Origem
Capítulo 37
Ávila se apoiou nas barras paralelas, sem saber direito como responder.
Idolatrava o papa da época: um sólido líder conservador que pregava o tradicionalismo rígido e a ortodoxia. Infelizmente, ele estava sofrendo ataques vindos de todos os lados do planeta em constante modernização. Havia boatos de que logo optaria por se afastar do cargo diante da crescente pressão liberal.
– Eu me sentiria honrado em conhecê-lo, claro, mas…
– Bom. Vou tentar marcar para amanhã.
Ávila jamais havia imaginado que no dia seguinte estaria dentro de um santuário seguro, cara a cara com um líder poderoso que iria lhe dar a lição religiosa mais revigorante de sua vida.
As estradas para a salvação são muitas.
O perdão não é o único caminho.
C A P Í T U L O 3 7
Localizada no térreo do Palácio de Madri, a Biblioteca Real é um conjunto de salas ornamentadas de modo espetacular, contendo milhares de volumes de valor inestimável, entre eles o Livro das Horas da rainha Isabel, ilustrado com iluminuras, as Bíblias pessoais de vários reis e um códice da era de Afonso XI encadernado em ferro.
Garza entrou rapidamente, não querendo deixar o príncipe sozinho lá em cima por muito tempo, nas garras de Valdespino. Ainda tentava entender a notícia de que o bispo havia se encontrado com Kirsch apenas alguns dias antes e que decidira manter o encontro em segredo. Mesmo à luz da apresentação e do assassinato de Kirsch esta noite?
Andou pela vasta escuridão da biblioteca, indo até a coordenadora de RP
Mónica Martín, que esperava nas sombras, segurando seu tablet luminoso.
– Sei que o senhor está ocupado – disse Mónica –, mas temos uma situação muito premente. Só fui lá em cima procurá-lo porque nosso centro de segurança recebeu um e-mail perturbador do ConspiracyNet.com.
– De quem?
– O ConspiracyNet é um site popular que trata de teorias da conspiração. O
jornalismo é vulgar e escrito em nível infantil, mas eles têm milhões de seguidores.
Se o senhor me perguntar, eles inventam notícias falsas, mas o site é, de certo modo, bem respeitado entre os teóricos da conspiração.
Na mente de Garza, “bem respeitado” e “teoria da conspiração” pareciam expressões mutuamente excludentes.
– Eles estão acompanhando a situação do Kirsch durante toda a noite –
continuou Mónica. – Não sei onde conseguem as informações, mas têm atraído blogueiros e teóricos da conspiração. Até as redes de notícias estão pegando novidades com eles.
– Vá direto ao ponto – pressionou Garza.
– O ConspiracyNet possui informações novas que têm a ver com o palácio –
disse Mónica, empurrando os óculos para cima. – Eles vão divulgá-las em dez minutos e queriam nos dar a chance de fazer um comentário antes.
Garza olhou incrédulo para ela.
– O Palácio Real não faz comentários sobre fofocas sensacionalistas!
– Pelo menos dê uma olhada, senhor.
Ela estendeu o tablet.
Garza pegou o aparelho e se viu diante do almirante Luis Ávila. Era uma foto descentralizada, como se tivesse sido tirada por acaso, e mostrava o almirante com uniforme de gala completo, andando diante de uma pintura. Parecia que tinha sido tirada por um frequentador de museu que tentava fotografar uma obra de arte e, sem querer, havia capturado Ávila quando este entrou em quadro sem saber.
– Sei qual é a aparência de Ávila – disse Garza rispidamente, ansioso para voltar ao príncipe e a Valdespino. – Por que você está me mostrando isso?
– Passe para a foto seguinte.
Garza passou. A próxima tela mostrava uma ampliação da foto – concentrada na mão direita do almirante, que balançava à frente do corpo. Garza viu imediatamente uma marca na palma. Parecia uma tatuagem.
O comandante da Guardia ficou olhando a imagem por um longo tempo. Era um símbolo que ele conhecia bem, assim como muitos espanhóis, especialmente os mais velhos.
O símbolo de Franco.
Exposto em muitos lugares da Espanha em meados do século XX, era sinônimo da ditadura ultraconservadora do general Francisco Franco, cujo regime brutal defendia o nacionalismo, o autoritarismo, o militarismo, o antiliberalismo e o catolicismo nacional.
Esse antigo símbolo, Garza sabia, consistia em seis letras que, reunidas, formavam uma palavra em latim – uma palavra que definia perfeitamente a imagem que Franco fazia de si mesmo.
Victor.
Implacável, violento e intransigente, Francisco Franco tinha ascendido ao poder com o apoio militar da Alemanha nazista e da Itália de Mussolini. Matou milhares de opositores antes de assumir o controle total do país em 1939 e se proclamar El Caudillo – O Caudilho, o equivalente em espanhol para Führer. Durante a Guerra Civil e até boa parte dos primeiros anos de ditadura, os que ousavam se opor a ele desapareciam em campos de concentração, onde se estima que 300 mil pessoas foram executadas.
Apresentando-se como defensor da “Espanha católica” e inimigo do comunismo ateu, Franco havia abraçado uma mentalidade nitidamente machista, excluindo as mulheres de muitas posições de poder na sociedade, mal permitindo que tivessem algum direito a exercer cargos de professoras universitárias, juízas, bancárias e negando-lhes até mesmo o direito de fugir de um marido abusivo.
Anulou todos os casamentos que não tivessem sido realizados segundo a doutrina católica e, dentre outras restrições, declarou ilegais o divórcio, a contracepção, o aborto e a homossexualidade.
Felizmente tudo estava mudado.
Mesmo assim Garza ficava pasmo com a velocidade com que a nação havia se esquecido dos períodos mais sombrios de sua história.
O pacto de olvido – um acordo político nacional para “esquecer” tudo o que acontecera sob o domínio maligno de Franco – implicava que as crianças nas escolas aprendiam muito pouco sobre o ditador. Uma pesquisa na Espanha havia revelado que os adolescentes tinham muito mais probabilidade de reconhecer o ator James Franco do que o ditador Francisco Franco.
Mas as gerações mais velhas jamais esqueceriam. Esse símbolo VICTOR – como a suástica nazista – ainda podia invocar o medo no coração de quem tinha idade suficiente para se lembrar daqueles anos brutais. Até hoje, almas cautelosas alertavam que, na mais alta hierarquia do governo espanhol e da Igreja Católica, ainda havia uma facção secreta de apoiadores de Franco – uma fraternidade oculta formada por tradicionalistas que juravam levar a Espanha de volta às suas convicções de extrema direita do século passado.
Garza precisava admitir que havia um bom número de pessoas da velha guarda que olhava o caos e a apatia da Espanha contemporânea e sentia que o país só poderia ser salvo por uma forte religião de Estado, um governo mais autoritário e a imposição de diretrizes morais mais claras.
Vejam nossos jovens! , gritavam. Estão todos à deriva!
Em meses recentes, com o trono da Espanha em vias de ser ocupado pelo príncipe Julián, bem mais jovem, crescera o temor entre os tradicionalistas de que o próprio Palácio Real logo se tornaria outra voz reivindicando mudanças progressistas no país. E algo que alimentava ainda mais essa preocupação era o noivado do príncipe com Ambra Vidal – que não somente era basca, mas também claramente agnóstica. Como rainha da Espanha, sem dúvida ela seria ouvida pelo príncipe em questões da Igreja e do Estado.
Dias perigosos, Garza sabia. Um ponto de atrito entre o passado e o futuro.
Além de uma divisão religiosa cada vez mais profunda, a Espanha também estava diante de uma encruzilhada. Será que o país manteria o seu monarca? Ou será que a Coroa real seria abolida para sempre como acontecera na Áustria, na Hungria e em tantos outros países europeus? Só o tempo diria. Nas ruas, os tradicionalistas mais velhos balançavam bandeiras espanholas enquanto os jovens progressistas
usavam com orgulho suas cores antimonárquicas: roxo, amarelo e vermelho, da antiga bandeira republicana.
Julián vai herdar um barril de pólvora.
– Quando vi pela primeira vez a tatuagem com o símbolo de Franco – disse Mónica Martín, atraindo a atenção de Garza de volta para o tablet –, achei que ela podia ter sido acrescentada digitalmente à foto como um truque para… o senhor sabe… agitar o caldeirão. Todos os sites de conspiração competem pelo tráfego na rede, e uma conexão com Franco causaria uma enorme reação, especialmente considerando a natureza anticristã da apresentação de Kirsch esta noite.
Garza sabia que ela estava certa. Os teóricos da conspiração vão ficar loucos com isso.
Mónica indicou o tablet.
– Veja o que eles pretendem divulgar.
Temeroso, Garza começou a ler o texto que acompanhava a foto.
ConspiracyNet.com
ÚLTIMAS NOTÍCIAS SOBRE EDMOND KIRSCH
Apesar das especulações iniciais de que o assassinato de Edmond Kirsch tenha sido obra de fanáticos religiosos, a descoberta desse símbolo franquista ultraconservador sugere que o assassinato também pode ter motivações políticas. Há suspeitas de que conservadores nos mais altos escalões do governo espanhol, talvez até mesmo dentro do Palácio Real, estejam lutando pelo controle no vácuo de poder deixado pela ausência e pela morte iminente do rei…
– Desgraça – disse o comandante com rispidez, já tendo lido o suficiente. –
Toda essa especulação por causa de uma tatuagem? Não quer dizer nada. Com a exceção da presença de Ambra Vidal na ocasião do atentado, essa situação não tem absolutamente nada a ver com a política do Palácio Real. Sem comentários.
– Senhor – insistiu Mónica –, se puder ler o resto do texto, por favor, verá que eles estão tentando associar o bispo Valdespino diretamente ao almirante Ávila.
Estão sugerindo que o bispo pode ser um franquista secreto que vem sussurrando no ouvido do rei há anos, impedindo-o de fazer mudanças mais abrangentes no país. –
Ela fez uma pausa. – Essa alegação está ganhando um bocado de interesse na rede.
De novo Garza se pegou totalmente sem palavras. Não reconhecia mais o mundo onde vivia.
As notícias falsas têm tanto peso quanto as verdadeiras.
Garza olhou para a coordenadora de RP e se esforçou ao máximo para falar com calma.
– Mónica, isso tudo é uma ficção criada por blogueiros fantasiosos para diversão própria. Garanto que Valdespino não é franquista. Ele serviu ao rei fielmente durante décadas e com toda a certeza não está envolvido com um assassino franquista. O palácio não vai comentar nada disso. Fui claro?