O Código Da Vinci
Capítulo Nove
A imagem no visor mostrava um plano pormenorizado da Ala Denon, fornecido pelo Gabinete de Segurança do Louvre. Seguindo com os olhos o labirinto de galerias e corredores, depressa encontrou o que procurava. Bem no coração da Grande Galeria, um minúsculo ponto vermelho piscava.
La marque.
Fache mantinha a sua presa com rédea curta. E por boas razões. Robert Langdon já provara ser um sujeito muito esperto.
C A P Í T U L O 9
Para ter certeza de que a sua conversa com o senhor Langdon não seria interrompida, Bezu Fache desligara o celular. Infelizmente, tratava-se de um modelo dos mais caros, equipado com um rádio bi-direccional que, contrariando as suas ordens, um dos agentes estava naquele preciso instante usando par a contatá-lo.
— Capitaine — crepitou o telefone, como um walkie-talkie.
Fache cerrou os dentes, furioso. Não conseguia imaginar qualquer razão suficientemente impor tante para que Collet interrompesse aquela surveillance cachée, sobretudo em um ponto tão decisivo.
Dirigiu a Langdon um calmo olhar de desculpa.
— Um momento, por favor. — Tirou o telefone do cinto e apertou o botão do rádio. — Oui?
— Capitaine, un agent du Département de Cryptologie est arrivé.
A fúria de Fache evaporou-se instantaneamente. Um criptólogo? Embora a escolha do momento tivesse sido péssima, tratava-se provavelmente de boas notícias. Depois de ter descoberto o crítico texto de Saunière no chão da Galeria, Fache enviara por computador fotos do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperança de que alguém conseguisse explicar-lhe o que estava o conservador tentando dizer. A chegada do criptólogo devia significar que alguém conseguira decifrar a mensagem.
— Neste momento estou ocupado — disse Fache, e o seu tom deixava bem claro que alguém tinha pisado uma linha. — Diga ao criptólogo que espere no posto de comando.
Falarei com ele quando terminar.
— Com ela — corrigiu a voz. — É a agente Neveu.
Fache estava achando cada vez menos graça àquela chamada. Sophie Neveu era um dos maiores erros da DCPJ. Uma jovem déchiffreuse parisiense que estudara criptografia na Inglaterra, no Royal Holloway, Sophie Neveu fora impingida a Fache dois anos, no âmbito da tentativa do ministério de incorporar mais mulheres na força policial.
Esta incursão do ministro no politicamente correto estava, na opinião de Fache, enfraquecendo o Departamento. As mulheres não só não tinham as qualidades físicas exigidas pelo trabalho na Polícia, como a sua simples presença constituía uma perigosa distração para os agentes em campo. Como Fache sempre temera, Sophie Neveu estava revelando-se mais distraída do que a maior parte das suas colegas.
Com trinta e dois anos, tinha uma determinação que raiava o obstinado. A sua entusiástica adesão à nova metodologia criptológica britânica exasperava os veteranos criptólogos franceses mais graduados. E, o que era de longe o aspecto mais perturbador para Fache, havia a inescapável verdade universal de que, em um escritório cheio de homens de meia-idade, a presença de uma jovem atraente desviava inevitavelmente as atenções do trabalho em curso.
— A agente Neveu insiste em falar imediatamente com o senhor, capitão —
disse o homem que falava pelo rádio. — Tentei impedi-la, mas já está a caminho da Galeria.
Fache recuou um passo, incrédulo.
— Isso é inaceitável! Dei ordens expressas...
Por um instante, Robert Langdon pensou que Bezu Fache estava sofrendo uma apoplexia. O capitão ia a meio da frase quando parou de mover o queixo e esbugalhou os olhos, coruscantemente fixos em um ponto acima do ombro dele.
Antes que pudesse voltar-se, ouviu uma voz feminina dizer nas suas costas:
— Excusez-moi, messieurs.
Langdon completou a volta e viu uma jovem aproximar-se. Caminhava pelo corredor em direção a eles com passadas longas e fluidas... e um ar de absoluta segurança. Vestia informalmente — um comprido camisolão de lã creme que lhe chegava aos joelhos e calças pretas —, era atraente e poderia andar por volta dos trinta anos — Os espessos cabelos castanhos caíam-lhe soltos sobre os ombros,
emoldurando um rosto agradável. Ao contrário das falsas louras deslavadas que adornavam as paredes das cataratas de Harvard, aquela mulher era saudável, com uma beleza sem retoques e uma autenticidade que irradiavam uma autoconfiança impressionante.
Para seu enorme espanto, a mulher avançou diretamente para ele e estendeu-lhe a mão.
— Monsieur Langdon, sou a agente Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. — As palavras pareciam enrolar-se agradavelmente à volta do ligeiro sotaque franco-inglês. — É um prazer conhecê-lo.
Langdon apertou-lhe a mão macia e sentiu-se por um instante preso ao olhar dela.
Tinha uns olhos verde-azeitona, incisivos e límpidos. Fache inspirou fundo, claramente preparando-se para disparar uma reprimenda.
— Capitão — disse ela, voltando-se rapidamente e adiantando-se —, peço desculpas pela interrupção, mas...
— Ce n’est pas le moment! — rosnou Fache.
— Tentei telefonar-lhe — continuou Sophie, falando em inglês, como que num gesto de cortesia para com Langdon —, mas o seu celular estava desligado.
— Desliguei-o por uma boa razão — sibilou Fache. — Estou falando com o senhor Langdon.
— Decifrei o código numérico — anunciou ela, calmamente.
Langdon sentiu o pulso bater mais depressa. Decifrou o código?
Fache deu a impressão de não saber muito bem como reagir.
— Antes de explicar — continuou Sophie —, tenho uma mensagem urgente para o senhor Langdon.
O rosto de Fache adquiriu uma expressão de profunda contrariedade.
— Para o senhor Langdon?
Sophie assentiu, voltando-se de novo para Langdon.
— A sua embaixada pede-lhe que entre em contato, senhor Langdon. Têm uma mensagem para o senhor, dos Estados Unidos. Langdon reagiu com surpresa. A excitação que sentira por causa do código deu lugar a uma vaga preocupação. Uma mensagem dos Estados Unidos? Tentou imaginar quem poderia estar tentando entrar em contato com ele. Só alguns
colegas de Harvard sabiam que se encontrava em Paris.
Fache contraiu a larga mandíbula ao ouvir a notícia.
— A embaixada dos Estados Unidos? — perguntou, com um ar desconfiado.
— Como eles souberam que poderiam encontrar o senhor Langdon aqui?
Sophie encolheu os ombros.
— Aparentemente, telefonaram para o hotel e o concier ge disse-lhes que o senhor Langdon tinha saído com um agente da DCPJ.
Fache parecia confuso.
— E a embaixada contatou o Departamento de Criptologia da DCPJ?
— Não, senhor — respondeu Sophie, em tom firme. — Quando liguei para a central da DCPJ tentando contatá-lo, tinham uma mensagem para o senhor Langdon e pediram-me que lhe transmitisse, se conseguisse enc ontrá-lo.
A testa de Fache cavou-se numa ruga de aparente confusão. Abriu a boca para falar, mas já Sophie tornara a voltar-se para Langdon.
— Senhor Langdon — disse, tirando do bolso um pequeno pedaço de papel
—, tenho aqui o número do serviço de mensagens da embaixada. Pedem-lhe que telefone logo que possa. — Entregou-lhe o papel, olhando-o fixamente. — É
melhor fazer a chamada enquanto eu explico o código ao capitão Fache.
Langdon estudou o pedaço de papel. Tinha um número de telefone de Paris e o de uma extensão.
— Obrigado — disse, agora francamente preocupado. — Onde é que encontro um telefone?
Sophie começou a extrair um celular do bolso do camisolão, masFache afastou-a com um gesto da mão. Parecia o Vesúvio pronto a entrar em erupção.
Sem desviar os olhos de Sophie, pegou seu próprio celular e ofereceu-o.
— Esta linha é segura, senhor Langdon, Pode usá-la.
Langdon não conseguia perceber porque diabo estava Fache tão zangado com a jovem. Sentindo-se pouco à vontade, aceitou o celular. Fache arrastou imediatamente Sophie para alguns metros mais longe e pôs-se a descompô-la em voz baixa.
Simpatizando cada vez menos com o capitão, Langdon voltou as costas à estranha confrontação e ligou o celular. Depois de v erificar o pedaço de papel que Sophie tinha lhe dado, marcou o número.
Ouviu o sinal de chamada.
Um toque... dois toques... três toques...
Finalmente, a ligação foi estabelecida.
Langdon esperava ouvir a telefonista da embaixada, mas, em vez disso, deu por si escutando um atendedor automático. Estranhamente, reconheceu a voz gravada na fita.
Era a de Sophie Neveu.
— Bonjour, vous êtes bien chez Sophie Neveu — disse a voz de mulher. —
Je suis absente pour le moment, mais...
Confuso, Langdon voltou-se para Sophie.
— Desculpe, senhora Neveu? Julgo que deve ter me dado...
— Não, não, é o número correto — interrompeu-o rapidamente Sophie, como se já estivesse à espera da confusão dele. — A embaixada tem um sistema de mensagens automático. Tem de marcar um código de acesso para receber as suas mensagens.
— Mas... — começou Langdon.
— É o número de três dígitos que está no papel que lhe dei.
Langdon abriu a boca para explicar o estranho engano, mas Sophie lançou-lhe um olhar imperioso que durou apenas um instante. Os olhos verdes enviaram uma mensagem clara como a água:
Não faça perguntas. Ligue.
Cada vez mais confuso, Langdon marcou o número da extensão escrito no pedaço de papel: 454.
A mensagem gravada de Sophie foi imediatamente interrompida e Langdon ouviu uma voz eletrônica anunciar em francês: “Tem uma mensagem nova.”
Aparentemente, 454 era o código de acesso remoto de Sophie para ouvir as suas mensagens quando estava fora de casa.
Vou ouvir as mensagens desta mulher?
Langdon ouviu a fita rebobinar. Finalmente, parou, e a máquina voltou a arrancar.