Origem
Capítulo 64
Edmond disse que vinha trabalhando nela havia meses.
– Não sei – respondeu Langdon. – Mas meu instinto diz que a descoberta de Edmond não tem nada a ver com vida extraterrestre. Acredito mesmo que ele descobriu algo totalmente diferente.
Ambra pareceu surpresa, depois intrigada.
– Acho que só há um modo de descobrir. – E indicou a janela.
À frente deles brilhavam os pináculos reluzentes da Sagrada Família.
C A P Í T U L O 6 4
O bispo Valdespino deu outra espiada em Julián, que ainda olhava inexpressivamente pela janela do sedã Opel, seguindo pela Autoestrada M505.
O que ele está pensando? , perguntou-se Valdespino.
Fazia quase 30 minutos que o príncipe estava em silêncio, mal se movendo, a não ser pelo reflexo ocasional de levar a mão ao bolso procurando o telefone, lembrando que o tinha trancado no cofre de seu aposento.
Preciso mantê-lo no escuro só mais um pouco, pensou Valdespino.
No banco da frente, o acólito da catedral seguia na direção da Casita del Príncipe, mas logo Valdespino precisaria informar que o refúgio não era o destino final deles.
De repente, Julián deu as costas para a janela e bateu no ombro do acólito.
– Por favor, ligue o rádio – disse. – Quero ouvir as notícias.
Antes que o rapaz pudesse obedecer, Valdespino se inclinou para a frente e pôs a mão com firmeza no ombro dele.
– Vamos ficar em silêncio, está bem?
Julián se virou para o bispo, num descontentamento óbvio por ter sido contrariado.
– Sinto muito – disse Valdespino, sentindo uma desconfiança cada vez maior nos olhos do príncipe. – É tarde. Toda essa conversa fiada. Prefiro a reflexão silenciosa.
– Eu venho refletindo um bocado – retrucou Julián com a voz cortante –, e gostaria de saber o que está acontecendo no meu país. Nós nos isolamos totalmente esta noite e estou começando a me perguntar se foi boa ideia.
– É boa ideia – garantiu Valdespino. – E agradeço a confiança que o senhor depositou em mim. – Em seguida tirou a mão do ombro do acólito e indicou o rádio.
– Por favor, ligue no noticiário. Quem sabe a Radio María España?
Valdespino esperava que a estação católica fosse mais gentil e mais delicada do que a maioria dos veículos de comunicação em relação aos acontecimentos perturbadores da noite.
Quando a voz do apresentador saiu pelos alto-falantes baratos do carro, estava discutindo a apresentação e o assassinato de Edmond Kirsch. Todas as estações do mundo estão falando disso. Valdespino só esperava que seu nome não fosse citado na transmissão.
Felizmente, o assunto do momento parecia ser os perigos da mensagem antirreligiosa pregada por Kirsch, em especial a ameaça que sua influência poderia representar para os jovens da Espanha. Como exemplo, a estação começou a retransmitir uma palestra feita há pouco tempo por Kirsch na Universidade de Barcelona.
– Muitos de nós têm medo de ser chamados de ateus – disse Kirsch aos alunos reunidos. – No entanto, o ateísmo não é uma filosofia nem uma visão de mundo. O
ateísmo é simplesmente uma admissão do óbvio.
Vários estudantes aplaudiram, concordando.
– A palavra “ateu” nem deveria existir – continuou Kirsch. – Ninguém precisa se identificar como “não astrólogo” ou “não alquimista”. Não temos palavras para pessoas que duvidam que Elvis ainda esteja vivo, nem para pessoas que duvidam que os extraterrestres atravessem a galáxia só para molestar o gado. O ateísmo não é nada mais do que os sons que as pessoas razoáveis fazem na presença de crenças religiosas não justificadas.
Um número maior de estudantes aplaudiu.
– Por sinal, essa definição não é minha – disse Kirsch. – Essas palavras pertencem ao neurocientista Sam Harris. E, se ainda não fizeram isso, vocês devem ler seu livro Carta a uma Nação Cristã.
Valdespino franziu a testa, lembrando-se da agitação causada pelo livro de Harris, que, apesar de escrito para os americanos, tinha reverberado na Espanha.
– Levante as mãos quem acredita em algum dos seguintes deuses antigos: Apolo? Zeus? Vulcano? – Ele fez uma pausa e gargalhou. – Ninguém? Certo, então parece que todos somos ateus com relação a esses deuses. – Ele fez uma pausa. – Eu simplesmente opto por ir um deus além.
A multidão aplaudiu com mais força ainda.
– Amigos, não estou dizendo que tenho certeza de que não existe nenhum deus.
Só digo que, se existe uma força divina por trás do Universo, ela está rindo das religiões que criamos na tentativa de defini-la.
Todo mundo gargalhou.
Agora Valdespino estava satisfeito que o príncipe tivesse pedido para ligar o rádio. Julián precisa ouvir isso. O charme diabolicamente sedutor de Kirsch era prova de que os inimigos de Cristo não estavam mais sentados à toa. Eles tentavam ativamente levar almas para longe de Deus.
– Sou americano – continuou Kirsch –, e me sinto afortunado por ter nascido num dos países tecnologicamente mais avançados e intelectualmente mais progressistas do mundo. Assim, achei perturbador demais quando uma pesquisa recente revelou que metade dos meus compatriotas acredita que Adão e Eva existiram, que um Deus todo-poderoso criou dois seres humanos completamente formados que, sozinhos, povoaram todo o planeta, gerando todas as diversas raças, sem nenhum dos problemas inerentes à procriação consanguínea.
Mais risos.
– No Kentucky – continuou ele –, o pastor Peter LaRuffa declarou publicamente: “Se, em algum lugar da Bíblia, eu encontrasse uma passagem dizendo que ‘dois mais dois são cinco’, acreditaria e aceitaria como verdade.”
Mais risos ainda.
– Concordo, é fácil rir, mas garanto que essas crenças são muito mais aterrorizantes do que engraçadas. Muitas pessoas que as professam são inteligentes, profissionais formados: médicos, advogados, professores e, em alguns casos, aspirantes aos mais altos cargos do país. Uma vez ouvi o congressista americano Paul Broun dizer: “A evolução e o Big Bang são mentiras vindas direto do poço do inferno. Acredito que a Terra tem nove mil anos e foi criada em seis dias como os nossos.” – Kirsch fez uma pausa. – Mais perturbador ainda, o congressista Broun pertence ao Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia do Congresso e, ao ser questionado sobre a existência de um registro fóssil com milhões de anos, sua reação foi: “Os fósseis foram postos lá por Deus para testar nossa fé.”
A voz de Kirsch ficou subitamente baixa e sombria.
– Permitir a ignorância é dar poder a ela. Não fazer nada enquanto nossos líderes proclamam absurdos é um crime de complacência. Assim como deixar que as escolas e as igrejas ensinem inverdades completas às nossas crianças. A hora da ação chegou. Só quando livrarmos nossa espécie do pensamento supersticioso poderemos abraçar tudo o que nossa mente tem a oferecer. – Ele fez uma pausa e um silêncio baixou sobre a plateia. – Eu amo a humanidade. Acredito que nossa mente e nossa espécie têm um potencial ilimitado. Acredito que estamos à beira de uma nova era de iluminação, em que a religião finalmente se despede do mundo… e a ciência reina.
A plateia irrompeu em aplausos entusiasmados.
– Pelo amor de Deus – disse Valdespino com rispidez, balançando a cabeça enojado –, desligue isso.
O acólito obedeceu e os três continuaram viajando em silêncio.
A 50 quilômetros dali, Mónica Martín estava diante do ofegante Suresh Bhalla, que tinha acabado de entrar e lhe entregara um celular.
– Longa história – arquejou Suresh. – Mas você precisa ler essa mensagem que o bispo Valdespino recebeu.
– Espere aí. – Mónica quase largou o aparelho. – Esse é o telefone do bispo?!
Como diabo você…
– Não pergunte. Só leia.
Alarmada, Mónica virou os olhos para o telefone e começou a ler a mensagem na tela. Em segundos sentiu que estava ficando pálida.
– Meu Deus, o bispo Valdespino é…
– Perigoso – completou Suresh.
– Mas… isso é impossível! Quem é essa pessoa que mandou a mensagem para o bispo?!
– Número protegido. Estou trabalhando para identificar.
– E por que Valdespino não deletou essa mensagem?
– Não faço ideia – respondeu Suresh sem rodeios. – Foi descuidado?
Arrogante? Vou tentar recuperar qualquer outra mensagem e também ver se consigo saber com quem Valdespino está se comunicando, mas queria lhe dar logo essa notícia. Você terá que fazer uma declaração a respeito.
– Não vou fazer isso! – reagiu Mónica, chocada. – O palácio não vai divulgar essa informação!
– Não, mas alguém vai, e logo. – Suresh explicou rapidamente que o que o motivara a procurar o telefone de Valdespino tinha sido uma dica por e-mail enviada por monte@iglesia.org, o informante que vinha dando notícias para o ConspiracyNet. E se o informante continuasse agindo do mesmo modo como fizera até agora, a mensagem do bispo não ficaria em segredo por muito tempo.