórios becos sem saída que o Priorado tão bem sabia inventar. Naquela noite, porém, com a Chave de Abóbada do Priorado
oferecendo uns versos que apontavam diretamente para aquele lugar, Langdon não se sentia assim tão seguro. Uma pergunta perplexa andara circulando pela cabeça durante todo o dia: Porque teria Jacques Saunière se dado a tanto trabalho para guiar-nos até uma localização tão óbvia? Parecia haver apenas uma resposta lógica. Há qualquer coisa a respeito de Rosslyn que ainda não compreendemos.
— Robert? — Sophie estava de pé ao lado do carro, olhando para ele. — Não vem? — Tinha nas mãos a caixa de roseira, que o capitão Fache lhes devolvera.
Dentro da caixa, os dois criptex tinham sido remontados e recolocados na posição original. O papiro com os versos estava seguro dentro do menor... sem a ampola de vinagre.
Na subida do longo caminho, Langdon e Sophie passaram pela famosa parede ocidental do templo. Os visitantes de acaso assumiam que aquela parede estranhamente sobressaída correspondia a uma seção da capela que nunca chegara a ser acabada. A verdade, recordou Langdon, era muito mais intrigante.
A parede ocidental do Templo de Salomão.
Os Templários tinham concebido Rosslyn Chapel segundo o plano exato do Templo de Salomão em Jerusalém — com um muro ocidental, um estreito santuário retangular e uma cripta subterrânea semelhante ao Santo dos Santos, onde os nove cavaleiros originais tinham encontrado o seu precios o tesouro.
Havia, Langdon tinha de admiti-lo, uma intrigante simetria na ideia de os Templários construírem um moderno repositório do Graal que replicava o esconderijo original.
A entrada de Rosslyn Chapel era mais modesta do que Langdon esperara. A pequena porta de madeira tinha dois gonzos de ferro e uma simples tabuleta de carvalho com a palavra:
ROSLIN
A antiga caligrafia, explicou Langdon a Sophie, derivava da Linha da Rosa, ou meridiano, que passava exatamente pela capela; ou, como os acadêmicos do Graal preferiam pensar, de “Linha de Rosa” a linhagem ancestral de Maria Madalena.
A capela não tardaria a fechar e, quando Langdon empurrou a porta, uma lufada de ar quente escapou do interior, como se o velho edifício suspirasse de
cansaço ao fim de um longo dia. Os arcos da entrada estavam cobertos de potentilas gravadas.
Rosas. O útero da deusa.
Ao entrar com Sophie, Langdon deixou o olhar espraiar-se pelo santuário, abarcando-o no seu conjunto. Apesar de ter lido numerosas descrições das intricadas esculturas de Rosslyn, vê-las pessoalmente era uma experiência avassaladora.
O paraíso da simbologia, chamara um colega à capela.
Todo o interior do templo estava coberto de símbolos esculpidos — cruzes cristãs, estrelas judaicas, selos maçônicos, cruzes de braços iguais, cornucópias, pirâmides, signos astrológicos, plantas, pentáculos e rosas. Os Cavaleiros do Templo tinham sido grandes construtores, erguendo igrejas por toda a Europa, mas Rosslyn era considerada a sua mais sublime obra de amor e veneração. Os mestres canteiros não tinham deixado uma pedra por lavrar. Rosslyn Chapel era um santuário dedicado a todas as fés... a todas as tradições... e, acima de tudo, à natureza e à deusa.
O templo estava deserto, com exceção de um pequeno grupo de turistas que escutavam as explicações de um jovem cicerone na última visita guiada do dia.
O jovem conduzia-os em fila indiana ao longo de um percurso bem conhecido — um caminho invisível que ligava seis pontos de interesse arquitetônico especial. Gerações de visitantes tinham acabado por gravar no chão, com milhões de passos, um enorme símbolo.
A Estrela de David, pensou Langdon. E não é por coincidência. Também conhecido como Selo de Salomão, o hexagrama fora em tempos, o símbolo secreto dos sacerdotes que dedicavam a vida à contemplação das estrelas, sendo posteriormente adotado pelos reis israelitas: David e Salomão.
O jovem cicerone vira Langdon e Sophie entrar e, apesar de serem quase a hora de fechar, dirigira-lhes umagradável sorriso e fizera-lhes sinal para que ficassem à vontade. Langdon respondeu com um aceno de agradecimento e internou-se mais no santuário. Sophie, porém, ficou como que pregada à entrada, com uma expressão confusa no rosto.
— Que foi? — perguntou Langdon.
Sophie estava olhando para a capela.
— Acho... que já estive aqui.
— Mas me disse que nunca tinha sequer ouvido falar de Rosslyn! —
espantou-se Langdon.
— E não tinha... — Sophie estava olhando em redor, parecendo insegura. —
O meu avô deve ter me trazido aqui quando eu era muito pequena. Não sei.
Parece-me familiar. — À medida que os seus olhos percorriam o templo, ia acenando com mais convicção. — Sim. Apontou para o fundo do santuário. —
Aqueles dois pilares... Já os vi.
Langdon olhou para as duas colunas intricadamente esculpidas no extremo mais distante da capela. O branco entrelaçado das suas gravuras parecia brilhar com uma incandescência avermelhada sob os últimos raios de sol que entravam pela janela ocidental. Os pilares — situados no lugar onde normalmente estaria o altar — formavam um estranho par. O da esquerda era entalhado por simples linhas verticais, enquanto o da direita se apresentava ornamentado por uma elaborada espiral florida.
Sophie já ia aproximar-se deles. Langdon apertou o passo para alcançá-la e, quando chegaram junto das colunas, Sophie acenava com um ar de incredulidade.
— Sim, tenho certeza absoluta de que já os tinha visto!
— Não duvido que os tenha visto — disse Langdon —, mas não foi necessariamente aqui.
Ela se voltou.
— Que quer dizer com isso?
— Estes dois pilares são as estruturas arquitetônicas mais copiadas da História. Há réplicas deles espalhadas pelo mundo todo.
— Réplicas de Rosslyn? — Sophie parecia cética.
— Não. Dos pilares. Lembra-se de eu lhe ter dito que Rosslyn é uma cópia do Templo de Salomão? Esses dois pilares são réplicas exatas dos que se erguiam no topo do Templo. — Langdon apontou para o pilar da esquerda. — Aquele chama-se Boaz... ou o Pilar do Maçon. O outro chama-se Jachin... ou o Pilar do Aprendiz. Fez uma pausa. — Na realidade, praticamente todos os templos maçônicos do mundo têm dois pilares como estes.
Langdon já tinha lhe explicado as fortes ligações históricas dos Templários às modernas sociedades secretas maçônicas, cujos graus primários — Aprendiz Franco-maçon, Companheiro Franco-maçon o e Mestre Maçon — remontavam aos primeiros tempos dos Templários. A última quadra do avô de Sophie fazia uma referência explícita aos Mestres Pedreiros que tinham decorado Rosslyn com as suas gravuras artísticas.
Falava também do teto central da capela, coberto de gravuras de estrelas e de planetas.
— Nunca entrei em um templo maçônico — disse Sophie, ainda olhando para os pilares. — Tenho quase certeza de que os vi aqui. — Voltou-se para estudar o resto da capela, como que à procura de qualquer outra coisa que lhe avivasse a memória.
Os outros visitantes estavam saindo, e o cicerone atravessava a capela na direção deles com um simpático sorriso. Era um jovem atraente, no fim da casa dos vinte, que falava com um forte sotaque escocês e tinha cabelos louros com um toque de vermelho.
— Estava me preparando para fechar por hoje. Posso ajudá-los a encontrar alguma coisa?
E se fosse o Santo Graal? Langdon teve vontade de dizer.
— O código — exclamou Sophie, numa súbita revelação. — Há aqui um código!
O cicerone pareceu contente com o entusiasmo dela.
— É verdade que sim, minha senhora.
— Está no teto — continuou Sophie, voltando-se para a parede do lado direito. — Em algum lugar... ali.
O jovem sorriu.
— Vejo que não é a primeira vez que vem a Rosslyn.
O código, pensou Langdon. Esquecera-se desse pequeno pedaço de lenda.
Entre os muitos mistérios de Rosslyn, havia um arco abobadado do qual sobressaíam centenas de blocos de pedra, formando uma estranha superfície multifacetada. Cada bloco tinha um símbolo gravado, aparentemente ao acaso, criando um código de proporções inimagináveis. Havia quem afirmasse que revelava a entrada para a cripta escavada por baixo da capela. Outros diziamque contava a verdadeira história do Graal. Não que tivesse qualquer importância —
havia séculos que gerações de criptólogos tentavam desvendar-lhe o significado.
A Comissão Zeladora de Rosslyn continuava a oferecer um generoso prêmio em dinheiro a quem conseguisse descobrir-lhe o signific ado secreto, mas ainda ninguém se apresentara para cobrá-lo.
— Terei muito gosto em mostrar-lhe...
A voz do cicerone esmoreceu e calou-se.
O meu primeiro código, pensou Sophie, avançando sozinha, em transe, para o arco codificado. Tendo entregado a caixa de roseira a Langdon, sentiu que podia esquecer momentaneamente tudo a respeito do Santo Graal, do Priorado de Sião e de todos os mistérios do dia anterior. Quando chegou debaixo do arco e viu os símbolos, as recordações voltaram em catadupa. Estava recordando a primeira visita que fizera e, estranhamente, as memórias conjuraram uma inesperada tristeza.
Era uma garotinha... cerca de um ano depois do acidente em que tinha morrido toda a sua família. O avô levara-a à Escócia para umas curtas férias.
Tinham ido ver Rosslyn Chapel antes de voltarem a Paris. Era fim de tarde, e a capela estava fechada.
Mas eles continuavam lá dentro.
— Podemos ir para casa, Grand-pêre. — pediu Sophie, sentindo-se cansada.
— Vamos já, querida. — A voz do avô estava carregada de melancolia. — Há uma última coisa que tenho de fazer. E se esperasse no carro?
— Vai fazer outra coisa de gente grande?
Ele assentiu.
— Não demoro. Prometo.
— Posso voltar a fazer o código do arco? Foi divertido.
— Não sei. Preciso ir lá fora. Não tem medo de ficar aqui sozinha?
— Claro que não! — respondeu ela, com um ar ofendido. — Ainda nem sequer está escuro!
Ele sorriu.
— Muito bem, então. — E levou-a até ao ornamentado arco que lhe mostrara minutos antes.
Sophie deitou-se imediatamente de costas no chão de pedra e pôs-se a olhar para o quebra-cabeças lá em cima.
— Vou decifrar este código antes de você voltar!
— É uma corrida, então. — O avô inclinou-se, beijou-a na testa e afastou-se em direção à porta lateral. — Estou lá fora. Vou deixar a porta aberta. Se precisar de mim, chame. — E saiu para a suave luz do entardecer.
Sophie ficou estendida no chão, olhando para o código. As pálpebras começaram a pesar-lhe. Ao cabo de alguns minutos, os símbolos tornaram-se confusos, baralharam-se. E então desapareceram.
Quando acordou, Sophie sentiu o frio da pedra nas costas.
— Grand-père?
Não houve resposta. Pondo-se de pé, sacudiu as roupas. A porta lateral continuava aberta. A tarde escurecia. Saiu da capela e viu o avô de pé à porta de uma casa de pedra rústica, próxima dos fundos do templo, um pouco mais abaixo. Estava falando com uma pessoa que mal se via, do outro lado de uma porta de rede.
— Grand-père? — chamou.
O avô voltou-se e acenou-lhe, fazendo-lhe sinal para esperar onde estava.
Então, lentamente, trocou mais algumas palavras com a pessoa que estava dentro de casa e soprou um beijo na direção da porta de rede. Quando voltou para junto de Sophie, tinha lágrimas nos olhos.
— Porque está chorando, grand-père.
Ele pegou-lhe na mão e apertou-lhe.
— Oh, Sophie, você e eu dissemos adeus a muitas pessoas este ano. É duro.
Sophie pensou no acidente, em dizer adeus à mãe e ao pai, à avó e ao irmão mais novo.
— Estava dizendo adeus a outra pessoa?
— A uma amiga muito querida que amo muito — respondeu ele, com a voz pesada de emoção. — E que receio não voltar a ver por muitos, muitos anos.
Acompanhado pelo jovem cicerone, Langdon estivera examinando as paredes da capela, sentindo crescer a incômoda sensação de que tinha chegado a um beco sem saída. Sophie afastara-se para ir ver o código, deixando-lhe a caixa de roseira onde estava guardado um mapa do Graal que cada vez mais parecia não ser de grande ajuda.
Embora o poema de Saunière indicasse claramente Rosslyn, Langdon não
sabia muito bem o que fazer agora que tinha chegado ali. O poema falava de
“uma lâmina e um cálice” que Langdon não via em parte nenhuma.
O Santo Graal sob a antiga Roslin espera.
Com a lâmina e o cálice montando guarda severa.
Mais uma vez, Langdon sentiu que uma faceta daquele mistério ainda não se revelara.
— Não me leve a mal — disse o jovem cicerone, olhando para a caixa de roseira que Langdon segurava —, mas, essa caixa... posso perguntar-lhe onde a arranjou?
Langdon riu, com um ar cansado.
— Oh, é uma história excepcionalmente longa.
O jovem hesitou, voltando a olhar para a caixa.
— É uma coisa estranhíssima... a minha avó tem uma caixa exatamente igual a essa. Também de roseira polida, a mesma rosa embutida, até as dobradiças parecem iguais.
Langdon sabia que o jovem tinha de estar enganado. Se alguma vez uma caixa fora peça única, era aquela... a caixa feita de propósito para a Chave de Abóbada do Priorado.
— As duas caixas podem ser parecidas, mas...
A porta lateral bateu com força, atraindo a atenção de ambos. Sophie tinha saído sem dizer uma palavra e afastava-se colina abaixo em direção a uma casa de pedra rústica ali próxima. Langdon ficou olhando para ela. Aonde irá? Sophie tivera um comportamento estranho desde que entrara na capela. Voltou-se para o cicerone.
— Sabe o que é aquela casa?
O jovem assentiu, parecendo tão surpreendido como Langdon por Sophie estar encaminhando-se para lá.
— É a reitoria, a residência da conservadora da capela. Que por acaso também é a diretora da Comissão Zeladora de Rosslyn. Fez uma pausa. — É
minha avó.
— A sua avó chefia a Comissão Zeladora de Rosslyn?
— Vivo com ela na reitoria, ajudo a tratar da capela e recebo os visitantes. —
O jovem encolheu os ombros. — Sempre vivi lá. A minha avó criou-me naquela
casa.
Preocupado com Sophie, Langdon atravessou a capela em direção à porta, disposto a chamá-la. Ia a meio caminho quando se deteve bruscamente. Só naquele instante registrara qualquer coisa que o jovem tinha dito.
A minha avó criou-me.
Olhou para Sophie descendo a colina, e depois para a caixa de roseira que tinha nas mãos. Impossível. Lentamente, voltou para junto do jovem cicerone.
— Disse que a sua avó tem uma caixa igual a esta?
— Quase idêntica.
— E onde a arranjou?
— Foi o meu avô que a fez para ela. O meu avô morreu quando eu era bebê, mas a minha avó ainda hoje fala dele. Diz que era um gênio com as mãos. Fazia todo tipo de coisas.
Langdon vislumbrou uma inimaginável teia de conexões emergindo.
— Disse que a sua avó o criou. Importa-se de me dizer o que aconteceu aos seus pais?
O jovem pareceu surpreendido.
— Morreram quando eu era muito pequeno. — Fez uma pausa. — No mesmo dia que o meu avô.
Langdon sentia o coração batendo descompassadam ente no peito.
— Em um acidente de trânsito?
O jovem recuou, com uma expressão de espanto nos olhos verde-azeitona.
— Sim, um acidente de trânsito. Toda a minha família morreu nesse dia. Perdi o meu avô, os meus pais e... — Hesitou, olhando para o chão.
— E a sua irmã — disse Langdon.
A casa de pedra rústica era exatamente como Sophie a recordava. A noite caía, e a casa irradiava uma aura quente e acolhedora. Cheirava a pão quente e uma luz dourada brilhava nas janelas. Quando se aproximou, ouviu, vindo lá de dentro, o som de soluços abafados.
Através da porta de rede, viu uma mulher de idade no corredor. Estava de costas para a ela, mas Sophie percebeu que chorava. Tinha longos e luxuriantes cabelos prateados que conjur aram um inesperado fiapo de memória. Atraída como que por um imã, Sophie subiu os degraus do alpendre. A mulher segurava
a fotografia emoldurada de um homem cujo rosto tocava com as pontas dos dedos, em um gesto de desolada adoração.
Era um rosto que Sophie conhecia bem.
Grand-père.
A mulher acabava claramente de ouvir a trágica notícia da sua morte na noite anterior. Uma tábua rangeu sob os pés de Sophie e a mulher voltou-se lentamente, e os seus olhos encontraram os de Sophie. Sophie queria correr, mas ficou ali parada, hipnotizada. O olhar ardente da mulher não vacilou um instante enquanto ela pousava a fotografia e se aproximava da porta. Ficaram as duas olhando uma para a outra através da fina rede pelo que pareceu uma eternidade.
Então, como o lento inchar de uma onda a formar-se, o rosto da mulher mais velha passou da incerteza... para a incredulidade... a esperança... e, finalmente, para uma arrebatadora alegria.
Empurrando a porta, saiu para o alpendre, estendendo as mãos suaves, emoldurando com elas o rosto atordoado de Sophie.
— Oh, minha filha... vejam quem é!
Apesar de não reconhecê-la, Sophie sabia quem era aquela mulher. Tentou falar, mas descobriu que não era sequer capaz de respirar.
— Sophie — soluçou a mulher, beijando-a na testa.
As palavras de Sophie foram um murmúrio estrangulado.
— Mas... o gran-père disse que tinha...
— Eu sei. — A mulher pousou as mãos ternas nos ombros de Sophie e olhou para ela com olhos que eram familiares. — Eu e o seu avô fomos obrigados a dizer tantas coisas. Fizemos o que julgamos ser certo. Lamento tanto. Foi para garantir a sua segurança, princesa.
Sophie ouviu a última palavra e pensou imediatamente no avô, que lhe chamara de princesa durante tantos anos. O som da voz dele parecia ecoar agora nas velhas pedras de Rosslyn, pousando na terra e reverberando nos desconhecidos vazios lá embaixo.
A mulher lançou os braços ao pescoço de Sophie, com as lágrimas caindo-lhe pelo rosto cada vez mais depressa.
— O seu avô queria tanto contar-lhe tudo. Mas as coisas não estavam fáceis entre vocês dois. Ele tentou tanto. Há tanta coisa que tem de ser explicada.
Tanta. — Voltou a beijar Sophie na testa e murmurou-lhe ao ouvido. —
Acabaram-se os segredos, princesa. É hora de saber a verdade a respeito da nossa família.
Sophie e a avó estavam sentadas nos degraus do alpendre, enlaçadas num choroso abraço, quando o jovem cicerone atravessou correndo o relvado, os olhos brilhantes de esperança e incredulidade.
— Sophie?
Sophie assentiu através das lágrimas, pondo-se de pé. Não conhecia o rosto do jovem, mas, quando se abraçaram, sentiu a força do sangue que lhe corria nas veias... o sangue que, sabia agora, ambos partilhavam.