O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 11 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Oito

fizera sentir-se pouco à vontade. Além da adesão da pr elatura aos rituais arcanos da mortificação corporal, o modo como encarava as mulheres era, no mínimo, medieval. Ficara chocada ao saber que as numerárias eram obrigadas a limpar, enquanto eles estavam na missa, as residências dos homens, e ainda por cima sem qualquer espécie de remuneração; as mulheres dormiam em tarimbas de madeira, ao passo que os homens dispunham de enxergas de palha; e as mulheres tinham de sujeitar-se a exigências ainda mais estritas de mortificação corporal... tudo como penitência acrescida pelo pecado original.

Aparentemente, a dentada que Eva dera na maçã do conhecimento era uma dívida que as mulheres estavam condenadas a pagar por toda a eternidade.

Infelizmente, enquanto a maior parte das Igrejas Católicas estava avançando na direção certa no que dizia respeito aos direitos das mulheres, a Opus Dei ameaçava inverter o processo. Fosse como fosse, a irmã Sandrine recebera as suas ordens.

Fazendo rodar as pernas para fora da cama, pôs-se lentamente de pé, gelada pelo frio das pedras nos pés descalços. E à medida que o frio lhe subia pelo corpo, sentiu uma inesperada apreensão.

Intuição feminina?

Seguidora de Deus, a irmã Sandrine aprendera a encontrar paz nas vozes calmantes da sua própria alma. Naquela noite, porém, essas vozes mantinham-se silenciosas na igreja deserta que a rodeava.

C A P Í T U L O 8

Langdon não conseguia desviar os olhos das palavras que brilhavam com uma luminescência violeta rabiscadas no soalho de parquet. A última comunicação de Jacques Saunière parecia-lhe o mais improvável como mensagem de despedida que conseguia imaginar.

Dizia o seguinte:

13-3-2-21-1-1-8-5

O, Draconian devil!

Oh, lame saint!

Embora não fizesse a mínima ideia do que aquilo significava, Langdon compreendia a intuição de Fache de que o pentáculo tinha qualquer coisa a ver com o culto do diabo.

O, draconiano demônio!

Saunière deixara uma referência explícita ao diabo. Não menos bizarra era a série de algarismos.

— Uma parte parece um código numérico.

— Sim — concordou Fache. — Os nossos criptografistas já estão trabalhando nisso.

Acreditamos que esses números podem ser a chave que nos conduzirá ao assassino.

Talvez um número de telefone, ou qualquer tipo de identificação social. Têm algum significado simbólico para você?

Langdon voltou a olhar para os números, sentindo que ia demorar horas para tirar dali qualquer espécie de significado simbólico. Se é que era essa a intenç ão do Saunière.

À primeira vista, os números pareciam perfeitamente aleatórios. Estava habituado a progressões simbólicas que fizessem alguma espécie de sentido, mas tudo ali — . o pentáculo, as palavras, os algarismos — parecia díspar ao nível mais fundamental.

— Afirmou há pouco — disse Fache — que todas as ações do conservador Saunière aqui na Galeria fizeram parte de um esforço para deixar uma mensagem... culto da deusa, ou qualquer coisa nessa linha? Como é que essa mensagem encaixa no que temos aqui?

Langdon sabia que a pergunta era retórica. Aquele estranho comunicado não encaixava de maneira nenhuma no seu cenário de culto da deusa.

O, draconiano demônio? Oh, santo imperfeito?

— O texto parece ser uma espécie de acusação — prosseguiu Fache. — Não concorda?

Langdon tentou imaginar os minutos finais de Jacques Saunière, fechado na Grande Galeria, sabendo que estava prestes a morrer. Parecia lógico.

— Uma acusação contra o seu assassino faz sentido, suponho.

— O meu trabalho, claro, consiste em pôr um nome nessa pessoa. Deixe-me perguntar-lhe o seguinte, senhor Langdon. A seu ver, tirando os números, o que é que esta mensagem tem de mais estranho?

Mais estranho? Um moribundo barricara-se na galeria, desenhara um pentáculo no próprio ventre e rabiscara uma misteriosa acusação no soalho. Tudo ali era estranho!

— A palavra “draconiano”? — arriscou, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Langdon estava razoavelmente convencido de que uma referência a Draco, o implacável político do século VII a. C., era bastante improvável c omo último pensamento.

— “Draconiano demônio” parece-me uma estranha escolha de palavras.

— Draconiano? — A voz de Fache soou com uma nota de impaciência. — A escolha de palavras de monsieur Saunière está longe de parecer-me aqui a questão mais importante.

Langdon não sabia muito bem que questão tinha Fache em mente, mas começou a suspeitar de que Draco e o capitão se teriam dado bastante bem.

— Jacques Saunière era francês — continuou Fache, secamente. — Vivia em Paris. E no entanto, optou por escrever esta mensagem...

— Em inglês — terminou Langdon, compreendendo agora aonde o capitão queria chegar.

Fache assentiu.

— Précisément. Alguma ideia do motivo?

Langdon sabia que Saunière falava impecavelmente inglês, mas não fazia a mínima ideia de que razão o levara a escolher essa língua para escrever as suas últimas palavras. Encolheu os ombros.

Fache voltou a apontar para o pentáculo traçado no ventre do cadáver.

— Nada a ver com o culto do diabo? Continua tendo certeza?

Langdon já não tinha certeza de coisa nenhuma.

— A simbologia e o texto parecem não coincidir. Lamento não poder ajudá-lo mais.

— Talvez isto torne as coisas um pouco mais claras. — Fache afastou-se do corpo e ergueu um pouco mais o projetor de luz negra, fazendo o feixe incidir numa área maior. — E agora?

Para espanto de Langdon, um círculo rudimentar brilhou à volta do cadáver do conservador. Aparentemente, Saunière deitara-se de costas e fizera rodar a caneta de feltro à sua volta em uma série de longos arcos, como que inscrevendo-se em um círculo.

Em um súbito relâmpago, o significado tornou-se claro.

— O Homem de Vitrúvio — ofegou Langdon. Saunière criara uma réplica em tamanho natural do mais célebre desenho de Leonardo da Vinci.

Considerado o desenho anatomicamente mais correto da sua época, O

Homem de Vitrúvio de da Vinci tornara-se, nos tempos modernos, um ícone da cultura, aparecendo representado em cartazes, bases para copos e camisetas por

todo o mundo. O famoso desenho consistia em um círculo perfeito no qual estava inscrita a figura de um homem nu... de braços e pernas estendidos e abertos.

Da Vinci. Langdon sentiu um arrepio de espanto. A clareza das intenções de Saunière era inegável. Nos momentos finais da sua vida, o conservador do museu do Louvre despojara-se das roupas e dispusera o seu próprio corpo em uma evidente reprodução de O Homem de Vitrúvio.

O círculo fora o elemento crítico que faltara. Sendo um símbolo de Proteção feminino, o círculo à volta do corpo do homem nu completava a mensagem de da Vinci: harmonia entre o masculino e o feminino. A questão era agora, no entanto, descobrir por que razão Saunière imitara o famoso desenho.

— Senhor Langdon — disse Fache —, sabe certamente que Leonardo da Vinci tinha uma tendência para as artes mais obscuras. Langdon ficou surpreso pela extensão do conhecimento do policial sobre da Vinci, um conhecimento que sem dúvida contribuía muito para explicar as suas suspeitas a respeito de um culto diabólico. Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu gênio vis ionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois “crimes” que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projetavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários em uma ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.

A incompreensão gera desconfiança, pensou Langdon.

Até a vastíssima produção de deslumbrante arte cristã de da Vinci só servira para reforçar a sua reputação de hipocrisia espiritual. Aceitando centenas de lucrativas encomendas do Vaticano, Leonardo pintava temas religiosos não como uma expressão das suas próprias crenças mas como uma operação comercial —

uma maneira de financiar o estilo de vida opulento que apreciava. Infelizmente, da Vinci era um brincalhão que muitas vezes se divertia mordendo pela calada a mão que o alimentava. Incorporava em muitos dos seus quadros religiosos

simbolismos escondidos que eram tudo menos cristãos: tributos às suas próprias convicções e um sutil manguito feito à Igreja. Langdon dera inclusive, na National Gallery de Londres, uma conferência subordinada ao tema: “A Vida Secreta de Leonardo: O Simbolismo Pagão na Arte Cristã”.

— Compreendo a sua preocupação — disse —, mas da Vinci nunca chegou verdadeiramente a praticar qualquer espécie de artes negras. Era um homem excepcionalmente espiritual, ainda que em constante conflito com a Igreja. — E

enquanto dizia estaspalavras, um estranho pensamento acudiu-lhe ao espírito.

Olhou novamente para a mensagem escrita no chão. Ó, draconiano demônio!

Oh, santo imperfeito!

— Sim — incitou Fache.

Langdon pesou cuidadosamente as suas palavras.

— Estava só pensando que o c onservador Saunière partilhava muitas ideologias espirituais com da Vinci, incluindo a preocupação com a tentativa da Igreja de eliminar o sagrado feminino da religião moderna. É possível que, ao imitar o famoso desenho de da Vinci, estivesse apenas expressando a frustração que ambos partilhavam relativamente à demonização da deusa que a Igreja moderna leva a cabo.

Os olhos de Fache endureceram.

— Acha que monsieur Saunière está chamando à Igreja santo imperfeito e demônio draconiano?

Langdon tinha de admitir que era um pouco forçado, embora o pentáculo parecesse, a um certo nível, dar força à ideia.

— Estou apenas dizendo que o senhor Saunière dedicou a vida a estudar a história da deusa, e que nada nem ninguém contribuiu mais para apagar essa história do que a Igreja Católica. Parece-me razoável que tivesse tentado exprimir o desapontamento que sentia no seu último adeus.

— Desapontamento? — perguntou Fache, agora abertamente hostil. — Esta mensagem parece mais enraivecida do que desapontada, diria eu.

Langdon estava chegando ao fim da paciência.

— Capitão, pediu-me um palpite sobre o que o senhor Saunièr e poderia querer dizer, e é isso que estou dando.

— Que isto é uma acusação à Igreja? — Fache contraiu a mandíbula, falando

por entre os dentes cerrados. — Senhor Langdon, tenho visto muita morte neste meu trabalho, e deixe-me dizer-lhe uma coisa. Quando um homem é morto por outro homem, não acredito que o seu último pensamento seja escrever uma obscura afirmação espiritual que ninguém compreenderá. Acredito que pensa numa única coisa. — A voz sibilada do capitão cortou o ar. — La vengeance.

Acredito que o conservador Saunière escreveu isto para nos dizer quem o matou.

Langdon ficou olhando para ele.

— Mas não faz qualquer espécie de sentido.

— Não?

— Não — respondeu, cansado e frustrado. — Disse-me que o Senhor Saunière foi atacado no seu gabinete por alguém que aparentemente tinha convidado para entrar.

— Sim.

— Parece, portanto, razoável assumir que o conservador Saunière conhecia o seu atacante.

Fache assentiu.

— Continue.

— Se o senhor Saunière conhecia a pessoa que o matou, que espécie de acusação é esta? — Apontou para o chão. — Códigos numéricos? Santos imperfeitos? Demônios draconianos? Pentáculos desenhados na barriga? Tudo isto é muito crítico.

Fache franziu a testa, como se a ideia nunca lhe tivesse ocorrido.

— É verdade.

— Considerando as circunstâncias — continuou Langdon —, julgo que se Saunière quisesse dizer-nos quem o matou, teria escrito o nome dessa pessoa.

Quando Langdon acabou de dizer estas palavras, um sorriso de satisfação distendeu os lábios de Fache pela primeira vez em toda a noite.

— Précisément — disse. — Précisément.

Estou testemunhando o trabalho de um mestre, pensou o tenente Collet enquanto ajustava os auscultadores e esc utava as palavras de Fache. O agent supérieur sabia que tinham sido momentos como aquele que tinham elevado Fache aos pináculos da Polícia francesa.

O capitão Fache faz o que mais ninguém ousa fazer.

A delicada arte de cajoler era uma habilidade que a moderna investigação policial deixara morrer, uma arte que exigia uma excepcional compostura sob pressão. Poucos homens possuíam o sangue frio necessário para este tipo de operação, mas, em Fache, era como uma capacidade inata. A sua contenção e paciência roçavam o robótico. A única emoção de Fache naquela noite parecia ser uma intensa determinação, como se capturar aquele criminoso fosse de algum modo uma questão pessoal. As instruções que dera aos seus agentes, uma hora antes, tinham sido inusitadamente sucintas e seguras.

Sei quem assassinou o conservador Jacques Saunière, dissera. Sei o que tenho de fazer.

Nada de erros, esta noite.

E até ao momento, nenhum erro fora cometido.

Collet ainda não conhecia as provas em que Fache baseava a sua certeza da culpabilidade do suspeito, mas sabia que mais valia não questionar os instintos do Touro.

A intuição de Fache parecia quase sobrenatural. Deus murmura-lhe ao ouvido, insistira certa vez um agente na sequência de uma demonstração particularmente impressionante do sexto sentido do capitão. Collet via-se forçado a admiti-lo: se havia um Deus, Fache fazia parte da sua lista especial de amigos. O capitão ouvia missa e confessava-se com zelosa regularidade —

muito mais do que a frequência nos dias santos observada por outros altos funcionários em nome das boas relações públicas. Quando o Papa visitara Paris, alguns anos antes, Fache usara toda a sua influência para conseguir a honra de uma audiência, e agora tinha, pendurada na parede do gabinete, uma fotografia em que aparecia ao lado do pontífice. O Touro Papal, chamavam-lhe em segredo os seus subordinados.

Collet achava irônico o fato de as raras tomadas de posição públicas de Fache nos últimos anos terem sido para manifestar a sua virulenta reação ao escândalo da pedofilia praticada por sacerdotes. Esses padres deviam ser enforcados duas vezes, declarara.

Uma pelos seus crimes contra as crianças, outra por enlamearem o bom-nome da Igreja Católica. Collet tinha a estranha sensação de que era este último crime que mais enfurecia o capitão Fache.

Voltando-se para o computador portátil, Collet passou a ocupar-se da outra metade das suas responsabilidades naquela noite: o sistema de localização GPS.