Origem
Capítulo 87
Enquanto se aproximavam do santuário principal, Julián examinou o espaço à procura do pai. Mas a basílica parecia deserta.
– Onde ele está? – perguntou Valdespino, preocupado.
Agora Julián compartilhava a preocupação do bispo, temendo que a Guardia tivesse deixado o rei sozinho naquele espaço desolado. O príncipe avançou rapidamente, olhando para um braço do transepto e depois para o outro. Nenhum sinal do rei. Andou mais depressa, circulando em volta do altar e chegando à abside.
Foi ali, nos recessos mais profundos da montanha, que Julián finalmente viu o pai e parou, atônito.
O rei da Espanha estava completamente só, coberto por mantas pesadas e com o corpo frouxo numa cadeira de rodas.
C A P Í T U L O 8 7
Dentro da área principal da capela deserta, Langdon e Ambra seguiram a voz de Winston e passaram em volta do supercomputador de dois andares. Através do vidro grosso, escutavam uma vibração profunda emanando da máquina colossal lá dentro. Langdon tinha a assustadora sensação de que olhava uma fera encarcerada numa jaula.
Segundo Winston, o barulho não era gerado pelo equipamento eletrônico, e sim pela enorme quantidade de ventoinhas, dissipadores e bombas de líquido refrigerante necessária para impedir que a máquina superaquecesse.
– Aí dentro é ensurdecedor – disse Winston. – E frio. Felizmente o laboratório de Edmond é no segundo andar.
Uma escada espiral se erguia à frente, fixada na parede externa da área envidraçada. Seguindo a orientação de Winston, Langdon e Ambra subiram e se viram numa plataforma de metal diante de uma porta giratória de vidro.
Para diversão de Langdon, essa entrada futurista do laboratório de Edmond tinha sido decorada como uma casa suburbana – até mesmo com um tapete de boas-vindas, um vaso de planta artificial e um banquinho sob o qual havia um par de chinelos. Langdon percebeu, com melancolia, que eles deviam ser de Edmond.
Acima da porta havia uma mensagem emoldurada.
O sucesso é a capacidade de ir
de um fracasso ao outro
sem perder o entusiasmo.
– WINSTON CHURCHILL
– Mais Churchill – disse Langdon, mostrando a placa a Ambra.
– É a citação predileta de Edmond – entoou Winston. – Ele dizia que ela revela a característica mais forte dos computadores.
– Dos computadores? – perguntou Ambra.
– É, os computadores são infinitamente persistentes. Eu posso fracassar bilhões de vezes sem qualquer traço de frustração. Embarco na bilionésima tentativa de resolver um problema com a mesma energia da primeira. Os humanos não conseguem isso.
– Verdade – admitiu Langdon. – Em geral, eu desisto depois da milionésima.
Ambra sorriu e foi em direção à porta.
– O piso dentro é de vidro – disse Winston enquanto a porta começava a girar automaticamente. – Então, por favor, tirem os sapatos.
Em segundos, Ambra tinha chutado os sapatos e entrado descalça pela porta giratória. Ao segui-la, Langdon notou que o tapete de boas-vindas de Edmond tinha uma mensagem incomum:
NÃO HÁ LUGAR COMO O 127.0.0.1
– Winston, esse tapete? Não enten…
– Localhost – respondeu Winston.
Langdon leu o tapete de novo.
– Sei – disse, não sabendo nem um pouco, e continuou a passar pela porta giratória.
Quando saiu no piso de vidro, Langdon sentiu um momento de incerteza, ficando com as pernas bambas. Estar de pé numa superfície transparente calçado com meias já era bem incômodo, mas pegar-se diretamente em cima do supercomputador MareNostrum era muito perturbador. Vista de cima, a falange de armários imponentes o fez se lembrar de quando olhou para o famoso poço arqueológico de Xi’an, na China, para ver o exército de terracota.
Respirou fundo e levantou os olhos para o espaço bizarro diante dele.
O laboratório de Edmond era um retângulo transparente dominado pelo cubo de metal azul-acinzentado que ele tinha visto antes, com a superfície lustrosa refletindo tudo ao redor. À direita do cubo, numa borda da sala, havia um espaço de escritório ultramoderno com uma mesa semicircular, três telas de LCD gigantes e vários teclados em recessos no tampo de granito.
– Controle da missão – sussurrou Ambra.
Langdon assentiu e olhou para o outro lado da câmara, onde poltronas, um sofá e uma bicicleta ergométrica estavam arrumados sobre um tapete oriental.
Uma caverna humana de supercomputação, pensou Langdon, suspeitando que Edmond havia praticamente se mudado para aquela caixa de vidro enquanto trabalhava no projeto. O que ele descobriu aqui em cima? A hesitação inicial de Langdon havia passado, e agora ele sentia a força de atração da curiosidade intelectual: a vontade de descobrir que mistérios teriam sido desvelados ali, que segredos teriam sido desenterrados com a colaboração de uma mente genial e uma máquina poderosa.
Ambra já havia ido até o cubo enorme e estava olhando admirada para a superfície polida azul-acinzentada. Langdon se juntou a ela, os dois refletidos no exterior brilhante.
Isso é um computador? , pensou Langdon. Diferentemente da máquina de baixo,
essa estava em silêncio total – inerte e sem vida –, um monólito metálico.
O tom azulado da máquina fez Langdon se lembrar de um supercomputador da década de 1990 chamado “Deep Blue” – Azul Profundo –, que espantou o mundo ao derrotar o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov. Desde então, os avanços na tecnologia dos computadores eram quase impossíveis de se compreender.
– Gostariam de olhar dentro? – entoou Winston através de um conjunto de caixas de som, acima.
Ambra olhou espantada para o alto.
– Olhar dentro do cubo?
– Por que não? – respondeu Winston. – Edmond sentiria orgulho em mostrar a vocês dois a estrutura interna.
– Não é necessário – disse Ambra, virando os olhos para o escritório de Edmond. – Eu preferiria me concentrar em digitar a senha. Como fazemos isso?
– Só vai demorar alguns segundos, e ainda temos mais de 11 minutos antes da transmissão. Deem uma olhada dentro.
Diante deles, um painel na lateral do cubo virada para o escritório começou a deslizar, revelando uma grossa placa de vidro. Langdon e Ambra deram a volta e encostaram o rosto no vidro transparente.
Langdon esperava encontrar outro agrupamento denso de fios e luzes piscando.
Mas não viu nada disso. Para sua perplexidade, o interior do cubo estava escuro e vazio – como uma pequena sala desocupada. O único conteúdo parecia ser fiapos de névoa branca que redemoinhavam no ar como se a sala fosse um freezer. O grosso painel de plexiglas irradiava um frio surpreendente.
– Não tem nada aí – declarou Ambra.
Langdon também não viu nada, mas sentiu uma pulsação grave e repetitiva emanando de dentro do cubo.
– Essas batidas lentas e graves – disse Winston – são do sistema de refrigeração por diluição com tubo de pulso. O som parece de um coração humano.
Parece mesmo, pensou Langdon, incomodado com a comparação.
Lentamente luzes vermelhas começaram a iluminar o interior do cubo. A princípio Langdon viu apenas névoa branca e um espaço vazio – uma câmara quadrada sem nada dentro. Depois, à medida que a claridade aumentava, algo brilhou no ar acima do piso e ele percebeu que havia um intricado cilindro de metal pendendo do teto como uma estalactite.
– E é isso que o cubo deve manter frio – disse Winston.
O dispositivo cilíndrico suspenso no teto tinha cerca de 1,5 metro de comprimento, composto por sete anéis horizontais que diminuíam de diâmetro à medida que desciam, criando uma coluna cada vez mais estreita feita de discos em camadas presos por finas hastes verticais. O espaço entre os discos de metal polido era ocupado por uma teia esparsa de fios delicados. Uma névoa gelada fazia redemoinhos em volta de todo o dispositivo.
– E-Wave – anunciou Winston. – Um salto quântico, se vocês perdoam o jogo de palavras, para além do D-Wave da Nasa e do Google.
Winston explicou rapidamente que o D-Wave – o primeiro “computador quântico” rudimentar do planeta – tinha aberto as portas para um admirável mundo novo de poder computacional que os cientistas ainda estavam lutando para compreender. A computação quântica, em vez de usar um método binário de armazenar informação, usava os estados quânticos de partículas subatômicas, o que resultava num salto exponencial em velocidade, capacidade e flexibilidade.
– Estruturalmente o computador quântico de Edmond não é muito diferente do D-Wave – disse Winston. – Uma diferença é o cubo metálico ao redor. O cubo é coberto com ósmio, um elemento químico raro, ultradenso, que proporciona um maior isolamento magnético, térmico e quântico. E, além disso, suspeito, gera um efeito dramático bem ao estilo de Edmond.
Langdon sorriu, já que tivera um pensamento semelhante.
– Nos últimos anos, enquanto o Laboratório de Inteligência Artificial Quântica do Google usava computadores como o D-Wave para aumentar o aprendizado das máquinas, Edmond pulou secretamente por cima de todo mundo com esta aqui. E
fez isso usando uma única ideia ousada… – Winston fez uma pausa. –
Bicameralismo.
Langdon franziu a testa. Duas câmaras do Parlamento?
– O cérebro de dois lóbulos – continuou Winston. – Hemisférios esquerdo e direito.
A mente bicameral, percebeu Langdon enfim. Uma das coisas que tornavam o ser humano tão criativo era que as duas metades do cérebro funcionavam de modo muito diferente. O lado esquerdo era analítico e verbal, o direito era intuitivo e
“preferia” imagens a palavras.
– O truque – disse Winston – foi que Edmond decidiu construir um cérebro sintético que imitava o humano – isto é, segmentado em dois hemisférios, o esquerdo e o direito. Ainda que, neste caso, seja mais um arranjo do tipo andar de cima e andar de baixo.
Langdon deu um passo atrás e olhou através do piso, para a máquina barulhenta lá embaixo, e depois de novo para a “estalactite” silenciosa dentro do cubo. Duas máquinas distintas fundidas em uma só: uma mente bicameral.
– Quando são obrigadas a trabalhar como uma única unidade – continuou Winston –, essas duas máquinas adotam abordagens diferentes para resolver um problema, e com isso experimentam o mesmo tipo de conflitos e acordos que ocorrem entre os lóbulos do cérebro humano, o que acelera tremendamente o aprendizado, a criatividade e, de certo modo… a humanidade da inteligência artificial. No meu caso, Edmond me deu os instrumentos para aprender sobre a humanidade observando o mundo ao redor e modelando os traços humanos: humor, cooperação, julgamentos de valor e até um senso de ética.
Incrível, pensou Langdon.
– Então esse computador duplo é essencialmente… você?
Winston riu.
– Bom, esta máquina não sou eu, assim como o seu cérebro físico não é você.
Observando o seu cérebro numa tigela, você não diria: “Este objeto sou eu.” Nós somos a soma das interações que acontecem dentro do mecanismo.
– Winston – chamou Ambra, agora indo para a área de trabalho de Edmond. –
Quanto tempo falta para a transmissão?
– Cinco minutos e quarenta e três segundos. Vamos nos preparar?
– Sim, por favor – disse ela.
O painel que cobria o vidro deslizou lentamente de volta para o lugar e Langdon foi se juntar a Ambra no laboratório de Edmond.
– Winston – disse ela. – Considerando todo o seu trabalho aqui com Edmond, estou surpresa por você não ter a mínima ideia de qual era a descoberta dele.
– De novo, Srta. Vidal, minhas informações são compartimentadas, e eu tenho os mesmos dados que vocês. Só posso fazer uma suposição.
– E qual seria ela? – perguntou Ambra, olhando ao redor.
– Bom, Edmond dizia que sua descoberta “mudaria tudo”. Segundo a minha experiência, as descobertas mais transformadoras da história resultaram em modelos revisados do Universo. Revoluções como a rejeição de Pitágoras ao modelo da Terra plana, o heliocentrismo de Copérnico, a teoria da evolução de Darwin e a descoberta da relatividade por Einstein. Todas essas ideias alteraram drasticamente a visão do mundo para a humanidade e atualizaram o modelo do Universo que prevalecia naquele momento.
Langdon olhou para o alto-falante acima.
– Então você está supondo que Edmond descobriu algo que sugere um novo modelo do Universo?
– É uma dedução lógica – respondeu Winston, agora falando mais depressa. –
Por acaso, o MareNostrum é um dos primeiros computadores de “modelagem” na Terra, especializado em simulações complexas, a mais famosa das quais é o “Alya Red”, um coração humano virtual, totalmente funcional, que é exato até o nível celular. Claro, com o acréscimo recente de um componente quântico, esta instalação pode modelar sistemas milhões de vezes mais complexos do que os órgãos humanos.
Langdon captou o conceito, mas ainda não podia imaginar o que Edmond poderia ter modelado para responder às perguntas: De onde viemos? Para onde vamos?
– Winston? – chamou Ambra, junto à mesa de Edmond. – Como ligamos isso?
– Posso ajudar – respondeu Winston.
As três enormes telas de LCD na mesa se acenderam justo quando Langdon chegou ao lado de Ambra. Enquanto as imagens se materializavam, os dois recuaram, alarmados.
– Winston… esta imagem é ao vivo? – perguntou ela.
– Sim, mandada pelas nossas câmeras de segurança externas. Achei que vocês deveriam saber. Elas chegaram há vários segundos.
As telas mostravam a visão captada por uma lente olho de peixe na entrada principal da capela, onde um pequeno exército de policiais havia se reunido apertando o interfone, tentando forçar a porta, falando em rádios.
– Não se preocupem – garantiu Winston –, eles jamais conseguirão entrar. E
faltam menos de quatro minutos para a transmissão.