Origem

Dan Brown · Capítulo 78 de 107

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Origem

Capítulo 80

Mónica suspirou e pegou o celular.

– Comandante, odeio minar sua fé no bispo, mas preciso que o senhor veja isso.

Suresh me mostrou. – Ela apertou alguns botões e entregou o telefone a Garza.

A tela mostrou uma longa mensagem de texto.

– Esta é uma captura de tela de uma mensagem que o bispo Valdespino recebeu esta noite – sussurrou ela. – Leia. Garanto que vai mudar seu pensamento.

C A P Í T U L O 8 0

Apesar da dor que atravessava seu corpo, Robert Langdon sentia-se estranhamente animado, quase eufórico, enquanto o helicóptero subia trovejando do alto da Sagrada Família.

Estou vivo.

Podia sentir a carga de adrenalina na corrente sanguínea, como se estivesse experimentando o efeito de todos os acontecimentos da última hora ao mesmo tempo. Respirando o mais lentamente possível, voltou a atenção para fora, para o mundo além das janelas do helicóptero.

A toda a volta, pináculos enormes se estendiam para o céu. Mas, enquanto o helicóptero subia, a igreja foi ficando lá embaixo, dissolvendo-se em meio a uma grade de ruas iluminadas. Langdon olhou para a vastidão de quarteirões, que não eram os quadrados e retângulos usuais, e sim octógonos muito mais suaves.

L’Eixample, pensou Langdon. O Alargamento.

O visionário urbanista Ildefons Cerdà tinha alargado todos os cruzamentos daquele bairro cortando os cantos dos quarteirões quadrados para criar minipraças, gerando melhor visibilidade, aumento no fluxo de ar e espaço abundante para cafés ao ar livre.

– ¿Adónde vamos? – gritou o piloto por cima do ombro.

Langdon apontou para o sul, onde uma das avenidas mais largas, mais luminosas e com o nome mais adequado corta Barcelona diagonalmente.

– Avinguda Diagonal – gritou Langdon. – Al oeste.

Impossível de não ser vista em qualquer mapa de Barcelona, a Avinguda Diagonal atravessa toda a largura da cidade, desde o ultramoderno arranha-céu Diagonal ZeroZero até os antigos roseirais do Parc de Cervantes: um tributo de quatro hectares ao mais célebre romancista espanhol, o autor de Don Quixote.

O piloto fez uma curva para o oeste, seguindo a avenida inclinada em direção às montanhas.

– Endereço? – gritou o piloto para trás. – Coordenadas?

Não sei o endereço, percebeu Langdon.

– Vá até o estádio de futebol.

– Futebol? – Ele pareceu surpreso. – O FC Barcelona?

Langdon assentiu, não tendo dúvida de que o piloto sabia exatamente como chegar à sede do famoso clube de futebol Barcelona, localizado alguns quilômetros

adiante, perto da Avinguda Diagonal.

O piloto acelerou, agora seguindo a avenida a toda a velocidade.

– Robert? – perguntou Ambra baixinho. – Você está bem? – Ela o examinou como se o ferimento na cabeça pudesse ter alterado sua capacidade de avaliação. –

Você disse que sabe onde encontrar o Winston.

– Sei. É para lá que estamos indo.

– Um estádio de futebol? Você acha que o Edmond construiu um supercomputador num estádio?

Langdon balançou a cabeça.

– Não, o estádio é somente um ponto de referência fácil para o piloto. Estou interessado no prédio ao lado do estádio: o Gran Hotel Princesa Sofia.

A expressão confusa de Ambra se aprofundou.

– Robert, isso não está fazendo sentido. De jeito nenhum Edmond construiria o Winston dentro de um hotel de luxo. Acho que deveríamos levar você ao hospital, afinal de contas.

– Estou bem, Ambra. Confie em mim.

– Então para onde vamos?

– Para onde vamos? – Langdon coçou o queixo num gesto brincalhão. – Acho que essa é uma das perguntas importantes que Edmond prometeu responder esta noite.

A expressão de Ambra ficou entre divertida e exasperada.

– Desculpe – disse Langdon. – Deixe-me explicar. Há dois anos, almocei com Edmond no clube privado do décimo oitavo andar do Gran Hotel Princesa Sofia.

– E Edmond levou um supercomputador para o almoço? – sugeriu Ambra, rindo.

Langdon sorriu.

– Não exatamente. Edmond chegou a pé para almoçar, dizendo que comia no clube quase todo dia porque o hotel era conveniente demais, ficava só a dois quarteirões de seu laboratório de informática. Além disso, me contou que estava trabalhando num avançado projeto de inteligência sintética e se sentia muito empolgado com o potencial do negócio.

Ambra pareceu subitamente animada.

– Devia ser o Winston!

– Foi isso mesmo que pensei.

– E então Edmond levou você ao laboratório!

– Não.

– Ele contou onde era?

– Infelizmente ele guardou segredo.

A preocupação retornou aos olhos de Ambra.

– Mas – disse Langdon – Winston nos contou secretamente o lugar exato onde ele fica.

Agora Ambra pareceu confusa.

– Não contou, não.

– Garanto que contou. – Langdon sorriu. – Na verdade ele contou ao mundo inteiro.

Antes que Ambra pudesse exigir uma explicação, o piloto anunciou:

– ¡Ahí está el estadio!

E apontou para o enorme estádio do Barcelona a distância.

Foi rápido, pensou Langdon, olhando para fora e traçando uma linha desde o estádio até o Gran Hotel Princesa Sofia, ali perto, um arranha-céu diante de uma praça ampla na Avinguda Diagonal. Langdon disse para o piloto passar direto pelo estádio e levá-los para o alto, acima do hotel.

Em segundos, o helicóptero havia subido várias dezenas de metros e pairava acima do hotel onde Langdon e Edmond tinham almoçado dois anos antes. Ele me disse que o laboratório de informática ficava a apenas dois quarteirões daqui.

De seu ponto de observação, Langdon examinou a área em volta do hotel. As ruas do bairro não eram tão retilíneas quanto em volta da Sagrada Família e os quarteirões criavam todo tipo de formas irregulares e oblongas.

Tem que ser aqui.

Com incerteza crescente, examinou os quarteirões em todas as direções, tentando encontrar a forma especial que conseguia visualizar na memória. Onde é?

Só quando virou o olhar para o norte, por cima da rotatória na Plaça de Pius XII, sentiu uma pontada de esperança.

– Ali! – gritou para o piloto. – Por favor, voe acima daquela área com árvores!

O piloto virou o nariz do helicóptero, que se moveu diagonalmente para o noroeste pelo espaço de um quarteirão, pairando sobre o bosque que Langdon tinha indicado. Na verdade, o bosque fazia parte de uma enorme propriedade.

– Robert – gritou Ambra, parecendo frustrada –, o que você está fazendo? Este é o Palácio Real de Pedralbes! Edmond jamais construiria o Winston dentro…

– Aqui, não! Ali!

Langdon apontou para além do palácio, para o quarteirão logo atrás.

Ambra se inclinou adiante, olhando com atenção para a fonte da empolgação de Langdon. O quarteirão atrás do palácio era formado por quatro ruas bem iluminadas, cruzando-se para formar um quadrado com orientação norte-sul, como um losango.

Era um losango meio defeituoso, com a borda inferior direita encurvada e um dente na linha de baixo, deixando um perímetro torto.

– Você reconhece essa linha com um dente? – perguntou Langdon, apontando para uma rua bem iluminada, perfeitamente delineada contra a escuridão do bosque do palácio. – Aquela ali meio torta, está vendo?

Imediatamente a exasperação de Ambra pareceu sumir e ela inclinou a cabeça, olhando com mais concentração.

– Sim, ela é familiar. Por quê?

 

– Olhe o quarteirão inteiro. Um losango com uma borda estranha na parte inferior direita. – Ele esperou, sentindo que Ambra reconheceria logo. – Olhe os dois pequenos parques nesse quarteirão. – Ele apontou para um parque redondo no meio e um semicircular à direita.

– Sinto que eu conheço esse lugar, mas não estou conseguindo…

– Pense em arte – disse Langdon. – Pense na sua coleção no Guggenheim.

Pense no…

– Winston! – gritou ela, e se virou para ele incrédula. – O desenho desse quarteirão. É a forma exata do autorretrato de Winston no Guggenheim!

Langdon sorriu para ela.

– É sim.

Ambra girou de volta para a janela e olhou o quarteirão em forma de losango.

Langdon também olhou, visualizando o autorretrato de Winston: a obra de formato bizarro que o deixara perplexo desde que Winston a havia mostrado mais cedo, um tributo canhestro a Miró.

Edmond pediu que eu fizesse um autorretrato, dissera Winston. E foi isso que eu consegui.

Langdon já havia concluído que o olho que aparecia perto do centro do quadro

– uma característica da obra de Miró – quase certamente indicava o local exato onde Winston ficava, o lugar no planeta de onde Winston via o mundo.

Ambra deu as costas para a janela, parecendo ao mesmo tempo alegre e atônita.

– O autorretrato de Winston não é uma imitação de Miró. É um mapa!

– Isso mesmo. Considerando que Winston não tem corpo nem autoimagem física, é compreensível que seu autorretrato se relacionasse mais com sua localização

do que com sua forma.

– O olho – disse Ambra – é uma cópia de um Miró. Mas só há um... Será que é para marcar a localização de Winston?

– Eu estava pensando a mesma coisa.

Langdon se virou para o piloto e perguntou se ele poderia pousar o helicóptero só por um momento num dos dois pequenos parques no quarteirão de Winston. O

piloto começou a descer.

– Meu Deus – disse Ambra subitamente –, acho que sei por que Winston optou por imitar o estilo de Miró!

– Sabe?

– O palácio sobre o qual voamos agora mesmo é o de Pedralbes.

– Pedralbes? Esse não é o nome de…

– É! De um dos desenhos mais famosos de Miró. Winston provavelmente pesquisou esta área e encontrou uma conexão do local com Miró!

Langdon tinha que admitir que a criatividade de Winston era espantosa e que a perspectiva de se conectar de novo com a inteligência sintética criada por Edmond o deixava estranhamente empolgado. Enquanto o helicóptero baixava, o professor viu a silhueta escura de uma construção grande localizada no ponto exato onde Winston tinha desenhado seu olho.

– Olhe… – apontou Ambra. – Deve ser ali.

Langdon se esforçou para enxergar melhor o prédio, meio escondido por árvores grandes. Mesmo do ar, parecia formidável.

– Não estou vendo nenhuma luz – disse Ambra. – Você acha que conseguiremos entrar?

– Tem que haver alguém aí. Edmond devia ter funcionários à disposição, especialmente esta noite. Quando eles perceberem que temos a senha de Edmond, suspeito que vão correr para nos ajudar a transmitir a apresentação.

Quinze segundos depois o helicóptero pousou num grande parque semicircular na borda leste do quarteirão de Winston. Langdon e Ambra desceram e o helicóptero decolou em seguida, partindo na direção do estádio, onde esperaria por mais instruções.

Enquanto se apressavam pelo parque escuro em direção ao centro do quarteirão, os dois passaram por uma pequena rua interna, o Passeig dels Til.lers, e entraram numa área com muitas árvores. Adiante, meio escondida por elas, podiam ver a silhueta de uma construção grande e atarracada.

– Não tem nenhuma luz acesa – sussurrou Ambra.

– E tem uma cerca – disse Langdon, franzindo a testa quando chegaram a uma grade de ferro forjado, com três metros de altura, que circundava todo o complexo.

Ele olhou por entre as barras, incapaz de ver muita coisa do prédio no meio das árvores. Ficou intrigado ao perceber que não havia nenhuma luz acesa.

– Ali. – Ambra apontou para uns 20 metros adiante. – Acho que é um portão.

Seguiram rapidamente ao longo da cerca e encontraram um imponente portão giratório, trancado. Havia um porteiro eletrônico e, antes que Langdon tivesse a chance de pensar nas opções, Ambra apertou o botão de chamada.

A campainha tocou duas vezes e foi atendida.

Silêncio.

– Alô? – disse Ambra. – Alô?

Nenhuma voz soou no alto-falante, só o zumbido agourento de uma linha aberta.

– Não sei se você está me ouvindo – continuou ela –, mas Ambra Vidal e Robert Langdon estão aqui. Somos amigos de Edmond Kirsch. Estávamos com ele esta noite quando foi morto. Temos informações que seriam de extrema utilidade para Edmond, para Winston e, acredito, para todos vocês.

Houve um estalo brusco.

Langdon pôs a mão no portão, que girou.

Ele soltou o ar.

– Eu disse que havia alguém em casa.

Os dois passaram rapidamente pelo portão giratório e foram pelo meio das árvores em direção ao prédio escuro. À medida que chegavam mais perto, o telhado começou a assumir forma contra o céu. Uma silhueta inesperada se materializou: um símbolo de 4,5 metros montado na cumeeira.

Ambra e Langdon pararam bruscamente.

Não pode estar certo, pensou Langdon, olhando o símbolo inconfundível. O

laboratório de informática de Edmond tem um crucifixo gigante no telhado?

Langdon deu vários passos e saiu do meio das árvores. Quando fez isso, toda a fachada do prédio surgiu. E era uma visão surpreendente: uma antiga igreja gótica com um grande vitral de rosácea, duas torres de pedra e uma porta elegante adornada com baixos-relevos de santos católicos e da Virgem Maria.

Ambra ficou horrorizada.

– Robert, acho que acabamos de invadir o terreno de uma igreja católica.

Estamos no lugar errado.

Langdon viu uma placa na frente da igreja e começou a rir.

– Não, acho que estamos no lugar certo.

Essa instalação estivera no noticiário alguns anos antes, mas Langdon jamais havia percebido que era em Barcelona. Um laboratório de alta tecnologia dentro de uma igreja católica desativada. Langdon precisou admitir que era o refúgio definitivo onde um ateu irreverente poderia construir um computador sem deus.

Enquanto olhava a igreja agora defunta, sentiu um arrepio ao perceber a presciência com que Edmond havia escolhido sua senha.

The dark religions are departed & sweet science reigns. As religiões das trevas partiram e reina a doce ciência.

Chamou a atenção de Ambra para a placa.

Ela dizia:

CENTRO DE SUPERCOMPUTAÇÃO DE BARCELONA

CENTRO NACIONAL DE SUPERCOMPUTACIÓN

Ambra se virou para ele com expressão incrédula.