Origem

Dan Brown · Capítulo 59 de 107

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Capítulo 61

– AGORA! – gritou Díaz acima do rugido das pás.

O agente apontou para o parapeito do poço de iluminação, insistindo para que os dois subissem nele, agarrassem sua mão e dessem o salto curto pelo abismo, até a aeronave que pairava.

Langdon hesitou um pouco demais.

Díaz agarrou o megafone da mão de Fonseca e o apontou direto para o rosto de Langdon.

– PROFESSOR, ENTRE NO HELICÓPTERO AGORA! – A voz do agente parecia um trovão. – A POLÍCIA LOCAL TEM ORDENS DE ATIRAR NO SENHOR! SABEMOS QUE O

SENHOR NÃO SEQUESTROU AMBRA VIDAL! PRECISO DOS DOIS A BORDO IMEDIATAMENTE, ANTES QUE ALGUÉM SEJA MORTO!

C A P Í T U L O 6 1

Sob o vento fortíssimo, Ambra sentiu os braços de Langdon levantando-a e guiando-a para a mão estendida do agente Díaz, no helicóptero que pairava.

Estava atordoada demais para protestar.

– Ela está sangrando! – gritou Langdon enquanto entrava na aeronave atrás de Ambra.

De repente, o helicóptero estava subindo para o céu, distanciando-se do terraço ondulado e deixando para trás um pequeno exército de policiais confusos, todos olhando para cima.

Fonseca fechou a porta da fuselagem e foi para a frente, na direção do piloto.

Díaz sentou-se ao lado de Ambra para examinar seu braço.

– É só um arranhão – disse ela com o rosto inexpressivo.

– Vou encontrar um kit de primeiros socorros – falou Díaz, indo para a parte de trás da cabine.

Langdon estava sentado de frente para Ambra, voltado para a traseira do helicóptero. Agora que os dois estavam a sós, ele atraiu o olhar dela e lhe deu um sorriso aliviado.

– Que bom que você está bem!

Ambra assentiu debilmente. Mas antes que ela pudesse agradecer, Langdon inclinou-se para a frente no banco e murmurou em tom agitado:

– Acho que encontramos nosso poeta misterioso – exclamou com os olhos cheios de esperança. – William Blake. Edmond não só tinha um exemplar das obras completas de Blake na biblioteca… como muitos poemas de Blake são profecias! –

Ele estendeu a mão. – Me dê o telefone do Edmond. Vou pedir que o Winston faça uma busca na obra de Blake, atrás de qualquer verso de 47 letras.

Ambra olhou para a palma da mão de Langdon, à espera do telefone, e se sentiu consumida pela culpa. Segurou a mão dele.

– Robert – disse com um suspiro de remorso –, o telefone de Edmond se foi.

Caiu pela borda do prédio.

Langdon a encarou de volta e Ambra viu o sangue sumir do rosto dele. Sinto muito, Robert. Ela conseguia vê-lo lutando para processar a notícia e entender o que a perda de Winston significava.

Na cabine, Fonseca estava gritando ao telefone:

– Confirmado! Estamos com os dois em segurança a bordo! Prepare o

transporte para Madri. Vou contatar o palácio e alertar…

– Não se incomode! – gritou Ambra para o agente. – Eu não vou para o palácio!

Fonseca cobriu o telefone, virou-se no banco e olhou para ela.

– Sem dúvida, a senhorita vai! Minhas ordens são para mantê-la em segurança.

A senhorita jamais deveria ter deixado a minha custódia. Teve sorte porque chegamos a tempo para resgatá-la.

– Resgatar? – perguntou Ambra. – Se isso foi um resgate, só foi necessário porque o palácio contou mentiras ridículas sobre o professor Langdon ter me sequestrado, o que vocês sabem que não é verdade! O príncipe Julián está mesmo tão desesperado a ponto de arriscar a vida de um inocente? Para não falar da minha vida?

Fonseca a encarou e se virou de volta no banco.

Nesse momento, Díaz reapareceu, com um kit de primeiros socorros.

– Srta. Vidal – disse ele, sentando-se ao lado dela. – Por favor, entenda que nossa cadeia de comando foi rompida esta noite com a prisão do comandante Garza.

Mesmo assim, quero que saiba que o príncipe Julián não teve nada a ver com a declaração à imprensa feita pelo palácio. Na verdade, nem podemos confirmar que o príncipe sabe o que está acontecendo. Não conseguimos fazer contato com ele há mais de uma hora.

O quê? Ambra o encarou.

– Onde ele está?

– O paradeiro atual é desconhecido – respondeu Díaz. – Mas sua comunicação conosco mais cedo foi claríssima. O príncipe quer que a senhorita esteja em segurança.

– Se isso é verdade – declarou Langdon, retornando abruptamente dos seus pensamentos –, levar a Srta. Vidal para o palácio é um erro mortal.

Fonseca girou.

– O que o senhor disse?

– Não sei quem está lhe dando ordens agora, senhor – disse Langdon. – Mas, se o príncipe quer mesmo manter a noiva em segurança, sugiro que me ouça com atenção. – Ele parou, com o tom de voz se intensificando. – Edmond Kirsch foi assassinado para que sua descoberta não fosse levada a público. E quem o silenciou não vai hesitar diante de nada para garantir que o serviço seja terminado.

– Já está terminado – zombou Fonseca. – Edmond está morto.

– Mas a descoberta dele não está – retrucou Langdon. – A apresentação de Edmond está bem viva e ainda pode ser divulgada ao mundo.

– E por isso vocês vieram ao apartamento dele – supôs Díaz. – Porque acham que podem transmiti-la.

– Exatamente – confirmou Langdon. – E isso nos tornou alvos. Não sei quem inventou aquela nota para a imprensa dizendo que Ambra foi sequestrada, mas obviamente é alguém desesperado para nos impedir de fazer qualquer revelação.

Assim, se vocês fazem parte desse grupo, das pessoas que estão tentando enterrar a descoberta de Edmond para sempre, devem simplesmente jogar a Srta. Vidal e a mim para fora deste helicóptero agora mesmo, enquanto ainda podem.

Ambra encarou Langdon, imaginando se ele estaria louco.

– No entanto – prosseguiu o professor –, se o juramento de vocês, como agentes da Guardia Real, é proteger a família real, inclusive a futura rainha da Espanha, precisam entender que neste momento não há lugar mais perigoso para a Srta. Vidal do que um palácio de onde saiu uma declaração que quase fez com que ela fosse morta. – Langdon enfiou a mão no bolso e pegou um cartão em papel marfim com timbre elegante. – Sugiro que a levem ao endereço que está na parte de baixo deste cartão.

Fonseca pegou o cartão e o examinou, franzindo a testa.

– Isso é ridículo.

– Há uma cerca de segurança em volta de toda a propriedade – disse Langdon.

– Seu piloto pode pousar, deixar nós quatro sairmos e depois ir embora antes que alguém perceba que estamos lá. Podemos nos esconder lá até resolvermos essa situação toda. Vocês podem nos acompanhar.

– Eu me sentiria mais seguro num hangar militar do aeroporto.

– Você quer mesmo confiar numa equipe militar que provavelmente está recebendo ordens das mesmas pessoas que quase fizeram com que a Srta. Vidal fosse morta?

A expressão dura de Fonseca não se alterou.

Ambra estava cada vez mais curiosa para saber o que estaria escrito no cartão.

Aonde Langdon quer ir? A súbita intensidade dele parecia sugerir que havia mais em jogo do que simplesmente mantê-la em segurança. Ouviu um otimismo renovado na voz do professor e sentiu que ele ainda não tinha perdido a esperança de darem um jeito de transmitir a apresentação de Edmond.

Langdon pegou o cartão de volta com Fonseca e o entregou a Ambra.

– Encontrei isso na biblioteca de Edmond.

Ambra examinou o cartão, reconhecendo de imediato o que era.

Conhecidos como “registros de empréstimo” ou “fichas de título”, esses cartões com timbre elegante eram dados pelos curadores dos museus aos doadores, em troca de uma obra de arte emprestada temporariamente. Tradicionalmente, eram impressos dois cartões: um era colocado à mostra no museu para agradecer ao doador e o outro era guardado pelo doador, como garantia da peça emprestada.

Edmond emprestou esse livro de poemas de Blake?

Segundo o cartão, o livro de Edmond tinha viajado apenas alguns quilômetros para longe de seu apartamento em Barcelona.

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OBRAS COMPLETAS

DE WILLIAM BLAKE

 

Da coleção particular de

EDMOND KIRSCH

Emprestado à

BASÍLICA DA

SAGRADA FAMÍLIA

Carrer de Mallorca, 401

08013 Barcelona, Espanha

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– Não entendi – disse Ambra. – Por que um ateu declarado emprestaria um livro a uma igreja?

– Não é qualquer igreja – contrapôs Langdon. – A obra-prima arquitetônica mais enigmática de Gaudí… – Ele apontou pela janela, para trás. – E que em breve será a igreja mais alta da Europa.

Ambra virou a cabeça, olhando para o norte da cidade. A distância – cercadas por gruas, andaimes e luzes de construção –, as torres inacabadas da Sagrada Família reluziam, um agrupamento de pináculos perfurados que lembravam esponjas marinhas gigantes subindo do piso do oceano para a luz.

Durante mais de um século, a controvertida obra de Gaudí, a Basílica da Sagrada Família, estava sendo construída contando somente com doações particulares dos fiéis. Criticada pelos tradicionalistas por sua estranha forma orgânica e seu “design biomimético”, a igreja era saudada pelos modernistas por sua fluidez estrutural e pelo uso de formas “hiperboloides” para refletir o mundo natural.

– Devo admitir que ela é incomum – disse Ambra, virando-se de volta para Langdon –, mas ainda assim é uma igreja católica. E você conhecia o Edmond.

Conhecia mesmo o Edmond, pensou Langdon. O bastante para saber que ele acreditava que a Sagrada Família esconde um propósito e um simbolismo secretos que vão muito além do cristianismo.

Desde o bizarro início da igreja, em 1882, haviam surgido teorias da conspiração sobre suas misteriosas portas codificadas, as colunas helicoidais inspiradas pelo cosmo, as fachadas cobertas de símbolos, as esculturas usando o quadrado mágico matemático e a fantasmagórica construção “esquelética” que lembrava nitidamente ossos retorcidos e tecido conjuntivo.

Langdon sabia dessas teorias, claro, no entanto nunca tinha dado muito crédito a elas. Mas, alguns anos antes, ficara surpreso quando Edmond confessara que fazia

parte do número crescente de fãs de Gaudí que acreditavam, em silêncio, que a Sagrada Família fora concebida secretamente como algo diferente de uma igreja cristã, talvez até um templo místico dedicado à ciência e à natureza.

Langdon achava essa ideia tremendamente improvável e lembrou a Edmond que Gaudí era um devoto católico, muito estimado pelo Vaticano, que chegara a ponto de batizá-lo de “arquiteto de Deus” e até considerá-lo candidato à beatificação.

O projeto incomum da Sagrada Família, garantiu Langdon, não passava de um exemplo da abordagem modernista e única de Gaudí ao simbolismo cristão.

A resposta de Edmond foi um sorriso recatado, como se estivesse escondendo alguma peça misteriosa do quebra-cabeça que não estava disposto a revelar.

Outro segredo de Kirsch, pensou Langdon agora. Como sua batalha oculta contra o câncer.

– Ainda que Edmond tenha emprestado seu livro à Sagrada Família – continuou Ambra –, e mesmo que o encontremos, nunca poderemos localizar o verso correto lendo página por página. E duvido que Edmond tenha usado um marcador num livro de valor inestimável.

– Ambra? – respondeu Langdon com um sorriso calmo. – Leia o verso do cartão.

Ela olhou o cartão, virou-o e leu o texto escrito.

Então, com expressão incrédula, leu de novo.

Quando seus olhos se viraram para os de Langdon, estavam cheios de esperança.

– Como eu disse – observou Langdon com um sorriso –, acho que deveríamos ir até lá.

A expressão empolgada de Ambra sumiu com a mesma velocidade com que tinha surgido.

– Ainda há um problema. Mesmo se encontrarmos a senha…

– Eu sei, nós perdemos o telefone de Edmond, o que significa que não temos como acessar Winston e nos comunicar com ele.

– Exatamente.

– Acho que posso resolver esse problema.

Ambra o encarou com ceticismo.

– Como?

– Só precisamos localizar o próprio Winston, o computador que Edmond construiu. Se não temos mais acesso remoto a Winston, vamos levar a senha pessoalmente a ele.

Ambra o encarou como se ele estivesse louco.

Langdon continuou:

– Você me disse que Edmond montou Winston numa instalação secreta.

– É, mas essa instalação pode ser em qualquer lugar do mundo!

– Não é. É aqui em Barcelona. Só pode ser. Barcelona é a cidade onde Edmond vivia e trabalhava. E construir essa máquina de inteligência sintética foi um dos seus projetos mais recentes, portanto faz sentido que ele tenha construído Winston aqui.

– Robert, se você está certo, está procurando uma agulha no palheiro.

Barcelona é uma cidade enorme. Seria impossível…

– Eu posso encontrar Winston. Tenho certeza. – Langdon sorriu e indicou a vastidão de luzes na cidade abaixo. – Vai parecer loucura, mas essa visão aérea de Barcelona acaba de me ajudar a perceber uma coisa…

Sua voz ficou no ar enquanto ele olhava pela janela.

– Poderia ser mais claro? – pediu Ambra, com expectativa.

– Eu deveria ter visto antes. Há alguma coisa no Winston, uma charada intrigante, que vem me incomodando a noite toda. Acho que finalmente deduzi a resposta.

Langdon lançou um olhar cauteloso para os agentes da Guardia e baixou a voz, inclinando-se para Ambra.

– Você confia em mim? Acho que posso encontrar Winston. O problema é que localizar Winston não vai adiantar se não tivermos a senha do Edmond. Nesse momento você e eu precisamos nos concentrar nesse verso. A Sagrada Família é nossa melhor chance de encontrá-lo.

Ambra examinou Langdon por um longo momento. Então, com um aceno, olhou para o banco da frente e gritou:

– Agente Fonseca! Por favor faça o piloto dar meia-volta e nos levar imediatamente à Sagrada Família!

Fonseca girou no banco, olhando-a irritado.