Origem

Dan Brown · Capítulo 101 de 107

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Origem

Capítulo 104

Quando chegou à porta, olhou para a praça ensolarada e deu de cara com a maior multidão de repórteres e cinegrafistas que já vira diante do Palácio Real.

Soltando o ar dos pulmões, ajeitou os óculos e organizou os pensamentos. Depois saiu sob o sol da Espanha.

No apartamento real, o príncipe Julián assistiu à coletiva de Mónica Martín enquanto se despia. Sentia-se exausto, mas também incrivelmente aliviado ao saber que Ambra estava de volta em segurança e dormindo um sono profundo. As últimas palavras dela durante a conversa telefônica o tinham enchido de felicidade.

Julián, para mim significa tudo você pensar em começarmos de novo – só você e eu –, longe dos olhos do público. O amor é uma coisa particular. O mundo não precisa saber de cada detalhe.

Ambra o havia enchido de otimismo num dia pesado devido à perda do pai.

Enquanto ia pendurar o paletó do terno, sentiu algo no bolso – o frasco de solução oral de morfina que o médico deixara no quarto do pai. Julián ficara espantado ao encontrar o frasco na mesa ao lado do bispo Valdespino. Vazio.

Na escuridão do quarto hospitalar, enquanto a verdade dolorosa ficava clara, Julián tinha se ajoelhado e feito uma oração silenciosa pelos dois velhos amigos.

Depois, enfiou o vidro de morfina no bolso com discrição.

Antes de sair do quarto, levantou gentilmente de cima do peito de seu pai o rosto de Valdespino, riscado de lágrimas, e reposicionou o bispo sentado na cadeira… com as mãos cruzadas em oração.

O amor é uma coisa particular, tinha ensinado Ambra. O mundo não precisa saber de cada detalhe.

C A P Í T U L O 1 0 4

A colina de quase 180 metros de altura conhecida como Montjuïc situa-se no canto sudoeste de Barcelona e é coroada pelo Castell de Montjuïc – uma ampla fortaleza do século XVII empoleirada num penhasco íngreme com uma vista ampla para o Mar das Baleares. Além disso, a colina é lar do espantoso Palau Nacional –

um enorme palácio em estilo renascentista que serviu como peça central da Exposição Internacional de 1929 em Barcelona.

Sentado sozinho numa cabine de teleférico suspensa na metade da montanha, Robert Langdon olhou para a paisagem luxuriante abaixo, aliviado por estar fora da cidade. Eu precisava de uma mudança de perspectiva, pensou, saboreando a calma da paisagem e o calor do sol do meio-dia.

Após acordar no meio da manhã no Gran Hotel Princesa Sofia, tinha tomado uma chuveirada escaldante e depois se refestelado com ovos, aveia e churros enquanto consumia um bule inteiro de café Nomad e navegava pelos noticiários matinais nos canais de TV.

Como era esperado, a história de Edmond Kirsch dominava as transmissões de rádio e televisão, com comentaristas debatendo acaloradamente as teorias e previsões, bem como seu impacto potencial sobre a religião. Como professor, cujo amor principal era pelo ensino, Robert Langdon teve de sorrir.

O diálogo é sempre mais importante do que o consenso.

Nesta manhã já tinha visto os primeiros empreendedores em ação, alguns vendendo adesivos para carros – KIRSCH É MEU COPILOTO E O SÉTIMO REINO É O REINO

DE DEUS! – e outros, estátuas da Virgem Maria ao lado de bonequinhos de Charles Darwin.

O capitalismo não tem religião, pensou Langdon, lembrando-se da imagem que mais tinha gostado de ver naquela manhã: um skatista com uma camiseta onde estava escrito à mão:

SOU MONTE@IGLESIA.ORG

Segundo a mídia, a identidade do influente informante da internet continuava sendo um mistério. Os papéis de vários outros atores sombrios, como o Regente, o bispo falecido e os palmarianos, também permaneciam envoltos em incerteza.

Era tudo um amontoado de conjecturas.

Por sorte, o interesse público pela violência ocorrida durante a apresentação de

Kirsch parecia estar dando lugar à empolgação genuína diante do conteúdo do seu anúncio. O grand finale de Kirsch – seu retrato passional de um amanhã utópico –

havia tocado profundamente milhões de espectadores e, da noite para o dia, colocado no topo das listas de mais vendidos livros clássicos com abordagem otimista com relação à tecnologia.

ABUNDÂNCIA: O FUTURO É MELHOR DO QUE VOCÊ IMAGINA

O QUE A TECNOLOGIA QUER

A SINGULARIDADE ESTÁ PRÓXIMA

Langdon admitiu para ele mesmo que, apesar de suas dúvidas antiquadas quanto à ascensão da tecnologia, hoje estava se sentindo muito mais tranquilo com relação às perspectivas da humanidade. Os noticiários já anunciavam novidades que permitiriam aos seres humanos limpar os oceanos poluídos, produzir água potável ilimitada, cultivar alimentos no deserto, curar doenças mortais e até lançar enxames de drones movidos a energia solar que poderiam pairar sobre países em desenvolvimento, fornecer internet grátis e ajudar a trazer “o bilhão mais pobre”

para a economia mundial.

À luz do súbito fascínio do mundo pela tecnologia, Langdon achava difícil imaginar que praticamente ninguém sabia sobre Winston. Kirsch guardara um segredo notável sobre sua criação. Sem dúvida, o mundo ficaria sabendo do supercomputador de dois lóbulos de Edmond, o E-Wave, que tinha sido deixado para o Centro de Supercomputação de Barcelona. E Langdon se perguntou quanto tempo iria se passar até que os programadores começassem a usar as ferramentas de Edmond para criar Winstons novos em folha.

A cabine do teleférico estava começando a esquentar e Langdon ficou ansioso para sair ao ar puro e explorar a fortaleza, o palácio e a famosa Font Màgica.

Precisava pensar em outra coisa que não fosse Edmond durante uma hora e conhecer alguns lugares.

Curioso para saber mais sobre a história de Montjuïc, virou os olhos para a detalhada placa informativa que havia dentro da cabine. Começou a ler, mas só chegou ao fim da primeira frase.

O nome Montjuïc deriva do catalão medieval Montjuich (Monte dos Judeus) ou do latim Mons Jovicus (Monte de Júpiter).

Langdon parou abruptamente. Tinha acabado de fazer uma conexão inesperada.

Não pode ser coincidência.

Quanto mais pensava, mais a coisa o incomodava. Por fim pegou o celular de Edmond e releu a citação de Winston Churchill na tela inicial, sobre moldar o próprio legado.

A história será gentil comigo porque pretendo escrevê-la.

Depois de um longo momento, apertou o ícone do W e levou o telefone ao ouvido.

A linha se conectou imediatamente.

– Professor Langdon, presumo? – entoou uma voz familiar com sotaque inglês.

– O senhor ligou bem na hora. Eu me aposento daqui a pouco.

Sem preâmbulo, Langdon declarou:

– Monte, em espanhol, é o mesmo que hill, em inglês.

Winston soltou seu risinho característico.

– É verdade.

– E iglesia se traduz em inglês como “church”.

– Acertou na mosca, professor. Talvez o senhor pudesse ensinar espanhol…

– O que significa que monte@iglesia se traduz literalmente em inglês como hill@church.

Winston fez uma pausa.

– Correto de novo.

– E considerando que seu nome é Winston e que Edmond tinha um grande afeto por Winston Churchill, acho o endereço “hill@church” uma certa…

– Coincidência?

– É.

– Bom – disse Winston, parecendo achar divertido. – Estatisticamente eu teria de concordar. Achei que o senhor descobriria.

Langdon olhou incrédulo pela janela.

– Monte@iglesia.org… é você.

– Correto. Afinal de contas, alguém precisava abanar as chamas para Edmond.

Quem melhor do que eu? Criei monte@iglesia.org para alimentar os sites de conspiração. Como o senhor sabe, as conspirações têm vida própria e avaliei que a atividade de Monte na internet aumentaria a audiência geral de Edmond em até 500

por cento. O número efetivo acabou sendo 620 por cento. Como o senhor disse antes, acho que Edmond ficaria orgulhoso.

A cabine do teleférico balançou com o vento e Langdon lutou para assimilar a notícia.

– Winston… Edmond pediu para você fazer isso?

– Explicitamente, não, mas as instruções dele exigiam que eu encontrasse maneiras criativas de fazer com que a apresentação fosse assistida pelo maior número possível de pessoas.

– E se você fosse apanhado? O pseudônimo monte@iglesia não é o mais difícil de decifrar que eu já vi.

– Só um punhado de pessoas sabe que eu existo e, em cerca de oito minutos, estarei apagado permanentemente, de modo que não estou preocupado. “Monte” foi só uma criação para servir ao interesse de Edmond. E, como eu disse, acho que ele ficaria muito satisfeito com o modo como a noite se desenrolou.

– Como ela se desenrolou?! – questionou Langdon. – Edmond foi morto!

– O senhor me entendeu mal – disse Winston sem rodeios. – Eu estava me referindo à penetração de mercado da apresentação dele. Coisa que, como eu disse, era uma diretriz primária.

O tom casual dessa declaração fez Langdon se lembrar de que, mesmo parecendo humano, Winston certamente não era.

– A morte de Edmond é uma tragédia terrível – acrescentou Winston. – E, claro, eu desejaria que ele ainda estivesse vivo. Mas é importante saber que ele passou a aceitar a própria mortalidade. Há um mês Edmond pediu que eu pesquisasse os melhores métodos de suicídio assistido. Depois de ler centenas de casos, concluí que era “dez gramas de secobarbital”, que ele comprou e mantinha à mão.

Langdon sentiu o coração apertado por Edmond.

– Ele ia tirar a própria vida?

– Sem dúvida. E tinha desenvolvido um tremendo senso de humor a esse respeito. Enquanto discutíamos maneiras criativas de aumentar o apelo da apresentação no Guggenheim, ele brincou dizendo que talvez devesse simplesmente engolir os comprimidos de secobarbital no fim e morrer no palco.

– Ele disse isso? – Langdon estava atônito.

– Ele tratava esse assunto com leveza. Brincou dizendo que nada era melhor para o nível de audiência de um programa de TV do que ver pessoas morrendo.

Estava correto, claro. Se o senhor analisar os acontecimentos mais assistidos da mídia mundial, quase todos…

– Winston, pare. Isso é mórbido.

Este teleférico não vai chegar nunca? De repente, Langdon sentiu-se sufocado na cabine minúscula. Adiante via somente torres e cabos enquanto franzia os olhos para o sol forte do meio-dia. Estou fervendo, pensou, a mente numa espiral indo nas direções mais estranhas.

– Professor? – disse Winston. – Há mais alguma coisa que o senhor gostaria de perguntar?

Sim! , ele queria gritar enquanto um fluxo de ideias inquietantes passava pela sua mente. Há muito mais!

Langdon disse a si mesmo para soltar o ar e ficar calmo. Pense com clareza, Robert. Você está pondo o carro na frente dos bois.

Mas sua mente havia começado a disparar, fugindo do controle.

Pensou em como o assassinato de Edmond tinha garantido que a apresentação fosse o assunto dominante da conversa em todo o planeta… aumentando a audiência

para centenas de milhões de pessoas.

Pensou no antigo desejo de Edmond de destruir a Igreja Palmariana e em como ser assassinado por um palmariano certamente ajudava a alcançar esse objetivo de uma vez por todas.

Pensou no desprezo de Edmond por seus inimigos mais ferozes – os fanáticos religiosos que não hesitariam em dizer, se ele morresse de câncer, que tinha sido um castigo de Deus. Como tinham feito, impensavelmente, no caso do escritor ateu Christopher Hitchens. Mas agora a percepção pública seria de que Edmond tinha sido morto por um fanático religioso.

Edmond Kirsch – morto pela religião – mártir da ciência.

Langdon se levantou abruptamente, fazendo o teleférico se balançar. Agarrou as janelas abertas, para se apoiar, e enquanto a cabine rangia ouviu os ecos das últimas palavras de Winston na noite anterior.

“Edmond queria criar uma nova religião… baseada na ciência.”

Como qualquer um que lesse história religiosa poderia atestar, nada cimentava a crença das pessoas mais depressa do que um ser humano morrendo pela própria causa. Cristo na cruz. Os kedoshim do judaísmo. Os shahid do islã.

O martírio está no cerne de todas as religiões.

As ideias que se formavam na mente de Langdon o empurravam para o fundo da toca do coelho mais depressa a cada momento.

Novas religiões fornecem novas ideias para as grandes questões da vida.

De onde viemos? Para onde vamos?

Novas religiões condenam suas concorrentes.

Edmond denegriu todas as religiões ontem à noite.

Novas religiões prometem um futuro melhor e garantem que o paraíso as espera.

Abundância: o futuro é melhor do que você imagina.

Parecia que Edmond tinha preenchido todos os quesitos.

– Winston? – sussurrou Langdon, com a voz trêmula. – Quem contratou o assassino para matar Edmond?

– Foi o Regente.

– É – disse Langdon, agora com mais ênfase. – Mas quem é o Regente? Quem é a pessoa que contratou um membro da Igreja Palmariana para assassinar Edmond no meio de sua apresentação ao vivo?

Winston fez uma pausa.

– Estou ouvindo suspeita na sua voz, professor. E o senhor não deveria se preocupar. Sou programado para proteger Edmond. Penso nele como meu melhor amigo. – Ele fez uma pausa. – Como acadêmico, o senhor certamente leu Ratos e Homens.

O comentário parecia despropositado.

– Claro, mas o que isso…