Origem

Dan Brown · Capítulo 30 de 107

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Capítulo 30

Quais são as chances disso? , pensou.

O primeiro adesivo era de esperar: o logotipo do Uber. Mas o segundo só podia ter sido um sinal vindo do alto.

A cruz papal. Hoje em dia esse símbolo estava em toda parte: católicos ao redor da Europa mostravam solidariedade ao novo papa, elogiando a liberalização e a modernização da Igreja.

Ironicamente, a descoberta de Ávila de que o motorista era devoto do papa liberal tinha transformado a experiência de apontar uma arma para o sujeito em algo quase prazeroso. O almirante estava pasmo ao ver como as massas preguiçosas adoravam esse novo pontífice que permitia que os seguidores de Cristo escolhessem

num bufê de leis de Deus quais regras eram palatáveis e quais não eram. Quase da noite para o dia, dentro do Vaticano, questões como controle de natalidade, casamento gay, ordenação de mulheres e outras causas liberais tinham ido parar na mesa para ser discutidas. Dois mil anos de tradição pareciam evaporar num piscar de olhos.

Felizmente ainda existem aqueles que lutam pelos costumes antigos.

Ávila escutou trechos do hino de Oriamendi tocando na sua cabeça.

E eu me sinto honrado em servi-los.

C A P Í T U L O 3 0

A força de segurança mais antiga e mais elitizada da Espanha, a Guardia Real, tem uma tradição feroz que data dos tempos medievais. Os agentes da Guardia consideram seu dever diante de Deus garantir a segurança da família real, proteger as propriedades reais e defender a honra real.

O comandante Diego Garza – supervisor dos quase dois mil membros da Guardia – era um homem de 60 anos, pequeno e magro, de pele morena, olhos minúsculos e cabelo preto e ralo penteado para trás sobre um crânio pintalgado. Suas feições de roedor e a estatura diminuta tornavam Garza quase invisível numa multidão, o que ajudava a camuflar sua enorme influência dentro dos muros do palácio.

Muito tempo antes Garza havia aprendido que o verdadeiro poder não derivava da força física, e sim da influência política. O comando das tropas da Guardia Real certamente lhe garantia influência, mas era sua presciente sabedoria política que o estabelecera como encarregado do palácio numa enorme variedade de questões, tanto pessoais quanto profissionais.

Fiel guardador de segredos, Garza jamais havia traído a confiança de ninguém.

Sua reputação de firme discrição, junto com a capacidade espantosa de resolver problemas delicados, o tornara indispensável para o rei. Mas agora Garza e outros no palácio encaravam um futuro incerto enquanto o idoso soberano vivia seus últimos dias no Palacio de la Zarzuela.

Durante mais de quatro décadas, o rei tinha governado um país turbulento enquanto estabelecia uma monarquia parlamentar depois de 36 anos da ditadura sangrenta do ultraconservador general Francisco Franco. Desde a morte de Franco, em 1975, o rei tinha tentado trabalhar de mãos dadas com o governo para cimentar o processo democrático da Espanha, levando o país lentamente de volta para a esquerda.

Para os jovens as mudanças eram lentas demais.

Para os tradicionalistas idosos as mudanças eram blasfemas.

Muitos membros da elite da Espanha ainda defendiam ferozmente a doutrina conservadora de Franco, especialmente sua visão do catolicismo como uma “religião de Estado” e sustentação moral da nação. Porém, um número cada vez maior de jovens espanhóis se opunha com firmeza a esse ponto de vista: condenando audaciosamente a hipocrisia da religião organizada e fazendo campanha por uma

separação maior entre Igreja e Estado.

Agora, com um príncipe de meia-idade a ponto de ascender ao trono, ninguém tinha certeza da direção para onde o novo rei tenderia. Durante décadas, o príncipe Julián tinha feito um serviço admirável realizando seus insossos deveres cerimoniais, deixando por conta do pai as questões políticas e jamais evidenciando suas crenças pessoais. Ainda que a maioria dos comentaristas suspeitasse de que ele era muito mais liberal do que o pai, realmente era impossível ter certeza.

Mas esta noite o véu seria retirado.

À luz dos acontecimentos chocantes em Bilbao e da impossibilidade de o rei falar publicamente devido aos problemas de saúde, o príncipe não teria escolha a não ser abordar os perturbadores acontecimentos da noite.

Várias altas autoridades do governo, inclusive o primeiro-ministro, já haviam condenado o assassinato, evitando com astúcia fazer mais comentários até que o Palácio Real se pronunciasse – com isso depositando toda a confusão no colo do príncipe Julián.

Garza não ficou surpreso; o envolvimento da futura rainha, Ambra Vidal, transformava a situação em uma granada política na qual ninguém sentia vontade de pôr a mão.

O príncipe Julián será testado esta noite, pensou, subindo rapidamente a grande escadaria em direção aos aposentos reais do palácio. Ele vai precisar de orientação. E, com o pai incapacitado, essa orientação terá de ser dada por mim.

O comandante caminhou por toda a extensão do corredor da residencia e finalmente chegou à porta do príncipe. Respirou fundo e bateu.

Estranho, pensou ao não obter resposta. Sei que ele está aqui. Segundo o agente Fonseca, em Bilbao, o príncipe Julián tinha acabado de telefonar do apartamento e estava tentando falar com Ambra Vidal para garantir que ela estava em segurança. E, graças aos céus, ela estava.

Garza bateu de novo, sentindo uma preocupação crescente ao não obter resposta.

Rapidamente destrancou a porta.

– Don Julián? – gritou entrando.

O apartamento estava escuro, a não ser pela luz tremeluzente da televisão na sala.

– Olá?

Garza entrou e encontrou o príncipe de pé, sozinho no escuro, uma silhueta imóvel virada para a janela. Ainda estava impecavelmente vestido, com o terno bem cortado que usara nas reuniões daquela tarde.

Olhando em silêncio, Garza ficou inquieto diante do aparente estado de transe de seu príncipe. Parece que esta crise o deixou atônito.

O comandante pigarreou, revelando sua presença.

Quando o príncipe finalmente falou, fez isso sem virar as costas para a janela.

– Quando liguei para Ambra – disse ele –, ela se recusou a falar comigo.

A voz de Julián parecia mais perplexa do que magoada.

Garza não sabia direito como responder. Dados os acontecimentos da noite, parecia incompreensível que Julián estivesse pensando em seu relacionamento com Ambra – um noivado que vinha se mostrando tenso desde o início mal concebido.

– Imagino que a Srta. Vidal ainda esteja em choque – sugeriu Garza, baixinho.

– O agente Fonseca vai entregá-la ao senhor mais tarde, ainda esta noite. Então os dois poderão conversar. E deixe-me acrescentar como me sinto aliviado ao saber que ela está em segurança.

O príncipe Julián balançou a cabeça, distraído.

– O atirador está sendo rastreado – disse Garza, tentando mudar de assunto. –

Fonseca me garantiu que logo estarão com o terrorista sob custódia. – Ele usou a palavra “terrorista” intencionalmente, com esperança de tirar o príncipe do atordoamento.

Mas ele só assentiu inexpressivo outra vez.

– O primeiro-ministro condenou o assassinato – continuou Garza –, mas o governo espera que o senhor faça algum pronunciamento… considerando o envolvimento de Ambra. – Ele fez uma pausa. – Sei que a situação é incômoda, dado o seu noivado, mas eu sugeriria que o senhor simplesmente dissesse que uma das coisas que mais admira em sua noiva é a independência. E que, mesmo sabendo que ela não compartilha das ideias políticas de Edmond Kirsch, aplaude o fato de ela cumprir com seus compromissos como diretora do museu. Eu posso escrever alguma coisa, se o senhor quiser. Deveríamos fazer uma declaração a tempo de ser transmitida nos noticiários da manhã.

O olhar de Julián não se afastou da janela.

– Eu gostaria de ouvir a opinião do bispo Valdespino sobre qualquer declaração que fizermos.

Garza trincou o maxilar e engoliu a desaprovação. A Espanha pós-Franco era um Estado aconfesional, ou seja, não tinha mais uma religião de Estado, e a Igreja não deveria se envolver em questões políticas. Mas a amizade íntima de Valdespino com o rei sempre havia garantido ao bispo uma influência incomum nas questões cotidianas do palácio. Infelizmente a política linha dura e o fanatismo religioso de Valdespino deixavam pouco espaço para a diplomacia e o tato exigidos para abordar a crise daquela noite.

Precisamos de nuance e sutileza – não de dogma e fogos de artifício.

Garza havia descoberto muito tempo atrás que a aparência devota de Valdespino escondia uma verdade muito simples: o bispo sempre servia aos próprios interesses antes dos interesses de Deus. Até recentemente isso era algo que Garza podia ignorar, mas, agora, com o equilíbrio do poder se alterando, a visão do bispo se juntando a Julián era motivo para uma preocupação significativa.

Valdespino já é próximo demais do príncipe.

Garza sabia que Julián sempre havia considerado o bispo alguém da “família” –

mais como um tio com quem podia contar do que uma autoridade religiosa. Como confidente mais íntimo do rei, Valdespino recebera a tarefa de supervisionar o desenvolvimento moral do jovem Julián e tinha feito isso com dedicação e fervor: selecionando todos os tutores do príncipe, apresentando-o às doutrinas da fé e até aconselhando-o em questões do coração. Agora, anos mais tarde, mesmo quando Julián e Valdespino não concordavam em tudo, o elo entre os dois continuava profundo.

– Don Julián – disse Garza em tom calmo –, estou convencido de que a situação desta noite é algo que o senhor e eu deveríamos abordar sozinhos.

– É mesmo? – questionou a voz de um homem na escuridão atrás dele.

Garza virou, pasmo ao ver um fantasma de batina sentado nas sombras.

Valdespino.

– Devo dizer, comandante – sibilou Valdespino –, que achei que o senhor, mais do que qualquer pessoa, perceberia quanto vocês precisam de mim esta noite.

– Esta é uma situação política – declarou Garza com firmeza –, e não religiosa.

Valdespino zombou.

– O fato de o senhor ser capaz de fazer uma declaração dessas me diz que superestimei grosseiramente sua perspicácia política. Se quer minha opinião, só existe uma reação adequada para esta crise. Devemos garantir à nação que o futuro rei da Espanha, o príncipe Julián, é um homem muito religioso, católico devoto.

– Concordo… e incluiremos uma menção à fé de Don Julián em qualquer declaração que ele fizer.

– E quando o príncipe Julián aparecer diante da imprensa, precisará de mim ao lado, com a mão em seu ombro, um símbolo poderoso da força de sua ligação com a Igreja. Essa imagem fará mais para tranquilizar a nação do que qualquer palavra que o senhor puder escrever.

Garza se eriçou.

– O mundo acaba de testemunhar um assassinato brutal em solo espanhol –

declarou Valdespino. – Em tempos de violência, nada consola mais do que a mão de Deus.