Origem

Dan Brown · Capítulo 20 de 107

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Capítulo 20

Seu iminente papel como soberano católico da Espanha seria apenas uma pequena parte do desafio que ele enfrentaria ao abordar o evento desta noite. Muito mais preocupante era que, no mês anterior, o príncipe Julián tinha feito uma declaração que provocara alvoroço, lançando sob Ambra Vidal os refletores da nação.

Tinha anunciado que os dois estavam noivos e iriam se casar.

C A P Í T U L O 2 0

Robert Langdon estava inquieto com a direção tomada pelo evento.

A apresentação de Edmond estava chegando perigosamente perto de se tornar uma condenação da fé em geral. Langdon se perguntou se, de algum modo, o ex-aluno havia se esquecido de que estava falando não somente para o grupo de cientistas agnósticos naquela sala, mas também para milhões de pessoas em todo o globo, que assistiam ao anúncio pela internet.

Sem dúvida, a apresentação foi idealizada com o objetivo de provocar controvérsia.

Langdon estava incomodado com sua participação no programa. Ainda que Edmond tivesse considerado o vídeo um tributo, ele preferiria não repetir experiências passadas, em que involuntariamente se tornara o elemento central de controvérsias religiosas.

Mas Kirsch montara um premeditado ataque audiovisual às religiões, e agora Langdon estava começando a repensar sua reação despreocupada à mensagem que o futurólogo tinha recebido do bispo Valdespino.

A voz de Edmond encheu de novo o salão, com os elementos visuais se dissolvendo lá em cima numa colagem de símbolos religiosos de todo o mundo.

– Devo admitir que tive dúvidas quanto ao anúncio desta noite e, particularmente, quanto ao modo como essa revelação pode afetar as crenças das pessoas. – Ele fez uma pausa. – E assim, há três dias, fiz algo que não é muito característico da minha parte. Num esforço para demonstrar respeito aos pontos de vista religiosos e avaliar como minha descoberta seria recebida por pessoas de várias crenças, consultei discretamente três importantes líderes espirituais – eruditos do islã, do cristianismo e do judaísmo – e contei a eles minha descoberta.

Murmúrios baixos ecoaram pelo ambiente.

– Como eu esperava, os três reagiram com profunda surpresa, preocupação e, sim, até raiva diante do que revelei. E ainda que as reações tenham sido negativas, quero lhes agradecer pela gentileza em me receber. Farei a cortesia de não revelar seus nomes, mas quero me dirigir diretamente a eles esta noite e agradecer por não tentarem interferir nesta apresentação.

Edmond fez uma pausa.

– Deus sabe que eles poderiam fazer isso.

Langdon prestava atenção, surpreso com a habilidade com que Edmond

caminhava por uma linha tênue e cobria todas as variáveis. A decisão de se encontrar com líderes religiosos sugeria uma abertura mental, uma confiança e uma imparcialidade pelas quais o futurólogo não costumava ser conhecido. Langdon suspeitava que a reunião em Montserrat fora em parte uma missão de pesquisa e em parte uma manobra de relações públicas.

Um inteligente passe livre para fugir de encrenca, pensou.

– Historicamente – continuou Edmond –, o fervor religioso sempre suprimiu o progresso científico, e assim esta noite imploro que os líderes religiosos de todo o mundo reajam com moderação e compreensão diante do que vou dizer. Por favor, não vamos repetir a violência sangrenta que aconteceu por toda a história. Não vamos cometer os mesmos erros do passado.

As imagens no teto deram lugar a um desenho de uma antiga cidade murada –

uma metrópole perfeitamente circular localizada às margens de um rio que atravessava um deserto.

Langdon a reconheceu imediatamente como a antiga Bagdá, com a incomum construção circular fortificada por três muralhas concêntricas encimadas por ameias e seteiras.

– No século VIII – disse Edmond –, a cidade de Bagdá alcançou proeminência como o maior centro de aprendizado da Terra, acolhendo todas as religiões, filosofias e ciências em suas universidades e bibliotecas. Durante 500 anos, o fluxo de inovações científicas que a cidade produziu foi diferente de tudo o que o mundo tinha visto, e sua influência é sentida até hoje, na cultura moderna.

No alto, o céu cheio de estrelas reapareceu e, desta vez, podia-se ler o nome de muitas delas: Vega, Betelgeuse, Algebar, Deneb, Acrab, Kitalpha.

– Todos esses nomes derivam do árabe – disse Edmond. – Até hoje, mais de dois terços das estrelas têm nome originário dessa língua, porque foram descobertas por astrônomos do mundo árabe.

O céu se encheu rapidamente com tantas estrelas de nome árabe que o fundo ficou praticamente escondido. Os nomes sumiram de novo, deixando apenas a vastidão do céu.

– E, claro, se quisermos contar as estrelas…

Numerais romanos começaram a aparecer um a um ao lado das estrelas mais brilhantes.

I, II, III, IV, V…

Os números pararam abruptamente e desapareceram.

– Não usamos numerais romanos – disse Edmond. – Usamos numerais arábicos.

Agora a numeração começou a usar o sistema arábico.

1, 2, 3, 4, 5…

– Talvez vocês também reconheçam estas invenções islâmicas – disse Edmond.

– E todos ainda usamos seus nomes árabes.

A palavra ÁLGEBRA flutuou no céu, cercada por uma série de equações com múltiplas variáveis. Em seguida veio a palavra ALGORITMO, com uma variedade de fórmulas. Depois AZIMUTE, com um diagrama mostrando ângulos no horizonte da Terra. O fluxo se acelerou… NADIR, ZÊNITE, ALQUIMIA, QUÍMICA, CIFRA, ELIXIR, ÁLCOOL, ALCALINO, ZERO…

Enquanto as familiares palavras de origem árabe iam passando, Langdon pensou em como era trágico que tantos americanos visualizassem Bagdá apenas como uma daquelas cidades poeirentas do Oriente Médio que apareciam nos noticiários, devastadas pela guerra, sem saber que ela já foi o centro do progresso científico da humanidade.

– No fim do século XI – disse Edmond –, as maiores explorações intelectuais e descobertas da Terra estavam acontecendo em Bagdá e nos arredores. Então, quase da noite para o dia, isso mudou. Um brilhante estudioso chamado Hamid al-Ghazali, agora considerado um dos muçulmanos mais influentes da história, escreveu uma série de textos persuasivos questionando a lógica de Platão e Aristóteles e declarando que a matemática era a “filosofia do diabo”. Isso deu início a uma confluência de acontecimentos que solapou o pensamento científico. O estudo da teologia se tornou compulsório e finalmente todo o movimento científico islâmico desmoronou.

As palavras científicas no alto evaporaram, substituídas por imagens de textos religiosos do islã.

– A revelação substituiu a investigação. E até hoje o mundo científico islâmico ainda tenta se recuperar. – Edmond fez uma pausa. – Claro, o mundo científico cristão não se saiu melhor.

Pinturas dos astrônomos Copérnico, Galileu e Bruno apareceram no teto.

– O assassinato sistemático, o aprisionamento e a condenação por parte da Igreja de algumas das mentes científicas mais brilhantes retardaram o progresso humano por pelo menos um século. Hoje, felizmente, com nossa compreensão mais clara dos benefícios da ciência, a Igreja moderou seus ataques… – Edmond suspirou.

– Será mesmo?

O logotipo de um globo com um crucifixo e uma serpente no centro surgiu junto com o texto:

Declaração de Madri sobre Ciência e Vida

– Aqui mesmo, na Espanha, a Federação Mundial das Associações Médicas Católicas declarou recentemente uma guerra contra a engenharia genética, proclamando que “a ciência não tem alma” e que, portanto, deve ser contida pela Igreja.

Agora o globo se transformou num círculo diferente: o esquema de um enorme acelerador de partículas.

– E este era o Supercolisor Supercondutor do Texas, anunciado como o maior colisor de partículas do mundo, com o potencial de explorar o momento da Criação.

Ironicamente ele ficaria situado no centro do Cinturão Bíblico dos Estados Unidos.

A imagem se dissolveu numa enorme estrutura de cimento em forma de anel que se estendia pelo deserto do Texas. As instalações estavam inacabadas, cobertas de poeira e terra, aparentemente abandonadas no meio da construção.

– O supercolisor dos Estados Unidos poderia ter feito avançar tremendamente a compreensão do Universo, mas o projeto foi cancelado devido ao estouro no orçamento e a pressões políticas por parte de algumas fontes espantosas.

Um trecho de noticiário de TV mostrou um jovem evangelizador balançando o best-seller A partícula de Deus e gritando furioso: “Deveríamos procurar Deus dentro do coração! Não dentro dos átomos! Gastar bilhões nessa experiência absurda é um embaraço para o estado do Texas e uma afronta a Deus!”

A voz de Edmond retornou:

– Esses conflitos que eu descrevi, em que a superstição religiosa venceu a razão, são apenas escaramuças numa guerra contínua.

De repente o céu explodiu em uma colagem de imagens violentas da sociedade moderna: manifestantes à frente de laboratórios de pesquisa, um sacerdote pondo fogo no próprio corpo diante de uma convenção de transumanismo, evangélicos sacudindo os punhos e levantando o livro do Gênesis, um peixe de Jesus comendo um peixe de Darwin, cartazes religiosos condenando furiosamente a pesquisa com células-tronco, os direitos dos homossexuais, o aborto, e cartazes igualmente raivosos pregando o contrário.

Deitado no escuro, Langdon sentia o coração bater forte. Por um momento pensou que a grama embaixo dele estava tremendo, como se uma composição do metrô se aproximasse. Então, à medida que os tremores ficavam mais fortes, percebeu que a terra estava mesmo chacoalhando. Vibrações profundas atravessavam a grama sob suas costas e toda a cúpula tremeu com um rugido.

O som, transmitido através de subwoofers embaixo do chão, lembrava o de um rio feroz. Langdon sentiu uma névoa fria e úmida batendo no rosto e no corpo, como se estivesse sendo levado pela correnteza.

– Estão ouvindo esse som? – gritou Edmond acima do estrondo da água. – É a enchente inexorável do Rio do Conhecimento Científico!

A água rugia mais alto ainda e a névoa molhava o rosto de Langdon.

– Desde que o homem descobriu o fogo – gritou Edmond –, este rio vem ganhando força. Cada descoberta se transformou numa ferramenta com que fizemos novas descobertas, a cada vez acrescentando uma gota a este rio. Hoje surfamos a crista de um tsunami, um dilúvio que avança ferozmente com força incontrolável!

A sala tremeu mais violentamente ainda.

– De onde viemos! – gritou Edmond. – Para onde vamos! Sempre fomos destinados a encontrar as respostas! Nossos métodos de investigação estão

evoluindo exponencialmente há milênios!

Agora a névoa e o vento chicoteavam a sala, e o trovejar do rio chegou a um volume quase ensurdecedor.

– Pensem nisso! – declarou Edmond. – Os primeiros humanos demoraram mais de um milhão de anos para progredir desde a descoberta do fogo até a invenção da roda. Depois levaram apenas alguns milhares de anos para inventar a prensa gráfica.

E então demoraram apenas duas centenas de anos para construir um telescópio. Nos séculos seguintes, em períodos cada vez menores, saltamos da máquina a vapor para os automóveis a gasolina e para o ônibus espacial! E então foram necessárias apenas duas décadas para começarmos a modificar nosso próprio DNA!

Kirsch gritou:

– Agora medimos o progresso científico em meses, avançando num ritmo estonteante. Não vai tardar até que o mais rápido supercomputador de hoje pareça um ábaco; os métodos cirúrgicos mais avançados parecerão bárbaros. E as fontes de energia atuais vão parecer tão antiquadas quanto usar uma vela para iluminar uma sala!

A voz de Edmond e o rugido da água continuaram na escuridão barulhenta.

– No passado, os gregos precisavam olhar séculos atrás para estudar a cultura antiga, mas nós só precisamos voltar no tempo uma única geração para nos darmos conta de que as pessoas viviam sem as tecnologias que hoje consideramos comuns.

A linha do tempo do desenvolvimento humano está se comprimindo, o espaço que separa o “antigo” do “moderno” vai se encolhendo até desaparecer. E por esse motivo eu lhes dou minha palavra de que os próximos anos de desenvolvimento humano serão chocantes, perturbadores e totalmente inimagináveis!

Sem aviso, o trovejar do rio parou.

O céu estrelado voltou. Assim como a brisa quente e os grilos.

Os convidados pareceram exalar, todos ao mesmo tempo.

No silêncio abrupto, a voz de Edmond voltou num sussurro:

– Amigos. Sei que estão aqui porque lhes prometi uma descoberta, e obrigado por terem me aguentado durante esse preâmbulo. Agora vamos jogar fora as algemas do pensamento antigo. É hora de compartilhar a empolgação da descoberta.

Com essas palavras, uma névoa baixa veio rolando de todos os lados e o céu começou a reluzir com a luz do alvorecer, iluminando fracamente a plateia.

Subitamente um canhão de luz se acendeu e girou de maneira dramática para o fundo do salão. Em instantes quase todos os convidados estavam sentados, esticando o pescoço para trás em meio à névoa, esperando ver o anfitrião aparecer em pessoa.

Mas depois de alguns segundos o canhão de luz girou de novo para a frente da sala.

A plateia se virou junto.

Ali, sorrindo à luz do refletor, estava Edmond Kirsch. Suas mãos pousavam confiantes nas laterais de um pódio que segundos antes não estava ali.

– Boa noite, amigos – disse, simpático, o grande showman, enquanto a névoa

começava a se dissipar.

Em segundos as pessoas estavam de pé, aplaudindo. Langdon se juntou a elas, incapaz de conter o riso.

É a cara do Edmond aparecer numa nuvem de fumaça.

Até aquele momento a apresentação da noite, apesar de antagonizar com a fé religiosa, tinha sido um tour de force – uma façanha ousada e resoluta como o próprio anfitrião. Agora Langdon entendia por que a crescente população de livres pensadores ao redor do mundo idolatrava tanto Edmond.

No mínimo, ele diz o que pensa de um modo que poucos ousariam.

Quando o rosto de Edmond apareceu na tela acima, Langdon notou que ele parecia muito menos pálido do que antes – obviamente fora maquiado por um profissional. Mesmo assim, dava para ver que seu amigo estava exausto.

Os aplausos continuaram tão ruidosos que Langdon quase não sentiu a vibração no bolso do peito. Por instinto levou a mão para pegar o telefone, mas percebeu que ele estava desligado. Estranhamente, a vibração vinha do outro dispositivo em seu bolso – o fone transdutor – através do qual Winston parecia estar falando muito alto.