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Dan Brown · Capítulo 34 de 107

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Capítulo 34

C A P Í T U L O 3 4

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AS PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

Depois do assassinato de Edmond Kirsch, a multidão de seguidores do futurólogo na internet irrompeu num tiroteio de especulações sobre duas questões urgentes.

QUAL ERA A DESCOBERTA DE KIRSCH?

QUEM O MATOU E POR QUÊ?

Com relação à descoberta, teorias já inundaram a rede e cobrem uma variedade de temas, desde Darwin até extraterrestres, criacionismo e mais além.

Ainda não há um motivo confirmado para o assassinato, mas dentre as teorias estão o fanatismo religioso, a espionagem corporativa e o ciúme.

O ConspiracyNet recebeu a promessa de informações exclusivas sobre o assassino e vamos compartilhá-las com vocês a qualquer momento.

C A P Í T U L O 3 5

Ambra Vidal estava sozinha na cabine do táxi aquático, apertando a casaca de Robert Langdon em volta do corpo. Minutos antes, quando Langdon tinha perguntado por que ela concordara em se casar com um homem que mal conhecia, Ambra respondera com sinceridade.

Não tive escolha.

Seu noivado com Julián era um infortúnio do qual ela se arrependia e que não suportava reviver esta noite, principalmente depois de tudo o que havia acontecido.

Caí numa armadilha.

Ainda estou numa armadilha.

Agora, olhando seu reflexo na janela suja, uma sensação avassaladora de solidão a engolfou. Ambra Vidal não era de ceder à autopiedade, mas nesse momento seu coração estava frágil e à deriva. Estou noiva de um homem que está envolvido de algum modo num assassinato brutal.

O príncipe havia selado o destino de Edmond com um único telefonema, apenas uma hora antes do evento. Ambra estava se preparando freneticamente para a chegada dos convidados quando uma jovem funcionária chegou correndo, balançando empolgada um pedaço de papel.

– ¡Señorita Vidal! ¡Mensaje para usted!

A garota estava risonha e explicou sem fôlego que um telefonema importante tinha acabado de ser dado para a recepção do museu.

– O identificador de chamadas dizia que era do Palácio Real de Madri –

guinchou ela. – Por isso, claro, eu atendi! E era alguém ligando do escritório do príncipe Julián!

– Ligaram para a recepção? – perguntou Ambra. – Mas eles têm o número do meu celular...

– O secretário do príncipe disse que tentou falar com seu celular, mas não conseguiu.

Ambra verificou seu telefone. Estranho. Nenhuma chamada perdida. Então percebeu que alguns técnicos tinham testado pouco antes o sistema de bloqueio de celulares que seria usado mais tarde, e o secretário de Julián devia ter ligado quando seu telefone estava bloqueado.

– Parece que o príncipe recebeu um telefonema de um amigo muito importante em Bilbao, que quer comparecer ao evento desta noite. – A garota entregou o pedaço

de papel a Ambra. – Ele esperava que a senhora pudesse acrescentar um nome à lista de convidados desta noite.

Ambra olhou a mensagem.

Almirante Luis Ávila (reformado)

Armada Española

Um oficial reformado da Marinha espanhola?

– Deixaram um número e disseram que a senhora pode ligar direto, se quiser falar a respeito, mas que Julián estava para entrar numa reunião, de modo que provavelmente a senhora não conseguirá falar com ele. Mas a pessoa que ligou insistiu que o príncipe espera que o pedido não seja uma imposição.

Imposição? Ambra fumegou. Considerando o que você já me fez passar?

– Eu cuido disso – respondeu. – Obrigada.

A jovem funcionária saiu saltitante como se tivesse acabado de repassar a palavra do próprio Deus. Ambra olhou o pedido do príncipe, irritada por ele achar adequado exercer sua influência desse jeito, especialmente depois de se empenhar tanto para que ela não participasse do evento daquela noite.

De novo você não me deixa escolha, pensou.

Se ignorasse o pedido, o resultado seria um confronto desconfortável com um importante oficial da Marinha à porta do museu. O evento era coreografado meticulosamente e atrairia uma cobertura da mídia sem paralelos. A última coisa de que preciso é uma situação embaraçosa com um dos amigos influentes de Julián.

O almirante Ávila não tinha sido checado nem colocado na lista “liberada”, mas Ambra suspeitava que o pedido de uma verificação de segurança seria desnecessário e potencialmente insultuoso. Afinal de contas, o sujeito era um prestigiado oficial da Marinha com poder suficiente para pegar o telefone, ligar para o Palácio Real e pedir um favor ao futuro rei.

E assim, com uma programação apertada, tomou a única decisão possível.

Anotou o nome do almirante na lista de convidados e, além disso, o acrescentou ao banco de dados dos guias, para que pudessem preparar um fone para ele.

Em seguida voltou ao trabalho.

E agora Edmond está morto, pensou, voltando ao presente na escuridão do táxi aquático. Enquanto tentava afastar da cabeça as lembranças dolorosas, um pensamento estranho lhe ocorreu.

Não cheguei a falar diretamente com Julián… toda a mensagem foi transmitida por intermediários.

A ideia trouxe um pequeno raio de esperança.

Será possível que Robert esteja certo? E que talvez Julián seja inocente?

Pensou por mais um momento e depois saiu depressa da cabine.

Encontrou o professor americano sozinho na proa, as mãos na amurada, olhando para a noite. Juntou-se a ele, espantada ao ver que o barco tinha saído do braço principal do Rio Nervión e agora seguia para o norte ao longo de um pequeno afluente que parecia menos um rio e mais um canal perigoso com altos bancos de lama. A água rasa e as margens apertadas deixaram Ambra nervosa, mas o capitão parecia não se abalar, seguindo a toda a velocidade pela garganta estreita, com os faróis mostrando o caminho.

Contou rapidamente a Langdon sobre o telefonema dado por alguém do escritório do príncipe Julián.

– Só sei mesmo que a recepção do museu recebeu um telefonema originado no Palácio Real de Madri. Tecnicamente essa ligação poderia ter sido feita por qualquer pessoa de lá, dizendo que era o secretário de Julián.

Langdon assentiu.

– Talvez seja por isso que a pessoa optou por repassar o pedido, em vez de falar diretamente com você. Tem alguma ideia de quem pode estar envolvido?

Considerando a história de Edmond com Valdespino, Langdon ficou inclinado na direção do bispo.

– Poderia ser qualquer um – disse Ambra. – Este é um período delicado no palácio. Com Julián assumindo o centro do palco, muitos conselheiros antigos estão lutando para obter favores e ser ouvidos por ele. O país está mudando, e acho que boa parte da velha guarda está desesperada para manter o poder.

– Bom, independentemente de quem esteja envolvido, esperemos que não fique sabendo que estamos tentando descobrir a senha de Edmond e revelar sua descoberta.

Enquanto falava essas palavras, Langdon sentiu a absoluta simplicidade do desafio que tinham pela frente.

E também o perigo explícito que enfrentavam.

Edmond foi assassinado para impedir que essa informação fosse divulgada.

Por um instante se perguntou se sua opção mais segura não seria simplesmente pegar um avião para casa e deixar que outra pessoa cuidasse disso.

Segura, sim, pensou, mas opção... não.

Ao profundo sentimento de dever que Langdon sentia em relação ao ex-aluno, somava-se o ultraje moral diante da brutal censura de um avanço científico. Além disso, sentia uma intensa curiosidade intelectual com relação ao que, exatamente, Edmond teria descoberto.

E, por fim, sabia, existe Ambra Vidal.

Ela estava obviamente em crise e, quando tinha olhado nos olhos dele, implorando ajuda, Langdon percebeu que era uma mulher de enorme convicção pessoal e autoconfiança… mas atormentada por pesadas nuvens de medo e arrependimento. Existem segredos aí, sentiu, sombrios e aprisionadores. Ela está pedindo ajuda.

Ambra levantou os olhos de repente, como se sentisse os pensamentos dele.

– Você parece estar com frio – disse. – Precisa de sua casaca de volta.

Ele deu um sorriso suave.

– Estou bem.

– Está pensando que deveria sair da Espanha assim que chegarmos ao aeroporto?

Langdon deu uma gargalhada.

– Na verdade, isso me passou pela cabeça.

– Por favor, não vá. – Ela se aproximou da amurada e pôs a mão macia em cima da dele. – Não sei direito o que estamos enfrentando esta noite. Você era próximo de Edmond e ele me disse mais de uma vez como valorizava sua amizade e confiava na sua opinião. Estou com medo, Robert, e realmente não creio que possa enfrentar isso sozinha.

Os rompantes de sinceridade de Ambra eram espantosos para Langdon, mas ao mesmo tempo absolutamente cativantes.

– Certo – disse ele, confirmando com a cabeça. – Você e eu devemos a Edmond e, francamente, à comunidade científica, a descoberta dessa senha e a divulgação da obra dele.

Ambra sorriu.

– Obrigada.

Langdon olhou para trás do barco.

– Imagino que seus agentes da Guardia já devem ter percebido que nós saímos do museu.

– Sem dúvida. Mas Winston foi bem impressionante, não foi?

– Incrível – respondeu Langdon, só agora começando a entender direito o salto quântico que Edmond tinha dado no desenvolvimento de inteligência artificial.

O que quer que fossem as “revolucionárias tecnologias proprietárias”, sem dúvida ele estivera disposto a abrir as portas para um admirável mundo novo na interação entre seres humanos e computadores.

Esta noite Winston havia se mostrado um servidor fiel de seu criador, além de inestimável aliado de Langdon e Ambra. Em questão de minutos tinha descoberto uma ameaça na lista de convidados, tentado impedir o assassinato de Edmond, identificado o carro da fuga e facilitado a saída de Langdon e Ambra do museu.

– Espero que Winston tenha ligado para alertar os pilotos de Edmond – disse Langdon.

– Tenho certeza de que ligou. Mas você está certo. Eu deveria telefonar para o Winston e checar.

– Espere aí. – Langdon ficou surpreso. – Você pode telefonar para o Winston?

Quando saímos do museu e ficamos fora da área de cobertura, pensei…

Ambra riu e balançou a cabeça.

– Robert, Winston não está localizado fisicamente dentro do Guggenheim; está numa instalação secreta em algum lugar e é acessado remotamente. Você acha

mesmo que Edmond criaria algo como Winston e não poderia se comunicar com ele quando quisesse, de qualquer lugar no mundo? Edmond falava com Winston o tempo todo. Em casa, viajando, quando saía para passear. Os dois podiam se conectar a qualquer momento com um simples telefonema. Já vi Edmond conversar durante horas com Winston. Edmond o usava como secretário pessoal, para fazer reservas em restaurantes, coordenar ações com seus pilotos, na verdade para fazer qualquer coisa necessária. De fato, quando estávamos montando a apresentação no museu, eu falava frequentemente com Winston pelo meu telefone.

Ambra enfiou a mão no bolso da casaca de Langdon e tirou o telefone de Edmond, ligando-o. Langdon o havia desligado no museu para economizar a bateria.

– Você deveria ligar seu telefone também – disse ela –, para que nós dois tenhamos acesso a Winston.

– Você não se preocupa em ser rastreada se ligarmos?

Ambra balançou a cabeça.

– As autoridades não tiveram tempo para conseguir a ordem judicial necessária, por isso acho que vale o risco. Especialmente se Winston puder nos atualizar sobre o progresso da Guardia e a situação no aeroporto.

Em dúvida, Langdon ligou o telefone. Enquanto a tela inicial se materializava, franziu os olhos para a luz e sentiu uma pontada de vulnerabilidade, como se tivesse ficado instantaneamente localizável para cada satélite no espaço.

Você andou vendo filmes de espionagem demais, disse a si mesmo.

De repente seu telefone começou a emitir bipes e a vibrar enquanto uma quantidade de mensagens jorrava. Para sua perplexidade tinha recebido mais de 200

mensagens de texto e e-mails desde que havia desligado o telefone.

Enquanto examinava a caixa de entrada, viu que todas as mensagens eram de amigos e colegas. Os primeiros e-mails tinham cabeçalhos parabenizando-o –

Grande palestra! Mal acredito que você está aí! –, mas então, de repente, o tom se tornara ansioso e profundamente preocupado. Havia, inclusive uma mensagem do seu editor, Jonas Faukman: MEU DEUS – ROBERT, VOCE ESTÁ BEM??!! Langdon nunca vira seu erudito editor empregar palavras inteiramente em maiúsculas nem pontuação dupla.

Até agora Langdon estivera se sentindo maravilhosamente invisível na escuridão das vias aquáticas de Bilbao, como se o museu fosse um sonho que ia se esvaindo.

O mundo inteiro sabe, percebeu. A notícia da descoberta misteriosa e do assassinato brutal de Kirsch… junto com meu nome e meu rosto.

– Winston estava tentando fazer contato conosco – disse Ambra, olhando para a claridade do telefone de Kirsch. – Há 53 chamadas perdidas para Edmond na última meia hora, todas do mesmo número, todas com um espaço de exatamente 30

segundos. – Ela deu um risinho. – A persistência incansável está entre as muitas virtudes de Winston.

Nesse momento o telefone de Edmond começou a tocar.

Langdon sorriu para Ambra.

– Imagino quem seja.

Ela estendeu o telefone para ele.

– Atenda.

Langdon pegou o telefone e apertou o botão para atender.

– Alô?

– Professor Langdon – entoou a voz de Winston com seu familiar sotaque britânico. – Que bom que estamos de novo em contato. Estive tentando falar com o senhor.

– É, dá para ver – respondeu Langdon, impressionado porque o computador parecia tão absolutamente calmo e sem se abalar depois de 53 tentativas frustradas de ligação.

– Houve algumas novidades – disse Winston. – Existe uma possibilidade de que as autoridades do aeroporto sejam alertadas sobre o nome de vocês antes da sua chegada. De novo vou sugerir que sigam muito atentamente minhas orientações.

– Estamos nas suas mãos, Winston. Diga o que fazer.

– A primeira coisa, professor: se ainda não se livrou do seu celular, faça isso imediatamente.

– Tem certeza? – Langdon apertou seu telefone com força. – As autoridades não precisam de uma ordem judicial antes que alguém…

– Num seriado policial americano, talvez, mas o senhor está lidando com a Guardia Real e o Palácio Real da Espanha. Eles farão o que for necessário.

Langdon olhou seu telefone, sentindo-se estranhamente relutante em se separar dele. Toda a minha vida está aqui.

– E o telefone do Edmond? – perguntou Ambra, alarmada.

– É impossível de ser rastreado – respondeu Winston. – Edmond sempre se preocupou com hackers e com espionagem corporativa. Ele escreveu pessoalmente um programa de ocultação de IMEI/IMSI que varia os valores de C2 de seu telefone para enganar qualquer interceptador de GSM.

Claro que ele fez isso, pensou Langdon. Para o gênio que criou Winston, enganar uma companhia telefônica local seria moleza.

Langdon franziu a testa olhando seu telefone aparentemente inferior. Nesse momento Ambra o tirou com gentileza de suas mãos. Sem uma palavra, ela o segurou por cima da amurada e o soltou. Langdou viu o telefone mergulhar na água escura do Rio Nervión. Enquanto o aparelho desaparecia sob a superfície, sentiu uma pontada pela perda, olhando para trás, na direção dele, à medida que o barco prosseguia rapidamente.

– Robert – sussurrou Ambra –, só se lembre das sábias palavras da princesa Elsa, da Disney.

Langdon se virou.

– O quê?

Ambra deu um sorriso suave.

– Let it go.