Origem
Capítulo 12
Com mais de 600 mesquitas e as melhores universidades da região, Sharjah é um pináculo de espiritualidade e aprendizado, posição impulsionada por enormes reservas de petróleo e um governante que coloca a educação de seu povo acima de todas as outras coisas.
Esta noite, a família do amado allamah de Sharjah, Syed al-Fadl, tinha se reunido privadamente para uma vigília. Em vez do tradicional tahajjud, a oração de vigília noturna, todos oravam pelo retorno do querido pai, tio e marido que desaparecera misteriosamente sem deixar rastro.
A imprensa local tinha acabado de anunciar que um dos colegas de Syed dizia que o allamah em geral sereno parecera “estranhamente agitado” ao retornar do Parlamento das Religiões do Mundo, dois dias antes. Além disso, o colega contou que tinha ouvido Syed numa rara discussão acalorada pelo telefone, pouco depois de sua volta. A discussão tinha sido em inglês, e portanto impossível de ser compreendida por ele, mas o colega jurou que ouviu Syed mencionar repetidamente um nome.
Edmond Kirsch.
C A P Í T U L O 1 2
Os pensamentos de Langdon giravam como num redemoinho quando ele saiu da estrutura em espiral. Sua conversa com Kirsch tinha sido ao mesmo tempo empolgante e alarmante. Quer as afirmações de Kirsch fossem exageradas ou não, ele obviamente descobrira alguma coisa que acreditava ser capaz de provocar uma mudança de paradigma no mundo.
Uma descoberta tão importante quanto a de Copérnico?
Quando finalmente emergiu da escultura espiralada, Langdon sentiu-se ligeiramente tonto. Pegou o fone que tinha deixado no chão.
– Winston? – disse, colocando o aparelho. – Olá?
Houve um estalo fraco e o guia inglês computadorizado voltou.
– Olá, professor. Sim, estou aqui. O Sr. Kirsch pediu que eu o levasse pelo elevador de serviço porque o tempo é curto demais para voltar ao átrio. Além disso, achou que o senhor apreciaria o espaço amplo.
– É gentileza da parte dele. Edmond sabe que sou claustrofóbico.
– Agora também sei. E não vou esquecer.
Winston guiou Langdon pela porta lateral, saindo por um corredor de cimento até chegar diante do elevador. Como fora prometido, era enorme, obviamente destinado a transportar grandes obras de arte.
– Botão de cima – disse Winston quando Langdon entrou. – Terceiro andar.
Quando chegaram ao destino, Langdon saiu.
– Muito bem – entoou a voz animada de Winston na sua cabeça. – Vamos pela galeria à esquerda. É o caminho mais curto para o auditório.
Langdon seguiu as orientações, passando por uma ampla galeria com uma série de instalações bizarras: um canhão de aço que atirava bolas gosmentas de cera vermelha contra uma parede branca; uma canoa de tela de arame que obviamente não flutuaria; toda uma cidade em miniatura feita de blocos de metal queimado.
Enquanto iam para o final da galeria, Langdon se pegou olhando absolutamente perplexo para uma peça enorme que dominava o espaço.
É oficial, decidiu, encontrei a obra mais estranha do museu. Ocupando toda a largura do salão, um número imensurável de lobos com aparência realista posava dinamicamente, uns correndo numa longa fila pela galeria, outros saltando para o alto e os mais à frente colidindo violentamente contra uma parede de vidro transparente, o que resultava numa pilha enorme de lobos mortos.
– Chama-se Batendo de Frente – explicou Winston. – Noventa e nove lobos correndo às cegas para uma parede, simbolizando a mentalidade de rebanho, a falta de coragem para se desviar da norma.
A ironia do simbolismo impressionou Langdon. Suspeito que Edmond vai se desviar dramaticamente da norma esta noite.
– Agora, se continuar em frente – disse Winston –, o senhor vai encontrar a saída à esquerda daquela peça colorida em forma de losango. O artista é um dos prediletos de Edmond.
Langdon viu a pintura multicolorida e reconheceu instantaneamente os rabiscos característicos, as cores primárias e o divertido olho flutuando.
Joan Miró, pensou. Sempre havia gostado da obra do famoso pintor de Barcelona, que parecia um cruzamento entre um livro de colorir infantil e um vitral surrealista.
Mas quando chegou junto à obra, parou, espantado ao ver que a superfície era absolutamente lisa, sem pinceladas visíveis.
– Isso é uma reprodução?
– Não, é o original – respondeu Winston.
Langdon olhou mais de perto. Aquela peça obviamente saíra de uma impressora de grande formato.
– Winston, isso é uma impressão. Nem é feito em tela.
– Eu não trabalho com tela – respondeu Winston. – Crio arte virtualmente e depois Edmond imprime para mim.
– Espere aí – disse Langdon, incrédulo. – Isso é seu?
– É. Tentei imitar o estilo de Joan Miró.
– Dá para ver. Você até assinou: Miró.
– Não. Olhe de novo. Eu assinei Miro, sem acento. Em espanhol a palavra miro significa “eu olho”.
Inteligente, Langdon precisou admitir, vendo o olho ao estilo de Miró espiando o espectador do centro da obra feita por Winston.
– Edmond pediu que eu fizesse um autorretrato e foi isso que eu consegui.
Esse é o seu autorretrato? Langdon olhou de novo os rabiscos irregulares. Você deve ser um computador com uma aparência muito estranha.
Recentemente Langdon tinha lido sobre a crescente empolgação de Edmond em ensinar computadores a criar arte algorítmica, isto é, arte gerada por programas altamente complexos. Isso levantava uma questão desconfortável: quando um computador cria arte, quem é o artista? O computador ou o programador? No MIT, uma exposição recente de arte algorítmica tremendamente bem realizada tinha provocado uma reviravolta incômoda no curso de humanidades de Harvard: É a Arte Que Nos Torna Humanos?
– Eu componho também – entoou Winston. – O senhor deveria pedir que Edmond lhe mostrasse alguma música minha, mais tarde, se estiver curioso. Mas agora precisa se apressar. A apresentação vai começar logo.
Langdon saiu da galeria e se viu numa passarela alta acima do átrio principal.
Do lado oposto, guias tiravam os últimos convidados dos elevadores, arrebanhando-os na direção de Langdon, indo para uma porta adiante.
– O programa vai começar em alguns minutos – disse Winston. – Está vendo a entrada para o local da apresentação?
– Estou. É logo ali.
– Excelente. Uma última coisa. Quando entrar, verá várias latas para deixar os fones. Edmond pediu que o senhor não devolva o seu, que fique com ele. Assim, depois do programa, poderei guiá-lo para fora do museu por uma porta dos fundos, onde vai evitar a multidão e sem dúvida poderá encontrar um táxi.
Langdon visualizou a estranha série de letras e números que Edmond tinha escrito no cartão de visita, dizendo para dá-lo ao motorista de táxi.
– Winston, Edmond só escreveu “BIO-EC346”. Disse que era um código dolorosamente simples.