Origem

Dan Brown · Capítulo 19 de 107

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Origem

Capítulo 19

Depois de uma fascinante introdução, previamente gravada, do professor de Harvard Robert Langdon, Edmond Kirsch partiu para uma crítica dura às crenças religiosas e fez uma previsão ousada: “A era da religião está chegando ao fim.”

Até agora o conhecido ateu parece um pouco mais contido e respeitoso do que o usual. Para relembrar antigas declarações antirreligiosas de Kirsch, clique aqui.

C A P Í T U L O 1 9

Do lado de fora do tecido que isolava o teatro em forma de cúpula, o almirante Ávila se posicionou, escondido das vistas por um labirinto de andaimes.

Permanecendo abaixado, tinha mantido a sombra oculta e agora estava encolhido a apenas alguns centímetros da “parede” de tecido, perto da frente do auditório.

Em silêncio, enfiou a mão no bolso e pegou o rosário de contas.

Timing é fundamental.

Avançando com as mãos pelas contas, encontrou o pesado crucifixo de metal, achando divertido que os guardas que usavam os detetores lá embaixo tivessem deixado esse objeto passar sem olhá-lo duas vezes.

Usando uma lâmina escondida na haste do crucifixo, o almirante fez um corte vertical de 15 centímetros no tecido. Com cuidado, abriu o pano e olhou para outro mundo: um campo cercado por uma floresta onde centenas de convidados estavam deitados em cobertores, olhando as estrelas.

Eles não podem imaginar o que vai acontecer.

Ávila estava satisfeito ao ver que os dois agentes da Guardia Real tinham assumido posição no lado oposto, perto do canto frontal direito do auditório.

Estavam rigidamente em posição de sentido, abrigados com discrição à sombra de algumas árvores. À luz fraca não conseguiriam vê-lo até que fosse tarde demais.

Perto dos guardas, a única outra pessoa de pé era a diretora do museu, Ambra Vidal, que parecia se remexer, desconfortável, enquanto assistia à apresentação de Kirsch.

Contente com sua posição, Ávila fechou a fresta e refocalizou a atenção no crucifixo. Como a maioria das cruzes, ela tinha dois braços curtos que compunham a barra transversal. Mas naquela em especial os braços eram conectados magneticamente a uma haste vertical e podiam ser removidos.

Ávila pegou um dos braços do crucifixo e o dobrou com força. A peça saiu na sua mão e um pequeno objeto se soltou. Fez o mesmo com o outro lado, deixando o crucifixo sem braços – agora apenas um retângulo de metal num cordão pesado.

Enfiou o rosário de contas de volta no bolso. Vou precisar disso daqui a pouco.

Então se concentrou nos dois pequenos objetos escondidos nos braços da cruz.

Duas balas de curto alcance.

Levou a mão às costas, tateando embaixo do cinto, e tirou o objeto que tinha trazido embaixo do paletó.

 

Vários anos haviam se passado desde que um garoto americano chamado Cody Wilson projetou “A Libertadora” – a primeira arma de polímero impressa em 3D –, e a tecnologia tinha evoluído exponencialmente. As novas armas de fogo feitas de cerâmica e polímero ainda não tinham muita potência, mas o que deixavam a desejar em alcance era mais do que compensado por serem invisíveis aos detectores de metal.

Só preciso chegar perto.

Se tudo acontecesse conforme o planejado, sua posição atual seria perfeita.

De algum modo, o Regente havia conseguido informações internas sobre a localização e a sequência exata dos acontecimentos desta noite… e tinha deixado muito claro como a missão de Ávila deveria ser realizada. O resultado seria brutal, mas tendo testemunhado o preâmbulo herege de Edmond Kirsch, Ávila estava confiante de que os pecados que cometeria seriam perdoados.

Nossos inimigos estão travando uma guerra, dissera o Regente. Devemos matar ou morrer.

De pé, junto à parede distante, no canto frontal direito do auditório, Ambra Vidal esperava não parecer tão desconfortável quanto se sentia.

Edmond me disse que esse era um programa científico.

O futurólogo americano jamais fora discreto em relação à sua aversão pelas religiões, mas Ambra não havia imaginado que ele mostraria tanta hostilidade em sua apresentação.

Edmond se recusou a deixar que eu visse antes.

Certamente haveria uma reação feroz por parte da diretoria do museu, mas nesse momento as preocupações de Ambra eram muito mais pessoais.

Duas semanas antes ela havia confidenciado a um homem muito influente sua participação no evento desta noite. O homem tinha insistido enfaticamente para que ela não fizesse isso. Alertara sobre os perigos de abrigar às cegas uma apresentação sem saber absolutamente nada do conteúdo – sobretudo sendo produzida pelo conhecido iconoclasta Edmond Kirsch.

Ele praticamente ordenou que eu cancelasse tudo, lembrou. Mas seu tom virtuoso me deixou irritada demais para ouvir.

Agora, de pé sozinha sob o céu estrelado, Ambra se perguntou se aquele homem estaria em algum lugar assistindo àquela transmissão, com as mãos na cabeça.

Claro que está assistindo, pensou. A verdadeira questão é: como ele vai reagir?

 

Dentro da Catedral de Almudena, o bispo Valdespino estava sentado rigidamente à sua mesa, o olhar grudado no laptop. Não tinha dúvida de que todo mundo no Palácio Real, ali perto, também estaria assistindo ao programa, especialmente o príncipe Julián, o próximo na linhagem do trono da Espanha.

O príncipe deve estar a ponto de explodir.

Nesta noite um dos museus mais respeitados da Espanha estava colaborando com um proeminente ateu americano para transmitir o que os comentaristas religiosos já chamavam de “trama blasfema de publicidade anticristã”. Insuflando as chamas da controvérsia, a diretora do museu que apresentava o evento era uma das celebridades mais recentes e mais visíveis da Espanha, a espetacular Ambra Vidal, uma mulher que nos últimos dois meses havia dominado as manchetes espanholas e desfrutado da adoração súbita de todo o país. Incrivelmente a Srta. Vidal tinha optado por arriscar tudo ao abrigar o ataque absoluto a Deus que estava acontecendo nesta noite.

O príncipe Julián não terá opção a não ser se pronunciar.