Origem

Dan Brown · Capítulo 92 de 107

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Capítulo 95

Tragicamente, Kirsch não tinha parado ali. Havia seguido sua primeira profanação com uma segunda, muito mais perigosa, propondo uma resposta profundamente perturbadora para a pergunta: Para onde vamos?

A previsão de Kirsch para o futuro era calamitosa… tão destruidora que Valdespino e seus colegas tinham insistido com ele para não divulgá-la. Mesmo se os dados do futurólogo estivessem exatos, compartilhá-los com o mundo provocaria danos irreversíveis.

Não somente para os fiéis, sabia Valdespino, mas para cada ser humano na Terra.

C A P Í T U L O 9 5

Nenhum Deus é necessário, pensou Langdon, repassando o que Edmond tinha dito. A vida surgiu espontaneamente a partir das leis da física.

A ideia de geração espontânea tinha sido debatida à exaustão – em termos teóricos – por algumas das maiores mentes da ciência, mas nesta noite Edmond Kirsch tinha apresentado um argumento tremendamente persuasivo de que a geração espontânea havia mesmo acontecido.

Ninguém jamais chegou perto de demonstrar isso… nem de explicar como poderia ter acontecido.

Na tela, a simulação da sopa primordial mostrava a proliferação de minúsculas formas de vida.

– Observando meu modelo em crescimento – narrou Edmond –, eu me perguntei o que aconteceria se o deixasse continuar rodando. Será que ele explodiria para fora do frasco e produziria todo o reino animal, inclusive a espécie humana? E

se eu o deixasse rodar para além disso? Se esperasse o suficiente, será que ele produziria o próximo passo na evolução humana e nos diria para onde vamos?

Edmond apareceu de novo ao lado do E-Wave.

– Infelizmente, nem este computador pode manipular um modelo de tamanha magnitude, por isso precisei encontrar um modo de estreitar a simulação. E acabei pegando emprestada uma técnica de uma fonte improvável… ninguém menos do que Walt Disney.

Na tela, apareceu um desenho animado primitivo, bidimensional, em preto e branco. Langdon o reconheceu como o clássico da Disney, Steamboat Willie, de 1928.

– A arte da animação avançou rapidamente nos últimos 90 anos, desde os rudimentares desenhos do Mickey Mouse até os filmes muito bem realizados de hoje.

Ao lado do filme antigo apareceu uma cena vibrante, hiper-realista de uma obra de animação recente.

– O salto de qualidade é semelhante à evolução de três mil anos desde os desenhos da caverna até as obras-primas de Michelangelo. Como futurólogo, sou fascinado por qualquer habilidade que crie avanços rápidos – continuou Edmond. –

Fiquei sabendo que a técnica que torna esse salto possível se chama “tweening”. É

um atalho na animação em que o artista usa um computador para gerar os quadros

intermediários entre duas imagens principais, fundindo a primeira suavemente na segunda, de forma a preencher as lacunas. Em vez de ter que desenhar cada quadro à mão, o que aqui poderia ser comparado a modelar cada passo minúsculo no processo evolucionário, hoje em dia os artistas podem desenhar alguns quadros-chave… e pedir que o computador adivinhe os passos intermediários e preencha o resto da evolução. Isso é tweening – declarou Edmond. – É uma aplicação óbvia do poder de computação, mas quando ouvi falar sobre a técnica tive uma revelação e percebi que ela era a chave para destrancar o futuro.

Ambra se virou para Langdon com ar interrogativo.

– Aonde ele quer chegar?

Antes que Langdon pudesse fazer qualquer consideração, uma nova imagem tinha aparecido na tela.

– Evolução humana – disse Edmond. – Esta imagem é como um filme só com os quadros fundamentais. Graças à ciência, construímos vários quadros-chave: chimpanzés, australopitecos, Homo habilis, Homo erectus, homem de Neandertal. E, no entanto, as transições entre as espécies permanecem turvas.

Exatamente como Langdon tinha previsto, Edmond delineou a ideia de usar o processo de “tweening” para preencher as lacunas na evolução humana. Descreveu como vários projetos internacionais de trabalho com genoma – humano, paleoesquimó, neandertalense e dos chimpanzés – tinham usado fragmentos de ossos para mapear a estrutura genética completa de quase uma dúzia de passos intermediários entre um ancestral primata comum e o Homo sapiens.

– Eu sabia que, se usasse esses genomas primitivos como quadros-chave –

prosseguiu Edmond –, poderia programar o E-Wave para construir um modelo evolucionário que ligasse todos eles, uma espécie de jogo de “ligar os pontos”

evolucionário. E, assim, comecei com uma característica simples: o tamanho do cérebro, um indicador geral muito exato da evolução intelectual.

Um gráfico se materializou na tela.

– Além de usar parâmetros de estruturas gerais como o tamanho do cérebro, o E-Wave mapeou milhares de marcadores genéticos mais sutis que influenciam as habilidades cognitivas, como reconhecimento espacial, extensão do vocabulário, memória de longo prazo e velocidade de processamento.

A tela mostrou uma rápida sucessão de gráficos semelhantes, todos indicando o mesmo crescimento exponencial.

– Então, o E-Wave montou uma simulação sem precedentes da evolução intelectual com o passar do tempo. – O rosto de Edmond reapareceu. – Vocês devem estar se perguntando: E daí? Por que nos importamos em identificar o processo pelo qual os seres humanos se tornaram intelectualmente dominantes? Porque, se pudermos estabelecer um padrão, um computador poderá dizer para onde esse padrão nos levará no futuro. – Ele sorriu. – Se eu disser dois, quatro, seis, oito…

vocês responderão dez. Essencialmente, pedi ao E-Wave que fizesse uma previsão de como seria o “dez”. Assim que o E-Wave tivesse simulado a evolução intelectual, eu poderia fazer a pergunta óbvia: O que vem em seguida? Com que se parecerá o intelecto humano daqui a 500 anos? Em outras palavras: Para onde vamos?

Langdon ficou maravilhado por essa perspectiva e, mesmo não sabendo o

suficiente sobre genética ou modelagem por computador para avaliar a precisão das previsões de Edmond, o conceito era engenhoso.

– A evolução de uma espécie – disse Edmond – está sempre ligada ao ambiente em que esse organismo vive, por isso pedi que o E-Wave sobrepusesse um segundo modelo: uma simulação ambiental do mundo de hoje. Isso é fácil de fazer, já que todas as informações sobre cultura, política, ciência, clima e tecnologia estão disponíveis na internet. Pedi que o computador prestasse atenção especial aos fatores que mais afetariam o desenvolvimento futuro do cérebro humano: novas drogas, novas tecnologias de saúde, poluição, fatores culturais e assim por diante. – Ele fez uma pausa. – E então rodei o programa.

Todo o rosto do futurólogo preenchia a tela, seus olhos fixos na câmera.

– Quando rodei o modelo… aconteceu uma coisa muito inesperada. – Ele desviou os olhos, de maneira quase imperceptível, e depois voltou a encarar a câmera. – Uma coisa profundamente perturbadora.

Langdon ouviu Ambra respirar fundo.

– Por isso, rodei o modelo de novo. – Edmond franziu a testa. – Infelizmente, a mesma coisa aconteceu.

Langdon sentiu um medo verdadeiro nos olhos de Edmond.

– Retrabalhei os parâmetros – disse ele. – Refiz o programa alterando as variáveis e o rodei de novo, e de novo. Mas continuava obtendo o mesmo resultado.

Talvez, pensou Langdon, Edmond tenha descoberto que o intelecto humano, depois de eras de progresso, está agora em declínio. Sem dúvida, havia indicadores alarmantes sugerindo que isso poderia ser verdade.

– Fiquei perturbado com os dados – continuou o futurólogo. – E não conseguia entendê-los. Por isso, pedi uma análise ao computador. O E-Wave deu sua avaliação do modo mais claro que pôde. Desenhou uma imagem.

A tela mudou, mostrando um gráfico da linha do tempo da evolução animal, começando há cerca de 100 milhões de anos. Era uma tapeçaria complexa e colorida feita de bolhas que se expandiam e se contraíam com o tempo, mostrando como as espécies apareciam e desapareciam. O lado esquerdo do gráfico era dominado pelos dinossauros – já no auge do desenvolvimento nesse ponto da história. Eles eram representados pela maior bolha, que inflou ainda mais com o tempo, antes de se desfazer abruptamente cerca de 65 milhões de anos atrás, com sua extinção em massa.

– Esta é uma linha do tempo das formas de vida dominantes da Terra –

explicou Edmond –, apresentada em termos de população, posição na cadeia alimentar, supremacia interespecífica e influência geral no planeta. Essencialmente, é uma representação visual de quem comanda o show na Terra em cada momento determinado.

O olhar de Langdon acompanhou o diagrama enquanto diferentes bolhas se expandiam e se contraíam, indicando como várias espécies haviam surgido,

proliferado e desaparecido.

– O alvorecer do Homo sapiens ocorre em 200.000 a.C. – disse Edmond. – Mas só tivemos influência suficiente para aparecer neste gráfico há uns 65 mil anos, quando inventamos o arco e a flecha e nos tornamos predadores mais eficientes.

Langdon avançou o olhar até a marca de 65.000 a.C., onde surgiu uma pequena bolha azul, indicando o Homo sapiens. A bolha cresceu muito devagar, quase de modo imperceptível, até por volta de 1.000 a.C., quando aumentou rápido e então pareceu se expandir exponencialmente.

Quando o olhar do professor alcançou a extremidade direita do diagrama, a bolha azul tinha inchado, ocupando quase toda a largura da tela.

Os humanos modernos, pensou Langdon. De longe a espécie mais dominante e influente na Terra.

– De modo pouco surpreendente – prosseguiu Edmond –, no ano 2000, quando este gráfico termina, os humanos são representados como a espécie prevalente no planeta. Nada sequer chega perto de nós. – Ele fez uma pausa. – No entanto, vocês podem ver traços de uma nova bolha aparecendo… aqui.

O gráfico deu um zoom mostrando uma minúscula forma preta começando a surgir acima da bolha da humanidade, inchada e azul.

– Uma nova espécie já entrou em cena – disse Edmond.

Langdon viu a bolha preta, mas ela parecia insignificante em comparação com a azul, uma rêmora minúscula nas costas de uma baleia-azul.

– Sei que esse recém-chegado parece trivial – continuou Edmond. – Mas, se avançarmos no tempo, desde 2000 até os dias atuais, vocês verão que nosso recém-chegado já está assim e vem crescendo silenciosamente.

O diagrama se ampliou até chegar à data atual, e Langdon sentiu o peito se apertar. A bolha preta havia se expandido enormemente nas últimas duas décadas.

Agora ocupava mais de um quarto da tela, lutando com o Homo sapiens pela influência e pelo domínio.

– O que é isso? – perguntou Ambra num meio sussurro preocupado.

Langdon respondeu:

– Não faço ideia… algum tipo de vírus adormecido?

Sua mente repassou uma lista de vírus agressivos que tinham devastado várias regiões do mundo, mas não conseguia imaginar uma espécie crescendo tão depressa na Terra sem ser notada. Uma bactéria do espaço?

– Essa nova espécie é insidiosa – disse Edmond. – Ela se propaga de modo exponencial. Expande seu território o tempo todo. E, mais importante, ela evolui…

muito mais depressa do que os seres humanos. – Edmond olhou de novo para a câmera, com a expressão mortalmente séria. – Infelizmente, se eu deixar esta simulação avançar para mostrar o futuro, nem que seja apenas por algumas décadas, é isso que ela revelará.

O diagrama avançou de novo, agora mostrando a linha do tempo até 2050.

Langdon deu um salto, olhando incrédulo.

– Meu Deus – sussurrou Ambra, cobrindo a boca, horrorizada.

A linha do tempo mostrava claramente a bolha preta ameaçadora se expandindo numa taxa espantosa. E então, no ano 2050, ela engolia por inteiro a bolha azul da humanidade.

– Lamento ter de mostrar isso – disse Edmond. – Mas, em cada modelo que eu rodei, aconteceu a mesma coisa. A espécie humana evoluía até nosso ponto atual na história e então, muito abruptamente, uma nova espécie se materializava e nos apagava da Terra.

Langdon ficou parado diante daquele gráfico horrendo, tentando se lembrar de que era apenas um modelo feito por computador. Sabia que imagens assim tinham o poder de afetar as pessoas num nível visceral, diferentemente dos dados crus, e o diagrama de Edmond tinha um ar de coisa definitiva – como se a extinção humana já fosse um fato consumado.

– Amigos – disse Edmond, em um tom sombrio, como se fosse o aviso da colisão iminente de um asteroide. – Nossa espécie está à beira da extinção. Passei a vida fazendo previsões e, neste caso, analisei os dados em todos os níveis. Posso dizer com um grau de certeza muito alto que a raça humana, como conhecemos, não estará aqui dentro de 50 anos.

Agora o choque inicial de Langdon deu lugar à incredulidade – e à raiva – em relação ao seu amigo. O que você está fazendo, Edmond!? Isso é irresponsável!

Você construiu um modelo por computador. Mil coisas podem estar erradas com os dados. As pessoas o respeitam e acreditam em você… você vai criar uma histeria em massa.

– E mais uma coisa. – O tom de Edmond ficou mais sombrio ainda. – Se vocês olharem atentamente a simulação, verão que essa espécie não nos apaga por completo. De modo mais preciso… ela nos absorve.