O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 54 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Cinquenta e um

— Com gestos apressados, verificou o voice mail do telefone. Nada. Mas, claro, percebeu então, nunca o Professor deixaria uma mensagem gravada; era um homem que tinha um cuidado enorme com as suas comunicações. Ninguém compreendia melhor do que o Professor os perigos de falar abertamente neste mundo moderno. A escuta eletrônica desempenhara um papel crucial no modo como reunira a espantosa soma de conhecimentos secretos de que era detentor.

É por isso mesmo que toma precauções extra.

Infelizmente, os protocolos de segurança do Professor incluíam a recusa de dar a Aringarosa qualquer número de contato. Só eu terei a iniciativa dos contatos, dissera-lhe o Professor. Portanto, cons erve o telefone ligado e à mão.

Agora, sabendo que o seu telefone talvez não tivesse funcionado devidamente, Aringarosa temia o que o Professor poderia pensar se tivesse tentado ligar-lhe várias vezes sem obter resposta.

Vai pensar que alguma coisa correu mal.

Ou que eu não consegui os títulos.

Uma fina camada de suor umedeceu-lhe a testa.

Ou pior... que peguei o dinheiro e fugi!

C A P Í T U L O 51

Mesmo a uns modestos sessenta quilômetros horários, a metade do para-choques que pendia da dianteira da carrinha blindada raspava pela deserta estrada suburbana com um barulho insuportável, lançando uma chuva de faíscas.

Temos de sair da estrada, pensou Langdon.

Quase não conseguia ver para onde iam. O único farol ainda funcionava estava completamente de esguelha e iluminava agora, com um feixe enviesado, as árvores que ladeavam a estrada rural. Aparentemente, o blindado daquele furgão referia-se apenas à caixa de carga, e não ao habitáculo.

Sophie ocupava o banco do passageiro, olhando com um ar inexpressivo para a caixa de roseira que levava pousada nos joelhos.

— Sente-se bem? — perguntou-lhe Langdon. Sophie parecia abalada.

— Acreditou nele?

— A respeito dos outros três assassínios? Absolutamente. Responde a uma porção de perguntas... o desespero do seu avô em passar a Chave de Abóbada a alguém, e também o empenho com que Fache me persegue.

— Não, me referia a Vernet querer proteger o banco.

Langdon lançou-lhe um olhar.

— O que quer dizer?

— Ficar com a Chave de Abóbada para ele.

Langdon não tinha sequer considerado a hipótese.

— Como ele poderia saber o que a caixa contém?

— Estava no banco dele. Conhecia o meu avô. Talvez soubesse coisas. Pode ter decidido que queria ficar com o Graal para ele.

Langdon abanou a cabeça. Vernet não lhe parecia desse tipo.

— A experiência me diz que há apenas duas razões para as pessoas procurarem o Graal. Ou são ingênuas e acreditam que procuram há a Taça de Cristo muito perdida...

— Ou?

— Ou sabem a verdade e sentem-se ameaçadas por ela. Muitos grupos, ao longo da História, tentaram destruir o Graal.

O silêncio entre eles aumentou o estrépito do para-choques arrastando pela estrada. Já tinham percorrido alguns quilômetros, e, ao olhar para a chuva de faíscas que vinha da frente do veículo, Langdon perguntou a si mesmo se aquilo não seria perigoso.

De qialquer maneira, se cruzassem com outro carro, não deixariam de dar na vista.

Tomou uma decisão.

— Vou ver se consigo endireitar aquele para-c hoques.

Encostou à beira da estrada e parou o furgão.

Silêncio, por fim.

Enquanto se dirigia à dianteira do veículo, sentia-se surpreendentemente alerta.

Ver-se sob a mira de uma arma pela segunda vez naquela noite dera-lhe um novo fôlego.

Inspirou um fundo hausto de fresco ar noturno e tentou organizar as ideias.

Além da gravidade de ser um homem perseguido, começava a sentir o esmagador peso da responsabilidade, da perspectiva de terem de fato nas mãos um conjunto de indicações cifradas que permitia desvendar um dos mais duradouros mistérios de todos os tempos.

E como se este fardo não fosse suficientemente pesado, percebia agora que qualquer possibilidade de devolver a Chave de Abóbada ao Priorado acabava de se evaporar. A notícia das três outras mortes tinha implicações terríveis. O

Priorado foi infiltrado. Estão todos comprometidos. A irmandade encontrava-se obviamente sob vigilância, ou então havia uma toupeira nas suas fileiras. O que talvez explicasse por que razão Jacques Saunière resolvera passar a Chave de Abóbada à neta e a Langdon... pessoas fora da confraria, pessoas que sabia com certeza não estarem comprometidas.

Não podemos devolver a Chave da Abóbada à irmandade. Mesmo que fizesse alguma ideia de como encontrar um membro do Priorado, havia uma muito boa chance de que quem se apresentasse para recebê-la fosse o pr óprio inimigo. No momento, pelo menos, parecia que a Chave da Abóbada ia ter de continuar nas mãos dele e de Sophie, quer quisessem quer não.

A dianteira do furgão estava em pior estado do que imaginara. O farol do lado esquerdo desaparecera e o do lado direito parecia um olho pendente da órbita.

Endireitou-o, mas voltou a cair. A única boa notícia era que o para-choques fora quase completamente arrancado. Langdon deu-lhe um pontapé teve a sensação de que talvez fosse capaz de acabar de parti-lo.

Enquanto dava pontapés na retorcida peça de metal, recordou a sua primeira conversa com Sophie. O meu avô me deixou uma mensagem telefônica, dissera-lhe ela.

Disse que precisava me contar a verdade a respeito da minha família. Naquele momento, aquilo nada significara para ele, mas agora, sabendo que o Priorado de Sião estava envolvido, sentia que havia ali novas e assustadoras possibilidades a emergir.

O para-choques partiu-se subitamente, com um estalo. Langdon fez uma pausa, para recuperar o fôlego. Pelo menos, o furgão ia deixar de parecer uma peça de fogo de artifício. Agarrou o para-choques e começou a arrastá-lo para o meio das árvores, perguntando a si mesmo o que fazer a seguir. Não tinham ideia de como abrir o criptex, ou por que razão Saunière o confiara à guarda deles.

Infelizmente, a sobrevivência de ambos naquela noite dependia de encontrarem respostas para aquelas perguntas.

Precisamos de ajuda, decidiu Langdon. De um profissional.

No mundo do Santo Graal e do Priorado de Sião, isto significava apenas um homem. O problema, claro, seria vender a ideia a Sophie.

Dentro do furgão, enquanto esperava que Langdon regressasse, Sophie sentia o peso da caixa de roseira nas pernas, e isso irritava-a. Porque foi que o meu avô me deu esta coisa? Não tinha a mínima ideia do que fazer com ela.

Pense, Sophie! Use a cabeça. O grand-père está tentando dizer-lhe qualquer coisa!

Abriu a caixa e estudou os anéis do criptex. Uma prova de mérito. Sentia ali a

mão do avô. A Chave de Abóbada é um mapa que só os dignos podem seguir.

Aquilo era avô de uma ponta à outra.

Tirou o criptex da caixa e passou os dedos pelos anéis. Cinco letras.

Experimentou rodá-los, um a um. O mecanismo moveu-se suavemente. Acertou os discos de modo que as letras escolhidas ficassem alinhadas entre as duas setas metálicas situadas nas extremidades opostas do criptex. Os anéis formavam agora uma palavra de cinco letras que Sophie sabia ser absurdamente óbvia.

G-R-A-A-L.

Com muito cuidado, pegou nos extremos do cilindro e puxou. O criptex não se moveu. Ouviu o vinagre gorgolejar no interior e parou de puxar. Resolveu tentar outra vez.

V-I-N-C-I.

Nenhum movimento.

V-O-U-T-E.

Nada. O criptex permaneceu solidamente fechado. De testa franzida, Sophie voltou a guardá-lo na caixa de roseira e fechou a tampa. Olhou lá para fora, para Langdon, e sentiu-se grata por ele estar ali naquela noite.

P.S. Encontre Langdon.

A razão que o avô tivera para o incluir era agora clara. Sophie não estava equipada para compreender as intenções do avô, que, sabendo-o, nomeara Robert Langdon como seu guia. Um tutor para lhe supervisar a educação.

Infelizmente para Langdon, acabara por ser muito mais do que um tutor, naquela noite. Tornara-se o alvo de Bezu Fache... e de uma qualquer força invisível decidida a apoderar-se do Santo Graal. Seja o lá o Graal o que for.

Sophie perguntou a si mesma se valeria a pena arriscar a vida para descobri-lo.

Quando o furgão blindado voltou a arrancar, Langdon verificou, satisfeito,

que era agora muito mais fácil de dirigir... e muito mais silencioso.

— Sabe o caminho para Versalhes?

— Porquê, está com vontade de fazer turismo?

— Não, tenho um plano. Há um historiador de religião que conheço e que vive perto de Versalhes. Não recordo exatamente onde, mas podemos procurar.

Fui várias vezes a casa dele. Chama-se Leigh Teabing. É um ex-historiador da British Royal Academy.

— E vive em Paris?

— A paixão da vida dele é o Graal. Quando começaram a aparecer rumores a respeito da Chave de Abóbada do Priorado, há cerca de quinze anos, mudou-se para a França para poder visitar igrejas na esperança de descobri-la. Escreveu vários livros sobre a Chave de Abóbada e o Graal. Talvez possa ajudar-nos a descobrir como se abre isso e o que fazer com o que está lá dentro.

— Confia nele? — perguntou Sophie, receosa.

— Confio em que sentido? Em que não nos roubará a informação?

— E que não nos denunciará à Polícia.

— Não pretende lhe dizer que somos procurados pela Polícia. Espero que nos acolha em casa até termos conseguido resolver esta confusão.

— Robert, já lhe ocorreu que todas as estações de televisão de França estão provavelmente preparando-se para divulgar as nossas fotografias? Bezu Fache sempre soube usar os meios de informação em seu proveito. Vai fazer com que nos seja impossível ir aonde quer que seja sem sermos reconhecidos.

Formidável, pensou Langdon. A minha estreia na TV francesa vai ser em “Os Mais Procurados de Paris”. Pelo menos, Jonas Faukman ia ficar satisfeito; sempre que Langdon aparecia nos noticiários, as vendas dos seus livros davam um pulo.

— Esse homem é suficientemente seu amigo? — insistiu Sophie. Langdon duvidava que Teabing fosse do gênero de ver televisão, especialmente àquela hora da noite, mas mesmo assim a pergunta merecia ser considerada. O instinto dizia-lhe que podia confiar plenamente em Teabing. Um porto de abrigo ideal.

Considerando as circunstâncias, o inglês ia provavelmente fazer o possível e o impossível para ajudá-los. Não só lhe devia um favor, como era um

investigador do Graal, e Sophie afirmava que o avô fora o atual Grão-Mestre do Priorado de Sião. Quando Teabing soubesse disso, ia crescer-lhe água na boca à ideia de ajudá-los a desvendar o mistério.

— O Teabing pode ser um aliado poderoso — respondeu. Dependendo de quanto estivermos dispostos a contar-lhe.

— Fache vai provavelmente oferecer uma recompensa monetária.

Langdon riu.

— Acredite, dinheiro é a última coisa de que este sujeito precisa.

Leigh Teabing era rico da maneira que os pequenos países são ricos.

Descendente do primeiro duque de Lancaster, ganhara o seu dinheiro à maneira antiga: herdando-o. A propriedade que tinha nos arredores de Paris era um palácio do século XVII, com dois lagos privados.

Langdon conhecera-o vários anos antes, através da BBC. Teabing abordara a cadeia televisiva com a proposta de um comentário histórico em que contaria a explosiva história do Santo Graal a um público de milhões de espectadores. Os produtores tinham adorado a escaldante premissa de Teabing, a pesquisa que levara a cabo e as suas credenciais, mas tinham também receado que um conceito tão chocante e difícil de digerir manchasse a reputação de jornalismo de qualidade de que a estação gozava em todo o mundo. Por sugestão de Teabing, a BBC resolvera os seus problemas de credibilidade pedindo e registrrando a opinião de três respeitados historiadores de diversas partes do mundo. Todos elestinham corroborado com as suas próprias pesquisas a espantosa natureza do segredo do Santo Graal.

Langdon fora um dos escolhidos.

A BBC levara-o de avião até à propriedade de Teabing em Paris, para as filmagens. Sentara-se diante das câmaras, na opulenta sala de estar, e dissera o que tinha a dizer, admitindo o seu ceticismo inicial ao ouvir pela primeira vez a história alternativa do Santo Graal e descrevendo em seguida como anos de pesquisas o tinham convencido de que ela era de fato verdadeira. Finalmente, contribuíra com uma parte dos resultados das suas próprias pesquisas: uma série de ligações simbológicas que apoiavam de forma inquestionável as aparentemente controversas afirmações.

Quando o programa fora para o ar na Grã-Bretanha, a despeito das

personalidades envolvidas e das provas bem documentadas, a premissa ia de tal modo contra o grão do cristianismo popular que suscitara imediatamente um vendaval de hostilidade. Nunca chegara a ser transmitido nos Estados Unidos, mas as repercussões tinham ecoado através do Atlântico. Pouco depois, Langdon recebera um postal de um velho amigo, o bispo católico de Filadélfia. O postal dizia apenas: Você, Robert?

— Robert, tem certeza de que podemos confiar nesse homem?

— Absoluta. Somos colegas, ele não precisa de dinheiro e por acaso até sei que despreza as autoridades francesas. O governo francês cobra-lhe impostos exorbitantes por ele ter comprado um edifício histórico. Não vai ter vontade nenhuma de ajudar Fache.

Sophie ficou olhando em frente, para a negra fita da estrada.

— Se formos procurá-lo, quanto é que tenciona lhe contar?

Langdon fez um ar despreocupado.

— Acredite, Leigh Teabing sabe mais a respeito do Priorado de Sião e do Santo Graal do que qualquer outra pessoa neste mundo.

Sophie voltou-se para ele.

— Mais do que o meu avô?

— Queria dizer mais do que qualquer pessoa fora da irmandade.

— Como é que sabe que Teabing não é membro da irmandade?

— Teabing tem passado a v ida tentando divulgar a verdade a respeito do Santo Graal. O juramento do Priorado é manter essa verdade secreta.

— Parece-me que há aí um conflito de interesses.

Langdon compreendeu a preocupação dela. Jacques Saunière dera o criptex diretamente à neta, e embora ela não soubesse o que continha nem o que era deveria fazer com ele, hesitava em envolver um completo desconhecido.

Considerando a informação que podia estar ali em causa, tinha provavelmente razão.

— Não precisamos falar da Chave de Abóbada ao Teabing logo de início.

Talvez até nunca. A casa dele nos proporcionará um lugar onde poderemos descansar e pensar, e pode ser que quando lhe falarmos a respeito do Graal, comece a fazer uma ideia da razão por que o seu avô lhe deu o criptex.

— Nos deu o criptex — emendou ela.

Langdon sentiu um humilde orgulho e perguntou a si mesmo porque Saunière o teria incluído.

— Sabe mais ou menos onde vive esse senhor Teabing? — perguntou Sophie.

— A propriedade chama-se Château Villette.

Sophie voltou-se para ele, com uma expressão incrédula.

— Château Villette?

— Isso mesmo.

— Tem bons amigos.

— Conhece a propriedade?

— Passei por lá. Fica na área dos castelos. A vinte minutos daqui.

Langdon franziu a testa.

— Tão longe?

— Sim, o que lhe dá tempo suficiente para me explicar o que é realmente o Santo Graal.

Langdon hesitou.

— Digo-lhe na casa do Teabing. Eu e ele especializámo-nos em diferentes áreas da lenda, de modo que, entre os dois, ficará com a imagem completa. —

Sorriu. — Além disso, o Graal tem sido a vida dele, e ouvir a teoria do Santo Graal da boca de Leigh Teabing será como ouvir a história da relatividade da boca de Einstein.

— Esperemos que Leigh não se importe de receber visitas tardias.