O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 37 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Trinta e Quatro

— Que aconteceu? — perguntou Langdon, indo juntar-se a Sophie no passeio enquanto o táxi desaparecia.

Sophie já ia a caminho da entrada da estação.

— Venha. Vamos comprar dois bilhetes para o primeiro trem que saia de Paris.

Langdon correu para alcançá-la. O que começara como uma corrida de quilômetro e meio até à embaixada dos Estados Unidos tinha-se transformado

numa evacuação da cidade. Estava gostando cada vez menos da ideia.

C A P Í T U L O 34

O motorista que foi buscar o bispo Aringarosa no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci conduzia um pequeno e vulgar Fiat pr eto.

Aringarosa recordou os tempos em que todos os carros do Vaticano eram grandes automóveis de luxo, com m edalhões nas portas e flâmulas ostentando o brasão da Santa Sé. Esses dias desapareceram para sempre. Os carros do Vaticano eram agora menos ostentosos e só muito raramente usavam qualquer emblema que os distinguisse. O Vaticano afirmava que se tratava de cortar despesas para melhor servir as dioceses, mas Aringarosa suspeitava de que era mais por questões de segurança. O mundo enlouquecera e, em muitos lugares da Europa, anunciar o amor por Jesus Cristo equivalia a pintar um alvo no teto do carro.

Ajeitando a sotaina negra à volta das pernas, Aringarosa instalou-se no banco traseiro do Fiat e preparou-se para a longa viagem até Castel Gandolfo. A mesma que fizera cinco meses antes.A viagem do ano passado a Roma, pensou, com um suspiro. A noite mais longa da minha vida.

Cinco meses antes, o Vaticano telefonara pedindo a sua presença imediata em Roma. Não fora dada qualquer explicação. Os bilhetes estão no aeroporto. A Santa Sé esforçava-se ao máximo por manter um véu de mistério, mesmo face aos escalões mais elevados da hierarquia.

A misteriosa convocação, suspeitara Aringarosa, não passava provavelmente de uma tentativa do Papa e de outros altos funcionários do Vaticano de aproveitarem a carona do mais recente êxito público da Opus Dei: a inauguração da nova Sede Nacional em Nova Iorque. A Architectural Digest chamara ao edifício da organização “um brilhante farol de catolicismo sublimemente integrado na paisagem moderna”, e, ultimamente, o Vaticano parecia atraído por

tudo o que incluísse a palavra moderno.

Aringarosa não tinha outro remédio senão aceitar o convite, ainda que com relutância. Não exatamente um fã da atual administração pontifícia, o bispo Aringarosa, como a maior parte do clero conservador, vira com grande preocupação o novo Papa instalar-se no seu primeiro ano no cargo. Um liberal sem precedentes, Sua Santidade chegara ao papado na sequência de um dos mais controversos e invulgares conclaves da história do Vaticano. Agora, em vez de mostrar humildade face à sua inesperada ascensão, o Santo Padre não hesitava em utilizar todo o poderdo mais alto cargo da cristandade. Aproveitando uma perturbadora vaga de apoio liberal no seio do Colégio Cardinalício, o Papa declarava ser sua missão “rejuvenescer o Vaticano e atualizar o catolicismo, adequando-o ao terceiro milênio”. O que, trocado por miúdos, temia Aringarosa, significava que o homem era na realidade suficientemente arrogante para pensar que podia reescrever as leis de Deus e reconquistar os corações daqueles que achavam que as exigências do verdadeiro catolicismo tinham se tornado muito inconvenientes no mundo atual.

Aringarosa usara todo o seu peso político — muito substancial, considerando o tamanho da congregação da Opus Dei e a imponência da sua conta bancária —

para tentar persuadir o Papa e os respectivos conselheiros de que suavizar as leis da Igreja era não só uma infidelidade e uma covardia, mas também um suicídio político.

Recordara-lhes que a mais recente “revisão” nas leis da Igreja — o fiasco do Vaticano II — deixara um legado devastador: a frequência das igrejas era agora mais baixa do que nunca, a fonte dos donativos estava secando e não havia sequer padres suficientes para todos os templos.

As pessoas precisam de estrutura e orientação por parte da Igreja, insistia Aringarosa, não de palmadinhas nas costas e indulgência!

Nessa noite, alguns meses depois, quando o Fiat saíra do aeroporto, Aringarosa ficara surpreendido ao verificar que, em vez de estar dirigindo-se ao Vaticano, subia uma sinuosa estrada de montanha em direção a leste.

— Onde vamos? — perguntara ao condutor.

— Para os Montes Albanos — respondera o homem. — A reunião de Vossa Eminência é em Castel Gandolfo.

A residência de Verão do Papa? Aringarosa nunca a vira, nem tinha o mínimo

desejo de vê-la. Além de ser a casa de férias do Papa, a cidadela do século XVI albergava também a Specula Vaticana — o Observatório do Vaticano — um dos mais avançados observatórios astronômicos da Europa. Aringarosa nunca se sentira à vontade com a necessidade histórica que o Vaticano parecia ter de se imiscuir na ciência. Qual era a vantagem de fundir ciênc ia e fé? Era manifestamente impossível a alguém que tivesse fé em Deus praticar uma ciência livre de parcialidades. E a fé não tinha necessidade de qualquer confirmação física das suas crenças.

Seja como for, ali está, pensou, quando Castel Gandolfo surgiu à vista, recortando-se contra um estrelado céu de Novembro. Da estrada de acesso, a cidadela parecia um grande monstro de pedra considerando a hipótese de um salto suicida. Empoleirado na beira de um precipício, o castelo debruçava-se sobre o berço da civilização italiana — o vale onde os Curiazi e os Orazi se tinham batido muito antes da fundação de Roma.

Mesmo em silhueta, Gandolfo era digno de ser visto: um imponente exemplo de arquitectura defensiva, ecoando o poder da sua dramática situação no alto do penhasco.

Infelizmente, como Aringarosa teve então ocasião de ver, o Vaticano estragara tudo construindo sobre os telhados duas enormes cúpulas de alumínio destinadas aos telescópios, fazendo o outrora grave edifício parecer um orgulhoso guerreiro toucado com um par de chapéus de festa.

Quando desceu do carro, um jovem padre jesuíta saiu apressadamente do edifício para o receber.

— Bem-vindo, Eminência. Sou o padre Mangano. Um dos astrônomos do Observatório.

Que bom para você. Aringarosa resmungou um cumprimento e seguiu o seu anfitrião até ao átrio do castelo — um vasto espaço aberto, decorado com uma confusa mistura de arte renascentista e imagens astronômicas.

Continuando a seguir o jovem padre, que subia a ampla escada de mármore travertino, Aringarosa viu sinaisque indicavam caminho para c entros de conferências, anfiteatros e serviços de informações.

Espantou-o pensar que o Vaticano, incapaz de proporcionar diretivas firmes e coerentes que permitissem o crescimento espiritual, arranjava mesmo assim tempo para fazer palestras sobre astrofísica a grupos de turistas.

— Diga-me — perguntou, dirigindo-se ao jovem padre — quando foi que a cauda começou a agitar o cão?

O padre lançou-lhe um olhar de estranheza.

— Eminência?

Aringarosa agitou uma mão, decidindo não se lançar nessa ofensiva particular naquela noite. O Vaticano enlouqueceu. Como um pai preguiçoso que acha mais fácil aceder a todos os caprichos de um filho mimado do que manter-se firme e ensinar valores, a Igreja estava tornando-se cada vez mais m ole, tentando reinventar-se para se adaptar a uma cultura que perdera o norte.

O corredor do último piso era largo, ricamente decorado e apontava uma única direção — umas enormes portas de carvalho com uma placa metálica: BIBLIOTECA ASTRONÔMICA

Aringarosa já ouvira falar daquele lugar — A Biblioteca Astronômica do Vaticano —, que se dizia conter mais de vinte e cinco mil volumes, incluindo obras raras de Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e Secchi. Alegadamente, era ali que os mais altos funcionários do papado tinham as suas reuniões privadas...

as reuniões que preferiam não ter dentro dos muros da Cidade do Vaticano.

Nunca, enquanto se aproximava das portas, o bispo Aringarosa imaginaria a chocante notícia que ia receber lá dentro, ou a mortal cadeia de acontecimentos que essa notícia ia pôr em movimento. Só uma hora mais tarde, quando saiu aturdido da reunião, compreendeu bem as devastadoras implicações do que acabava de ouvir. Daqui a seis meses!, pensara. Deus nos ajude!

Agora, uma vez mais sentado em um Fiat, o bispo Aringarosa percebeu que tinha os punhos cerrados só de pensar naquela primeira reunião. Abriu as mãos e obrigou-se a inspirar fundo, relaxando os músculos.