O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 4 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo um

Estava trancado dentro da Grande Galeria, e havia apenas uma pessoa a quem podia passar a tocha. Saunière estudou as paredes da sua opulenta prisão. Uma

coleção dos quadros mais famosos do mundo parecia lhe sorrir, como um grupo de velhos amigos.

Com o rosto contraído pela dor, Saunière fez apelo a todas as suas faculdades e forças. A tarefa desesperada que tinha pela frente, bem o sabia, ia exigir cada segundo de vida que lhe restava.

C A P Í T U L O 1

Robert Langdon, acordou lentamente.

Em algum lugar na escuridão, tocava a campainha de um telefone — um som fraco, inusitado. Procurou às apalpadelas a luminária da mesa de cabeceira e acendeu-a.

Examinando o ambiente que o rodeava, viu um luxuoso quarto estilo renascença, com mobiliário Luís XVI, frescos pintados à mão nas paredes e uma colossal c ama de mogno de quatro colunas.

Onde diabo eu estou?

O roupão de banho pendurado em uma das colunas da cama tinha bordadas no bolso do peito as palavras: HOTEL RITZ PARIS.

Pouco a pouco, o nevoeiro começou a dissipar-se. Langdon pegou no auscultador.

— Sim?

— Monsieur Langdon? — perguntou uma voz de homem. — Espero não o ter acordado?

Confuso, Langdon olhou para o relógio da mesa de cabeceira: marcava meia-noite e trinta e dois. Tinha dormido apenas uma hora, mas sentia-se mais morto do que vivo.

— Fala o concierge, monsieur. Peço desculpa pela intrusão, mas tem uma visita. Diz que o assunto é urgente.

Langdon não estava ainda bem acordado. Uma visita? Focou os olhos no pequeno panfleto que deixara amarrotado em cima da mesa de cabeceira.

THE AMERICAN UNIVERSITY OF PARIS

orgulhosamente apresenta

UMA NOITE COM ROBERT LANGDON

PROFESSOR DE SIMBOLOGIA RELIGIOSA DA UNIVERSIDADE DE HARVARD

Langdon gemeu. A conferência daquela noite — uma palestra, com projeção de diapositivos, sobre o simbolismo pagão escondido nas pedras da Catedral de Chartres — tinha muito provavelmente eriçado o pelo de algunsdos membros mais cons ervadores do público. Certamente, um erudito religioso qualquer seguira-o até ao hotel disposto a dar-lhe combate.

— Lamento — disse —, mas estou muito cansado, e...

— Mas, monsieur — insistiu o recepcionista, baixando a voz até um murmúrio carregado de urgência. — Trata-se de um homem importante.

Langdon não duvidava. Os seus livros s obre pintura religiosa e s imbologia cultural tinham-no tornado uma celebridade relutante no mundo das artes, conferindo-lhe uma visibilidade que o envolvimento decisivo em um badaladíssimo caso ocorrido no Vaticano, no ano anterior, viera, infelizmente, centuplicar. Desde então, o rio de historiadores “importantes” e maníacos da arte que lhe batiam à porta parecia não ter fim.

— Por favor, faça a gentileza — disse Langdon, esforçando-se ao máximo por manter os bons modos —, de tomar nota do nome e do número do telefone do senhor e diga-lhe que tentarei entrar em contato com ele antes de deixar Paris, na terça-feira. Muito obrigado.

E desligou antes que o recepcionista pudesse protestar.

Agora sentado na cama, Langdon lançou um olhar carrancudo ao Manual de Relacionamento com os Hóspedes pousado na mesa de cabeceira e cuja capa proclamava: DURMA COMO UM BEBÊ NA CIDADE DAS LUZES.

REPOUSE NO RITZ DE PARIS. Voltou a cabeça e olhou, cansado, para o espelho de corpo inteiro aparafusado na parede fronteira. O sujeito que lhe devolveu o olhar era um desconhecido — desgrenhado, exausto.

Está precisando de férias, Robert.

Sabia que o último ano lhe cobrara um pesado tributo, mas não achava graça em ver isso provado no espelho. Os olhos azuis, normalmente penetrantes,

pareciam naquela noite enevoados e gastos. Uma incipiência de barba escurecia-lhe o maxilar forte e o queixo amenizado por uma inesperada “covinha”. À volta das têmporas, as madeixas prateadas progrediam, infiltrando-se na densa mata de cabelos escuros. Por muito que as colegas na universidade afirmassem que aquelas pinceladas de cinzento só contribuíam para lhe realçar o encanto livresco, Langdon não tinha ilusões.

Se a Boston Magazine me visse agora.

No mês anterior, para seu grande embaraço, a Boston Magazine incluíra-o na lista das dez pessoas mais intrigantes da cidade — uma honra algo dúbia que o tornara alvo de intermináveis piadinhas por parte dosseus pares em Harvard.

Naquela noite, a cinco mil quilômetros de casa, o elogio ressurgira para ensombrar-lhe a conferência que tinha dado.

— Senhoras e senhores — anunciara a anfitriã diante de uma casa cheia no Pavillon Dauphine da Universidade Americana de Paris —, o nosso convidado desta noite dispensa apresentações. É autor de numerosos livros: A Simbologia das Seitas Secretas, A Arte dos Illuminati, A Linguagem Perdida dos Ideogramas, e quando digo que é mestre em iconologia religiosa, digo-o num sentido muito literal. Muitos dos aqui presentes usam textos seus nas aulas. —

Os estudantes incluídos na assistência assentiram entusiasticamente. — Tinha planejado apresentá-lo esta noite dando nota do seu impressionante curriculum vitae. No entanto... — olhou risonhamente para Langdon, que ocupava uma das cadeiras colocadas no palco — um dos membros do público acaba de facultar-me uma apresentação muito mais, digamos... intrigante.

E mostrou um exemplar da Boston Magazine.

Langdon encolheu-se na cadeira. Onde diabo foi ela arranjar aquilo?

A anfitriã começou a ler excertos escolhidos do estúpido artigo, e Langdon deu por si enfiando-se cada vez mais pela cadeira abaixo. Trinta segundos mais tarde, a assistência estava sorrindo e a mulher não dava sinais de parar tão cedo.

— “E a recusa do senhor Langdon em falar publicamente sobre o seu invulgar papel no conclave do Vaticano do ano passado contribui sem dúvida para aumentar-lhe a pontuação no nosso “intrigômetro.” Querem ouvir mais? —

perguntou aos assistentes.

A multidão aplaudiu.

Façam-na parar, por favor, suplicou Langdon silenciosamente, enquanto ela voltava a mergulhar no artigo:

— “Embora o Professor Langdon possa talvez não ser considerado do gênero

“bonitão”, como alguns dos nossos nomeados mais jovens, a verdade é que não lhe falta, longe disso, o chamado encanto acadêmico. Com quarenta e poucos anos, tem uma presença cativante, realçada por uma voz de barítono invulgarmente baixa que as alunas descrevem como “chocolate para os ouvidos”.”

O anfiteatro inteiro explodiu numa gargalhada.

Langdon forçou um sorriso contrafeito. Sabia o que vinha a seguir — uma coisa ridicula qualquer a respeito de “Harrison Ford em um terno de tweed” — e como nessa noite julgara que seria finalmente seguro voltar a usar o seu Harris de tweed e a sua

Burberry de gola alta, decidiu passar à ação.

— Obrigado, Monique — disse, pondo-se prematuramente de pé e avançando até ao pódio. — A Boston Magazine tem claramente um dom especial para a fição. — Voltou-se para a assistência com um sorriso embar açado. — E se descubro qual de vocês desencantou este artigo, vou pedir ao consulado que mande deportá-lo.

A assistência riu.

— Bem, minha gente, como todos sabem, estou aqui esta noite para falar do poder dos símbolos...

O retinir da campainha do telefone voltou a quebrar o silêncio do quarto.

Com um gemido de incredulidade, Langdon pegou no auscultador.

— Sim?

Como já esperava, era o recepcionista.

— Senhor Langdon, mais uma vez as minhas desculpas. Telefono-lhe para informá-lo que o seu visitante vai neste momento a caminho do seu quarto.

Achei que seria melhor avisá-lo.

Langdon ficou de repente muito acordado.

— Mandou alguém ao meu quarto?

— Peço desculpas, monsieur, mas um homem como... Não tenho autoridade para impedi-lo.

— Quem é ele exatamente?

O recepcionista, porém, já tinha desligado. Quase no mesmo instante, um punho pesado bateu à porta do quarto. Sem saber muito bem o que fazer, Langdon deslizou para fora da cama, sentiu os dedos dos pés afundarem no tapete espesso. Enfiou o roupão do hotel e aproximou-se da porta.

— Quem é?

— Senhor Langdon? Preciso lhe falar. — O homem falava inglês com um sotaque cerrado, numa voz seca, autoritária. — Sou o tenente Jérôme Collet.

Diretion Centrale Police Judiciaire.

Langdon fez uma pausa. A Polícia Judiciária? A DCPJ era mais ou menos o equivalente francês do FBI americano. Sem tirar a corrente de segurança, entreabriu a porta alguns centímetros. O rosto que o encarou do outro lado era estreito como um cutelo e tinha um ar desgastado. O homem, invulgarmente magro, vestia um uniforme azul, de ar muito oficial.

— Posso entrar? — perguntou.

Langdon hesitou, sentindo-se inseguro enquanto os olhos mortiços do desconhecido o estudavam.

— Que está acontecendo?

— O meu capitaine pede a sua colaboração em um assunto sigiloso.

— A estas horas? — conseguiu Langdon dizer. — Passa da meia-noite.

— Tinha encontro marcado com o conservador do Louvre esta noite, não é verdade?

Langdon sentiu uma repentina vaga de inquietação. Ele e o respeitado conservador Jacques Saunière tinham combinado encontrarem-se para uma bebida depois da conferência daquela noite, mas Saunière não chegara a aparecer.

— Sim, é verdade. Como sabe?

— Encontramos o seu nome na agenda dele.

— Espero que esteja tudo bem.

O policial deixou escapar um suspiro de cansaço e enfiou uma foto Polaroid pela estreita abertura da porta. Quando Langdon viu a foto, o corpo se enrigeceu.

— Essa fotografia foi feita há menos de uma hora. No interior do Louvre.

Enquanto continuava olhando para a estranha imagem, Langdon sentiu a

repulsa e o choque iniciais darem lugar a uma súbita explosão de ira.

— Quem faria uma coisa destas?