Origem

Dan Brown · Capítulo 1 de 107

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Origem

Prólogo

Devemos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para ter a vida que nos espera.

– JOSEPH CAMPBELL

F A T O

Todas as obras de arte, toda a arquitetura, todos os locais, conceitos de ciência e organizações religiosas deste livro são reais.

P r ó l o g o

Enquanto o antigo trem de cremalheira se arrastava pela encosta vertiginosa, Edmond Kirsch ia examinando o topo serrilhado da montanha. A distância, construído na face de um penhasco íngreme, o enorme mosteiro de pedra parecia suspenso no espaço, fundido magicamente com o precipício vertical.

Esse santuário antiquíssimo na Catalunha, Espanha, tinha sofrido a atração implacável da gravidade durante mais de quatro séculos, jamais escorregando do objetivo original: isolar seus ocupantes do mundo moderno.

Por ironia, agora eles serão os primeiros a saber da verdade, pensou Kirsch, imaginando como reagiriam. Historicamente, os homens mais perigosos da Terra eram homens de Deus… em especial quando seus deuses eram ameaçados. E eu vou arremessar uma lança em chamas contra um ninho de vespas.

Quando o trem chegou ao topo da montanha, Kirsch viu uma figura solitária esperando na plataforma. Um velho esquelético vestindo a tradicional batina católica roxa com roquete branco e um solidéu na cabeça. Kirsch reconheceu as feições duras e ossudas do homem a partir de fotos e sentiu uma inesperada onda de adrenalina.

Valdespino veio me receber pessoalmente.

O bispo Antonio Valdespino era uma figura formidável na Espanha – não somente amigo e conselheiro de confiança do próprio rei, mas também um dos mais influentes e enfáticos defensores da preservação dos valores católicos conservadores e dos padrões políticos tradicionais.

– Edmond Kirsch, presumo? – entoou o bispo quando Kirsch saiu do trem.

– Culpado – respondeu Kirsch, sorrindo enquanto se adiantava para apertar a mão ossuda do anfitrião. – Bispo Valdespino, quero agradecer por ter arrumado este encontro.

– Eu é que agradeço que o tenha requisitado. – A voz do bispo era mais forte do que Kirsch esperava: clara e penetrante. – Não é comum sermos consultados por homens de ciência, em especial um tão importante como o senhor. Aqui, por obséquio.

Enquanto Valdespino guiava Kirsch pela plataforma, o ar frio da montanha açoitava sua batina.

– Devo confessar que o senhor é diferente do que imaginei – disse Valdespino.

– Estava esperando um cientista, mas o senhor é um homem bem-apessoado… – Ele olhou com uma leve sugestão de desdém o elegante terno Kiton K50 e os sapatos de couro de avestruz Barker. – Está, como se diz, nos trinques, não é?

Kirsch sorriu educadamente. A expressão “nos trinques” saiu de moda há décadas.

– Lendo a lista dos seus feitos – continuou o bispo –, ainda não estou totalmente certo do que o senhor faz.

– Sou especializado na teoria dos jogos e em modelagem por computador.

– Então o senhor faz os jogos de computador com os quais as crianças brincam?

Kirsch sentiu que o bispo estava fingindo ignorância numa tentativa de parecer antiquado. Sabia que Valdespino era um estudioso de tecnologia assustadoramente bem informado e que sempre alertava sobre os seus perigos.

– Não, senhor, na verdade a teoria dos jogos é um campo da matemática que estuda padrões com o objetivo de fazer previsões sobre o futuro.

– Ah, sim. Acho que li que o senhor previu uma crise monetária na Europa há alguns anos, não foi? Quando ninguém lhe deu atenção, o senhor salvou o mundo inventando um programa de computador que trouxe os Estados Unidos de volta dos mortos. Qual foi mesmo a sua frase famosa? “Aos 33 anos, tenho a mesma idade que Cristo quando ele ressuscitou.”

Kirsch se encolheu.

– Uma analogia ruim, Reverendíssimo. Eu era jovem.

– Jovem? – O bispo deu um risinho. – E quantos anos o senhor tem agora?

Quarenta, talvez?

– Exato.

O velho sorriu enquanto o vento forte continuava a agitar sua batina.

– Bom, os mansos deveriam herdar a Terra, mas em vez disso ela foi para os jovens: os que têm vocação tecnológica, os que preferem olhar para monitores de vídeo em vez de para a própria alma. Devo admitir que jamais imaginei que teria motivo para me encontrar com o rapaz que lidera essa batalha. Eles o chamam de profeta, o senhor sabe.

– No que diz respeito a Vossa Excelência Reverendíssima, não sou um profeta muito bom. Quando perguntei se poderia ter um encontro privado com o senhor e seus colegas, calculei que a chance de aceitarem seria de apenas 20 por cento.

– Como eu disse aos meus colegas, o devoto sempre pode se beneficiar de ouvir os incrédulos. É escutando a voz do diabo que podemos apreciar melhor a voz de Deus. – O velho sorriu. – Estou brincando, claro. Por favor, desculpe meu senso de humor antiquado. De vez em quando meus filtros falham.

Em seguida o bispo Valdespino sinalizou adiante.

– Os outros estão esperando. Por aqui, por favor.

Kirsch olhou para onde iam: uma colossal cidadela de pedra cinza empoleirada na borda de um penhasco íngreme que mergulhava centenas de metros até uma

luxuriante tapeçaria de colinas cobertas de florestas. Incomodado com a altura, desviou o olhar do abismo e acompanhou o bispo pelo caminho irregular à beira do penhasco, levando os pensamentos para a reunião que viria.

Ele tinha pedido uma audiência com três proeminentes líderes espirituais que haviam acabado de participar de uma conferência ali.

O Parlamento das Religiões do Mundo.

Desde 1893, centenas de líderes de quase 30 religiões mundiais vinham se reunindo em lugares diferentes, a intervalos de alguns anos, para passar uma semana debatendo sobre suas crenças. Dentre os participantes havia uma variedade de importantes sacerdotes cristãos, rabinos judeus e mulás muçulmanos de todo o mundo, além de pujaris hindus, bhikkus budistas, jainistas, sikhs e outros.

O objetivo autoproclamado do parlamento era “cultivar a harmonia entre as religiões do mundo, construir pontes entre diversas espiritualidades e celebrar as interseções de todas as crenças”.

Uma busca nobre, pensou Kirsch, apesar de vê-la como um exercício vazio: uma procura sem sentido de pontos aleatórios de correspondência entre uma mixórdia de ficções, fábulas e mitos antigos.

Enquanto o bispo Valdespino o guiava pelo caminho, Kirsch olhou para o precipício com um pensamento irônico. Moisés subiu a montanha para aceitar a Palavra de Deus… e eu, para fazer o oposto.

Sua motivação, como dissera a si mesmo, era cumprir uma obrigação ética, mas sabia que essa visita era alimentada por uma boa dose de orgulho: estava ansioso para sentar-se cara a cara com aqueles clérigos e sentir o prazer de prever seu fim iminente.

Vocês tiveram sua chance de definir nossa verdade.

– Olhei o seu currículo – disse o bispo em tom abrupto, virando-se para Kirsch.

– Vi que o senhor é cria da Universidade de Harvard.

– Na graduação. Sim.

– Sei. Recentemente li que, pela primeira vez na história de Harvard, entre os alunos novos, há mais ateus e agnósticos do que os que se dizem seguidores de alguma religião. Essa é uma estatística bastante reveladora, Sr. Kirsch.

O que posso dizer? , quis responder Kirsch. Nossos alunos são cada vez mais inteligentes.

O vento açoitou com mais força quando chegaram à antiga construção de pedra.

À luz fraca da entrada do prédio, o ar estava pesado com a fragrância densa de incenso queimando. Os dois homens serpentearam por um labirinto de corredores escuros e os olhos de Kirsch se esforçaram para se acostumar enquanto ele seguia o anfitrião. Por fim chegaram a uma porta de madeira estranhamente pequena. O bispo bateu, abaixou-se e entrou, sinalizando para o visitante acompanhá-lo.

Em dúvida, Kirsch passou pela soleira.

Viu-se num aposento retangular cujas paredes altas estavam atulhadas de

antigos volumes encadernados em couro. Outras estantes se projetavam das paredes como costelas, intercaladas com aquecedores de ferro fundido que estalavam e sibilavam, dando a fantasmagórica impressão de que a sala estava viva. Kirsch ergueu os olhos para a passarela com parapeito ornamentado que circundava todo o segundo andar. E soube, sem dúvida, onde estava.

A famosa Biblioteca de Montserrat, constatou, espantado por ter recebido permissão de entrar ali. Segundo boatos, aquela sala sagrada continha textos raros, acessíveis apenas aos monges que tinham dedicado a vida a Deus e estavam isolados naquela montanha.

– O senhor pediu discrição – disse o bispo. – Este é o nosso local mais privativo. Poucas pessoas de fora já entraram aqui.

– É um enorme privilégio. Obrigado.

Kirsch acompanhou o bispo até uma grande mesa de madeira onde dois homens idosos estavam sentados, esperando. O da esquerda parecia desgastado pelo tempo, com olhos exaustos e barba branca emaranhada. Usava um terno preto amarrotado, camisa branca e chapéu de feltro.

– Este é o rabino Yehuda Köves – disse o bispo. – É um importante filósofo judeu, autor de vários estudos sobre cosmologia cabalista. Kirsch apertou educadamente a mão do rabino por cima da mesa.

– É um prazer conhecê-lo, senhor – cumprimentou. – Li seus livros sobre a Cabala. Não posso dizer que os entendi, mas li.

Köves assentiu amigavelmente, enxugando os olhos aquosos com o lenço.

– E aqui – continuou o bispo, indicando o outro homem – está o respeitado allamah Syed al-Fadl.

O reverenciado erudito muçulmano se levantou e deu um sorriso largo. Era baixo e atarracado, com um rosto jovial que parecia não combinar com os olhos escuros e penetrantes. Vestia um discreto thawb branco.

– E, Sr. Kirsch, eu li suas previsões sobre o futuro da humanidade. Não posso dizer que concordo com elas, mas li.

Kirsch deu um sorriso gentil e apertou a mão do sujeito.

– E, como os senhores sabem – continuou o bispo, dirigindo-se aos dois colegas

–, Edmond Kirsch, o nosso visitante, é um respeitado cientista da computação, teórico dos jogos, inventor e uma espécie de profeta do mundo tecnológico.

Considerando seu histórico, fiquei perplexo por ele ter pedido um encontro conosco.

Portanto agora deixarei que o Sr. Kirsch explique a que veio.

Com isso o bispo Valdespino sentou-se entre os dois colegas, cruzou as mãos e olhou com expectativa para Kirsch. Os três estavam de frente para ele, como num tribunal, criando um ambiente mais parecido com uma inquisição do que um encontro amigável entre eruditos. Kirsch percebeu que o bispo nem tinha posto uma cadeira para ele.

Sentiu-se mais admirado do que intimidado enquanto examinava os três

homens idosos. Então esta é a Santíssima Trindade que eu requisitei. Os Três Reis Magos.

Parando um momento para reafirmar seu poder, foi até a janela e olhou a paisagem de tirar o fôlego, lá embaixo. Uma ensolarada colcha de retalhos de antigas terras pastoris se estendia por um vale profundo, dando lugar aos picos serrilhados da Cordilheira de Collserola. Quilômetros além, em algum lugar no Mar das Baleares, nuvens ameaçadoras se reuniam no horizonte.

Adequado, pensou Kirsch, sentindo a turbulência que causaria na sala e no mundo lá fora.

– Senhores – começou, virando-se abruptamente de volta para eles –, creio que o bispo Valdespino já os colocou a par do meu pedido de segredo. Antes de continuarmos, quero esclarecer que o que vou lhes contar deve ser mantido no mais absoluto sigilo. Dito de modo simples, estou pedindo um voto de silêncio. Estamos de acordo?

Os três assentiram. Uma concordância tácita que, Kirsch sabia, era provavelmente redundante. Eles vão querer enterrar essa informação, e não divulgá-la.

– Estou hoje aqui – continuou Kirsch – porque fiz uma descoberta científica que acredito que acharão espantosa. É algo que busquei durante muitos anos, esperando fornecer respostas para duas das perguntas mais fundamentais da experiência humana. Agora que consegui, vim especificamente aos senhores porque acredito que essa informação afetará de maneira profunda os fiéis do mundo todo, possivelmente causando uma mudança que só pode ser descrita como, digamos...

demolidora. No momento sou a única pessoa na face da Terra que tem a informação que estou prestes a revelar.