Origem
Capítulo 2
A Escultura de Névoa, pensou.
Tinha lido sobre essa obra da artista japonesa Fujiko Nakaya. A “escultura” era revolucionária por ser construída com o ar visível, uma parede de neblina que se materializava e se dissipava com o passar do tempo; e como as brisas e as condições atmosféricas jamais eram idênticas de um dia para o outro, a obra era diferente a cada vez que aparecia.
A ponte parou de sibilar e Langdon viu a parede de névoa se acomodar em silêncio sobre o lago, fazendo redemoinhos e se arrastando como se tivesse vontade própria. O efeito era ao mesmo tempo etéreo e desorientador. Todo o museu parecia pairar sobre a água, repousando sem peso numa nuvem – um navio fantasma perdido no mar.
Justo quando Langdon ia andar de novo, a superfície plácida da água foi despedaçada por uma série de pequenas erupções. De repente cinco colunas de fogo dispararam para o alto, saindo do lago, trovejando como foguetes que rasgavam o ar enevoado e lançavam brilhantes jorros de luz nas placas de titânio do museu.
O gosto arquitetônico de Langdon tendia mais para o estilo clássico de museus como o Louvre ou o Prado. Mas, olhando a névoa e as chamas pairarem sobre o lago, não conseguia pensar num local mais perfeito do que esse museu ultramoderno para um evento programado por um homem que amava a arte e a inovação e que vislumbrava o futuro com tanta clareza.
Agora, atravessando a névoa, seguiu até a entrada do museu – um agourento buraco negro na estrutura reptiliana. À medida que se aproximava, teve a sensação inquietante de entrar na boca de um dragão.
C A P Í T U L O 2
O almirante Luis Ávila estava sentado num banco de um bar deserto em uma cidade que ele não conhecia. Estava exausto da viagem, tendo acabado de chegar de avião depois de um trabalho que o fizera viajar muitos milhares de quilômetros em 12 horas. Tomou um gole de sua segunda água tônica e olhou a colorida coleção de garrafas atrás do balcão.
Qualquer homem pode permanecer sóbrio num deserto, pensou, mas só os fiéis podem se sentar num oásis e se recusar a abrir os lábios.
Fazia quase um ano que Ávila não abria os lábios para o diabo. Enquanto olhava seu reflexo no bar espelhado, permitiu-se um raro instante de contentamento com a imagem que o espiava de volta.
Ávila era um daqueles felizardos homens mediterrâneos para quem a idade mais parecia uma vantagem do que uma desvantagem. Com o passar dos anos sua barba curta, preta e espetada havia se suavizado em distintos fios grisalhos, os olhos escuros e ferozes tinham relaxado até adquirir um ar de confiança tranquila, e a pele morena bronzeada agora contava com rugas finas, criando a aura de um homem que passava a vida franzindo os olhos no mar.
Mesmo com 63 anos, seu corpo era magro e rijo, um físico impressionante incrementado pela vestimenta de corte perfeito. No momento Ávila usava seu uniforme branco de gala – uma libré de aparência régia consistindo num paletó branco trespassado, platinas pretas, uma variedade imponente de medalhas de serviço, camisa branca engomada, de colarinho em pé, e calça branca com acabamento em seda.
A Armada espanhola pode ter deixado de ser a marinha mais poderosa do mundo, mas ainda sabemos vestir um oficial.
Fazia anos que o almirante não usava esse uniforme – mas era uma noite especial, e, mais cedo, enquanto andava pelas ruas dessa cidade desconhecida, tinha desfrutado do olhar favorável das mulheres e do vasto espaço deixado pelos homens.
Todo mundo respeita os que vivem segundo um código.
– ¿Otra tónica? – perguntou a garçonete que tinha uns 30 e poucos anos, corpo bonito e sorriso brincalhão.
Ávila balançou a cabeça.
– No, gracias.
O bar estava totalmente vazio e Ávila podia sentir o olhar da garçonete
admirando-o. Era bom ser visto de novo. Voltei do abismo.
O acontecimento horrível que tinha praticamente destruído sua vida espreitaria para sempre nos recessos da mente: um único instante ensurdecedor em que a terra se abriu e o engoliu inteiro.
Catedral de Sevilha.
Manhã de páscoa.
O sol da Andaluzia atravessava os vitrais, esparramando caleidoscópios de cor em explosões radiantes pelo interior de pedra da catedral. O órgão de tubos trovejava numa alegre celebração enquanto milhares de fiéis comemoravam o milagre da ressurreição.
Ávila se ajoelhou no genuflexório da comunhão com o peito inflado de gratidão. Depois de toda uma vida de serviço no mar, fora abençoado com o maior dos presentes de Deus: uma família. Com um sorriso largo, virou-se e olhou por cima do ombro para a jovem esposa, María, ainda sentada num banco, grávida de vários meses e sem condições de fazer a longa caminhada pelo corredor. Ao lado dela, o filho de 3 anos, Pepe, acenava empolgado para o pai. Ávila piscou para o menino e María sorriu para o marido.
Obrigado, Deus, pensou Ávila, virando-se para aceitar o cálice.
Um instante depois, uma explosão ensurdecedora rasgou a catedral imaculada.
Num clarão de luz todo o seu mundo irrompeu em fogo.
A onda de choque o empurrou violentamente contra o genuflexório, o corpo esmagado pelo jorro escaldante de entulho e pedaços de corpos humanos. Quando Ávila recuperou a consciência estava incapaz de respirar na fumaça densa, e por um momento não fazia ideia de onde se encontrava nem do que havia acontecido.
Então, acima do zumbido nos tímpanos, escutou os gritos de angústia.
Levantou-se desajeitado, percebendo com horror onde estava. Disse a si mesmo que tudo aquilo era um sonho terrível. Cambaleou para trás, pela catedral cheia de fumaça, passando por vítimas gemendo e mutiladas, tropeçando em desespero até a área aproximada onde apenas alguns minutos atrás sua mulher e seu filho estavam sorrindo.
Não havia nada ali.
Nem bancos. Nem pessoas.
Só entulhos ensanguentados no chão de pedra queimado.
A lembrança medonha foi misericordiosamente despedaçada pela porta do bar tilintando. Ávila pegou sua tônica e tomou um gole rápido, sacudindo as trevas como fora obrigado a fazer tantas vezes antes.
A porta do bar se escancarou e Ávila se virou, vendo dois homens corpulentos entrarem. Estavam cantando uma desafinada canção de briga irlandesa e usando camisas de futebol verdes que mal cobriam suas barrigas. Pelo jeito o jogo dessa tarde fora vencido pelo time irlandês visitante.
Vou aceitar isso como minha dica para ir embora, pensou Ávila, levantando-
se. Pediu a conta, mas a garçonete piscou e o mandou embora com um aceno. Ávila agradeceu e se virou para sair.
– Que diabo! – gritou um dos recém-chegados, olhando o uniforme imponente de Ávila. – É o rei da Espanha!
Os dois explodiram numa gargalhada, cambaleando na direção dele.
Ávila tentou se desviar dos dois e sair, mas o sujeito maior agarrou seu braço com força e o puxou de volta para um banco do bar.
– Espera aí, alteza! A gente veio de longe. Vamos tomar uma cerva com o rei!
Ávila olhou a mão suja do sujeito segurando a manga recém-passada de seu paletó.
– Solte – disse baixinho. – Preciso ir embora.
– Não… você precisa ficar para uma cerveja, amigo.
O sujeito apertou com mais força enquanto o colega começava a cutucar as medalhas no peito de Ávila com um dedo sujo.
– Parece que você é um tremendo herói, vovô. – Ele puxou um dos emblemas mais valiosos. – Uma clava medieval? Então você é um cavaleiro com armadura reluzente?! – E deu uma gargalhada.
Tolerância, lembrou Ávila. Tinha encontrado incontáveis homens assim: simplórios, infelizes, que jamais representavam nada, homens que abusavam cegamente das liberdades que outros tinham lutado para lhes dar.
– Na verdade – respondeu com gentileza –, a clava é o símbolo da Unidad de Operaciones Especiales da Armada espanhola.
– Operações especiais? – O sujeito fingiu um tremor de medo. – Que impressionante! E esse símbolo? – Ele apontou para a mão direita de Ávila.
Ávila olhou para a palma da mão. No centro da carne macia havia uma tatuagem preta – um símbolo que datava do século XIV.
Esta marca serve para me proteger, pensou Ávila, olhando o emblema. Se bem que não vou precisar dela.
– Deixa para lá – disse o valentão, finalmente soltando o braço de Ávila e voltando a atenção para a garçonete. – Você é bonitinha. É 100 por cento espanhola?
– Sou – respondeu ela, gentil.
– Não tem nada irlandês em você?
– Não.
– Gostaria de um pouco? – O sujeito se convulsionou num riso histérico e deu um soco no balcão.
– Deixe-a em paz – ordenou Ávila.
O sujeito girou, olhando-o irritado.
O segundo torcedor cutucou o peito de Ávila com força.
– Está tentando mandar na gente?
Ávila respirou fundo, sentindo-se cansado depois da longa viagem desse dia, e indicou o balcão.
– Senhores, por favor sentem-se. Vou lhes pagar uma cerveja.
Que bom que ele vai ficar, pensou a garçonete. Ainda que pudesse cuidar de si mesma, observar a calma com que o oficial tratava aqueles dois grosseirões a deixou com os joelhos meio bambos e esperançosa de que ele pudesse ficar até a hora do fechamento.
O oficial pediu duas cervejas e mais uma água tônica, voltando ao banco que tinha ocupado. Os dois torcedores encrenqueiros se sentaram nos bancos ao lado dele.
– Água tônica – provocou um. – Achei que a gente ia beber junto.
Ávila deu um sorriso cansado para a garçonete e terminou sua água tônica.
– Infelizmente tenho um compromisso – disse. – Mas aproveitem a cerveja.
Enquanto Ávila se levantava, os dois, como se tivessem ensaiado, bateram com as mãos rudes nos ombros dele e o empurraram de volta para o banco. Uma fagulha de raiva relampejou nos olhos do oficial e desapareceu em seguida.
– Vovô, acho que você não quer deixar a gente sozinho com sua amiguinha aqui.
O valentão olhou para ela e fez uma coisa nojenta com a língua.
O oficial ficou sentado por um longo instante, depois enfiou a mão no paletó.
Os dois o agarraram.
– Ei! O que está fazendo?
Muito lentamente, o oficial pegou um celular e disse alguma coisa em espanhol para os homens. Eles o encararam sem compreender e ele voltou a falar em inglês:
– Desculpem, só preciso ligar para minha mulher e dizer que vou me atrasar.
Parece que vou ficar um tempo aqui.
– Agora você está falando nossa língua, meu chapa! – disse o maior dos dois, engolindo a cerveja e batendo o copo no balcão. – Outra!
Enquanto enchia de novo os copos, a garçonete viu pelo espelho o oficial digitar algumas teclas e levar o telefone ao ouvido. A ligação foi completada e ele falou rapidamente em espanhol.
– Llamo desde el bar Molly Malone. – O oficial leu o nome e o endereço do bar no descanso de copo à sua frente. – Calle Particular de Estraunza, ocho. – Esperou um instante e continuou: – Necesitamos ayuda inmediatamente. Hay dos hombres heridos. – E desligou.
¿Dos hombres heridos? A pulsação da garçonete acelerou. Dois homens feridos?
Antes que ela pudesse processar o significado daquilo, houve um borrão branco e o oficial girou à direita, mandando um cotovelo para cima contra o nariz do maior.
Com um estalo nauseabundo, o rosto do sujeito irrompeu em vermelho e ele caiu para trás. Antes que o segundo pudesse reagir, o oficial girou de novo, desta vez para a esquerda, com o outro cotovelo acertando com força a traqueia do irlandês e jogando-o para fora do banco.
A garçonete ficou olhando em choque os dois homens no chão, um gritando em agonia, o outro ofegando e segurando o pescoço.
O oficial se levantou devagar. Com uma calma assustadora, tirou a carteira e pôs uma nota de cem euros no balcão.
– Desculpe – disse a ela em espanhol. – A polícia vai chegar daqui a pouco para ajudar.
Em seguida se virou e saiu.
Do lado de fora, o almirante Ávila inalou o ar da noite e foi andando pela Alameda de Mazarredo em direção ao rio. Sirenes da polícia se aproximaram e ele mergulhou nas sombras para deixar que as autoridades passassem. Havia um trabalho sério a ser feito e Ávila não podia se dar ao luxo de ter mais complicações.
O Regente delineou a missão desta noite com clareza.
Para Ávila, havia uma serenidade simples em receber ordens do Regente.
Nenhuma decisão. Nenhuma culpa. Apenas ação. Depois de uma carreira dando ordens, era um alívio entregar o leme e deixar que outros guiassem o navio.
Nesta guerra sou um soldado raso.
Vários dias antes o Regente havia contado a ele um segredo tão perturbador que Ávila não tivera escolha senão oferecer-se por inteiro à causa. A brutalidade da missão da noite anterior ainda o assombrava, no entanto ele sabia que seus atos seriam perdoados.
A retidão existe de muitas formas.
E mais morte virá antes que esta noite acabe.
Enquanto emergia numa praça ampla junto à margem do rio, Ávila levantou os olhos para a estrutura enorme à frente. Era uma confusão ondulante de formas perversas cobertas por placas de metal – como se dois mil anos de progresso arquitetônico tivessem sido jogados pela janela em troca do caos absoluto.
Alguns chamam isso de museu. Eu chamo de monstruosidade. Focalizando os pensamentos, atravessou a praça, serpenteando em meio a uma série de esculturas bizarras do lado de fora do Museu Guggenheim de Bilbao.