O Código Da Vinci
Capítulo Quarenta e Três
— A Interpol recebeu uma informação — disse. — Esqueça o trem. Langdon e Neveu acabam de entrar na filial parisiense do Banco Depositário de Zurique.
Siga imediatamente para lá com os seus homens.
— Alguma pista a respeito do que o conservador Saunière estava tentando dizer à agente Neveu e a Robert Langdon?
O tom de Fache foi gelado.
— Se os prender, tenente Collet, eu perguntarei pessoalmente.
Collet percebeu a deixa.
— Rue Haxo, número vinte e quatro. É para já, capitão.
Desligou o celular e chamou os seus homens pelo rádio.
C A P Í T U L O 43
André Vernet, presidente da filial francesa do Banco Depositário de Zurique, vivia em um luxuoso apartamento em cima do próprio banco. Mal-grado o conforto dos aposentos, sempre sonhara ser dono de um apartamento à beira-rio na Ile Saint-Louis, onde poderia ombrear com os verdadeiros cognoscenti, e não ali, onde apenas encontrava os podres de ricos.
Quando me aposentar, dizia Vernet para si mesmo, vou encher a minha adega de bordéus raros, decorar a minha sala com um Fragonard e talvez um Boucher, e passar os meus dias procurando mobílias antigas e livros raros no Quartier Latin.
Naquela noite, Vernet fora acordado havia apenas seis minutos e meio.
Mesmo assim, enquanto percorria apressadamente os corredores subterrâneos do banco, era como se o seu alfaiate e o seu cabeleireiro particulares tivessem passado horas a poli-lo para lhe dar aquele brilho. Impecavelmente vestido com um terno de seda, vaporizou a boca com um spray refrescante e ajeitou a gravata enquanto andava. Habituado a ser acordado a qualquer hora para atender clientes internacionais vindos das mais diversas zonas horárias, modelara os seus hábitos de sono pelos dos guerreiros massais, a tribo africana famosa pela sua capacidade de passar, em uma questão de segundos, do sono mais profundo para um estado de total prontidão para o combate.
Prontidão para o combate, pensou, receando que a comparação pudesse vir a revelar-se naquela noite incaracteristicamente adequada. A chegada de um cliente de chave de ouro exigia sempre uma atenção especial, mas a chegada de um cliente de chave de ouro que era procurado pela Polícia Judiciária significava uma situação extremamente delicada. O banco já tinha conflitos suficientes comas forças da ordem por causa do direito dos seus clientes ao sigilo mesmo
sem provas de que alguns deles eram criminosos.
Cinco minutos, disse Vernet a si mesmo. Quero essa gente fora do meu banco antes que a Polícia chegue.
Se agisse rapidamente, o desastre iminente poderia ainda ser evitado. Vernet poderia dizer à Polícia que os fugitivos tinham de fato entrado no banco, mas por não serem clientes e não terem um número de conta, os tinha mandado embora.
Bem desejava que o maldito guarda não tivesse ligado para a Interpol. A discrição não fazia aparentemente parte do vocabulário de um segurança pago a 15 Euros por hora.
Detendo-se diante da porta, inspirou fundo e descontraiu os músculos. Então, forçando um sorriso radioso, abriu a porta e entrou na sala como uma brisa primaveril.
— Boa noite — disse, ao avistar os seus clientes. — Chamo-me André Vernet. Em que posso ser ú... — O resto da frase ficou entalada Em algum lugar por baixo da maçã de Adão. A mulher que tinha à sua frente era a visitante mais inesperada que alguma vez recebera.
— Desculpe, não nos conhecemos? — perguntou Sophie. Não reconhecia o banqueiro, mas, por um instante, fora como se tivesse visto um fantasma.
— Não... — tartamudeou o presidente do banco. — Não... creio. Os nossos serviços são anônimos. — Deixou escapar o ar dos pulmões e forçou um calmo sorriso. — O meu assistente me disse que têm uma chave de ouro mas não um número de conta? Posso perguntar como entraram na posse dessa chave.
— Meu avô me deixou a chave — respondeu Sophie, observando atentamente o homem, cuja atrapalhação era cada vez mais evidente.
— Palavra? O seu avô lhe deu a chave mas esqueceu-se de dar-lhe o número da conta?
— Julgo que não teve tempo — disse Sophie. — Foi assassinado esta noite.
Estas palavras fizeram o banqueiro recuar um passo, cambaleante.
— Jacques Saunière está morto? — perguntou, com os olhos enchendo-se de horror.
— Mas... como?
Foi a vez de Sophie estremecer, aturdida pelo choque.
— Conhecia o meu avô?
André Vernet parecia tão aturdido como ela. Endireitou-se, apoiando-se à beira da grande mesa.
— Eu e Jacques éramos velhos amigos. Quando foi que isso aconteceu?
— Por volta das onze da noite, dentro do Louvre.
Vernet dirigiu-se a um fundo sofá de couro e deixou-se cair nele.
— Tenho de fazer aos dois uma pergunta extremamente importante. — Olhou para Langdon e depois de novo para Sophie. — Algum dos dois teve alguma coisa a ver com essa morte?
— Não! — respondeu Sophie. — Absolutamente não!
O rosto de Vernet ficou sombrio. Fez uma pausa, para pensar.
— A Interpol difundiu as suas fotografias. Foi assim que os reconheci. São procurados por assassinato.
Sophie deixou descair os ombros. Fache já contatou a Interpol? O capitão estava, aparentemente, mais motivado do que ela esperara. Explicou rapidamente a Vernet quem era Langdon e o que acontecera dentro do Louvre naquela noite.
Vernet parecia espantado.
— E o seu avô, antes de morrer, deixou-lhe uma mensagem dizendo que procurasse o senhor Langdon?
— Sim. E esta chave. — Sophie pousou a chave de ouro na mesa de café diante de Vernet, com o selo do Priorado voltado para baixo.
Vernet olhou para a chave, mas não fez menção de tocá-la.
— Deixou-lhe apenas esta chave? Nada mais? Nenhum pedaço de papel?
Sophie sabia que estivera cheia de pressa dentro do Louvre, mas estava certa de que não havia mais nada escondido atrás da Madonna dos Rochedos.
— Não. Só a chave.
Vernet deixou escapar um suspiro de impotência.
— Todas as chaves estão eletronicamente associadas a um número de conta com dez dígitos que funciona como password. Sem o número, essa chave é inútil.
Dez dígitos. Sophie calculou relutantemente as probabilidades criptográficas.
Dez bilhões de escolhaspossíveis. Mesmo que pudesse usar os mais potentes computadores de processamento em rede da DCPJ, precisaria de semanas para decifrar o código.
— Certamente, monsieur, considerando as circunstâncias, poderá ajudar-nos.
— Lamento. Não há verdadeiramente nada que eu possa fazer. Os clientes escolhem o número de conta através de um terminal seguro, o que significa que esse número só é conhecido pelo titular e por um computador. É uma maneira de garantir o anonimato. E a segurança dos nossos empregados.
Sophie compreendeu. As lojas de conveniência faziam a mesma coisa, os EMPREGADOS NÃO TÊM A CHAVE DO COFRE. O banco não queria obviamente correr o risco de alguém roubar uma chave e então tomar um empregado como refém para obter o número da conta correspondente.
Sentou-se ao lado de Langdon, baixou os olhos para a chave e voltou a erguê-los para Vernet.
— Faz alguma ideia do que o meu avô tinha guardado no seu banco?
— Nenhuma. É essa a definição de um banco Geldschrank.
— Monsieur Vernet — insistiu ela —, o nosso tempo esta noite é escasso. vou ser muito direta, se me permite. — Estendeu a mão para a chave de ouro e voltou-a, perscrutando os olhos do homem no momento em que revelava o selo do Priorado de Siao. — O símbolo que está nesta chave significa alguma coisa para o senhor?
Vernet olhou para a flor-de-lis e não teve qualquer reação.
— Não, mas muitos dos nossos clientes mandam gravar logotipos de empresas ou iniciais nas suas chaves.
Sophie suspirou, continuando a v igiá-lo atentamente.
— Este selo é o símbolo de uma sociedade secreta conhecida como Priorado de Sião.
Mais uma vez, Vernet não mostrou qualquer reação.
— Não sei nada disso. Eu e o seu avô éramos amigos, mas falávamos sobretudo de negócios. — O homem ajustou a gravata, parecendo agora um pouco nervoso.
— Monsieur Vernet — voltou Sophie à carga, em tom firme. — O meu avô telefonou-me esta noite e disse-me que eu corria um grave perigo. Disse que tinha uma coisa para me dar. Deu-me uma chave do seu banco. Agora está morto. Tudo o que possa dizer-nos será uma grande ajuda.
Vernet começou a suar.
— Têm de sair do edifício. Receio que a Polícia não tarde a chegar. O nosso guarda sentiu que devia avisar a Interpol.
Sophie receara isso mesmo. Fez uma última tentativa.
— Meu avô disse-me que tinha de contar-me a verdade a respeito da minha família.
Isto significa alguma coisa para você?
— Mademoiselle, a sua família morreu em um acidente quando era ainda muito jovem. Lamento. Sei que o seu avô a amava muito. Disse-me diversas vezes como o entristecia o fato de os dois terem deixado de se falar.
Sophie ficou sem saber como responder.
— O conteúdo desta conta tem alguma coisa a ver com o Sangreal? —
perguntou
Langdon, inesperadamente.
Vernet lançou-lhe um olhar estranho.
— Não faço ideia do que isso possa ser. — E, nesse instante, o celular tocou.
Vernet arrancou-o do cinto. — Oui. — Escutou por um instante, com uma expressão de surpresa e crescente preocupação. — La police? Si rapidement! —
Praguejou, deu algumas instruções em francês e disse que estaria no vestíbulo dentro de um minuto.
Desligando o telefone, voltou-se para Sophie.
— A Polícia respondeu muito mais rapidamente do que é habitual. Estão chegando.
Sophie não tinha a mínima intenção de sair dali de mãos abanando.
— Diga-lhesque já fomos embora. Se quiserem revistar o banco, exija um mandato de busca. Isso vai atrasá-los.
— Ouça — disse Vernet —, Jacques Saunière era meu amigo, e o meu banco não precisa deste tipo de publicidade. Por essas duas razões, não tenciono permitir que sejam detidos aqui dentro. Deem-me um minuto, e verei o que posso fazer para ajudá-los a sair sem serem vistos. Não posso envolver-me mais do que isso. — Pôs-se de pé e dirigiu-se rapidamente à porta.— Fiquem aqui.
Vou tratar disto e volto já.
— Mas, e o cofre de depósito? — protestou Sophie. — Não podemos ir
embora.
— Não posso fazer nada. — Vernet abriu a porta. — Lamento muito —
acrescentou, antes de sair.
Sophie ficou olhando para a porta por um instante, perguntando a si mesma se o número da conta não estaria enterrado no monte de cartas e embrulhos que o avô lhe mandara ao longo dos anos e que ela nunca chegara a abrir.
Subitamente, Langdon pôs-se de pé, e Sophie viu-lhe nos olhos um inesperado brilho de contentamento.
— Robert? Está sorrindo.
— O seu avô era um gênio.
— Desculpe?
— Dez dígitos?
Sophie não fazia ideia de que ele estava falando.
— O número da conta — explicou Langdon, com o familiar sorriso torcido estampado no rosto. — Tenho certeza de que ele o deixou, Afinal.
— Onde?