O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 5 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Dois

— Esperávamos que pudesse nos ajudar a responder precisamente a essa pergunta, considerando os seus conhecimentos de simbologia e os seus planos para se encontrar com monsieur Saunière.

Langdon olhava para a foto, com um horror a que começava a misturar-se o medo.

A imagem era horripilante e profundamente estranha, provocando uma perturbadora sensação de déjà vu. Pouco mais de um ano antes, recebera a fotografia de um cadáver e, como agora, um pedido de ajuda. Vinte e quatro horas mais tarde, quase tinha perdido a vida na Cidade do Vaticano. Aquela foto era completamente diferente, e no entanto, algo no cenário tinha um toque desconcertantemente familiar.

O policial consultou o relógio.

— O meu capitaine está à espera, monsieur.

Langdon mal o ouviu. Tinha os olhos presos à fotografia.

— Este símbolo aqui, e o modo como o corpo está tão estranhamente...

— Posicionado? — sugeriu o policial.

Langdon assentiu, sentindo um arrepio gelado ao erguer os olhos.

— Não consigo imaginar alguém capaz de fazer isto a uma pessoa.

O rosto do policial pareceu tornar-se ainda mais sombrio.

— Não está compreendendo, senhor Langdon. Aquilo que vê nessa fotografia... — Fez uma pausa. — Foi monsieur Saunière que o fez a si mesmo.

C A P Í T U L O 2

A um quilômetro e meio dali, Silas, o corpulento albino, atravessou coxeando o portão de uma luxuosa mansão de arenito castanho-avermelhado situada na Rua La Bruyère. O cilício que usava em torno da coxa esquerda cortava-lhe a carne, mas apesar disso a alma dele cantava de satisfação por servir o Senhor.

Abençoada seja a dor.

Os olhos avermelhados inspecionaram o vestíbulo quando entrou na residência.

Deserta. Subiu silenciosamente as escadas, para não acordar nenhum dos outros numerários. A porta do quarto estava aberta: as fechaduras eram proibidas naquela casa.

Entrou, fechando-a atrás de si.

O quarto era espartano: soalho de madeira, uma cômoda de pinho, em um canto uma lona estendida que lhe servia de cama. Estava ali de visita, naquela semana, mas havia já muitos anos que, pela graça de Deus, dispunha de um santuário semelhante em Nova Iorque.

O Senhor proporcionou-me abrigo e um objetivo na vida.

Naquela noite, Silas sentia que começara, por fim, a pagar a sua dívida.

Dirigindo-se rapidam ente à cômoda, pegou o celular que deixara escondido na última gaveta e fez uma chamada.

— Sim? — disse uma voz de homem.

— Voltei, Professor.

— Fale — ordenou a voz, com uma nota de satisfação.

— Estão todos mortos. Os três senescais.... e o próprio Grão-Mestre.

Houve uma pausa momentânea, como que para uma curta prece.

— Acredito, portanto, que tem a informação?

— Todos disseram o mesmo. Independentem ente.

— E acreditou neles?

— A foi muita concordância para ser coincidência.

Uma expiração excitada.

— Ótimo. Tinha receado que a reputação de secretismo da irmandade prevalecesse.

— A perspectiva da morte é uma motivação poderosa.

— Diga-me então, meu discípulo, o que devo saber.

Silas sabia que a informação que extorquira às suas vítimas ia constituir uma surpresa.

— Professor, todos eles confirmaram a existência da Clef de Voûte... a lendária Chave de Abóbada.

Ouviu o som de uma inspiração rápida e superficial, e sentiu a excitação do Professor.

— A Chave de Abóbada. Tal como suspeitávamos.

De acordo com a lenda, a irmandade concebera um mapa de pedra — uma Clef de Voûte... ou Chave de Abóbada —, que revelava o esconderijo do maior dos seus segredos... uma informação tão poderosa que protegê-la passara a ser a razão da sua própria existência.

— Quando tivermos a Chave de Abóbada em nosso poder disse o Professor

—, estaremos apenas a um passo de distância.

— Estamos mais perto do que julga. A Chave de Abóbada encontra-se aqui, em Paris.

— Em Paris? Incrível. É quase muito fácil.

Silas relatou os acontecimentos da noite: como todas as suas quatro vítimas, momentos antes de morrerem, tinham desesperadamente tentado comprar as suas vidas ímpias revelando o segredo que lhes fora confiado. Todos eles lhe tinham dito exatamente a mesma coisa — que a Chave de Abóbada estava artificiosamente escondida em um determinado local no interior de uma das velhas igrejas de Paris: Saint-Sulpice.

— Dentro da casa do Senhor — exclamou o Professor. — Como escarnecem

de nós!

— Como fizeram durante séculos.

O Professor calou-se, como que deixando assentar na alma o triunfo daquele momento. Finalmente, disse:

— Você prestou um grande serviço a Deus. Há centenas de anos que esperávamos por isto. Tem de recuperar a pedra. Imediatamente. Esta noite. Sabe o que está em jogo.

Silas sabia que o que estava em jogo era de uma importância incalculável, mas aquilo que o Professor agora lhe ordenava parecia impossível.

— Mas a igreja é uma fortaleza. Sobretudo de noite. Como faço para entrar lá?

No tom confiante do homem que possui uma enorme influência, o Professor explicou o que tinha de ser feito.

Quando desligou o telefone, Silas sentiu na pele um formigueiro de antecipação.

Uma hora, disse para si mesmo, grato por o Professor lhe ter dado tempo para cumprir a necessária penitência antes de entrar na casa de Deus. Tenho de purgar a minha alma dos pecados de hoje. Os pecadosque cometera naquele dia tinham sido santos no seu objetivo. Havia séculos que o direito sagrado sancionava a guerra contra os inimigos de Deus. O perdão estava garantido.

Mesmo assim, Silas bem o sabia, a absolvição exigia sacrifício.

Depois de fechar as portadas da janela, despiu-se completamente e ajoelhou no centro do quarto. Baixando os olhos, exam inou o cruel cilício apertado à volta da coxa.

Todos os verdadeiros seguidores do Caminho usavam aquele artefato — uma correia de couro eriçada de farpas metálicas que lhe trespassavam a pele, numa constante recordação dos sofrimentos de Cristo. Além disso, a dor que causava ajudava também a dominar os desejos da carne.

Apesar de já ter usado o seu cilício mais do que as duas horas exigidas, Silas sabia que aquele não era um dia como os outros. Pegou a ponta da correia e apertou a fivela mais um furo, estremeceu quando as farpas se cravaram ainda mais profundamente na carne. Deixando escapar lentamente o ar contido nos pulmões, saboreou o ritual purificador do seu próprio sofrimento.

Abençoada seja a dor, murmurou, repetindo a manta sagrada do padre Josemaría Escrivá — o Professor dos Professores. Embora Escrivá tivesse morrido em 1975, a sua sabedoria perdurava, as suas palavras continuavam a ser murmuradas por milhares de fiéis em todo o mundo enquanto ajoelhavam no chão e cumpriam a sagrada pratica conhecida como “mortificação corporal”.

Silas voltou a sua atenção para a corda cheia de nós cuidadosamente enrolada no chão a seu lado. A Disciplina. Os nós estavam cobertos de sangue seco.