O Código Da Vinci
Capítulo Quinze
Naquela noite, havia ainda tempo de sobra. A inopinada interrupção de Sophie Neveu, apesar de infeliz, não passara de um pequeno inconveniente. Já fora embora, e Fache estava longe de ter jogado todas as suas cartas. Ainda não dissera a Langdon que o nome dele aparecera escrito no chão pela vítima. P. S.
Encontrar Robert Langdon. A reação do americano àquela prova ia com certeza ser extremamente reveladora.
— Capitão? — chamou um dos agentes do outro lado do gabinete. — Acho que é melhor atender esta chamada. — Estava segurando o auscultador do telefone, com um ar preocupado.
— Quem é? — perguntou Fache. O agente franziu a testa.
— O diretor do Departamento de Criptologia.
— E?
— É a respeito da Sophie Neveu. Há qualquer coisa que não confere.
C A P Í T U L O 15
Já era hora.
Silas sentia-se forte ao descer do Audi preto, com a brisa noturna agitando-lhe o hábito. Andam no ar ventos de mudança. Sabia que a tarefa que tinha pela frente exigia mais delicadeza do que força, e por isso deixou a pistola no carro. A Heckler Koch USP 40, de treze tiros, que o Professor lhe arranjara. Uma arma de morte não tem lugar na casa de Deus.
A praça diante da grande igreja estava deserta àquela hora. As únicas almas visíveis eram, no extremo mais distante, duas prostitutas adolescentes que exibiam os seus dotes aos olhosde meia dúzia de turistas retardatários. A visão daqueles corpos núbeis acendeu em Silas a familiar labareda de desejo. O
músculo da coxa contraiu-se instintivamente, fazendo com que as pontas agudas do cilício martirizassem a carne.
A luxúria evaporou-se instantaneamente. Havia dez anos que Silas negava fielmente a si mesmo todos os prazeres sexuais, mesmo os solitários. Era O
Caminho.
Sabia que sacrificara muito para seguir a Opus Dei mas recebera muito mais em troc a.
Um voto de castidade e a entrega de todos os seus bens materiais quase não lhe pareciam um sacrifício. Considerando a pobreza de onde viera e os horrores sexuais a que fora sujeito na prisão, a castidade era até uma mudança bem-vinda.
Agora, ao voltar a França pela primeira vez depois de ter sido preso e enviado para uma prisão em Andorra, sentia a terra natal a testá-lo, a ir buscar recordações violentas ao fundo da sua alma redimida. Voltou a nascer, recordou a si mesmo. Naquele dia, o serviço de Deus exigira o pecado do assassínio, e
isso era um sacrifício que sabia que teria de guardar em silêncio no seu coração por toda a eternidade.
A medida da tua fé é a medida da dor que for capaz de suportar dissera-lhe o Professor. Silas conhecia bem a dor e estava ansioso para provar o seu valor aos olhos do Professor, aquele que tinha garantido que as suas ações eram ordenadas por um poder superior.
— Hago la obra de Dios — murmurou Silas, encaminhando-se para a porta da igreja.