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Dan Brown · Capítulo 84 de 107

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Capítulo 86

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A DESCOBERTA DE KIRSCH VAI AO AR DENTRO DE MINUTOS!

É, está mesmo acontecendo!

Um anúncio feito pelo pessoal de Edmond Kirsch acaba de confirmar que sua descoberta científica amplamente esperada – que sofreu um adiamento devido ao assassinato do futurólogo – será transmitida por streaming para o mundo às três da madrugada, horário de Barcelona.

O número de espectadores não para de crescer, e as estatísticas de acompanhamento pela internet não têm precedentes.

Numa notícia relacionada, Robert Langdon e Ambra Vidal teriam sido vistos entrando no terreno da Capela Torre Girona, sede do Centro de Supercomputação de Barcelona, onde Edmond Kirsch teria trabalhado nos últimos anos. O ConspiracyNet ainda não pode confirmar se esse é o local de onde a apresentação será transmitida.

Fiquem conectados para a apresentação de Kirsch, disponível em tempo real aqui no ConspiracyNet.com!

C A P Í T U L O 8 6

Enquanto passava pela porta de ferro e entrava na montanha, o príncipe Julián teve a sensação incômoda de que talvez jamais escapasse.

O Vale dos Caídos. O que estou fazendo aqui?

O espaço depois da entrada era frio e escuro, mal iluminado por dois castiçais elétricos em forma de tocha. O ar cheirava a pedra úmida.

Um homem uniformizado estava diante deles segurando um molho de chaves que chacoalhava em suas mãos trêmulas. Julián não ficou surpreso ao ver que aquele funcionário do Patrimonio Nacional parecia ansioso; meia dúzia de agentes da Guardia Real estava enfileirada atrás dele no escuro. Meu pai está aqui. Sem dúvida, aquele pobre funcionário tinha sido chamado no meio da noite com o objetivo de destrancar a montanha sagrada de Franco para o rei.

Um dos agentes da Guardia se adiantou rapidamente.

– Príncipe Julián, bispo Valdespino. Estávamos esperando os senhores. Por aqui, por favor.

O agente da Guardia levou Julián e Valdespino até um enorme portão de ferro em que estava esculpido um agourento símbolo franquista – uma feroz águia de duas cabeças que ecoava a iconografia nazista.

– Sua Majestade está no fim do túnel – disse o agente, indicando o portão que tinha sido destrancado e estava parcialmente aberto.

Julián e o bispo trocaram olhares inseguros e passaram pelo portão flanqueado por um par de ameaçadoras esculturas de metal: dois anjos da morte segurando espadas em forma de cruz.

Mais imagens franquistas fundindo militarismo e religião, pensou Julián enquanto ele e o bispo começavam a longa caminhada para dentro da montanha.

O túnel que se estendia adiante era decorado com a mesma elegância do salão de baile do Palácio Real de Madri. Com piso de mármore preto polido e um alto teto em caixotões, a passagem suntuosa era iluminada por uma série aparentemente interminável de castiçais de parede em forma de tochas.

Mas esta noite a fonte da luz no corredor era muito mais dramática. Dezenas e dezenas de bacias com fogo, enfileiradas como luzes de pista de pouso, ardiam em laranja por toda a extensão do túnel. Tradicionalmente esses fogos só eram acesos para eventos importantes, mas pelo jeito a chegada do rei tarde da noite era motivo suficiente para que fossem usados.

Com reflexos de fogo dançando no piso polido, o corredor enorme assumia uma ambientação quase sobrenatural. Julián sentia a presença fantasmagórica das almas tristes que tinham escavado aquele túnel à mão, com as picaretas e pás posicionadas, labutando por anos dentro daquela montanha gelada, com fome, frio, muitos morrendo, tudo pela glorificação de Franco, cujo túmulo estava no fundo daquela caverna.

Olhe com atenção, filho, dissera seu pai. Um dia você vai demolir tudo isso.

Como rei, Julián sabia que provavelmente não teria poder para destruir a estrutura magnífica. No entanto, precisava admitir, achava surpreendente que o povo da Espanha tivesse permitido que ela permanecesse de pé, em especial considerando sua vontade de deixar o passado sombrio para trás e entrar no mundo novo. Mas, por outro lado, ainda havia quem ansiasse pelos costumes antigos e todo ano, no aniversário da morte de Franco, centenas de franquistas idosos iam em bando àquele lugar, prestar-lhe homenagem.

– Don Julián – disse o bispo baixinho, fora da audição dos outros, enquanto penetravam mais na passagem. – Sabe por que o seu pai nos chamou aqui?

Julián balançou a cabeça.

– Eu esperava que o senhor soubesse.

Valdespino soltou um suspiro pesado.

– Não faço a mínima ideia.

Se o bispo não conhece os motivos do meu pai, pensou Julián, ninguém conhece.

– Só espero que ele esteja bem – disse o bispo com uma ternura surpreendente.

– Ultimamente algumas decisões dele…

– Quer dizer, como convocar uma reunião no interior de uma montanha quando deveria estar numa cama de hospital?

Valdespino deu um sorriso suave.

– Por exemplo, sim.

Julián se perguntou por que a equipe da Guardia destacada para o rei não tinha se recusado a tirar o monarca agonizante do hospital e trazê-lo até este lugar que só provocava maus pressentimentos. Mas, no fim das contas, os agentes da Guardia eram treinados para obedecer sem questionar, especialmente quando o pedido vinha do próprio comandante em chefe.

– Não rezo aqui há anos – disse Valdespino, olhando o corredor iluminado pelos fogos.

Julián sabia que o túnel por onde seguiam não era apenas o corredor de acesso para a montanha; era também a nave de uma igreja católica oficial. Adiante, o príncipe podia começar a ver as fileiras de bancos.

La basílica secreta, era como Julián havia chamado o lugar, quando era criança.

Escavado na montanha de granito, o santuário dourado no fim do túnel era um

espaço gigantesco, uma basílica subterrânea espantosa com uma cúpula enorme.

Segundo se dizia, o mausoléu subterrâneo tinha uma área maior que a da Basílica de São Pedro, em Roma, com seis capelas separadas cercando o altar-mor, posicionado meticulosamente sob a cruz no topo da montanha.