O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 35 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Trinta e Dois

Diga-me onde está a Chave de Abóbada.

— Não sei — respondeu a freira. — Esse segredo é guardado por outros. —

Outros que estão mortos!

O homem avançou, apertando com os dedos brancos a haste de ferro.

— É uma irmã da Igreja, e serve-os?

— Jesus tinha apenas uma mensagem verdadeira — respondeu desafiadoramente a irmã Sandrine. — Não vejo essa mensagem na Opus Dei.

Uma raiva súbita explodiu atrás dos olhos do monge. Avançou, esgrimindo o candelabro como se fosse um cacete. Enquanto caía, o último pensamento da irmã Sandrine foi de profunda tristeza.

Mortos, os quatro.

A preciosa verdade perdeu-se para sempre.

C A P Í T U L O 32

O barulho das campainhas de alarme da Ala Denon espantou os pombos do Jardim das Tulherias, ali próximo, no momento em que Sophie e Langdon saíram correndo do museu. Enquanto atravessavam a praça em direção ao carro de Sophie, Langdon ouviu ao longe o uivo das sirenes da Polícia.

— É aquele! — gritou Sophie, apontando para um carro vermelho de dois lugares estacionado na praça.

Tem de estar brincando, com certeza! O veículo era seguramente o carro menor que Langdon alguma vez vira.

— O Smart — disse ela. – Cem quilômetros por litro.

Langdon mal tinha conseguido instalar-se no lugar do passageiro quando Sophie arrancou a toda a velocidade, galgou um meio-fio e saltou para uma divisória de saibro.

Agarrou-se ao tablier enquanto o carro subia e atravessava outro passeio antes de dar novo salto para a pequena praça do Carrousel du Louvre.

Por um instante, Sophie deu a impressão de estar considerando a possibilidade de cortar caminho e seguir em frente, passando a sebe do perímetro e atravessando o amplo círculo relvado central.

— Não! — gritou Langdon, sabendo que a sebe à volta do Carrousel du Louvre estava ali para esconder o perigoso abismo que se abria no centro — La Pyramide Inversée — a claraboia em forma de pirâmide invertida que horas antes vira do interior do museu. Era suficientemente grande para engolir o minúsculo Smart de uma só vez.

Felizmente, Sophie optou pelo caminho mais convencional, torcendo o volante para a direita e contornando ajuizadamente a praça até à saída. Virou

então à esquerda, meteu pela faixa de sentido norte e acelerou em direção à Rue de Rivoli.

As sirenes da Polícia uivavam agora mais perto, e Langdon viu as luzes rotativas no retrovisor lateral. O motor do Smart gemeu em protesto quando Sophie o acelerou ao máximo, afastando-se o mais rapidamente possível do Louvre. Cinquenta metros mais a frente, o semáforo da Rue de Rivoli passou para vermelho. Sophie praguejou entredentes e continuou a acelerar. Langdon sentiu os músculos se retesarem.

— Sophie?

Chegaram ao cruzamento. Quase sem diminuir, Sophie fez sinal de luzes lançou um rápido olhar à esquerda e à direita voltou a colar o acelerador ao chão do carro e virou bruscamente a esquerda no cruzamento deserto, entrando pela Rivoli. Percorreu a toda a velocidade cerca de quatrocentos metros antes de virar à direita para contornar uma vasta praça. Pouco depois, estavam do outro lado, descendo a ampla avenida dos Champs-Elysées.

Quando o carro conseguiu finalmente endireitar-se, Langdon voltou-se no banco, torcendo o pescoço para olhar para trás na direção do Louvre.

Aparentemente, não estavam sendo perseguidos. O mar de luzes azuis concentrava-se diante do museu. Com o coração batendo um pouco mais devagar, voltou-se de novo para a frente.

— Foi interessante — comentou.

Sophie pareceu não ter ouvido. Mantinha os olhos fixos em frente, na longa fita dos Campos Elíseos, os mais de três quilômetros de lojas de luxo a que muitoschamavam a Quinta Avenida de Paris. A embaixada ficava a quilômetro e meio de distância e Langdon instalou-se mais confortavelmente no banco. So dark the con of man.

A rapidez de raciocínio de Sophie fora impressionante.

Madonna of the Rocks. A Madonna dos Rochedos. Sophie dissera que o avô lhe deixara qualquer coisa escondida atrás do quadro. Uma última mensagem?

Langdon não podia deixar de reconhecer o brilhantismo da escolha do esconderijo; a Madonna dos Rochedos era mais um elo adequado da cadeia de simbolismos interligados daquela noite. Jacques Saunière parecia querer revelar a cada passo a sua predileção pelo lado escuro e malicioso de Leonardo da Vinci.

A encomenda da Madonna aos Rochedos partira originariamente de uma organização conhecida como Confraria da Imaculada Conceição, que precisava de uma pintura para peça central de um tríptico de altar destinado à sua igreja de San Francesco, em Milão. As monjas deram a Leonardo instruções precisas quanto às dimensões e ao tema desejado para o quadro — a Virgem Maria, São João Batista quando bebê, Uriel e o Menino Jesus abrigados em uma gruta.

Apesar de ter feito como lhe pediam, quando entregou a obra, as religiosas reagiram com horror. Da Vinci enchera o quadro de pormenores explosivos e perturbadores.

O quadro mostrava a Virgem Maria sentada, vestida de azul, com um braço passado pelos ombros de uma criança, presumivelmente o Menino Jesus. Em frente de Maria sentava-se Uriel, também com uma criança, presumivelmente João Batista. Mas, em vez da cena habitual de Jesus abençoar João, era João quem abençoava Jesus... e Jesus submetia-se à sua autoridade! Ainda mais perturbador: Maria mantinha uma mão aberta por cima de João, em um gesto decididamente ameaçador — os dedos enclavinhados como as garras de uma águia pareciam agarrar uma cabeça invisível. Por fim, a imagem sem dúvida mais assustadora: por baixo dos dedos encurvados de Maria, Uriel fazia com a mão um gesto de corte — como que a cortar o pescoço à cabeça invisível que Maria segurava com a mão em garra.

Os alunos de Langdon achavam sempre muita graça ao saber que da Vinci acabara por sossegar a confraria pintando uma segunda versão “aguada” da Madonna dos Rochedos em que todas as personagens apareciam dispostas de uma maneira mais ortodoxa. Esta segunda versão encontrava-se atualmente exposta, sob o nome de Virgem dos Rochedos, na National Gallery de Londres, embora Langdon continuasse a preferir o mais intrigante original do Louvre.

— O que é que estava atrás do quadro? — perguntou, enquanto Sophie conduzia a toda a velocidade pelos Champs-Elysées.

— Mostro-lhe quando estivermos a salvo na embaixada — disse ela, sem tirar os olhos da estrada.

— Mostra-me? — espantou-se Langdon. — O seu avô deixou-lhe um objeto físico?

Sophie assentiu.

— Enfeitado com uma flor-de-lis e as iniciais P.S.

Langdon nem queria acreditar no que acabava de ouvir.

Vamos conseguir, pensou Sophie enquanto rodava o volante do Smart para a direita, pas sava em frente do luxuoso Hôtel de Crillon entrava no tranquilo bairro das embaixadas de Paris, com as suas ruas ladeadas de árvores. Estavam agora muito perto.

Sentiu que podia voltar a respirar normalmente.

Mesmo dirigindo, seu pensamento continuava preso à chave que tinha no bolso, às suas recordações de a ter visto muitos anos antes, com a pega de ouro em forma de cruz de braços iguais, a haste triangular, as marcas, o brasão gravado, as letras P.S.

Embora a recordação daquela chave quase não lhe tivesse acudido ao espírito durante todos aqueles anos, o seu trabalho no mundo das informações ensinara-lhe muito a respeito de segurança, e agora o modo peculiar como fora fabricada já não lhe parecia tão estranho. Uma matriz variável trabalhada a laser.

Impossível de duplicar. Em vez de dentes que empurravam linguetas, as complexas séries de marcas feitas a laser da chave eram examinadas por um olho eletrônico. Se o olho eletrônico decidia que as marcas hexagonais estavam corretamente espaçadas, dispostas e posicionadas, a fechadura se abria.

Sophie não fazia a mínima ideia do que uma chave daquelas poderia abrir, mas tinha o pressentimento de que Robert saberia dizer-lhe. Afinal, descrevera o brasão gravado na pega sem nunca o ter visto. A pega cruciforme indicava que a chave pertencia a uma organização cristã, mas Sophie não sabia de qualquer igreja que usasse chaves de matriz variável trabalhadas a laser.

Além disso, o meu avô não era cristão...

Sophie tivera uma prova testemunhal disto mesmo dez anos antes.

Ironicamente, fora uma outra chave — esta muito mais vulgar — que lhe revelara a verdadeira natureza do avô.

A tarde estava quente quando aterrissara no aeroporto Charles de Gaulle e se metera em um táxi para casa. O grand-père vai ficar tão espantado quando me vir, pensara. Tendo regressado alguns dias mais cedo, para as férias da Páscoa, da universidade inglesa onde fazia o curso de pós-graduação, Sophie mal podia

esperar para ver o avô e falar-lhe dos métodos de criptologia que andava estudando.

Quando chegou a casa, não o encontrou. Desapontada, pensou que ele não a esperava e provavelmente estava trabalhando no Louvre. Mas é sábado à tarde, lembrou-se. O avô raramente trabalhava nos fins de semana. Nos fins de semana costumava...

Com um sorriso nos lábios, correu para a garagem. Como já esperava, o carro não estava lá. Era fim de semana. Jacques Saunière detestava dirigir na cidade e tinha carro por uma única e exclusiva razão: o seu château de férias na Normandia, a norte de Paris.

Depois de meses na superpovoada Londres, Sophie estava ansiosa pelos cheiros da natureza e por começar as férias o mais depressa possível. Era ainda cedo, de modo que decidiu partir imediatamente. Pedindo o carro emprestado a uma amiga, rumou para norte, seguindo a sinuosa estrada que atravessava as colinas desertas e banhadas em luar perto de Creully. Chegou pouco depois das dez, metendo pelo longo caminho particular que conduzia ao retiro do avô. A estrada de acesso tinha quase dois quilômetros de comprimento, e s ó no meio do percurso Sophie começou a avistar a casa por entre as árvores um velho e grande casarão de pedra aninhado nos bosques, no flanco de uma colina.

Estava mais ou menos à espera de encontrar o avô dormindo àquela hora da noite, de modo que ficou excitada ao ver a casa refulgente de luzes. Uma alegria que se transformou em surpresa quando, ao chegar, descobriu o pátio cheio de carros estacionados Mercedes, BMW, Audis e um Rolls-Royce.

Ficou olhando espantada, por um momento, e então rompeu a rir. O meu avô, o famoso recluso! Jacques Saunière era, tudo o indicava, muito menos reservado do que gostava de aparentar. Muito claramente, estava dando uma festa enquanto a neta se encontrava fora estudando, e, a julgar pelos automóveis, os convidados eram algumas das pessoas mais influentes de Paris.

Desejosa de surpreendê-lo, correu para a porta da frente. Quando chegou lá, porém, encontrou-a fechada à chave. Bateu. Não obteve resposta. Intrigada, deu a volta e tentou a porta dos fundos. Também fechada. Ninguém respondeu aos seus chamados.

Confusa, deteve-se por instantes, à escuta. O único som que ouvia era o do fresco vento da Normandia gemendo baixo enquanto cirandava pelo vale.

Nem música.

Nem vozes.

Nada.

No silêncio do bosque, Sophie dirigiu-se apressadamente ao lado da casa e trepou a um monte de lenha, comprimindo o nariz contra a janela da sala de estar. O que viu lá dentro não fazia qualquer espécie de sentido.

— Não há ninguém aqui!

Todo o piso térreo estava deserto.

Onde se meteram todos?

Com o coração saltando-lhe no peito, correu para o barracão das ferramentas e pegou a c have sobressalente que o avô guardava debaixo de uma caixa de aparas.

Voltou à porta principal e abriu-a. Quando entrou no vestíbulo deserto, começou a piscar uma luz vermelha no painel do sistema de segurança — um aviso a quem entrava de que tinha dez segundos para introduzir o código secreto antes que o alarme disparasse.

Tem o alarme ligado durante uma festa?

Marcou rapidamente o código e desativou o sistema.

A casa inteira estava desabitada. Incluindo o andar de cima. Regressando ao vestíbulo vazio, deteve-se por um instante no meio do silênc io, perguntando a si mesma o que poderia ter acontecido.

Foi então que ouviu vozes abafadas. E pareciam vir de algum lugar abaixo dela.

De onde, não fazia ideia. Pondo-se de gatas, encostou um ouvido às tábuas do soalho e escutou. Sim, o som vinha definitivamente lá de baixo. As vozes pareciam estar cantando... ou entoando um cântico? Assustou-se. Quase mais estranho do que o próprio som era o fato de saber que aquela casa nem sequer tinha uma garagem.

Pelo menos, que eu tenha visto.

Rodou sobre si mesma, examinando a sala de estar. Os olhos detiveram-se no único objeto em toda a casa que parecia fora do lugar — a antiguidade preferida do avô, uma grande tapeçaria Aubusson. Estava geralmente suspensa da parede leste, junto à lareira, mas naquela noite fora puxada para o lado no seu var ão de

latão, expondo a parede que ficava atrás.

Ao avançar para a parede nua, Sophie ouviu o cântico soar mais alto —

Hesitante, encostou o ouvido à madeira. As vozes tornaram-se mais claras.

Havia sem a mínima dúvida pessoas cantando... entoando palavras que não conseguia distinguir.

O espaço por trás desta parede é oco!

Tateando os bordos dos painéis com as pontas dos dedos, encontrou uma pequena depressão redonda, quase invisível. Uma porta de correr,. com o coração batendo forte, colocou o dedo na depressão e puxou. Com silenciosa precisão, a pesada parede deslizou para o lado.As vozes ecoaram mais fortes, vindas da escuridão do outro lado.

Sophie passou pela abertura e viu-se no início de uma escada de pedra bruta que descia em espiral. Ia àquela casa desde que era criança e nunca fizera a mínima ideia da existência de uma caverna!

À medida que descia, o ar tornava-se mais frio. E as vozes mais nítidas.

Ouviu homens e mulheres cantando. A sua linha de visão era limitada pela espiral da escada, mas estava naquele momento chegando ao último degrau. Para lá dele, viu um pedaço do chão da caverna, iluminada pelo clarão alaranjado do fogo.

Retendo a respiração, Sophie avançou mais alguns passos e acocorou-se para espreitar. Demorou vários segundos para processar o que estava vendo.

Era uma gruta, uma tosca câmara que parecia ter sido escavada no granito do flanco da colina. A única luz er a a fornecida pelos archotes nas paredes.

Iluminadas pelas chamas, cerca de trinta pessoas reunidas em círculo ocupavam o centro do espaço.

Estou sonhando, disse Sophie para si mesma. Um sonho. Que outra coisa isso pode ser?

Todos os presentes usavam máscaras. As mulheres vestiam túnicas de tule branco e sapatos dourados. As suas máscaras eram brancas, e seguravam nas mãos globos de ouro. As máscaras e as túnicas dos homens eram pretas.

Pareciam peças em um gigantesco tabuleiro de xadrez. Todos se balançavam para a frente e para trás, entoando um cântico em reverência a qualquer coisa que estava no chão no meio deles... qualquer coisa que Sophie não conseguia

ver.

O cântico tornou-se mais forte. Mais rápido. Atroador. Os participantes deram um passo para o interior do círculo e ajoelharam. Nesse instante, Sophie viu aquilo que todos eles testemunhavam. Enquanto recuava, horrorizada, sentiu a imagem gravar-se indelevelmente na memória. Nauseada, fez meia volta e subiu as escadas, apoiando-se às paredes de pedra. Fechou a passagem secreta, fugiu da casa deserta e regressou a Paris, dirigindo no meio de um estupor toldado pelas lágrimas.

Nessa noite, com a vida destruída pela desilusão e pela traição, juntou as suas coisas e saiu de casa. Em cima da mesa da sala de jantar, deixou uma nota: ESTIVE LÁ. NÃO TENTE ENTRAR EM CONTATO COMIGO.

Junto à nota, deixou as chaves sobressalentes que tirara da arrecadação das ferramentas.