Origem

Dan Brown · Capítulo 44 de 107

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Origem

Capítulo 45

Julián se afastou ligeiramente.

Nesse instante Ambra soube que tudo estava acabado.

C A P Í T U L O 4 5

A divisão de segurança eletrônica da Guardia fica num labirinto de salas sem janela no subsolo do Palácio Real. Intencionalmente isolado do vasto alojamento e da Armaria, o quartel-general da divisão consiste em dezenas de cubículos com computadores, uma central telefônica e uma parede de monitores de segurança. Os oito funcionários, todos com menos de 35 anos, são responsáveis por fornecer redes de comunicação seguras para o pessoal do palácio e para a Guardia Real, além do apoio de vigilância eletrônica para o prédio do palácio propriamente dito.

Nesta noite, como sempre, as salas do porão estavam asfixiantes, cheirando a macarrão instantâneo e pipoca de micro-ondas. As luzes fluorescentes zumbiam alto.

Eu pedi que colocassem minha sala aqui, pensou Mónica Martín.

Ainda que “coordenadora de relações públicas” não fosse tecnicamente um cargo na Guardia, o serviço dela exigia acesso a computadores poderosos e funcionários com conhecimento tecnológico; assim, a divisão de segurança eletrônica tinha parecido um lugar muito mais lógico para ela do que um escritório mal equipado lá em cima.

Esta noite vou precisar de toda a tecnologia disponível.

Nos últimos meses, seu foco principal tinha sido ajudar o palácio a manter uma boa relação com a mídia durante a transferência gradual do poder para o príncipe Julián. Não estava sendo fácil. A transição entre líderes havia fornecido uma oportunidade para manifestantes se pronunciarem contra a monarquia.

Segundo a constituição espanhola, a monarquia era “um símbolo da unidade e da permanência duradouras da Espanha”. Porém, Mónica sabia que fazia um bom tempo que não havia nada unificado no país. Em 1931, a Segunda República marcou o fim da monarquia e, depois, o golpe do general Franco em 1936 mergulhou o país na guerra civil.

Hoje, ainda que a monarquia restabelecida fosse considerada uma democracia, muitos liberais continuavam a denunciar o rei como um resquício de um passado religioso e militar opressivo, além de uma lembrança cotidiana de que ainda faltava muito para a Espanha se juntar completamente ao mundo moderno.

Em seu trabalho de comunicação no último mês, Mónica Martín buscara reforçar a imagem do rei como um símbolo amado que não tinha poder de verdade.

Claro, essa era uma ideia difícil de vender quando o soberano era o comandante em chefe das Forças Armadas, além de chefe de Estado.

Chefe de Estado, pensou Mónica, num país onde a separação entre Igreja e Estado sempre foi algo controverso. O relacionamento íntimo entre o rei doente e o bispo Valdespino havia sido, por muitos anos, um espinho no pé dos secularistas e liberais.

E há o príncipe Julián, pensou ela.

Mónica tinha consciência de que devia seu emprego ao príncipe, mas recentemente ele vinha dificultando o trabalho dela. Algumas semanas antes o príncipe tinha cometido o pior erro de RP que ela já havia testemunhado.

Num programa de TV, em rede nacional, ele tinha se ajoelhado e feito um pedido de casamento ridículo a Ambra Vidal. A situação não poderia ter sido mais embaraçosa a não ser se Ambra tivesse recusado, o que, por sorte, ela teve o bom senso de não fazer.

Infelizmente, depois disso, Ambra Vidal se mostrara mais complicada do que Julián havia previsto, e seu comportamento fora do normal nesse mês se tornara uma das principais preocupações de RP para Mónica.

Mas nesta noite as indiscrições de Ambra estavam praticamente esquecidas. O

maremoto gerado na mídia pelos acontecimentos em Bilbao tinha crescido até uma magnitude sem precedentes. Na última hora, teorias conspiratórias haviam viralizado mundo afora, com várias novas hipóteses envolvendo o bispo Valdespino.

A novidade mais significativa era que o assassino do Guggenheim tivera acesso ao evento de Kirsch “por ordens de alguém de dentro do Palácio Real”. Essa notícia tinha provocado um dilúvio de teorias conspiratórias acusando o rei doente e o bispo Valdespino de tramar o assassinato de Edmond Kirsch – praticamente um semideus do mundo digital e um amado herói americano que tinha optado por morar na Espanha.

Isso vai destruir Valdespino, pensou Mónica.

– Ouçam todos! – gritou Garza entrando na sala de controle. – O príncipe Julián e Valdespino estão juntos em algum lugar do palácio! Verifiquem todas as câmeras de segurança e os encontrem. Agora!

O comandante entrou na sala de Mónica e discretamente a colocou a par da situação do príncipe e do bispo.

– Sumiram? – perguntou ela, incrédula. – E deixaram os telefones no cofre do príncipe?

Garza deu de ombros.

– Aparentemente para não conseguirmos encontrá-los.

– Bom, é melhor encontrarmos – declarou Mónica. – O príncipe Julián precisa fazer uma declaração agora mesmo e se distanciar o máximo possível de Valdespino.

Ela repassou as últimas novidades. Foi a vez de Garza ficar incrédulo.

– Tudo isso é boataria. Não há como Valdespino estar por trás de um assassinato.

– Talvez não, mas o assassinato parece ter alguma relação com a Igreja

Católica. Alguém acaba de encontrar uma ligação direta entre o atirador e uma alta autoridade da Igreja. Dê uma olhada. – Mónica pegou a última atualização do ConspiracyNet, que de novo era creditada ao informante chamado de monte@iglesia.org. – Isso foi publicado há alguns minutos.

Garza se agachou e começou a ler.

– O papa! – protestou ele. – Ávila tem uma ligação pessoal com…

– Continue lendo.

Quando terminou, Garza se afastou da tela e piscou os olhos repetidamente, como se tentasse acordar de um pesadelo.

Nesse momento, uma voz masculina gritou da sala de controle:

– Comandante Garza? Localizei os dois!

Garza e Mónica correram para o cubículo onde o diretor de segurança eletrônica Suresh Bhalla, um indiano especialista em vigilância, apontava para o vídeo em seu monitor. Nele apareciam duas figuras: uma com amplas vestes de bispo e a outra com terno formal. Pareciam estar andando por um bosque.

– Jardim leste – disse Suresh. – Há dois minutos.

– Eles saíram do prédio?! – perguntou Garza.

– Espere, senhor.

Suresh adiantou o vídeo, conseguindo acompanhar o bispo e o príncipe com várias câmeras localizadas a intervalos no complexo do palácio. Era possível ver os dois saindo do jardim e passando por um pátio cercado.

– Aonde eles vão?!

Mónica tinha uma boa ideia de para onde eles iam, e notou que Valdespino havia pegado um caminho tortuoso para mantê-los fora das vistas dos veículos da mídia na praça principal.

Como tinha previsto, Valdespino e Julián chegaram à entrada de serviço sul da Catedral de Almudena, onde o bispo destrancou a porta e levou o príncipe para dentro. A porta se fechou e os dois sumiram.

Garza ficou olhando para a tela, mudo, lutando para entender o que tinha visto.

– Mantenha-me informado – ordenou finalmente, e puxou Mónica.

Quando não podiam mais ser ouvidos pelos outros, Garza sussurrou:

– Não faço ideia de como o bispo convenceu o príncipe a acompanhá-lo para fora do palácio nem a deixar o telefone para trás, mas obviamente Julián não faz ideia das acusações contra Valdespino, caso contrário saberia que deveria se distanciar dele.

– Concordo – disse Mónica. – E odiaria especular sobre o objetivo final do bispo, mas… – Ela parou.

– Mas o quê?

Mónica suspirou.

– Parece que Valdespino pode ter acabado de fazer um refém extremamente valioso.

Cerca de 400 quilômetros ao norte, no átrio do Museu Guggenheim, o telefone do agente Fonseca começou a tocar. Era a sexta vez em 20 minutos. Quando olhou o identificador de chamadas, sentiu o corpo ficar em posição de sentido.

– ¿Sí? – atendeu com o coração batendo forte.

A voz na linha falava em espanhol, lenta e deliberadamente.

– Agente Fonseca, como você sabe muito bem, a futura rainha consorte da Espanha tomou algumas atitudes terríveis esta noite, ligando-se a pessoas erradas e provocando um embaraço significativo para o Palácio Real. Para que não sejam causados mais danos, é crucial que você a traga para o palácio o mais rápido possível.

– Infelizmente, a localização da Srta. Vidal é desconhecida neste momento.

– Há 40 minutos o jato de Edmond Kirsch decolou do Aeroporto de Bilbao em direção a Barcelona – afirmou a voz. – Acredito que a Srta. Vidal esteja naquele avião.

– Como o senhor sabe? – disparou Fonseca, se arrependendo no mesmo instante do tom impertinente.

– Se você estivesse fazendo o seu trabalho – advertiu a voz –, também saberia.

Quero que você e seu parceiro vão atrás dela imediatamente. Agora mesmo um transporte militar está sendo abastecido no Aeroporto de Bilbao para vocês.

– Se a Srta. Vidal está naquele jato – observou Fonseca –, provavelmente viaja com o professor americano Robert Langdon.

– Sim – disse a pessoa, com raiva. – Não faço ideia de como esse homem convenceu a Srta. Vidal a abandonar sua segurança e fugir com ele, mas, sem dúvida, o Sr. Langdon representa um problema. Sua missão é encontrar a Srta. Vidal e trazê-la de volta, se necessário à força.