O Código Da Vinci
Capítulo Trinta e Três
— Sophie! — A voz de Langdon foi como um intruso nos seus pensamentos.
— Pare! Pare!
Arrancada das recordações, Sophie pisou bruscamente o freio, e o carro derrapou até imobilizar-se.
— O quê? O que foi?
Langdon apontou para o fundo da rua que se estendia à frente deles.
Quando viu aquilo, Sophie sentiu o sangue gelar nas veias. Cem metros mais à frente, o cruzamento estava bloqueado por dois carros da DCPJ, estacionados com um propósito evidente. Fecharam a Avenue Gabriel!
Langdon deixou escapar um lúgubre suspiro.
— Suponho que por esta noite a embaixada está fora dos limites!
No fundo da rua, os dois agentes da DCPJ que estavam de pé junto doscarros olhavam agora na direção deles, aparentemente curiosos a respeito daqueles faróis que tinham se detido de forma tão abrupta a cem metros de distância.
— Okay, Sophie, dê a volta. Muito devagar.
Sophie engrenou a marcha-atrás e fez uma cuidadosa inversão de marcha em três tempos. Quando se afastavam, ouviu o guinchar de pneus atrás deles. As sirenes começaram a uivar.
Com uma praga, Sophie acelerou fundo.
C A P Í T U L O 33
O Smart de Sophie corria pelo bairro diplomático, esgueirando-se por entre embaixadas e consulados, até que finalmente escapou por uma transversal e virou à direita, voltando aos Champs-Elysées.
Langdon, agarrado ao banco com tanta força que tinha os nós dos dedos brancos, olhou para trás, em busca de quaisquer sinais de perseguição.
Subitamente, desejou não ter decidido fugir. Não decidiu, recordou a si mesmo.
Fora Sophie que tomara essa decisão ao atirar o marcador GPS pela janela do banheiro dos homens do Louvre. Agora, enquanto se afastavam a toda a velocidade da embaixada, serpenteando por entre o escasso tráfego dos Champs-Elysées, Langdon sentia que as suas opções se deterioravam. Apesar de Sophie ter aparentemente conseguido despistar a Polícia, pelo menos no momento, Langdon duvidava que a sorte deles durasse muito tempo.
Dirigindo com uma só mão, Sophie procurava qualquer coisa no bolso do camisolão. Tirou de lá um pequeno objeto de metal e entregou-o.
— É melhor dar uma olhada nisto, Robert. Foi o que o meu avô me deixou atrás da Madonna dos Rochedos.
Com um estremecimento de excitação, Langdon pegou o objeto e examinou-o. Era pesado e cruciforme. O primeiro instinto foi que tinha na mão um pieu funerário — uma réplica em miniatura de uma estaca destinada a ser cravada no chão para assinalar uma sepultura. Mas então reparou que a haste encimada pela cruz era prismática e triangular.
E era, também, pontuada por centenas de marcas hexagonais que pareciam ter sido finamente executadas e distribuídas de uma forma aleatória.
— É uma chave trabalhada a laser — explicou Sophie. — Esses hexágonos
são lidos por um olho eletrônico.
— Uma chave? Langdon nunca vira nada igual.
— Veja do outro lado — disse ela, mudando de faixa e passando um cruzamento.
Quando Langdon voltou a chave, o queixo caiu-lhe de espanto. Ali, intricadamente gravadas no centro da cruz, havia uma flor-de-lis estilizada e as iniciais P.S.!
— Sophie! — exclamou. — É o brasão de que lhe falei! O emblema oficial do Priorado de Sião.
Ela assentiu.
— Como lhe disse, vi essa chave há muitos anos. O meu avô pediu-me que nunca falasse dela a quem quer que fosse.
Os olhos de Langdon continuavam presos à chave gravada. A alta tecnologia envolvida no seu fabrico e o símbolo imemorial que ostentava exsudavam uma estranha fusão dos mundos antigo e moderno.
— Disse-me que abria um cofre onde conservava muitos segredos. —
Langdon sentiu um arrepio ao imaginar o tipo de segredos que um homem como Jacques Saunière poderia guardar. De que serviria a uma antiga irmandade uma chave futurista era algo de que não fazia a menor ideia. O Priorado existia única e exclusivamente com o propósito de proteger um segredo. Um segredo incrivelmente poderoso. Terá esta chave alguma coisa a ver com ele? O
pensamento era esmagador.
— Sabe o que é que ela abre? Sophie parec eu desapontada.
— Estava na esperança de que você soubesse.
Langdon permaneceu silencioso enquanto fazia girar a chave entre os dedos, examinando-a.
— Parece cristã — sugeriu Sophie.
Langdon não estava muito certo disso. A pega da chave não era a tradicional cruz cristã de fuste comprido e sim uma cruz quadrada — com quatro braços de igual comprimento —, mil e quinhentos anos anterior ao cristianismo. Aquele tipo de cruz não tinha qualquer das conotações de crucifixão associadas à cruz latina, concebida pelos Romanos como um instrumento de tortura. Langdon ficava sempre espantado ao verificar quão poucos eram os cristãos que, ao
olharem para o “crucifixo”, percebiam que a violenta história do seu símbolo se reflectia no próprio nome: “cruz” e “crucifixo” derivavam do verbo latino crudare: torturar.
— Tudo o que posso dizer — respondeu Langdon — é que as cruzes de braços iguais, como esta, são consideradas cruzes pacíficas. A sua configuração quadrada torna-as pouco práticas para a crucifixão e o equilíbrio dos elementos vertical e horizontal transmite uma noção da união natural entre o masculino e o feminino, tornando-as consistentes com a filosofia do Priorado.
Sophie lançou-lhe um olhar desanimado.
— Não faz a mínima ideia, não é?
Langdon franziu a testa.
— Nenhuma.
— Okay, temos de sair da rua. — Olhou pelo retrovisor. — Precisamos de um lugar seguro para tentarmos descobrir o que é que essa chave abre.
Langdon pensou com saudade no seu confortável quarto no Ritz.
Obviamente, não era uma opção.
— Que lhe parece os meus anfitriões na Universidade Americana de Paris?
— Muito óbvio. Fache vai lá direito.
— Deve conhecer pessoas. Vive aqui.
— Fache vai verificar os meus registrros de telefone e e-mail, interrogar os meus colegas. Os meus contatos estão todos comprometidos. E não vale a pena tentar um hotel, porque todos eles exigem identificação.
Langdon voltou a perguntar a si mesmo se não teria sido melhor arriscar e deixar que Fache o prendesse no Louvre.
— Vamos telefonar para a embaixada. Posso explicar o que se passou e eles mandam alguém nos encontrar em algum lugar.
— Encontrar conosco? — Sophie voltou-se e olhou para ele, como se o achasse louco. — Robert, está sonhando. A sua embaixada não tem jurisdição fora do espaço que ocupa. Mandar alguém buscar-nos equivaleria a ajudar um fugitivo ao governo francês.
Não vai ac ontecer. Se entrar na sua embaixada e pedir asilo temporário, é uma coisa, mas pedir-lhes que ajam contra a Polícia francesa? — Abanou a cabeça. — Telefone para a sua embaixada, e eles aconselham-no a evitar mais
estragos e entregar-se ao Fache.
Depois prometem usar todos os canais diplomáticos para lhe conseguir um julgamento justo. — Lançou um olhar às elegantes fachadas das lojas ao longo dos Champs-Elysées. — Quanto dinheiro tem consigo?
Langdon verificou a carteira.
— Cem dólares e alguns euros. Porquê?
— Cartões de crédito?
— Claro.
Sophie acelerou, e Langdon teve a sensação de que ela estava arquitetando um plano. A frente deles, no fim dos Champs-Elysées, erguia-se o Arco do Triunfo — o tributo de Napoleão ao seu próprio poder militar — rodeado pela maior praça de França, uma enormidade com nove faixas de rodagem.
Os olhos de Sophie estavam mais uma vez no retrovisor enquanto se aproximavam da praça.
— Nós os despistamos, por enquanto — disse —, mas não duramos mais cinco minutos se continuarmos neste carro.
Nesse caso, roube um diferente, pensou Langdon. Já que somos criminosos.
— O que é que vai fazer?
Sophie entrou na praça com os pneus chiando.
— Confie em mim.
Langdon não respondeu. A confiança não o levara muito longe naquela noite.
Puxando para cima a manga do casaco, consultou o relógio — um exemplar de coleção de um relógio de pulso Rato Mickey que os pais lhe tinham dado quando fizera dez anos.
Apesar do ar infantil do mostrador atrair de vez em quando alguns olhares espantados, nunca tivera outro; os desenhos animados de Walt Disney tinham sido o seu primeiro contato com a magia da forma e da cor, e o Rato Mickey servia agora para lhe lembrar todos os dias que devia se manter jovem de coração. Naquele momento, porém, os braços de Mickey estavam inclinados em um estranho ângulo, indicando uma hora igualmente estranha: 2:51.
— Relógio interessante — comentou Sophie, olhando para o pulso enquanto contornava a praça.
— É uma longa história — disse ele, voltando a baixar a manga do casaco.
— Calculo que deva ser. — Dirigiu-lhe um rápido sorriso e saiu da praça, seguindo para norte, afastando-se do centro da cidade. Passou à justa dois sinais verdes, chegou ao terceiro cruzamento e virou à esquerda no Boulevard Malesherbes. Deixaram para trás as ruas sossegadas e orladas de árvores do bairro diplomático e internaram-se em uma sombria zona industrial. Sophie virou bruscamente à esquerda e, instantes depois.
Langdon soube onde estavam. Gare Saint-Lazare.
À frente deles, o terminal ferroviário, com o seu teto de vidro, parecia o bizarro resultado de um cruzamento entre um hangar e uma estufa. As estações de trens europeias nunca dormem. Mesmo àquela hora, havia um a dúzia de táxis parados diante da porta principal. Havia furgões onde se vendia sanduíches e água mineral e grupos de adolescentes de ar desgrenhado que saíam da estação esfregando os olhos e olhando em redor como se tentassem descobrir em que cidade acabavam de c hegar. Um pouco mais à frente, dois agentes da Polícia, de pé no passeio, davam indicações a meia dúzia de desorientados turistas.
Sophie parou o Smart atrás da fila de táxis, na área de estacionamento proibido, apesar de haver fartura de lugares disponíveisno parque do outro lado da rua. Antes que Langdon pudesse perguntar-lhe onde ia, já tinha saído do carro. Correu até à janela do táxi parado à frente deles e começou a falar com o motorista.
Quando desceu do Smart, Langdon a viu entregar ao taxista um grosso maço de notas. O homem assentiu e então, para espanto de Langdon, arrancou sem eles.