Origem

Dan Brown · Capítulo 46 de 107

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Origem

Capítulo 48

Instantaneamente, no canto do hangar, os faróis do SUV se acenderam e o Tesla – sem qualquer ruído – deslizou suavemente para perto deles e parou.

Langdon inclinou a cabeça, parecendo irritado com a perspectiva de um carro

que se dirigia sozinho.

– Não se preocupe – disse Ambra, tranquilizando-o. – Eu deixo você dirigir até o apartamento de Edmond.

Langdon assentiu, agradecendo, e começou a dar a volta até o lado do motorista. Quando passou pela frente do carro, parou olhando a placa e rindo alto.

Ambra soube exatamente o que o divertiu – a moldura da placa: E OS GEEKS

HERDARÃO A TERRA.

– Só Edmond – disse Langdon sentando-se ao volante. – A sutileza nunca foi o forte dele.

– Ele adorava este carro. – Ambra sentou-se ao lado de Langdon. – Totalmente elétrico e mais rápido que uma Ferrari.

Langdon deu de ombros, olhando o painel de alta tecnologia.

– Não sou muito chegado a carros.

Ambra sorriu.

– Vai ser.

C A P Í T U L O 4 8

Enquanto o Uber de Ávila seguia a toda a velocidade para o leste através da escuridão, o almirante se perguntou quantas vezes, durante seus anos como oficial da Marinha, tinha aportado em Barcelona.

Sua vida anterior parecia estar a um mundo de distância, depois de terminar num clarão feroz em Sevilha. O destino era uma amante cruel e imprevisível, no entanto agora essa amante parecia oferecer um misterioso equilíbrio. O mesmo destino que havia arrancado sua alma na Catedral de Sevilha tinha lhe concedido uma segunda vida: um recomeço nascido nas paredes santas de uma catedral muito diferente.

De modo irônico, a pessoa que o tinha levado até lá era um fisioterapeuta simples chamado Marco.

– Um encontro com o papa? – tinha perguntado Ávila, meses antes, quando Marco propôs a ideia. – Amanhã? Em Roma?

– Amanhã na Espanha – respondeu Marco. – O papa está aqui.

Ávila o encarou como se ele estivesse louco.

– A mídia não disse nada sobre a presença de Sua Santidade na Espanha.

– Confie em mim, almirante – retrucou Marco, rindo. – A não ser que o senhor tenha outro lugar para ir amanhã.

Ávila olhou para a perna ferida.

– Vamos sair às nove – disse Marco. – Garanto que nossa pequena viagem será muito menos dolorosa do que a reabilitação.

Na manhã seguinte, Ávila vestiu um uniforme da Marinha que Marco havia apanhado em sua casa, pegou um par de muletas e foi bamboleando até o carro do rapaz – um Fiat velho. Marco saiu do estacionamento do hospital e partiu para o sul, pela Avenida de la Raza, finalmente deixando a cidade e pegando a Autoestrada N-IV para o sul.

– Para onde vamos? – perguntou Ávila, subitamente inquieto.

– Relaxe. – Marco sorriu. – Confie em mim. Só vai demorar uma hora.

Ávila sabia que não existia nada além de pastos ressecados na N-IV por pelo menos 150 quilômetros. Estava começando a achar que tinha cometido um erro terrível. Meia hora depois de terem saído, os dois se aproximaram da cidade fantasma de El Torbiscal – um povoado agrícola que já fora próspero, cuja população recentemente havia se reduzido a zero. Aonde, afinal de contas, ele está

me levando? Marco continuou dirigindo por vários minutos, depois saiu da autoestrada e virou para o norte.

– Está vendo? – perguntou Marco, apontando, a distância, por cima de um campo sem plantação.

O almirante não disse nada. Ou o jovem fisioterapeuta estava alucinando ou Ávila estava perdendo a visão com a idade.

– Não é incrível? – perguntou Marco.

Ávila franziu as pálpebras diante do sol e finalmente enxergou uma forma escura se erguendo na paisagem. À medida que chegavam mais perto, seus olhos se arregalaram, incrédulos.

Isso é… uma catedral?

Uma construção daquele porte era algo que ele poderia esperar encontrar em Madri ou Paris. Ávila tinha morado a vida inteira em Sevilha, mas jamais soubera da existência de uma catedral ali, no meio do nada. Quanto mais perto chegavam, mais impressionante parecia o complexo, com as enormes paredes de cimento fornecendo um nível de segurança que o almirante só tinha visto na Cidade do Vaticano.

Marco saiu da rodovia e seguiu por uma curta estrada de acesso em direção à catedral, aproximando-se de um alto portão de ferro que bloqueava o caminho.

Enquanto paravam, Marco pegou um cartão plastificado no porta-luvas e o colocou no painel.

Um guarda se aproximou, checou o cartão e espiou dentro do veículo, dando um sorriso largo ao ver Marco.

– Bienvenidos – disse. – ¿Qué tal, Marco?

Os dois homens trocaram um aperto de mãos e Marco apresentou o almirante Ávila.

– Ha venido a conocer al papa – disse Marco ao guarda. Ele veio conhecer o papa.

O guarda assentiu, admirando as medalhas no uniforme de Ávila, e liberou a passagem. Enquanto o portão enorme se abria, Ávila sentiu que estava entrando num castelo medieval.

A altíssima catedral que se erguia diante deles tinha oito pináculos, cada um com uma torre de sino em três camadas. Um trio de cúpulas enormes compunha o corpo da estrutura, cujo exterior era feito de pedra marrom-escura e branca, o que lhe dava uma impressão estranhamente moderna.

Ávila baixou o olhar para a estrada de acesso, que se dividia em três pistas paralelas, cada uma ladeada por uma falange de palmeiras altas. Para sua surpresa, toda a área estava apinhada de veículos estacionados – centenas. Sedãs de luxo, ônibus dilapidados, lambretas sujas de lama… tudo o que fosse imaginável.

Marco passou por todos, indo direto até o pátio da frente da igreja, onde um guarda os viu, olhou o relógio e os fez entrar numa vaga obviamente reservada para eles.

– Estamos um pouco atrasados – disse Marco. – Devemos entrar depressa.

Ávila já ia responder, mas as palavras ficaram presas na garganta.

Tinha acabado de ver a placa na frente da igreja:

IGLESIA CATÓLICA PALMARIANA

Meu Deus! Ávila ficou horrorizado. Ouvi falar desta igreja!

Virou-se para Marco, tentando controlar o coração, que batia forte.

– Essa é a sua igreja, Marco? – Ávila tentou não parecer alarmado. – Você é um… palmariano?

Marco sorriu.

– Você disse a palavra como se fosse algum tipo de doença. Sou apenas um católico devoto que acredita que Roma se desviou do caminho.

Ávila levantou os olhos de novo para a igreja. A estranha afirmação de Marco, de que conhecia o papa, subitamente fez sentido. O papa está aqui na Espanha.

Alguns anos antes, a rede de televisão Canal Sur tinha apresentado um documentário intitulado La Iglesia Oscura, cujo propósito era revelar alguns segredos da Igreja Palmariana. Ávila ficou pasmo ao descobrir a existência daquela estranha igreja, para não mencionar sua congregação e sua influência cada vez maiores.

Segundo as histórias que ouvira, a Igreja Palmariana fora fundada depois de alguns moradores da região dizerem que tinham testemunhado uma série de visões místicas num campo próximo. Supostamente a Virgem Maria aparecera para eles alertando que a Igreja Católica estava cheia da “heresia do modernismo” e que a verdadeira fé precisava ser protegida.

A Virgem Maria tinha instigado os palmarianos a estabelecer uma Igreja alternativa e declarar que o papa atual em Roma era falso. A convicção de que o papa do Vaticano não era o pontífice válido era conhecida como sedevacantismo –

uma crença de que o trono de São Pedro estava literalmente “vago”.

Além disso, os palmarianos diziam ter prova de que o “verdadeiro” papa era de fato o fundador de sua Igreja – um homem chamado Clemente Domínguez y Gómez, que assumiu o nome de papa Gregório XVII. Sob o comando de Gregório – o

“antipapa” na visão dos católicos predominantes –, a Igreja Palmariana cresceu cada vez mais. Em 2005, quando o papa Gregório morreu enquanto oficiava uma missa de Páscoa, seus apoiadores saudaram o momento da morte como um sinal milagroso vindo do alto, confirmando que esse homem estava de fato ligado diretamente a Deus.

Agora, olhando a enorme catedral, Ávila não pôde deixar de ver a construção como algo sinistro.

Quem quer que seja o antipapa atual, não tenho interesse em conhecê-lo.

Além de ser criticada por suas declarações ousadas sobre o papado, a Igreja

Palmariana sofria acusações de lavagem cerebral e intimidação e era até responsabilizada por várias mortes misteriosas, inclusive de uma de suas fiéis, Bridget Crosbie, que, segundo os advogados de sua família, foi “incapaz de fugir” de uma das igrejas palmarianas na Irlanda.

Ávila não queria ser grosseiro com seu novo amigo, mas não era isso que tinha esperado da viagem desse dia.

– Marco – disse com um suspiro –, desculpe, mas não creio que eu possa fazer isso.

– Eu senti que você diria isso – respondeu Marco, aparentemente sem se abalar.

– E admito que tive a mesma reação quando vim pela primeira vez. Também tinha ouvido todas as fofocas e os boatos sinistros, mas garanto que essas coisas não passam de uma campanha de difamação liderada pelo Vaticano.

E você pode culpá-los? , pensou Ávila. Sua Igreja declarou que eles são ilegítimos!

– Roma precisava de um motivo para nos excomungar, por isso eles inventaram mentiras. Durante anos, o Vaticano vem espalhando informações falsas sobre os palmarianos.

Ávila observou a catedral magnífica no meio de lugar nenhum. Alguma coisa parecia estranha.

– Estou confuso – disse. – Se vocês não têm ligações com o Vaticano, de onde vem todo o seu dinheiro?

Marco sorriu.

– Você ficaria pasmo com a quantidade de seguidores secretos que os palmarianos têm no meio do clero católico. Aqui na Espanha existem muitas paróquias católicas conservadoras que não aprovam as mudanças liberais provenientes de Roma e estão mandando dinheiro discretamente para igrejas como a nossa, onde os valores tradicionais são mantidos.

A resposta era inesperada, mas pareceu verdadeira. Ávila também tinha sentido um cisma crescente na Igreja Católica: uma divisão entre os que acreditavam que a Igreja precisava se modernizar para não morrer e os que defendiam que o verdadeiro propósito da Igreja era permanecer inflexível diante de um mundo que evoluía.

– O papa atual é um homem notável – disse Marco. – Contei a ele sua história e ele disse que ficaria honrado em receber em nossa igreja um condecorado oficial militar e encontrá-lo pessoalmente depois da missa de hoje. Como os predecessores, ele teve um passado militar antes de encontrar Deus e sabe o que você está passando.

Acho mesmo que os pontos de vista dele podem ajudar você a encontrar a paz.

Marco abriu a porta para sair do carro, mas Ávila não conseguia se mexer.

Ficou sentado, olhando a estrutura gigantesca, culpado por sentir um preconceito cego contra aquelas pessoas. Para ser justo, não sabia nada sobre a Igreja Palmariana, a não ser boatos, e o próprio Vaticano não estava imune a escândalos.

Além disso, a própria igreja de Ávila não o tinha ajudado depois do ataque. Perdoe

seus inimigos, tinha dito a freira. Dê a outra face.

– Luis, escute – sussurrou Marco. – Sei que enganei você um pouco para trazê-lo aqui, mas foi com boas intenções… Eu queria que você conhecesse esse homem.

As ideias dele mudaram minha vida drasticamente. Depois de perder a perna, fiquei na mesma situação em que você está. Queria morrer. Estava afundando nas trevas, e as palavras desse homem me deram um objetivo. Venha ouvi-lo pregar.

Ávila hesitou.

– Fico feliz por você, Marco. Mas acho que vou ficar bem sozinho.

– Bem? – O rapaz gargalhou. – Há uma semana você encostou uma arma na cabeça e puxou o gatilho! Você não está bem, meu amigo.

Ele está certo, Ávila tinha consciência, e daqui a uma semana, com o fim da terapia, vou voltar para casa sozinho e ficar à deriva outra vez. – De que você tem medo? – pressionou Marco. – Você é oficial da Marinha. É