Origem
Capítulo 24
Para Langdon, o diálogo bizarro tinha solucionado um pequeno mistério.
Ambra Vidal é noiva do príncipe Julián da Espanha? Essa notícia explicava o tratamento de celebridade que ela estava recebendo e também a presença da Guardia Real, ainda que certamente não explicasse a recusa em atender ao telefonema do noivo. O príncipe deve estar morrendo de preocupação se viu isso pela TV.
Quase instantaneamente ficou pasmo com uma segunda revelação, mais sombria.
Ah, meu Deus… Ambra Vidal é ligada ao Palácio Real de Madri.
A coincidência inesperada lhe provocou um arrepio enquanto ele se lembrava da mensagem ameaçadora do bispo Valdespino no telefone de Edmond.
C A P Í T U L O 2 4
A 200 metros do Palácio Real, dentro da Catedral de Almudena, o bispo Valdespino tinha parado de respirar por um momento. Ainda usava as vestes cerimoniais e estava sentado diante do laptop em seu escritório, fascinado pelas imagens transmitidas de Bilbao.
Isso vai ter uma cobertura maciça.
Pelo visto, a mídia global já estava enlouquecendo. Os principais noticiários enfileiravam autoridades em ciência e religião para especular sobre a apresentação de Edmond Kirsch, ao mesmo tempo que levantavam hipóteses sobre quem teria assassinado o futurólogo e por quê. A mídia parecia concordar que, ao que tudo indicava, existia alguém empenhado em garantir que a descoberta de Kirsch jamais visse a luz do dia.
Depois de um longo momento de reflexão, Valdespino pegou o celular e deu um telefonema.
O rabino Köves atendeu ao primeiro toque.
– Terrível! – A voz do religioso era quase um berro. – Eu estava assistindo pela televisão! Precisamos ir às autoridades agora mesmo e contar o que sabemos!
– Rabino – respondeu Valdespino em tom contido –, concordo que essa é uma reviravolta horrível. Mas, antes de agirmos, precisamos pensar.
– Não há o que pensar! – disparou Köves. – Sem dúvida, quem está por trás disso não vai hesitar diante de nada para enterrar a descoberta de Kirsch. São carniceiros! Estou convencido de que também mataram Syed. Devem saber quem somos e em seguida virão atrás de nós. Você e eu temos a obrigação moral de ir às autoridades e revelar o que Kirsch nos contou.
– Obrigação moral? Está parecendo que você quer tornar a informação pública para que ninguém tenha motivo para silenciar você ou a mim pessoalmente.
– Com certeza a nossa segurança é uma consideração – argumentou o rabino. –
Mas também temos uma obrigação moral para com o mundo. Sei que essa descoberta vai questionar algumas crenças religiosas fundamentais, mas se há uma coisa que aprendi em toda a minha longa vida é que a fé sempre sobrevive, mesmo diante de grandes dificuldades. Ainda que as revelações de Kirsch venham a público, acredito que a fé vai sobreviver a isso também.
– Entendi, amigo – disse o bispo, mantendo o tom o mais tranquilo possível. –
Dá para ouvir a decisão em sua voz e respeito seu pensamento. Quero que saiba que
estou aberto a discussão e até mesmo a mudar minha opinião. No entanto, quero lhe pedir um favor: se vamos revelar essa descoberta ao mundo, façamos isso juntos. À
luz do dia. Com honra. Não em desespero, logo depois desse assassinato horrível.
Vamos planejar, ensaiar e abordar a notícia de um modo adequado.
Köves não disse nada, mas Valdespino podia ouvir o velho respirando.
– Rabino – continuou o bispo –, no momento a questão mais premente é nossa segurança pessoal. Estamos lidando com matadores e se você ficar visível demais…
procurando as autoridades ou indo a uma emissora de televisão, por exemplo… a coisa pode terminar de modo violento. Temo em particular por você. Eu tenho proteção dentro do complexo do palácio, mas você… você está sozinho em Budapeste! Sem dúvida, a descoberta de Kirsch é uma questão de vida ou morte. Por favor, deixe que eu consiga proteção para você, Yehuda.
Köves ficou em silêncio por um momento.
– De Madri? Como você poderia…
– Tenho à disposição os recursos de segurança da família real. Fique dentro de casa com as portas fechadas. Vou requisitar que dois agentes da Guardia Real peguem você e o tragam para Madri, onde sua proteção estará garantida no complexo do palácio e onde poderemos nos sentar cara a cara e discutir o melhor modo de seguir em frente.
– Mas, se eu for para Madri... – disse o rabino, hesitando – e nós não conseguirmos chegar a um acordo sobre a melhor maneira de lidar com essa questão?
– Nós vamos chegar. Sei que sou antiquado, mas também sou realista, como você. Juntos vamos descobrir o melhor caminho. Tenho fé nisso.
– Obrigado – respondeu Köves. – Pela sua palavra, vou a Madri.
– Bom. Enquanto isso tranque as portas e não fale com ninguém. Prepare uma mala e eu ligo com os detalhes assim que os tiver. – Valdespino fez uma pausa. – E
tenha fé. Vou vê-lo muito em breve.
Valdespino desligou com um sentimento de pavor no coração; suspeitava que, para continuar controlando Köves, precisaria de algo mais do que um pedido de racionalidade e prudência.
Köves está entrando em pânico… como Syed.
Os dois não conseguem ver o quadro geral.
Valdespino fechou o laptop, enfiou-o embaixo do braço e foi andando pelo santuário escuro. Ainda usando as vestes cerimoniais, saiu da catedral para o ar frio da noite e atravessou a praça em direção à reluzente fachada branca do Palácio Real.
Acima da entrada principal, podia ver o brasão espanhol – um escudo flanqueado pelas Colunas de Hércules com o antigo lema PLUS ULTRA, que significa
“mais além”. Alguns acreditavam que a expressão se referia à busca espanhola de expandir o império durante sua era de ouro, séculos antes. Outros afirmavam que refletia a antiga crença do país, de que existia uma vida no céu, para além desta.
De qualquer modo, Valdespino sentia que o lema era menos relevante a cada dia. Enquanto olhava a bandeira espanhola tremulando acima do palácio, deu um suspiro triste, com os pensamentos voltados para o rei doente.
Vou sentir falta quando ele se for.
Eu devo tanto a ele.
Durante os últimos meses o bispo vinha fazendo visitas diárias ao amigo querido, de cama no Palacio de la Zarzuela, nos arredores da cidade. Havia alguns dias o rei tinha chamado Valdespino e o recebera em seu leito com uma expressão preocupada nos olhos.
– Antonio – sussurrou o rei –, sinto que o noivado do meu filho foi…
apressado.
Uma descrição mais exata seria “insano” , pensou o bispo.
Dois meses antes, quando o príncipe confiara a Valdespino que pretendia pedir Ambra Vidal em casamento depois de conhecê-la por um tempo muito curto, o bispo implorou que ele fosse mais prudente. Julián argumentou que estava apaixonado e que seu pai merecia ver o único filho casado. Além disso, falou, se ele e Ambra quisessem ter filhos, a idade dela exigia que não esperassem demais.
Valdespino sorriu calmamente para o rei.
– Sim, concordo. O pedido de Don Julián nos pegou a todos de surpresa. Mas ele só queria deixar o senhor feliz.
– O dever dele é para com o país – disse o rei enfaticamente –, não para com seu pai. E ainda que a Srta. Vidal seja adorável, ela é uma desconhecida para nós, é uma pessoa de fora. Eu questiono os motivos que a levaram a aceitar o pedido de Don Julián. Foi rápido demais, e uma mulher de honra deveria tê-lo rejeitado.
– O senhor está certo – respondeu Valdespino. – Se bem que, em defesa de Ambra, Don Julián lhe deixou pouca escolha.
O rei pegou gentilmente a mão ossuda do bispo.
– Meu amigo, não sei para onde o tempo foi. Você e eu ficamos velhos. Quero lhe agradecer. Você me aconselhou com sabedoria no correr dos anos, quando perdi minha esposa, durante as mudanças no nosso país, e eu me beneficiei tremendamente da força de sua convicção.
– Nossa amizade é uma honra que vou guardar para sempre como um tesouro.
O rei deu um sorriso débil.
– Antonio, sei que você fez sacrifícios para ficar comigo. Roma, para começo de conversa.
Valdespino deu de ombros.
– Tornar-me cardeal não me levaria para mais perto de Deus. Meu lugar sempre foi aqui, com o senhor.
– Sua lealdade tem sido uma bênção.
– E nunca vou esquecer a compaixão que o senhor demonstrou para comigo durante todos esses anos.
O rei fechou os olhos, apertando a mão do bispo com força.
– Antonio… estou preocupado. Logo meu filho vai se ver ao leme de um navio enorme, um navio que ele não está preparado para pilotar. Por favor, oriente-o. Seja sua estrela guia. Ponha sua mão firme sobre a dele, no timão, especialmente em mares revoltos. Acima de tudo, quando ele perder o prumo, imploro que o ajude a encontrar o caminho de volta… de volta a tudo o que é puro.
– Amém – sussurrou o bispo. – Dou-lhe minha palavra.
Agora, no ar frio da noite, Valdespino atravessou a praça e levantou os olhos para o céu. Majestade, por favor, saiba que estou fazendo tudo o que posso para cumprir com seus últimos desejos.
Sentia consolo em saber que o rei estava fraco demais para assistir à televisão.
Se ele tivesse visto a transmissão de Bilbao esta noite, teria morrido no ato, ao testemunhar a que ponto chegara o seu amado país. À direita de Valdespino, atrás do portão de ferro, por toda a Calle de Bailén, furgões da mídia tinham se reunido e estavam estendendo suas antenas de satélite.