O Código Da Vinci
Capítulo Setenta e Dois
— Mas o que é que está acontecendo?
— Escrita invertida — explicou Langdon. — Precisamos de um espelho.
— Não, não precisamos — disse Sophie. — Aposto que esta camada de verniz é suficientemente fina. — Ergueu a caixa de roseira à altura de uma das
luzes da parede e pôs-se a examinar a face inferior da tampa. O avô não era verdadeiramente capaz de escrever ao contrário, de modo que escrevia normalmente e então voltando a folha e desenhando por cima da impressão invertida. Naquele caso, devia ter pirogravado o texto normal em um bloco de madeira e em seguida passado a parte de trás do bloco por uma lixadora elétrica até reduzi-lo à espessura de um papel, permitindo ver as palavras gravadas através da madeira. Bastava-lhe então pegar nela, invertê-la e encaixá-la no seu lugar. Ao aproximar a tampa da lâmpada, viu que acertara. O feixe de luz atravessou a fina película de madeira e a escrita apareceu invertida na face inferior da tampa. Instantaneamente legível.
— Inglês — gemeu Teabing, esmagado pela vergonha. — A minha língua materna.
Na cauda do avião, Rémy Legaludec esforçava-se por ouvir acima do barulho dos motores, mas a conversa que decorria lá à frente era inaudível. Rémy não gostava do modo como a noite estava decorrendo. Nem um pouco. Baixou os olhos para o monge enrodilhado a seus pés. O homem estava agora perfeitamente imóvel, como que em transe de aceitação, ou rezando uma silenciosa prece pedindo a libertação.
C A P Í T U L O 72
A quatro mil e quinhentos metros de altitude, Robert Langdon sentiu o mundo físico desvanecer-se e todos os seus pensamentos convergiram para o poema escrito por Jacques Saunière, iluminado através da tampa da caixa.
“an ancient word of wisdom frees this scroll
and helps us keep her scatter’d family whole
a headstone praised by templars is the key
and atbash will reveal the truth to thee”
Sophie encontrou rapidamente uma folha de papel e copiou-o. Quando acabou, leram-no. Parecia uma espécie de palavras cruzadas arqueológicas...
uma charada que prometia revelar como abrir o criptex. Langdon voltou a ler os versos, devagar.
Um antiga palavra de sabedoria este rolo liberta... e ajuda-nos a manter unida a sua família dispersa... uma lápide venerada pelos Templários é a chave... e o atbash revelar-te-á a verdade.
Antes que Langdon pudesse sequer ponderar que antiga senha pretendia o verso revelar, sentiu algo de muito mais fundamental ressoar-lhe no espírito: a métrica do poema. Um pentâmetro jâmbico.
Encontrara muitas vezes aquela métrica nas suas pesquisas sobre sociedades secretas por toda a Europa, incluindo, tão recentemente como no ano anterior, nos Arquivos Secretos do Vaticano. Durante séculos, o pentâmetro jâmbico fora a métrica preferida dos letrados progressistas de todo o mundo, desde o antigo escritor grego Arquíloco a Shakespeare, Milton, Chaucer e Voltaire — homens ousados que tinham optado por escrever os seus comentários sociais numa métrica que muitos acreditavam possuir propriedades místicas. As raízes do pentâmetro jâmbico eram profundamente pagãs.
Jambos. Duas partes com ênfases opostas. Forte e fraca. Yin e yang. Um par equilibrado. Dispostas em filas de cinco. Pentâmetro. Cinco para o pentáculo de Vênus e para o sagrado feminino.
— São pentâmetros! — gaguejou Teabing, voltando-se para Langdon. — E o verso está escrito em inglês! La língua pura!
Langdon assentiu. Havia séculos que o Priorado, como muitas outras sociedades secretas em conflito com a Igreja, consider ava o inglês a única língua europeia pura. Ao contrário do francês, do espanhol ou do italiano, que tinham as suas raízes no latim — a língua do Vaticano —, o inglês estava linguisticamente afastado da máquina de propaganda de Roma, tendo-se consequentemente tornado um idioma secreto e sagrado para as irmandades suficientemente eruditas para o aprenderem.
— Este poema — entusiasmou-se Teabing — refere não só o Graal, mas também os Cavaleiros do Templo e a família dispersa de Maria Madalena! Que mais poderíamos pedir?
— A senha — disse Sophie, voltando a estudar os versos. — Parece que precisamos de uma antiga palavra de sabedoria?
— Abracadabra? — sugeriu Teabing, com os olhos brilhando.
Uma palavra com cinco letras, pensou Langdon, considerando o estonteante número de palavras antigas que podiam ser consideradas palavras de sabedoria
— palavras tiradas de cânticos místicos, de previsões astrológicas, de ritos de sociedades secretas, de encantamentos Wicca, de feitiços egípcios, de mantras pagãs... a lista era interminável.
— A senha — continuou Sophie — tem aparentemente alguma coisa a ver com os Templários. — Leu o texto em voz alta — : “Uma lápide venerada pelos Templários é a chave”.
— Leigh — disse Langdon —, em matéria de Templários, é você o especialista. Alguma ideia?
Teabing manteve-se silencioso durante vários segundos, e então suspirou.
— Bem, uma lápide é obviamente uma pedra tumular. É possível que o poema fale de uma pedra tumular que os Templários veneram como sendo o
túmulo de Madalena, o que não nos ajuda muito, uma vez que não fazemos a mínima ideia de onde fica esse túmulo.
— A última linha — interveio mais uma vez Sophie, — diz que o atbash revelará a verdade. Já ouvi essa palavra. Atbash.
— Não me surpreende — respondeu Langdon. — Provavelmente, ouviu-a em Criptologia. A Cifra Atbash é um dos mais antigos códigos que a humanidade conhece.
Claro, pensou Sophie. O famoso sistema de codificação hebraico.
A Cifra Atbash fizera de fato parte dos primeiros estudos de Criptologia de Sophie.
Datava do ano 500 a. C. e era atualmente usada como um exemplo de um esquema de substituição rotativo básico. Forma muito comum de criptograma judaico, a Cifra Atbash era um simples código de substituição baseado no alfabeto hebraico de vinte e duas letras. Em atbash, a primeira letra era substituída pela última, a segunda pela penúltima, e assim sucessivamente.
— O atbash é sublimemente apropriado — declarou Teabing.
— Encontramos textos codificados com atbash na Cabala, nos Manuscritos do Mar Morto e até no Antigo Testamento. Os eruditos judeus ainda hoje continuam descobrindo novos significados usando o atbash. O Priorado incluía-o seguramente como parte do seu ensino.
— O único problema — notou Langdon — é que não temos nada a que aplicar o código.
Teabing suspirou.
— Deve haver uma palavra-chave na tal pedra tumular. Temos de encontrar a lápide venerada pelos Templários.
Sophie adivinhou, pela expressão soturna da cara de Langdon, que encontrar a pedra tumular não seria pequena façanha. O atbash é a chave, pensou. Mas não temos a porta. Passaram-se três minutos até que Teabing deixou escapar um suspiro de frustração e abanou a cabeça.
— Meus amigos, bloqueei. Deixem-me pensar um pouco nisto enquanto arranjo qualquer coisa para petiscarmos e vejo como estão Rémy e nosso convidado. — E com estas palavras, pôs-se de pé e dirigiu-se à cauda do avião.
Sophie sentiu-se exausta ao vê-lo afastar-se.
Do lado de lá da janela, a escuridão que precedia a aurora era absoluta.
Sophie sentia-se como se tiv esse sendo projetada através do espaço sem fazer a mínima ideia de onde ia cair. Tendo crescido resolvendo as charadas do avô, tinha a incômoda sensação de que aquele poema continha informação que ainda não tinham visto.
Há aqui mais qualquer coisa, disse para si mesma. Engenhosamente escondida... mas apesar disso presente.
Também atormentando-lhe os pensamentos estava o medo de que aquilo que acabassem eventualmente por descobrir dentro do criptex não fosse tão simples como “um mapa para o Santo Graal”.