O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 7 de 109

Páginas do PDF

O Código Da Vinci

Capítulo Quatro

Langdon estendeu a mão.

— Robert Langdon.

A manápula enorme de Fache fechou-se à volta da mão de Langdon com uma força esmagadora.

— Vi a fotografia — disse Langdon. — O seu agente disse que foi o próprio Jacques Saunière que fez...

— Senhor Langdon — interrompeu-o Fache, cr avando nele os olhos cor de ébano. — O que viu na fotografia foi apenas o início daquilo que o Saunière fez.

C A P Í T U L O 4

O capitão Bezu Fache movia-se como um touro furioso, com os largos ombros puxados para trás e o queixo enterrado no peito. Tinha cabelos pretos e reluzentes de gel, esticados para a nuca, destacando o bico-de-viúvo pontiagudo como uma seta que lhe dividia ao meio a testa proeminente e o precedia como a proa de um cruzador. À medida que avançava, parecia queimar com os olhos a terra à sua frente, irradiando um brilho incandescente que apregoava a sua reputação de inflexível severidade em todas as coisas.

Langdon desceu atrás dele a famosa escadaria de mármore que conduzia ao átrio situado por baixo da pirâmide de vidro. Na descida, passaram por dois agentes armados com pistolas-metralhadoras. A mensagem era clara: esta noite, ninguém entra e ninguém sai sem a bênção do capitão Fache.

Enquanto descia abaixo do nível da praça, Langdon se esforçou para combater uma crescente sensação de temor. O ar do capitão Fache era tudo menos acolhedor, e o próprio Louvre tinha, àquela hora da noite, uma aura quase sepulcral. A escadaria, como a coxia de um cinema às escuras, era iluminada por pequenas lâmpadas embebidas nos degraus. Langdon ouvia os seus próprios passos ecoarem na cúpula de vidro, lá em cima. Quando olhou, viu, através do telhado transparente, a brisa dis persar a poalha de água dos repuxos, fantasmagoricamente iluminados pelas luzes dos tanques.

— Gosta? — perguntou Fache, apontando para cima com o grande queixo.

Langdon suspirou, muito cansado para jogos.

— Sim, a sua pirâmide é magnífica.

— Uma verruga no rosto de Paris — resmungou Fache.

Um a zero. Langdon sentiu que o seu anfitrião era um homem difícil de

agradar.

Perguntou a si mesmo se Fache faria a mínima ideia de que aquela pirâmide fora, por exigência expressa do presidente Mitterrand, construída com exatamente 666 painéis de vidro — estranha exigência que sempre fora um tema quente entre os adeptos da teoria da conspiração, os quais afirmavam que 666

era o número de Satanás.

Decidiu não abordar o assunto.

À medida que desciam em direção ao átrio subterrâneo, o vasto espaço foi emergindo das sombras. Dezessete metros abaixo do nível da praça, os seis mil e quinhentos metros quadrados do novo átrio do Louvre estendiam-se como uma gruta interminável. com paredes e chão de mármore em quentes tons de ocre, condizendo com a pedra cor de mel da fachada do museu, o átrio subterrâneo estava normalmente cheio de sol e de turistas. Naquela noite, porém, mostrava-se árido e escuro, impregnado de uma fria atmosfera de cripta.

— E o pessoal normal da segurança do museu? — perguntou Langdon.

— En quarantaine — respondeu Fache, como se Langdon tivesse posto em causa a integridade da sua própria equipe. — Obviamente, esta noite entrou aqui alguém que não devia ter conseguido entrar. Todos os guardas de serviço estão na Ala Sully, sendo interrogados. A segurança do museu está a cargo dos meus homens.

Langdon assentiu, caminhando rapidamente para se manter ao lado do capitão.

— Conhecia bem o conservador Jacques Saunière? — perguntou este.

— Não o conhecia de todo. Nunca falamos pessoalmente. Fache pareceu surpreendido.

— Iam encontrar-se pela primeira vez esta noite?

— Exato. Tínhamos combinado encontrar-nos na recepção oferecida pela Universidade Americana depois da minha conferência, mas ele não apareceu.

Fache rabiscou algumas notas em um pequeno caderno. Enquanto caminhavam, Langdon viu de relance a outra pirâmide, muito menos conhecida, do Louvre — a Pyramid Inversée — uma enorme claraboia invertida que pendia do teto como uma estalactite, em uma seção contígua do átrio. Fache subiu à

frente dele o pequeno lance de escadas que conduzia à entrada em arco de um túnel por cima da qual uma tabuleta indicava: DENON. A Ala Denon era a mais famosa das três seções principais do Louvre.

— Qual dos dois pediu o encontro desta noite — perguntou Fache subitamente. — Ele ou o senhor?

A pergunta pareceu estranha.

— Foi o senhor Saunière — respondeu Langdon, enquanto entravam no túnel.

— A secretária dele contatou-me há poucas semanas, via e-mail. Dizia que o conservador Saunière soubera que eu ia dar uma conferência em Paris, este mês, e gostaria de aproveitar a minha presença para discutir uns assuntos.

— Que assuntos?

— Não sei. Relacionados com a arte, suponho. Partilhávamos os mesmos interesses.

Fache lançou-lhe um olhar carregado de ceticismo.

— Não faz a mínima ideia do tema do encontro?

Langdon não fazia. Ficara curioso, na altura, mas não se sentira à vontade para pedir pormenores. O reverenciado Jacques Saunière tinha uma tendência bem conhecida para o segredo e era raríssimo se encontrar com quem quer que fosse. Langdon ficara grato pela simples oportunidade de conhecê-lo.

— Senhor Langdon, consegue ao menos me dar um palpite sobre o assunto que a nossa vítima queria discutir consigo na noite em que foi assassinada?

Poderia ser muito útil.

A dureza da pergunta fez Langdon sentir-se pouco à-vontade.

— Não faço a mínima ideia. Não perguntei. Fiquei muito honrado por ter sido contatado. Sou um admirador da obra do senhor Saunière. Us o com frequência textos dele nas minhas aulas.

Fache tomou nota do fato no seu caderninho.

Os dois homens iam agora a meio caminho do túnel de acesso à Ala Denon e Langdon viu, ao fundo, as duas escadas rolantes ascendentes, ambas paradas.

— Partilhavam então os mesmos interesses? — perguntou Fache.

— Sim. A verdade é que passei a maior parte deste último ano escrevendo o rascunho de um livro que aborda a principal área de especialização do senhor Saunière.

Estava na esperança de conseguir tirar alguns segredos.

Fache ergueu vivamente a cabeça

— Como?

Aparentemente, o idiomatismo não tinha equivalente.

— Estava desejoso de conhecer as opiniões dele sobre o tema.

— Estou vendo. E qual é esse tema?

Langdon hesitou, sem saber muito bem como pôr aquilo.

— Essencialmente, o trabalho é a respeito do culto da deusa... o conceito do sagrado feminino e a arte e os símbolos que lhe estão associados.

Fache passou a mão enorme pelos cabelos.

— E Saunière era perito nessa matéria?

— O maior de todos.

— Estou vendo.

Langdon teve a sensação de que Fache não estava vendo coisa nenhuma.

Jacques Saunière era consider ado o maior iconografista da deusa do mundo.

Não só tinha uma paixão pessoal por tudo o que se relacionasse com fertilidade, cultos da deusa, Wicca e o sagrado feminino, como, durante os seus vinte anos no cargo de conservador, ajudara o Louvre a reunir a maior coleção do planeta de arte ligada à deusa: machados de dois gumes oriundos do mais antigo santuário das sacerdotisas gregas de Delfos, caduceus de ouro, centenas de ankhs Tjet semelhantes a pequenos anjos de pé, sistros usados no antigo Egito para afastar os maus espíritos e uma espantosa quantidade de estatuetas de Hórus a ser alimentado por Isis.

— Talvez o conservador Saunière soubesse do seu manuscrito — sugeriu Fache — e tenha sugerido o encontro para lhe oferecer ajuda?

Langdon abanou a cabeça.

— A verdade é que ninguém sabe do meu livro. Está na fase de rascunho e não o mostrei a ninguém, exceto ao meu editor.

Fache ficou calado.

Landgon não acrescentou a razão porque não mostrara o manuscrito a mais ninguém. O rascunho de trezentas páginas — provisoriamente intitulado Símbolos do Sagrado Feminino Perdido — propunha várias interpretações muito

pouco convencionais da iconografia religiosa estabelecida que iam sem a mínima dúvida provocar controvérsia.

Quando estava quase chegando às escadas rolantes imobilizadas, deteve-se, percebendo que Fache não o acompanhava. Voltando a cabeça, viu-o alguns metros mais atrás, parado à porta de um elevador de serviço.

— Vamos de elevador — disse o capitão, quando as portas se abriram. —

Como certamente sabe, ainda é uma boa caminhada até à galeria.

Embora soubesse que o elevador abreviaria a longa subida de dois pisos até à Ala Denon, Langdon não saiu de onde estava.

— Algum problema? — perguntou Fache, mantendo as portas abertas com um ar de impaciência.

Langdon suspirou, lançando um olhar de pena à escada rolante. Nenhum problema, mentiu a si mesmo, enquanto retrocedia até ao elevador. Quando rapaz, caíra em um poço abandonado e quase morrera, lutando por manter-se à tona durante horas até que finalmente o tinham encontrado. Da experiência ficara-lhe uma quase invencível fobia de espaços fechados — elevadores, metrôs, courts de squash. O elevador é uma máquina perfeitamente segura, repetia constantemente, sem nunca conseguir se convencer. É uma pequena caixa metálica suspensa no interior de um poço fechado!

Retendo a respiração, entrou no elevador, sentindo a sua tão conhecida descarga de adrenalina quando as portas se fecharam.

Dois pisos. Dez segundos.

— Portanto — disse Fache, quando o elevador começou a subir — O senhor e Monsieur Saunière nunca chegaram a falar? Nunca se corresponderam? Nunca trocaram mensagens por E-mail?

Outra pergunta estranha. Langdon abanou a cabeça.

— Não. Nunca.

Fache inclinou um pouco a cabeça, como se estivesse a anotar mentalmente o fato. Ficou olhando em frente, para as portas cromadas, sem acrescentar uma palavra.

Enquanto subiam, Langdon tentou pensar em tudo menos nas quatro paredes que o rodeavam. Viu, refletido na porta brilhante do elevador, o alfinete de gravata do capitão Fache: um crucifixo de prata, com treze placas de ônix preto

incrustadas. Achou aquilo vagamente surpreendente. O símbolo era conhecido como crux gemmata — uma cruz com treze gemas — um ideograma cristão de Cristo e dos seus doze apóstolos. Sem saber muito bem porquê, não esperara que um capitão da Polícia francesa proclamasse tão abertamente a sua religião. Mas a verdade era que estava na França; ali, o cristianismo era mais um direito hereditário do que uma religião.

— É uma cruz gemmata — disse Fache, subitamente.

Sobressaltado, Langdon ergueu os olhos e viu, refletidos no metal, os do policial cravados nele.

O elevador parou com um ligeiríssimo solavanco e as portas abriram-se.

Langdon saiu para o corredor, ansioso do vasto espaço aberto proporcionado pelos famosos altos tetos das galerias do Louvre. O mundo onde se encontrou não era, porém, nada do que esperara.

Surpreendido, deteve-se abruptamente. Fache lançou-lhe um olhar.

— Deduzo, senhor Langdon, que nunca viu o Louvre fora de hora?

Acho que não, pensou Langdon, tentando orientar-se.

Por regra impecavelmente iluminadas, as galerias do museu estavam mergulhadas em uma surpreendente escuridão. Em vez da habitual luz branca vinda de cima, um clarão vermelho, baço, parecia emanar dos rodapés —

manchas intermitentes de luz vermelha que se derramavam pelas lajes do chão.

Ao olhar para o sombrio corredor, Langdon percebeu que devia ter contado com aquilo. Praticamente todas as grandes galerias usavam luzes vermelhas durante a noite — luzes de baixa intensidade, não-agressivas, estrategicamente distribuídas de modo a permitir ao pessoal percorrer os corredores e ao mesmo tempo manter os quadros em uma relativa obscuridade que atenuava os efeitos deletérios de uma sobre-exposição à luz. O que, naquela noite, criava um ambiente quase opressivo. Havia longas sombras por todo o lado, e os altos tetos abobadados pareciam um vazio negro e baixo.

— Por aqui — disse Fache, voltando à direita e começando a atravessar uma série de galerias interligadas.

Langdon seguiu-o, com os olhos adaptando-se pouco a pouco a escuridão. À

sua volta, grandes quadros a óleo começaram a materializar-se como fotografias a serem reveladas em uma enorme câmara-escura... com olhos que o seguiam

quando passava.

Sentiu na boca o sabor tão especial do ar dos museus — um sabor estéril, desionizado com um leve toque de carbono —, um produto dos desumidificadores industriais de filtros de carvão que trabalhavam ininterruptamente para combater o corrosivo dióxido de carbono exalado pelos visitantes. Montadas bem alto nas paredes, as conspícuas câmaras de segurança transmitiam uma mensagem claríssima: Estamos vendo-os. Não toquem em nada.

— Alguma delas é verdadeira? — perguntou Langdon — apontando para as câmaras.

Fache abanou a cabeça.

— Claro que não.

Langdon não ficou surpreendido. A vigilância eletrônica em um museu daquele tamanho teria um custo proibitivo, além de não servir para nada. Com quilômetros de galerias para vigiar, seriam necessárias centenas de técnicos só para monitorizar os visores. A maior parte dos museus tinha optado pela

“segurança de retenção”. Não vale a pena tentar impedir os ladrões de entrar, o que importa é não os deixar sair. O sistema de retenção era ativado logo após o fechamento das portas, e se algum intruso tentasse remover uma das obras de arte, as barreiras fechavam-se selando a galeria, e o ladrão via-se atrás de grades ainda antes da Polícia chegar.

O corredor de mármore que se estendia à frente deles encheu-se do eco de vozes.

O ruído parecia vir de uma divisão recuada, mais à frente e à direita, de onde uma mancha de luz intensa se derramava para a passagem.

— Gabinete do conservador — anunciou o capitão.

Quando se aproximaram, Langdon viu, ao fundo de um curto corredor, o luxuoso gabinete de Jacques Saunière — madeiras quentes, obras dos Velhos Mestres nas paredes e uma enorme mesa antiga sobre cujo tampo se erguia o modelo de um guerreiro de armadura com sessenta centímetros de altura. Um punhado de agentes da Polícia movia-se de um lado para o outro, falando ao telefone e tomando notas. Um deles estava sentado à mesa, escrevendo em um computador portátil. Aparentemente, o gabinete do conservador fora

transformado, pelo espaço de uma noite, no improvisado posto de comando da DCPJ.

— Messieurs — disse Fache, e os homens voltaram-se para ele —, ne nous dérangez pas sous aucun prétexte. Entendu?

Todos os presentes assentiram com a cabeça.

Langdon já tinha pendurado suficientes cartões NE PÁS DERANGER em portas de hotel para apanhar o essencial das ordens do capitão. Fache e ele próprio não deveriam ser perturbados fosse a que pretexto fosse.

Deixando o pequeno grupo de agentes no gabinete, Fache continuou a conduzir Langdon pelo escuro corredor. Trinta metros mais à frente, abria-se a entrada da mais popular das seções do Louvre — La Grande Galerie — um corredor aparentemente interminável que albergava as mais famosas obras-primas italianas da coleção do museu.

Langdon sabia que era ali que ia encontrar o corpo de Jacques Saunière; o célebre soalho de parquet da Grande Galeria era claramente visível na Polaroid.

Quando se aproximar am, viu que a entrada da galeria estava fechada por uma grade de aço que parecia uma daquelas coisas que os antigos castelos usavam para impedir a entrada aos exércitos inimigos.

— Segurança de retenção — explicou Fache, detendo-se junto da grade.

Mesmo no escuro, a barricada parecia capaz de deter um tanque. Chegando do exterior, Langdon espreitou para os obscuros recessos da Grande Galeria.

— Tenha a bondade, monsieur Langdon — disse Fache. Langdon voltou-se para ele, sem compreender.

Fache apontou para o chão, junto à base da grade.

Langdon seguiu a direção do gesto. Na escuridão, não percebera. A barricada fora erguida cerca de sessenta centímetros, oferecendo uma passagem incômoda mas praticável.