Origem

Dan Brown · Capítulo 73 de 107

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Origem

Capítulo 75

Na claridade da lanterna, Langdon pôde ver a barba grisalha e a calça branca engomada… e num instante soube quem era.

O oficial da Marinha que estivera no Guggenheim…

Apontou a arma para a cabeça dele, sentindo o indicador no gatilho.

– Você matou meu amigo Edmond Kirsch.

O homem estava sem fôlego, mas sua resposta foi imediata, a voz parecendo gelo:

– Foi um acerto de contas. Seu amigo Edmond Kirsch matou minha família.

C A P Í T U L O 7 5

Langdon quebrou minhas costelas.

O almirante Ávila sentia pontadas fortes ao respirar, encolhendo-se de dor enquanto o peito arfava em desespero, tentando restaurar o oxigênio no corpo.

Agachado na escada acima dele, Robert Langdon olhava para baixo, apontando a pistola desajeitadamente para a sua barriga.

O treinamento militar de Ávila logo prevaleceu e ele começou a avaliar a situação. Na coluna dos contras, seu inimigo tinha a arma e a posição mais elevada.

Na coluna dos prós, a julgar pelo modo incomum como o professor segurava a pistola, ele tinha muito pouca experiência com armas de fogo.

Ele não tem intenção de atirar em mim, decidiu Ávila. Vai me manter aqui e esperar os seguranças. Pelo que indicavam todos os gritos lá fora, estava claro que os seguranças da Sagrada Família tinham ouvido os tiros e agora entravam correndo na igreja.

Devo agir depressa.

Mantendo as mãos levantadas em rendição, Ávila ficou lentamente de joelhos, sugerindo obediência e submissão completas.

Dê a Langdon a sensação de que ele está no controle.

Apesar da queda pela escada, Ávila podia sentir que o objeto que havia prendido na parte de trás do cinto continuava ali: a pistola de cerâmica com a qual tinha matado Kirsch no Guggenheim. Havia posto a última bala na câmara antes de entrar na igreja, mas não precisara usá-la. Tinha matado um dos guardas em silêncio e roubado sua arma muito mais eficiente, que, por azar, Langdon estava apontando para ele agora. Desejou tê-la travado, supondo que o professor provavelmente não saberia destravá-la.

Pensou em tentar pegar a arma de cerâmica no cinto para atirar primeiro em Langdon, mas, mesmo se tivesse sucesso, estimava suas chances de sobrevivência em cerca de 50 por cento. Um dos perigos de quem não tinha experiência com armas era a tendência a atirar por engano.

Se eu me mexer depressa demais…

O som dos guardas gritando estava chegando mais perto e Ávila soube que, se fosse preso, a tatuagem do “victor” na palma da mão garantiria sua libertação – pelo menos era o que o Regente havia prometido. Mas no momento, depois de matar dois agentes da Guardia Real, não tinha tanta certeza de que a influência do Regente

poderia salvá-lo.

Vim aqui realizar uma missão, lembrou. E preciso completá-la. Eliminar Robert Langdon e Ambra Vidal.

O Regente orientara Ávila a entrar na igreja pelo portão de serviço no lado leste, mas ele decidira pular por cima de uma cerca. Tinha visto a polícia espreitando perto do portão leste e, por isso, improvisara. Langdon falou enfaticamente, olhando para Ávila com raiva, por cima da arma:

– Você disse que Edmond Kirsch matou sua família. É mentira. Edmond não era assassino.

Está certo, pensou Ávila. Ele era muito pior.

A verdade sinistra sobre Kirsch era um segredo que Ávila só ficara conhecendo dias antes, por meio de um telefonema do Regente. Nosso papa está pedindo que você acabe com o famoso futurólogo Edmond Kirsch, tinha dito o Regente. As motivações de Sua Santidade são muitas, mas ele gostaria que você realizasse esta missão pessoalmente.

Por que eu? , perguntara Ávila.

Almirante, sussurrara o Regente. Lamento dizer, mas Edmond Kirsch foi responsável pelo atentado a bomba que matou sua família na catedral.

A primeira reação de Ávila fora de absoluta incredulidade. Não conseguia enxergar nenhum motivo para um conhecido cientista da computação explodir uma bomba numa igreja.

O senhor é militar, almirante, explicara o Regente, portanto sabe melhor do que ninguém: o jovem soldado que puxa o gatilho na batalha não é o matador de verdade. É um peão, fazendo o trabalho dos mais poderosos – governantes, generais, líderes religiosos – que pagaram a ele ou o convenceram de que uma causa vale qualquer preço.

De fato, Ávila havia testemunhado esse tipo de situação.

As mesmas regras se aplicam ao terrorismo, continuara o Regente. Os terroristas mais malignos não são as pessoas que constroem as bombas, e sim os líderes influentes que alimentam o ódio entre as massas desesperadas, incitando seus soldados a cometer atos de violência. Só é preciso uma alma sombria e poderosa para criar tumulto no mundo ao inspirar a intolerância espiritual, o nacionalismo ou o ódio na mente dos vulneráveis.

Ávila se vira obrigado a concordar.

Os ataques terroristas contra os cristãos estão crescendo em todo o mundo, dissera o Regente. Esses novos ataques não são acontecimentos planejados de modo estratégico; são agressões espontâneas realizadas por lobos solitários atendendo a um chamado às armas feito por convincentes inimigos de Cristo. O Regente fizera uma pausa. E, dentre esses inimigos, está o ateu Edmond Kirsch.

Ávila chegara a pensar que o Regente estava forçando um pouco a verdade.

Apesar da campanha desprezível de Kirsch contra o cristianismo, o cientista jamais

havia feito uma declaração instigando o assassinato de cristãos.

Antes que o senhor discorde, dissera a voz pelo telefone, deixe-me dar uma última informação. O Regente soltara um suspiro pesado. Ninguém sabe disso, almirante, mas o ataque que matou sua família… foi programado como um ato de guerra contra a Igreja Palmariana.

Essa afirmação mexera com Ávila, porém ela não fazia sentido. A Catedral de Sevilha não era um prédio palmariano.

Na manhã do atentado, dissera a voz, quatro membros importantes da Igreja Palmariana estavam na congregação de Sevilha com o objetivo de fazer recrutamentos. Eles eram especificamente os alvos. O senhor conhece um deles: Marco. Os outros três morreram no ataque.

Os pensamentos de Ávila entraram num redemoinho enquanto ele visualizava seu fisioterapeuta, Marco, que tinha perdido a perna no atentado.

Nossos inimigos são poderosos e motivados, continuara a voz. Quando o terrorista não conseguiu acesso ao nosso complexo em Palmar de Troya, seguiu nossos quatro missionários até Sevilha e agiu lá. Sinto muito, almirante. Essa tragédia é um dos motivos pelos quais os palmarianos fizeram contato com o senhor. Nós nos sentimos responsáveis por sua família ter se tornado um dano colateral numa guerra travada contra nós.

Uma guerra travada por quem? , perguntara Ávila, tentando compreender aquelas afirmações chocantes.

Verifique o seu e-mail, respondera o Regente.

Ávila abrira a caixa de mensagens e descobrira uma quantidade chocante de documentos particulares delineando uma cruzada brutal contra a Igreja Palmariana por mais de uma década… uma luta que aparentemente incluía processos judiciais, ameaças que chegavam à beira da chantagem e doações substanciais para grupos de vigilantes antipalmarianos, como o Palmar de Troya Support e o Dialogue Ireland.

Mais surpreendente ainda, essa batalha feroz contra a Igreja Palmariana parecia estar sendo conduzida por um único indivíduo: o futurólogo Edmond Kirsch.

Ávila ficara perplexo. Por que Edmond Kirsch quer destruir especificamente os palmarianos?

O Regente dissera que ninguém na Igreja – nem mesmo o próprio papa – tinha ideia de por que Kirsch sentia um ódio específico pelos palmarianos. Só sabiam que uma das pessoas mais ricas e influentes do planeta não descansaria até que eles fossem esmagados.

Por fim, o Regente chamara a atenção de Ávila para um último documento: a cópia de uma carta datilografada para os palmarianos de um homem que afirmava ser o terrorista de Sevilha. Na primeira linha, o terrorista se dizia “discípulo de Edmond Kirsch”. Ávila não precisava ver mais nada. Seus punhos se fecharam com fúria.

O Regente explicara por que os palmarianos jamais tinham divulgado a carta.

Com todas as matérias negativas que saíam sobre eles – boa parte orquestrada ou financiada por Kirsch –, a última coisa que queriam era ser associados a um atentado a bomba.

Minha família morreu por causa de Edmond Kirsch.

Agora, na escada escura, Ávila encarou Robert Langdon, sentindo que ele provavelmente não sabia nada sobre a cruzada secreta de Kirsch contra a Igreja Palmariana, nem que Kirsch tinha inspirado o ataque que matara sua família.

Não importa o que Langdon saiba, pensou Ávila. Ele é um soldado como eu.

Nós dois caímos nesse buraco de raposa e só um vai sair. Eu tenho ordens a cumprir.

Langdon estava posicionado alguns degraus acima dele, apontando a arma como um amador – com as duas mãos. Má escolha, pensou Ávila, baixando silenciosamente as pontas dos pés para um degrau abaixo, firmando os pés e olhando direto nos olhos de Langdon.

– Sei que você acha difícil acreditar – declarou Ávila –, mas Edmond Kirsch matou minha família. E aqui está a prova.

O almirante abriu a palma da mão para mostrar sua tatuagem, que, claro, não era prova nenhuma, mas provocou o efeito desejado: Langdon olhou.

Enquanto o foco do professor mudava brevemente, Ávila saltou para cima, bem rente à parede curva, movendo o corpo para fora da linha de tiro. Tal como tinha previsto, Langdon atirou por impulso: apertando o gatilho antes que pudesse realinhar a arma com o alvo em movimento. Como um trovão, o disparo reverberou no espaço apertado e Ávila sentiu uma bala raspar no ombro antes de ricochetear, inofensiva, pelo poço de pedra.

Langdon já estava mirando de novo, mas Ávila girou no ar e, enquanto caía, baixou os punhos com força sobre os pulsos de Langdon, arrancando a arma das mãos dele e fazendo-a cair ruidosamente pela escada.

Uma dor lancinante rasgou o peito e o ombro de Ávila enquanto ele desabava no degrau ao lado de Langdon, mas a adrenalina renovou suas forças. Levou a mão atrás e tirou a pistola de cerâmica do cinto. A arma parecia quase sem peso comparada à do guarda.

Apontou-a para o peito de Langdon e, sem hesitar, puxou o gatilho.

A pistola ribombou, mas fez um som incomum, de algo se despedaçando. Ávila sentiu um calor intenso na mão, percebendo imediatamente que o cano havia explodido. Essas novas armas “indetectáveis”, feitas sem metal, só serviam para disparar um ou dois tiros. Ávila não tinha ideia de onde a bala fora parar, mas quando viu Langdon se levantando, largou a arma e saltou para ele. Os dois se enroscaram com violência perto da borda interna precariamente baixa.

Nesse instante Ávila soube que tinha vencido.

Agora somos só nós dois, pensou. Mas eu tenho a melhor posição.

Tinha avaliado o vão no centro da escada – uma queda mortal praticamente sem

 

proteção. Tentando empurrar Langdon de costas para lá, levou uma perna para trás e a pressionou contra a parede, o que lhe dava um enorme poder de alavanca. Com uma explosão súbita de força, empurrou Langdon para trás, na direção do poço.

Langdon resistiu ferozmente, mas Ávila estava numa posição muito mais vantajosa, e pela expressão desesperada nos olhos do professor ficou claro que ele sabia o que estava para acontecer.

Robert Langdon tinha ouvido dizer que as escolhas mais importantes da vida –

as que significam vida ou morte – geralmente são tomadas numa fração de segundo.

Assim, empurrado brutalmente contra a borda baixa, com as costas arqueadas sobre uma queda de 30 metros, sabia que seu corpo de mais de 1,80 metro e seu alto centro de gravidade o colocavam numa desvantagem mortal. Não poderia fazer nada para se contrapor à força de Ávila.

Olhou em desespero por cima do ombro, para o vazio atrás. O poço circular era estreito – cerca de um metro de diâmetro –, mas com espaço suficiente para acomodar seu corpo em queda… que certamente iria batendo na borda de pedra até chegar ao fundo.

É impossível sobreviver à queda.

Ávila soltou um berro gutural e mudou a posição das mãos agarrando Langdon.

Quando ele agiu assim, Langdon percebeu que só havia um movimento a fazer.

Em vez de lutar contra o sujeito, iria ajudá-lo.

Enquanto Ávila o puxava para cima, Langdon se agachou, firmando os pés no degrau.

Por um momento ele era de novo um rapaz de 20 anos na piscina de Princeton… competindo no nado de costas… grudado na posição de largada… de costas para a água… joelhos dobrados… abdômen retesado… esperando o tiro de partida.

Timing é fundamental.

Dessa vez não escutou nenhum tiro de partida. Explodiu a partir da posição agachada, lançando-se no ar, arqueando as costas por cima do vazio. Ao saltar, sentiu que Ávila, que havia se posicionado para se opor a 90 quilos, se desequilibrou completamente pela súbita reversão de forças.

O almirante o soltou o mais rápido que pôde, mas Langdon sentiu que ele balançava os braços em busca de equilíbrio. Enquanto partia voando, Langdon rezou para conseguir viajar o suficiente para ultrapassar o buraco e chegar aos degraus do lado oposto, quase dois metros abaixo… mas pelo jeito isso não aconteceria. No ar, enquanto começava a dobrar o corpo numa bola protetora, colidiu com força contra

uma face de pedra vertical.

Não consegui.

Estou morto.

Certo de que tinha acertado a borda interna, preparou-se para o mergulho no vazio.

Mas a queda só durou um instante.

Bateu quase imediatamente num piso irregular e afiado, golpeando a cabeça. A força da colisão quase o deixou inconsciente, mas nesse momento percebeu que tinha passado por cima do poço e acertado a parede externa, pousando numa parte inferior da escada em espiral.

Encontre a arma, pensou, esforçando-se para se manter consciente, sabendo que Ávila estaria em cima dele em questão de segundos.

Mas era tarde demais.

Seu cérebro estava apagando.