O Código Da Vinci
Capítulo Cem
A expressão de Teabing tornou-se grave, e depois res oluta.
— Lamento que pense assim, mademoiselle. — Voltou-se a apontou a arma para Langdon. — E você, Robert? Está comigo ou contra mim?
C A P Í T U L O 100
O corpo do bispo Manuel Aringarosa já tinha suportado muitos gêneros de dor, mas, mesmo assim, o ardor causticante da bala que lhe atravessou o peito foi uma experiência completamente nova. Funda e grave. Não um ferimento da carne... algo mais próximo da alma.
Abriu os olhos, tentando ver, mas a chuva que lhe batia no rosto borrava-lhe a visão. Onde estou? Sentia que braços fortes o carregavam, lhe transportavam o corpo flácido como uma boneca de trapos, a saia da sotaina preta batendo ao vento como uma bandeira molhada.
Erguendo penosamente uma mão, limpou os olhos e viu que o homem que o levava nos braços era Silas. O gigantesco albino avançava aos tropeções por um passeio envolto em névoa, gritando por um hospital, a voz transformada em um dilacerante uivo de agonia. Olhava fixamente em frente, com os seus olhos vermelhos, e as lágrimas escorriam-lhe, mais grossas do que a chuva, pelo rosto branco e salpicado de sangue.
— Meu filho — murmurou Aringarosa —, está ferido.
Silas baixou os olhos, o rosto contorcido em uma máscara de angústia.
— Perdoe-me, oh, perdoe-me, Pai — murmurou, como se a dor fosse de mais para lhe permitir falar.
— Não, Silas. Eu é que peço perdão. A culpa foi minha. O Professor me prometeu que não haveria mortes, e eu disse que lhe o obedecesse em tudo.
Estava muito ansioso.
Tive muito medo. Você e eu fomos enganados. O Professor nunca tencionou entregar-nos o Santo Graal.
Aninhado nos braços do homem que acolhera havia tantos anos, o bispo
Aringarosa sentiu-se recuar no tempo. Até ao seu modesto começo, construindo uma pequena igreja católica em Oviedo, com Silas. E mais tarde, em Nova Iorque, quando proclamara a glória de Deus com o recém-construído Centro da Opus Dei na Lexington Avenue.
Cinco meses antes, Aringarosa r ecebera notícias devastadoras. O trabalho de toda a sua vida estava em perigo. Recordava, com vívido pormenor, a reunião em Castel Gandolfo que transformara a sua vida... as notícias que tinham desencadeado toda aquela calamidade.
Entrara na Biblioteca Astronômica do Vaticano de cabeça bem erguida, à espera de ser saudado por centenas de mãos acolhedoras, todas desejosas de dar-lhe palmadinhas nas costas, de felicitá-lo pela maneira magnífica como representara o catolicismo na América. Mas só estavam presentes três pessoas.
O secretarius do Vaticano. Obeso. Sombrio.
Dois cardeais italianos. Untuosos, Astutos.
— Secretarius. — disse Aringarosa, intrigado.
O rotundo supervisor das questões legais apertou-lhe a mão e indicou-lhe a cadeira em frente dele.
— Por favor, esteja à vontade.
Aringarosa sentou-se, sentindo que algo de grave estava acontecendo.
— Não tenho grande jeito para conversa de social, Eminência — disse o secretarius. — Permita, pois, que vá direito ao motivo da sua presença aqui.
— Por favor. Fale abertamente. — Aringarosa lançou um olhar de soslaio aos dois cardeais, que pareciam estar avaliando-o com um ar de farisaica expectativa.
— Como bem sabe — começou o secretarius —, Sua Santidade, e outras pessoas em Roma, tem andado muito preocupada com as repercussões políticas de algumas das práticas mais controversas da Opus Dei.
Aringarosa ficou instantaneamente eriçado. Já tinha passado várias vezes por aquela mesma situação com o novo pontífice que, para seu grande des gosto, acabara, infelizmente, por revelar-se um fervoroso defensor de mudanças liberais no seio da Igreja.
— Quero assegurar-lhe — acrescentou rapidamente o secretarius — que Sua Santidade não tem a intenção de alterar seja de que maneira for o modo como
gere o seu ministério. Espero bem que não!
— Nesse caso, que estou fazendo aqui?
O obeso funcionário suspirou.
— Eminência, não sei como dizer isto de uma forma delicada, de modo que vou dizê-lo de uma forma direta. Há dois dias, o Conselho do Secretariado votou por unanimidade revogar a sanção do Vaticano à Opus Dei.
Aringarosa tinha certeza de que só podia ter ouvido mal.
— Como?
— Dito mais simplesmente, de hoje a seis meses, a Opus Dei deixará de ser considerada uma prelatura do Vaticano. Passará a ser uma Igreja por direito próprio. A Santa Sé se desligará da sua instituição. Sua Santidade concordou e a papelada legal já está sendo preparada.
— Mas... isso é impossível!
— Pelo contrário, é muito possível. E necessário. Sua Santidade está descontente com as suas técnicas de recrutamento agressivas e com as suas práticas de mortificação corporal. — Fez uma pausa. — E também com a sua política no que respeita às mulheres. Muito francamente, a Opus Dei tornou-se um empecilho e um embaraço.
O bispo Aringarosa estava estupefato.
— Um embaraço?
— Certamente não pode estar surpreso por as coisas terem chegado a este ponto.
— A Opus Dei é a única organização católica em crescimento! Temos mais de mil e cem padres!
— Verdade. Uma questão embaraçosa para todos nós.
Aringarosa pôs-se bruscamente de pé.
— Pergunte a Sua Santidade se a Opus Dei foi um embaraço em 1982, quando ajudamos o Banco do Vaticano!
— O Vaticano sempre lhes estará grato por isso — respondeu o secretarius, em tom apaziguador —, e no entanto, há quem pense que a sua munificência em 1982 foi a única razão de lhes ter sido concedido o estatuto de prelatura.
— Isso não é verdade! — A insinuação ofendia profundamente o bispo Aringarosa.
— Seja como for, tencionamos agir de boa-fé. Estamos preparando um acordo de separação que inclui o reembolso desse dinheiros. Que será pago em cinco prestações.
— Estão tentando me comprar? — perguntou Aringarosa. — Pagando-me para eu sair sem criar complicações? Quando a Opus Dei é a única voz da razão que resta!
Um dos cardeais ergueu os olhos.
— Desculpe, disse... razão!
Aringarosa debruçou-se por cima da mesa, e a voz tornou-se cortante como uma lâmina.
— Não sabem verdadeiramente porque é que os católicos estão abandonando a Igreja? Olhe à sua volta, Eminência. As pessoas perderam o respeito. O rigor da fé pertence ao passado. A doutrina tornou-se uma espécie de bufete.
Abstinência, confissão, comunhão, batismo, missa... é à escolha... tirem o que lhes agradar e deixem o resto. Que espécie de orientação espiritual a Igreja está oferecendo?
— Não é possível aplicar aos modernos seguidores de Cristo leis do século III
— interveio o segundo cardeal. — Essas regras não funcionam na sociedade atual.
— Bem, parecem funcionar para a Opus Dei.
— Bispo Aringarosa — disse o secretarius, com um tom que pretendia encerrar a discussão. — Por respeito pela sua associação com o papa anterior, Sua Santidade deseja dar à Opus Dei seis meses para cortar voluntariamente os seus laços com o Vaticano.
Sugiro que alegue as suas diferenças de opinião com a Santa Sé e se estabeleça como organização cristã independente.
— Recuso! — declarou Aringarosa. — E direi isso pessoalmente.
— Receio que Sua Santidade já não esteja interessada em um encontro com o senhor.
Aringarosa voltou a pôr-se de pé.
— Ele não se atreveria a abolir uma prelatura pessoal estabelecida por um papa anterior!
— Lamento. — Os olhos do secretarius não cederam um milímetro. — O
Senhor o dá, o Senhor o tira.
Aringarosa saíra daquela reunião confuso e em pânico. De volta à Nova Iorque, passara dias inteiros olhando para a paisagem da cidade, esmagado pela desilusão, vencido pela tristeza que lhe inspirava o futuro do cristianismo.
Só várias semanas mais tarde recebera o telefonema que mudara tudo. A pessoa que telefonara, um homem, tinha sotaque francês e identificava-se como Professor — um título comum na Prelatura. Disse que sabia dos planos do Vaticano para retirar o apoio à Opus Dei.
Como ele pode saber coisa semelhante?, perguntara Aringarosa a si mesmo.
Alimentara a esperança de que só alguns dos funcionários mais altamente colocados do Vaticano tivessem conhecimento da eminente anulação da Opus Dei. Aparentemente, porém, a notícia correra. No que dizia respeito a conter mexericos, não havia no mundo paredes mais porosas do que as da Cidade do Vaticano.
— Tenho ouvidos em todo o lado, Eminência — sussurrara o Professor —, e, com esses ouvidos, adquiri alguns conhecimentos. Com a sua ajuda, posso descobrir o esconderijo de uma relíquia sagrada que lhe proporcionará um poder imenso... poder suficiente para fazer o Vaticano vergar perante o senhor. Poder suficiente para salvara Fé. — Fizera uma pausa. — Não apenas pela Opus Dei.
Por todos nós.
O Senhor o levou... e o Senhor o dá. Aringarosa sentira um glorioso raio de esperança.
— Explique-me o seu plano.
O bispo Aringarosa estava inconsciente quando as portas do St. Mary’s Hospital se abriram com um silvo. Silas entrou cambaleando, delirante de exaustão. Deixando-se cair de joelhos no chão de lajes, gritou pedindo ajuda.
Todos que estavam na área da recepção ficaram olhando de boca aberta para aquele albino seminu que segurava nos braços estendidos, como que uma oferenda, o corpo ensanguentado de um padre.
O médico que ajudou Silas a estender o corpo do bispo numa maca fez um ar sombrio ao tatear o pulso de Aringarosa.
— Perdeu muito sangue. Não tenho grandes esperanças.
Aringarosa recuperou a consciência por um instante, os seus olhos piscaram,
procuraram Silas.
— Meu filho...
A alma de Silas trovejou de remorso e raiva.
— Pai, nem que me leve a vida toda, hei de encontrar aquele que nos enganou, e hei de matá-lo.