O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 59 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Cinquenta e Seis

Ela assim fez. Teabing estava sorrindo, com um ar satisfeito. Sophie olhou para a ilustração e viu, para seu grande espanto, que todos os convivas sentados à mesa tinham um copo de vinho, incluindo Cristo. Treze copos. Além disso, os copos eram de vidro, pequenos e sem pé. Não havia qualquer cálice no quadro.

Nenhum Santo Graal.

Os olhos de Teabing cintilaram.

— Um pouco estranho, não lhe parece, considerando que tanto a Bíblia como a lenda padr ão do Graal celebram este momento como o do aparecimento definitivo do Santo Graal. Estranhamente, da Vinci parece ter esquecido de pintar a Taça de Cristo.

— Com toda certeza os estudiosos de arte devem tê-lo notado.

— Ficaria chocada se soubesse que anomalias da Vinci incluiu nesta pintura e que a maior parte dos estudiosos não vê ou prefere simplesmente ignorar. Este fresco é, na realidade, a chave para o mistério do Santo Graal. Da Vinci põe tudo a descoberto em A Ultima Ceia.

Sophie examinou ansiosamente a ilustração.

— Este fresco nos diz o que o Graal realmente é?

— Não o que é — sussurrou Teabing —, mas antes quem é. O Santo Graal não é uma coisa. É, na realidade... uma pessoa.

C A P Í T U L O 56

Sophie ficou olhando para Teabing por um longo instante, e então voltou-se para Langdon.

— O Santo Graal é uma pessoa?

Langdon assentiu.

— Uma mulher, para ser mais exato.

Pela expressão vazia do rosto de Sophie, Langdon percebeu que a tinham perdido.

Lembrou-se de ter tido uma reacção semelhante da primeira vez que ouvira a afirmação.

Fora só depois de compreender a simbologia por detrás do Graal que a ligação feminina se tornara clara. Teabing estava, aparentemente, pensando algo na mesma linha.

— Robert — disse — talvez seja a altura de o simbologista esclarecer? —

Dirigiu-se a uma pequena mesa e regressou com uma folha de papel que pousou à frente de Langdon.

Langdon tirou uma caneta do bolso do casaco.

— Conhece, claro, os símbolos modernos para masculino e feminino? –

começou.

— Claro — disse Sophie.

— Estes — continuou ele, calmamente — não são os símbolos originais de masculino e feminino. Muitas pessoas assumem erradamente que o símbolo masculino deriva de um escudo e uma lança, enquanto o feminino representa um espelho refletindo a beleza. Na realidade, derivam dos antigos símbolos astronômicos do deus-planeta Marte e da deusa-planeta Vênus. Os símbolos

originais são muito mais simples. — Langdon traçou outro desenho no papel.

— Este é o ícone original de masculino — explicou. — Um falo rudimentar.

— Muito apropriado — comentou Sophie.

— Sem dúvida — acrescentou Teabing.

— Este ícone é formalmente conhecido como a lâmina, e representa agressão e virilidade. Na realidade, este mesmíssimo símbolo fálico continua hoje a ser usado nos uniformes militares como indicação do posto.

— É verdade. — Teabing sorriu — Quantos mais pênis um fulano tem, mais alto é o seu posto. Coisas de rapazes.

Langdon fez uma careta.

— Continuando, o símbolo feminino, como imagina, é o exato oposto. — Fez outro desenho no papel. — A este chama-se o cálice.

Sophie ergueu os olhos, parecendo surpreendida. Langdon viu que ela tinha feito a ligação.

— O cálice — disse — assemelha-se a uma taça, ou vaso, e, mais importante ainda, evoca a forma do útero da mulher. Este símbolo transmite feminidade e fertilidade. — Olhou diretamente para ela. — Sophie, a lenda nos diz que o Santo Graal é um cálice... uma taça. Mas descrevê-lo como um cálice é na realidade uma alegoria destinada a proteger a sua verdadeira natureza. Ou seja, a lenda usa o cálice como uma metáfora para algo muito mais importante.

— Uma mulher — disse Sophie.

— Exatamente. — Langdon sorriu. — O Graal é literalmente o antigo símbolo da feminidade e o Santo Graal representa o sagrado feminino e a deusa, hoje perdidos, praticamente eliminados pela Igreja. O poder da fêmea e a sua capacidade de produzir vida eram outrora muito sagrados, mas representavam uma ameaça à ascensão de uma Igreja predominantemente masculina, e por isso o sagrado feminino foi demonizado e declarado impuro. Foi o homem, e não Deus, que criou o conceito do “pecado original”, em que Eva prova a maçã e provoca a queda da raça humana. A mulher, em tempos a criadora de vida, passava a ser a inimiga.

— Devo acrescentar — acrescentou Teabing — que este conceito da mulher como criadora de vida era o alicerce da antiga religião. O parto era místico e poderoso.

Infelizmente, a filosofia cristã decidiu defraudar o poder criativo da fêmea ignorando a verdade biológica e fazendo do homem o Criador. O Gênesis diz-nos que Eva foi feita a partir de uma costela de Adão. A mulher tornou-se um rebento do homem. E um rebento pecaminoso, ainda por cima. O Gênesis foi o começo do fim para a deusa.

— O Graal — engrenou Langdon — é simbólico da deusa perdida. Quando o Cristianismo apareceu, as antigas religiões pagãs não morreram facilmente. As lendas sobre demandas cavalheirescas do Graal perdido eram de fato histórias de demandas proibidas do sagrado feminino perdido. Os cavaleiros que afirmavam

“procurar o cálice” falavam em código como uma forma de se protegerem contra uma Igreja que subjugara as mulheres, banira a Deusa, queimara os incréus e proibira a reverência pagã pelo sagrado feminino.

Sophie abanou a cabeça.

— Peço desculpas. Quando disseram que o Santo Graal é uma pessoa, pensei que fosse uma pessoa de carne e osso.

— E é — disse Langdon.

— E não uma pessoa qualquer — interpôs Teabing, pondo-se excitadamente de pé. — Uma mulher que transportava consigo um segredo tão poderoso que, se revelado, ameaçava arrasar os próprios alicerces do Cristianismo!