O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 95 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Noventa e Dois

O poder de persuasão do Professor continuava a maravilhá-lo. O bispo Aringarosa confiara tudo. Deixara-se cegar pelo seu próprio desespero.

Aringarosa estava muito ansioso por acreditar. Embora não gostasse particularmente do Professor, Rémy orgulhava-se de ter conquistado a confiança do homem e de tê-lo ajudado de uma forma tão substancial. Mereci o meu salário.

— Ouça com atenção — disse o Professor. — Leve o Silas até à residência da Opus Dei e deixe-o a algumas ruas de distância. Depois vá a St. Jame’s Park.

Fica junto do Parlamento e do Big Ben. Pode estacionar a limusine na parada dos Horse Guards. Falamos lá.

E cortou a ligação.

C A P Í T U L O 92

O King’sCollege, fundado por Jorge IV, em 1829, tem o seu Departamento de Teologia e Estudos Religiosos em um terreno doado pela coroa, contíguo ao Parlamento.

O Departamento de Religião do King’s College orgulha-se não só dos seus cento e cinquenta anos de experiência nas áreas do ensino e da pesquisa, mas também da criação, em 1982, do Instituto de Pesquis a de Teologia Sistemática, dotado de uma das mais completas e eletronicamente avançadas bibliotecas de pesquisa religiosa do mundo.

Langdon ainda se sentia trêmulo quando ele e Sophie entraram na biblioteca, vindos da chuva. A s ala de pesquisa primária era tal como Teabing a descrevera

— uma espetacular câmara octogonal dominada por uma enorme mesa redonda à volta da qual o rei Artur e os seus cavaleiros poderiam sentir-se em casa não fosse a presença de doze computadores de monitor plano. No extremo oposto da sala, a bibliotecária servia-se de uma xícara de chá e preparava-se para mais um dia de trabalho.

— Bela manhã — disse, com o seu jovial sotaque inglês, deixando o chá e dirigindo-se a eles. — Posso ajudá-los?

— Sim, obrigado — respondeu Langdon. — Chamo-me...

— Robert Langdon — interrompeu-o ela, com um agradável sorriso. — Sei quem é.

Por um instante, Langdon receou que Fache o tivesse posto também na televisão inglesa, mas o sorriso da bibliotecária sugeria que não. O fato era que ainda não se habituara àqueles momentos de inesperada celebridade. Por outro lado, se alguém neste mundo ia reconhecê-lo, era natural que fosse a

bibliotecária de um serviço de pesquisa de Estudos Religiosos.

— Pamela Gettum — disse a mulher, estendendo-lhe a mão. Tinha um rosto simpático e erudito e uma voz agradavelmente fluida. As lentes dos óculos que trazia suspensos do pescoço por um fio eram grossas.

— Muito prazer. — Langdon sorriu. — Esta é a minha amiga Sophie Neveu.

As duas mulheres cumprimentaram-se, e Gettum voltou-se imediatamente de novo para Langdon.

— Não sabia que vinham.

— Nem nós. Se não for nuito incômodo, gostaríamos muito que nos ajudasse a encontrar certas informações.

Gettum agitou-se, pareceu pouco segura.

— Normalmente, os nossos serviços têm de ser requisitados. A menos que seja convidado de alguém no colégio?

Langdon abanou a cabeça.

— Não, ninguém sabe que estamos aqui. Um amigo meu fala com grande apreço das suas capacidades. Sir Leigh Teabing? — Langdon sentiu uma pontada de tristeza ao pronunciar o nome. — Da British Royal Academy?

Gettum riu.

— Oh, sim! Que personagem. Fanático! Sempre que vem aqui, segue as mesmas linhas de pesquisa. Graal. Graal. Graal. Juro que o homem mais depressa morre do que desiste. — Piscou-lhes um olho. — Tempo livre e dinheiro permitem alguns luxos bem simpáticos, não é verdade? Um autêntico D. Quixote, esse Sir Leigh.

— Há alguma possibilidade de nos ajudar? — perguntou Sophie. — é muito importante.

Gettum olhou em redor para a biblioteca des erta e voltou a piscar-lhes um olho.

— Bem, não posso alegar que estou muito ocupada, não é? Desde que assinem o pedido, suponho que ninguém se importará muito. O que é que procuram?

— Estamos tentando descobrir um túmulo em Londres.

Gettum fez um ar de dúvida.

— Temos cerca de vinte mil. Não podem ser um pouco mais específicos?

— É o túmulo de um cavaleiro. Não sabemos o nome.

— Um cavaleiro. Já reduz consideravelmente a área. Muito menos comum.

— Não temos muita informação sobre o cavaleiro que procuramos —

explicou Sophie —, mas isto é o que sabemos. — E mostrou o pedaço de papel onde escrevera as duas primeiras linhas do poema.

Hesitantes em mostrar o poema inteiro a um desconhecido, Langdon e Sophie tinham decidido revelar apenas as duas primeir as linhas, as que identificavam o cavaleiro. Criptografia compartimentada, chamara-lhe Sophie. Quando uma agência de informações interceptava um código que contivess e dados sensíveis, distribuía-o por vários criptólogos. Deste modo, quando era decifrado, nenhum dos envolvidos ficava sabendo a totalidade da mensagem.

Naquele caso, a precaução era provavelmente exc essiva; mesmo que aquela bibliotecária lesse todo o poema, identificasse o túmulo e soubesse que globo faltava, a informação seria inútil sem o criptex.

Gettum detetou a urgência nos olhos do famoso erudito americano, quase como se encontrar rapidamente aquele túmulo fosse uma questão de importância crucial. E a mulher de olhos verdes que o acompanhava parecia igualmente ansiosa.

Intrigada, pôs os óculos e examinou o papel que acabavam de entregar-lhe.

Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou.

O fruto do seu labor uma sagrada fúria granjeou.

Lançou um olhar aos visitantes.

— O que é isto? Uma espécie de caça ao tesouro de Harvard?

A gargalhada de Langdon soou forçada.

— Sim, uma coisa nesse gênero.

Gettum hesitou, sentindo que não estavam contando-lhe tudo. Mesmo assim, a curiosidade levou a melhor, e deu por si a examinar cuidadosamente os versos.

— Segundo a rima, um cavaleiro fez qualquer coisa que lhe granjeou a ira de Deus, mas mesmo assim um papa teve a generosidade de enterrá-lo aqui em Londres.

Langdon assentiu.

— Lembra-lhe alguma coisa?

Gettum dirigiu-se a um dos computadores.

— Assim de repente, não. Mas vejamos o que conseguimos sacar da base de dados.

Ao longo das duas últimas décadas, o Instituto de Pesquisa de Teologia Sistemática do King’s College tinha usado programas de leitura ótica, juntamente com ferramentas de tradução, para digitalizar e catalogar uma enorme coleção de textos — enciclopédias sobre religião, biografias religiosas, escrituras sagradas em dúzias de línguas, histórias, cartas do Vaticano, diários de clérigos, tudo o que pudesse ser qualificado como um escrito sobre a espiritualidade humana. Por se encontrarem agora sob a forma de bits e de bytes, e não de páginas físicas, os dados contidos na maciça colectânea tinham-se tornado infinitamente mais acessíveis.

Sentando-se diante do computador, Gettum lançou um olhar ao pedaço de papel e começou a teclar.

— Vamos começar por uma pesquisa booleana simples, com umas poucas palavras-chave óbvias, vendo o que acontece.

— Obrigado.

Gettum teclou as palavras:

LONDRES, CAVALEIRO, PAPA

Quando clicou o botão de SEARCH, foi como se sentisse o zumbido do enorme servidor situado no subsolo estivesse verificando dados à velocidade de 500 MB/seg.

— Estou pedindo ao sistema que nos mostre quaisquer documentos cujo texto completo contenha todas estas três palavras-chave. Vamos obter mais resultados do que queremos, mas é uma boa maneira de começar.

O visor já mostrava os primeiros resultados.

Pintar o papa. Colectânea de retratos de Sir Joshua Reynolds. London University Press.

Gettum abanou a cabeça.

— Obviamente, não é o que procuramos.

Passou para a peça seguinte.

Os escritos de Londres de Alexander Pope por G. Wilson Knight.

Voltou a abanar a cabeça.

O sistema continuou a procurar, e os resultados começaram a surgir mais rapidamente do que o normal. Apareceram dúzias de textos, muitos deles sobre o escritor inglês do século XVIII Alexandre Pope, cuja poesia irônico-épica e contrarreligiosa incluía, aparentemente, numerosas referências a cavaleiros e a Londres.

Gettum lançou um rápido olhar ao campo numérico na parte de baixo do monitor.

O computador, calculando o atual número de resultados e multiplicando-o pela percentagem da base de dados que faltava ainda investigar, dava uma ideia aproximada da quantidade de informação que seria encontrada. Aquela pesquisa ia, segundo parecia, produzir um volume obsceno de informação.

Número total de resultados estimado: 2692.

— Temos de refinar mais os parâmetros. — disse Gettum, interrompendo a pesquisa.

— É só o que têm a respeito do túmulo? Não há mais nada?

Langdon olhou para Sophie, parecendo hesitante.

Isto não é nenhuma caça ao tesouro, adivinhou Gettum. Ouvira rumores a respeito da experiência de Robert Langdon em Roma, no ano anterior. Fora dado àquele americano acesso à biblioteca mais segura do mundo — os Arquivos Secretos do Vaticano. Perguntou a si mesma que espécie de segredos Langdon descobrira e se aquela sua atual e desesperada procura de um misterioso túmulo londrino estaria relacionada com informação obtida no Vaticano. Era bibliotecária há tempo suficiente para saber qual a principal razão que levava as pessoas a Londres em busca de cavaleiros. O Graal.

Gettum sorriu e ajustou os óculos.

— São amigos de Leigh Teabing, estão na Inglaterra e andam à procura de um cavaleiro. — Entrelaçou as mãos. — Só posso deduzir que procuram o Graal.

Langdon e Sophie trocaram um olhar, sobressaltados.

— Meus amigos — continuou Gettum, rindo —, esta biblioteca é praticamente uma espécie de campo-base para quem procura o Graal. Incluindo Leigh Teabing. Só queria ter um shilling por cada vez que corri uma busca sobre

a Rosa, Maria Madalena, Sangreal, Merovíngios, o Priorado de Sião, etc., etc.

Não há quem não adore uma boa conspiração. — Tirou os óculos e olhou para eles. .— Preciso de mais informação.

No silêncio que se seguiu, Gettum adivinhou que o desejo de segredo dos visitantes estava a ser rapidamente sobrepujado pela necessidade que tinham de um resultado rápido.

— Isto é tudo o que sabemos — murmurou Sophie. Pedindo uma caneta a Langdon, escreveu mais duas linhas no papel que dera a Gettum: Procura o globo que no seu túmulo devia estar.

Ele fala de carne Rosada e de um útero a germinar.

Gettum sorriu para dentro. O Graal, claro, pensou, notando a referência à Rosa e ao útero a germinar.

— Posso ajudá-los — disse, erguendo os olhos do pedaço de papel. — Posso perguntar de onde vieram estes versos? E porque procuram um globo?

— Pode perguntar — respondeu Langdon, com um sorriso amável —, mas é uma longa história e nós temos muito pouco tempo.

— Soa-me a uma maneira delicada de me dizer que me meta na minha vida.

— Ficaremos eternamente em dívida para consigo, Pamela — disse Langdon

—, se conseguir descobrir quem é esse cavaleiro e onde foi enterrado.