O Código Da Vinci
Capítulo Vinte e Nove
Por instantes, Langdon ficou completamente cego. Aqui! Quando conseguiu adaptar a visão, viu a silhueta de Sophie correr para o centro da sala e desaparecer atrás do grande sofá octogonal. Preparava-se para correr atrás dela quando uma voz ribombante o deteve, petrificado.
— Arrêtez! — ordenou um homem, do umbral. O segurança do museu entrou na sala, empunhando com as duas mãos e os braços esticados uma pistola apontada ao centro do peito de Langdon. Que ergueu instintivamente as mãos para o teto.
— Couchez-vous! — ordenou o guarda. — Deite-se!
Langdon obedeceu, estendendo-se no chão de barriga para baixo.
O guarda avançou rapidamente para ele e, com um pé, afastou-lhe as pernas.
— Mauvaise idée, Monsieur Langdon — disse, fazendo pressão com o cano da pistola nas costas de Langdon. — Mauvaise idée.
Deitado de bruços no chão de parquet, de braços e pernas abertos, Langdon achou pouca graça à ironia da sua posição. O Homem de Vitrúvio, pensou. De barriga para baixo.
C A P Í T U L O 29
Silas pegou o pesado candelabro de ferro que estava em cima do altar e voltou com ele para junto do obelisco. Serviria perfeitamente como aríete.
Olhando para a laje de mármore cinzento que cobria a aparente cavidade no chão, percebeu que não conseguiria parti-la sem fazer barulho. Bastante barulho.
Ferro contra mármore. O estrondo havia de ecoar pelos tetos abobadados.
A freira ouviria? Já devia estar dormindo. Mesmo assim, era um risco que Silas não queria correr. Procurando em redor um pano para envolver a extremidade da haste de ferro, a única coisa que viu foi a toalha de linho do altar, que não se atrevia a profanar.
O meu hábito, pensou. Sabendo-se sozinho na igreja, desapertou a corda que lhe apertava o hábito na cintura e despiu-o, sentindo o ardor das fibras de lã quando se prenderam às feridas recentes que tinha nas costas.
Nu, com exceção da faixa que lhe envolvia os rinse as virilhas, enrolou o hábito à volta da ponta da barra de ferro. Então, fazendo pontaria bem no meio da laje, bateu com toda a sua força. Uma pancada abafada. A laje não se partiu.
Bateu outra vez. De novo uma pancada abafada, mas agora acompanhada por um estalar. Ao terceiro embate, a laje estilhaçou-se finalmente, e lascas de pedra caíram no espaço vazio por baixo do chão.
Um compartimento!
Silas removeu com gestos rápidos os pedaços de mármore que tinham ficado agarrados as bordas da abertura e olhou para dentro. Sentiu o sangue latejar-lhe na cabeça ao ajoelhar junto do buraco. Esticando o braço muito branco, procurou no interior.
À princípio, nada encontrou. O fundo do compartimento era de pedra lisa e
nua.
Então, esticando mais o braço por baixo da Linha da Rosa, tocou em qualquer coisa!
Uma grossa placa de pedra. Introduziu os dedos por baixo do rebordo, agarrou-a com força e puxou-a cuidadosamente para fora. Quando se pôs de pé e examinou o seu achado, verificou que tinha nas mãos uma tábua de pedra em bruto onde estavam gravadas algumas palavras. Por um instante, sentiu-se um Moisés dos tempos modernos.
Ficou surpreso ao ler as palavras gravadas na pedra. Tinha esperado que a Chave de Abóbada fosse um mapa, ou uma complexa série de instruções, talvez até codificadas.
Em vez disso, porém, a placa continha a mais simples das inscrições: Jó 38:11.
Um versículo da Bíblia? A diabólica simplicidade de tudo aquilo aturdiu-o. A revelação da localização secreta do tesouro que procuravam estava contida em um versículo da Bíblia? A irmandade não conhecia limites no seu desejo de zombar dos justos!
Jó. Capítulo trinta e oito. Versículo onze.
Embora não soubesse de cor o conteúdo exato do versículo onze, Silas sabia que o Livro de Jó contava a história de um homem cuja fé em Deus sobrevivia a repetidas provas. Apropriado, pensou, quase incapaz de conter a exc itação.
Olhando por cima do ombro, contemplou a brilhante Linha da Rosa e não conseguiu impedir-se de sorrir. Em cima do altar-mor, apoiada em um atril de madeira dourada, estava uma grande Bíblia encadernada a couro.
Acocorada no seu posto de vigilância, na v aranda do coro, a irmã Sandrine tremia.
Momentos antes, estivera à beira de correr dali para fora e executar as ordens que lhe tinham dado, quando o homem despira inesperadamente o hábito. Ao ver aquela carne cor de alabastro, fora invadida por um espanto horrorizado. As amplas costas estavam sulcadas por vergões ensanguentados. Mesmo àquela distância, percebia-se que as feridas eram recentes. Aquele homem foi impiedosamente chicoteado!
Viu também, enrolado à volta da coxa, o cilício debaixo do qual escorria
sangue.
Que espécie de Deus quereria um corpo castigado desta maneira? Os rituais da Opus Dei, a irmã Sandrine bem o sabia, eram algo que nunca conseguiria compreender. Mas isso pouco a preocupava naquele instante. A Opus Dei anda a procura da Chave de Abóbada. Não imaginava sequer como tinham sabido da sua existência, mas sabia que não tinha tempo para pensar nisso.
O ensanguentado monge estava agora vestindo calmamente o hábito, após o que, com a pedra bem segura debaixo do braço, avançou para o altar, para a Bíblia.
Quase sem se atrever a respirar, com receio de que o ruído a denunciasse, a irmã Sandrine abandonou a varanda do coro e correu pelo corredor até ao seu quarto. De gatas no chão, procurou debaixo do estrado de madeira da cama o envelope selado que escondera lá anos antes.
Ao abri-lo, encontrou um papel com quatro números de telefone de Paris.
Tremendo, começou a marcar o primeiro.
Lá em baixo, Silas pousou a placa de pedra em cima do altar e voltou a sua atenção ansiosa para a Bíblia com capas de couro. Os dedos grandes e brancos suavam enquanto voltava as páginas. Folheando o Antigo Testamento, encontrou o Livro de Jó.
Localizou o capítulo trinta e oito. Passando o dedo pela coluna de texto, antecipou as palavras que estava prestes a ler.
Elas apontarão o caminho!