Origem

Dan Brown · Capítulo 96 de 107

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Origem

Capítulo 99

Um grande sentimento de perda invadiu o professor enquanto pensava no amigo falecido. Nesse momento as paredes transparentes do laboratório tinham começado a ficar claustrofóbicas e ele soube que precisava de ar. Olhando para o andar de baixo, não pôde mais ver Ambra.

– Preciso ir – disse abruptamente.

– Entendo – respondeu Winston. – Se precisar de mim com os arranjos de viagem, posso ser acionado com o toque de um único botão nesse telefone especial do Edmond. Criptografado e privado. Imagino que o senhor consiga decifrar qual é o botão.

Langdon olhou a tela e viu um grande ícone em forma de W.

– Obrigado, sou muito bom com símbolos.

– Excelente. Claro, o senhor precisa ligar antes que eu seja deletado, à uma da tarde.

Langdon sentiu uma tristeza inexplicável ao se despedir de Winston. Sem dúvida, as gerações futuras estariam muito mais bem equipadas para administrar o envolvimento emocional com as máquinas.

– Winston – disse Langdon, indo para a porta giratória. – Se é que serve de alguma coisa, sei que Edmond sentiria um orgulho enorme de você esta noite.

– É generosidade sua dizer isso. Ele também sentiria orgulho do senhor. Adeus, professor.

C A P Í T U L O 9 9

Dentro do Hospital El Escorial, o príncipe Julián puxou os cobertores gentilmente em volta dos ombros do pai e o ajeitou para dormir. Apesar da insistência do médico, o rei tinha recusado qualquer outro tratamento – abrindo mão do monitor cardíaco usual e do equipamento de soro com nutrientes e analgésicos.

Julián sabia que o fim estava próximo.

– Pai – sussurrou ele. – Está sentindo dor?

O médico tinha deixado um frasco de solução oral de morfina com um pequeno aplicador ao lado da cama, como precaução.

– Pelo contrário. – O rei sorriu fracamente para o filho. – Estou em paz. Você me permitiu contar o segredo que enterrei durante tanto tempo. E agradeço por isso.

Julián segurou a mão do pai pela primeira vez desde que era criança.

– Está tudo bem, pai. Durma.

O rei deu um suspiro contente e fechou os olhos. Em segundos estava roncando baixinho.

Julián se levantou e diminuiu as luzes do quarto. Quando fez isso, o bispo Valdespino espiou do corredor, com uma expressão preocupada.

– Está dormindo – tranquilizou Julián. – Pode ficar com ele.

– Obrigado – disse Valdespino, entrando. Seu rosto magro parecia fantasmagórico ao luar que se filtrava pela janela. – Julián – sussurrou ele –, o que seu pai contou esta noite… foi muito difícil para ele.

– E eu senti que foi difícil para o senhor também.

O bispo assentiu.

– Talvez mais ainda para mim. Obrigado por sua compaixão. – Ele deu um tapinha no ombro de Julián.

– Sinto que eu deveria estar agradecendo ao senhor. Todos esses anos, depois da morte da minha mãe... meu pai nunca se casou de novo… achei que ele estava sozinho.

– Seu pai nunca esteve sozinho. Nem você. Nós dois o amávamos demais. – Ele deu um risinho triste. – É engraçado, o casamento dos seus pais foi arranjado e, apesar de ele gostar profundamente da sua mãe, quando ela faleceu acho que seu pai percebeu, em algum nível, que poderia finalmente ser ele próprio.

Ele nunca se casou de novo porque já amava outra pessoa, pensou Julián .

– O seu catolicismo – disse Julián. – O senhor não ficou… em conflito?

– Profundamente – respondeu o bispo. – Nossa fé não é leniente nesse aspecto.

Quando era jovem, eu me sentia torturado. Quando tive consciência da minha

“inclinação”, como diziam na época, fiquei deprimido; não sabia como continuar com a vida. Uma freira me salvou. Mostrou para mim que a Bíblia celebra todos os tipos de amor, com uma advertência: o amor deve ser espiritual, e não carnal. E, assim, fazendo o voto de celibato, pude amar o seu pai ao mesmo tempo que permanecia puro aos olhos de Deus. Nosso amor era inteiramente platônico e, ao mesmo tempo, profundamente satisfatório. Recusei o posto de cardeal para continuar perto dele.

Nesse instante, Julián se lembrou de algo que seu pai tinha dito muito tempo atrás.

O amor é de outro reino. Não podemos fabricá-lo por encomenda. Nem podemos esmagá-lo quando ele aparece. O amor não é escolha nossa.

Subitamente o coração de Julián doeu de saudade de Ambra.

– Ela vai ligar para você – disse Valdespino, olhando-o com atenção. Julián sempre ficava pasmo com a capacidade incrível que o bispo tinha para espiar dentro de sua alma.

– Talvez – respondeu ele. – Talvez não. Ela é muito decidida.

– E essa é uma das coisas que você ama em Ambra. – Valdespino sorriu. – Ser rei é um trabalho solitário. Uma parceria forte pode ser valiosa.

Julián sentiu que o bispo estava aludindo à parceria dele com seu pai… e também que o velho tinha acabado de dar sua bênção silenciosa a Ambra.

– Esta noite, no Vale dos Caídos – disse Julián –, meu pai me fez um pedido incomum. Os desejos dele surpreenderam o senhor?

– Nem um pouco. Ele pediu que você fizesse algo que ele sempre ansiou por ver aqui na Espanha. Para ele, claro, era politicamente complicado. Para você, estando uma geração mais distante da era de Franco, pode ser mais fácil.

Julián ficou empolgado com a perspectiva de honrar seu pai desse modo.

Menos de uma hora antes, em sua cadeira de rodas no templo de Franco, o rei tinha exposto seus desejos.

– Filho, quando você for rei, pedirão diariamente para destruir este lugar vergonhoso, usar dinamite e enterrá-lo para sempre dentro da montanha. – O pai o examinou atentamente. – E eu peço: não sucumba a essa pressão.

As palavras surpreenderam Julián. Seu pai sempre havia desprezado o despotismo da era Franco e considerava aquele templo uma desgraça nacional.

– Demolir esta basílica – disse o rei – é fingir que nossa história não aconteceu.

É um modo fácil de permitir que sigamos em frente mais felizes, dizendo a nós mesmos que outro “Franco” jamais poderia acontecer. Mas, claro, pode acontecer, e vai acontecer se não estivermos vigilantes. Talvez você se lembre das palavras do nosso conterrâneo Jorge Santayana…

– “Os que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”

– disse Julián, recitando o aforismo decorado no ensino fundamental.

– Exato. E a história provou repetidamente que os lunáticos ascenderão ao poder de novo e de novo em maremotos de nacionalismo agressivo e intolerância, mesmo em lugares onde isso parece absolutamente incompreensível. – O rei se inclinou para o filho, com a voz se intensificando. – Julián, logo você estará no trono deste país espetacular: uma nação moderna, em evolução, que, como muitos países, passou por períodos sombrios, mas emergiu à luz da democracia, da tolerância e do amor. Mas essa luz vai se apagar a não ser que a usemos para iluminar a mente das futuras gerações.

O rei sorriu e seus olhos relampejaram com uma vivacidade inesperada.

– Julián, quando você for rei, rezo para que possa convencer nosso glorioso país a converter este lugar em algo muito mais poderoso do que um templo controverso e uma curiosidade turística. Este complexo deve ser um museu vivo.

Deve ser um símbolo vibrante da tolerância, onde as crianças de escola possam se reunir dentro de uma montanha para aprender sobre os horrores da tirania e as crueldades da opressão, de modo que jamais sejam complacentes.

O rei continuou como se tivesse esperado a vida inteira para dizer essas palavras:

– Mais importante, este museu deve celebrar a outra lição que a história nos ensinou: que a tirania e a opressão não são páreo para a compaixão… que os gritos fanáticos dos valentões do mundo são invariavelmente silenciados pelas vozes unificadas da decência que se erguem para enfrentá-los. São essas vozes, esses coros da empatia, da tolerância e da compaixão, que eu rezo para que um dia sejam cantados nesta montanha.

Agora, enquanto os ecos do pedido de seu pai agonizante reverberavam no seu pensamento, Julián olhou para o outro lado do quarto hospitalar iluminado pela lua e viu o pai dormindo em silêncio. Achou que o rei jamais havia parecido tão contente.

Levantando o olhar para o bispo Valdespino, Julián indicou a cadeira ao lado da cama do pai.

– Sente-se com o rei. Ele gostaria disso. Vou dizer às enfermeiras para não incomodá-los. Volto daqui a uma hora.

Valdespino sorriu para ele e, pela primeira vez desde a crisma de Julián, o bispo se adiantou e abraçou o príncipe calorosamente. Quando ele fez isso, Julián ficou espantado ao sentir o frágil esqueleto envolto pelas vestes. O bispo idoso parecia mais fraco ainda do que o rei, e Julián não pôde deixar de pensar se aqueles dois amigos queridos não se uniriam no céu mais cedo do que imaginavam.

– Sinto muito orgulho de você – disse o bispo quando o abraço terminou. – E

sei que você será um líder compassivo. Seu pai o criou muito bem.

– Obrigado – respondeu Julián com um sorriso. – Acredito que ele teve alguma ajuda.

Julián deixou o pai e o bispo a sós e foi andando pelos corredores do hospital, parando para olhar por uma janela panorâmica, vendo o mosteiro magnificamente iluminado na colina.

El Escorial.

Cemitério sagrado da realeza espanhola.

Pensou na sua visita à Cripta Real com o pai, na infância. Lembrou-se de ter olhado todos os caixões pretos com detalhes em dourado e de ter tido uma premonição estranha: nunca serei enterrado nesta sala.

O momento de intuição pareceu o mais claro que Julián já havia experimentado. E, ainda que a lembrança jamais tivesse se apagado, ele sempre dissera a si mesmo que era algo sem sentido: a reação intensa de uma criança com medo diante da morte. Mas esta noite, confrontado pela iminente ascensão ao trono da Espanha, foi tomado por um pensamento espantoso.

Talvez eu soubesse do meu verdadeiro destino quando era criança.

Talvez eu sempre soubesse de meu propósito como rei.

Uma mudança profunda estava varrendo seu país e o mundo. Os costumes antigos estavam morrendo e novos costumes nasciam. Talvez fosse hora de abolir a antiga monarquia de uma vez por todas. Por um momento, Julián se visualizou lendo uma proclamação real sem precedentes.

Sou o último rei da Espanha.

A ideia o abalou.

Misericordiosamente o devaneio foi despedaçado pela vibração de um celular que ele pegara emprestado com a Guardia. Sua pulsação acelerou rapidamente.

Barcelona.