Origem
Capítulo 51
Instantes depois o Opel acelerou, virando a esquina e sumindo de quadro.
C A P Í T U L O 5 1
Parecendo uma montanha esculpida de forma rústica na esquina do Carrer de Provença com o Passeig de Gràcia, a Casa Milà – obra-prima de Gaudí construída em 1906 – é ao mesmo tempo um prédio de apartamentos e uma obra de arte atemporal.
Concebida por Gaudí como uma curva perpétua, a estrutura é imediatamente reconhecível pela ondulante fachada de calcário. Suas sacadas sinuosas e a geometria irregular dão ao prédio uma aura orgânica, como se milênios de ventos soprando tivessem escavado reentrâncias e curvas como as de um cânion no deserto.
Ainda que a princípio o chocante projeto modernista de Gaudí tenha sido repudiado pela vizinhança, a Casa Milà foi elogiada universalmente pelos críticos de arte e logo se tornou uma das maiores joias arquitetônicas de Barcelona. Durante três décadas, Pere Milà, o empresário que encomendara o prédio, residiu com sua esposa no amplo apartamento principal e alugou os 20 restantes. Até hoje a Casa Milà – no Passeig de Gràcia, 92 – é considerada um dos endereços mais exclusivos e desejados de toda a Espanha.
Enquanto guiava o Tesla de Kirsch pelo tráfego esparso na elegante avenida ladeada por árvores, Robert Langdon percebeu que estavam chegando perto. O
Passeig de Gràcia era a versão de Barcelona para a Avenue des Champs-Élysées de Paris – a mais larga e grandiosa, com paisagismo impecável e lojas de grife.
Chanel… Gucci… Cartier… Longchamp…
Por fim Langdon a viu, 200 metros à frente.
Iluminada suavemente de baixo para cima, a Casa Milà, com seu exterior de calcário claro picotado e sacadas oblongas, se destacava imediatamente dos vizinhos retilíneos – como se um lindo pedaço de coral tivesse ido parar numa praia feita de blocos de concreto.
– Eu tinha medo disso – observou Ambra, apontando para uma aglomeração na avenida elegante. – Olhe.
Langdon baixou o olhar para a calçada ampla na frente da Casa Milà. Parecia haver meia dúzia de furgões de mídia parados e um bando de repórteres fazia transmissões ao vivo usando a residência de Kirsch como cenário. Vários seguranças estavam posicionados para manter as pessoas longe da entrada. Parecia que a morte de Edmond tinha transformado em matéria jornalística qualquer coisa que se relacionasse com ele.
Langdon examinou o Passeig de Gràcia, procurando um local onde estacionar, mas não viu nada, e o tráfego se movia constante.
– Abaixe-se – pediu a Ambra, percebendo que não tinha escolha além de passar direto pela esquina onde toda a imprensa estava reunida.
Ambra deslizou para baixo no banco, agachando-se no piso, inteiramente fora de vista. Langdon virou a cabeça para o outro lado enquanto passava pela esquina apinhada.
– Parece que estão cercando a entrada principal – disse ele. – Nunca vamos conseguir entrar.
– Vire à direita – exclamou Winston num tom animado e confiante. – Eu imaginei que isso poderia acontecer.
O blogueiro Héctor Marcano olhava triste para o último andar da Casa Milà, ainda tentando aceitar que Edmond Kirsch tinha mesmo morrido.
Fazia três anos que Héctor escrevia sobre tecnologia no Barcinno.com – uma popular plataforma colaborativa para os empreendedores e as start-ups de ponta em Barcelona. Ter o grande Edmond Kirsch morando na cidade era quase como trabalhar aos pés do próprio Zeus.
Héctor tinha conhecido Kirsch mais de um ano antes, quando o lendário futurólogo concordou em participar do principal evento mensal do Barcinno, a FuckUp Night – uma palestra em que um empreendedor bem-sucedido falava abertamente sobre seus maiores fracassos. Kirsch contou, sem graça, que tinha gastado mais de 400 milhões de dólares em seis meses perseguindo o sonho de construir o que chamava de E-Wave: um computador quântico com velocidade de processamento tão alta que facilitaria avanços sem precedentes em todas as ciências, sobretudo na modelagem de sistemas complexos.
– Infelizmente – admitiu Edmond –, até agora meu salto quântico na computação quântica é um fracasso quântico.
Nesta noite, quando Héctor soube que Kirsch planejava anunciar uma descoberta capaz de abalar o planeta, ficou empolgado pensando que poderia ter algo a ver com o E-Wave. Será que a descoberta é a chave para fazer com que ele funcione? Mas depois do preâmbulo filosófico de Kirsch, Héctor percebeu que a revelação deveria ser algo totalmente diferente.
Fico imaginando se algum dia saberemos o que ele descobriu, pensou Héctor, com o coração pesado. Ele tinha ido até a casa de Kirsch não em busca de notícias para o blog, mas para prestar sua homenagem a ele.
– E-Wave – gritou alguém ali perto. – E-Wave!
Ao redor de Héctor, a multidão reunida começou a apontar e virar as câmeras para o Tesla preto e esguio que agora entrava lentamente na praça, indo em direção ao grupo com os faróis halógenos ofuscando.
Héctor olhou atônito para o veículo conhecido.
O Tesla Modelo X de Kirsch, com sua placa E-Wave, era tão famoso em Barcelona quanto o papamóvel em Roma. Frequentemente, Kirsch fazia questão de parar em fila dupla no Carrer de Provença diante da joalheria DANiEL ViOR e sair para dar autógrafos. Para empolgação da plateia, ele acionava o dispositivo de estacionamento automático e o veículo vazio seguia pela rua por uma rota pré-programada, atravessando a calçada larga – com os sensores detectando qualquer pedestre ou obstáculo – até chegar à porta da garagem. O portão então se abria e o carro descia lentamente a rampa em espiral até a vaga privativa embaixo da Casa Milà.
Ainda que o estacionamento automático fosse padrão em todos os Teslas –
abrindo facilmente portas de garagem, entrando e se desligando –, Edmond tinha hackeado com orgulho o sistema de seu carro para permitir aquela rota mais complexa.
Tudo fazia parte do show.
Esta noite o espetáculo era consideravelmente mais estranho. Kirsch estava morto, no entanto seu carro tinha acabado de aparecer, subindo lentamente pelo Carrer de Provença, atravessando a calçada, alinhando-se com a elegante entrada da garagem e avançando enquanto as pessoas saíam da frente.
Repórteres e cinegrafistas correram para o veículo, franzindo os olhos para enxergar através das janelas muito escuras e gritando de surpresa.
– Está vazio! Não tem ninguém dirigindo! De onde ele veio?!
Aparentemente os seguranças da Casa Milà tinham visto esse truque antes e mantiveram as pessoas longe do Tesla e da porta da garagem que se abriu.
Para Héctor, a visão do carro vazio de Edmond se esgueirando na direção da garagem lembrava as imagens de um cachorro triste voltando para casa depois de perder o dono.
Como um fantasma, o Tesla passou em silêncio pela porta da garagem e a multidão irrompeu em aplausos emotivos ao ver o amado carro de Edmond, como tinha feito tantas vezes, começar a descer a rampa em espiral da primeira garagem subterrânea de Barcelona.
– Não sabia que você era tão claustrofóbico – sussurrou Ambra, deitada ao lado de Langdon no piso do Tesla.
Estavam comprimidos na pequena área entre a segunda e a terceira fila de bancos, escondidos embaixo de uma capa de carro, de vinil, que Ambra tinha pegado no porta-malas, invisíveis através das janelas de vidro escuro.
– Vou sobreviver – conseguiu dizer Langdon, trêmulo, mais nervoso com o carro que se dirigia sozinho do que com a fobia.
Podia sentir o veículo descendo uma rampa espiralada e temia que ele batesse a qualquer momento. Dois minutos antes, enquanto estavam parados em fila dupla no Carrer de Provença, em frente à joalheria DANiEL ViOR, Winston lhes dera instruções claríssimas.
Sem sair do carro, Ambra e Langdon tinham passado para a terceira fila de bancos do Modelo X. Depois, apertando um único botão no telefone, Ambra ativou o programa especial de estacionamento automático.
No escuro Langdon sentiu o veículo se deslocar lentamente pela rua. E com o corpo de Ambra comprimido contra o seu no espaço apertado, não pôde deixar de se lembrar de sua primeira experiência adolescente no banco de trás de um carro com uma garota bonita. Eu fiquei mais nervoso naquela ocasião, pensou, o que parecia irônico, considerando que agora estava deitado num carro sem motorista, de conchinha com a futura rainha da Espanha.
Sentiu o Tesla se aprumar na base da rampa, virar lentamente algumas vezes e parar.
– Vocês chegaram – avisou Winston.
Imediatamente Ambra empurrou a lona e se sentou com cuidado, olhando pela janela.
– Tudo certo – disse saindo.
Langdon seguiu atrás dela, aliviado por estar no espaço aberto da garagem.
– Os elevadores ficam no saguão principal. – Ambra sinalizou para a rampa em espiral.
Mas de súbito o olhar de Langdon pareceu hipnotizado por uma visão totalmente inesperada. Ali, na garagem subterrânea, na parede de cimento à frente da vaga de Edmond, estava pendurada uma paisagem marinha emoldurada com elegância.
– Ambra? – chamou ele. – Edmond decorou a vaga dele com uma pintura?
Ela confirmou com a cabeça.
– Também achei estranho e fiz essa mesma pergunta. Ele disse que era seu modo de ser recebido toda noite por uma beldade radiante.
Langdon deu um risinho. Solteirões!
– O artista era uma pessoa que Edmond reverenciava demais – disse Winston, com a voz agora se transferindo automaticamente para o telefone na mão de Ambra.
– Reconhece?
Langdon não reconheceu. A pintura não parecia nada mais do que uma bela marinha em aquarela – nem um pouco de acordo com o gosto vanguardista de
Edmond.
– É Churchill – disse Ambra. – Edmond o citava o tempo todo.
Churchill. Langdon precisou de um momento para perceber que ela estava se referindo a ninguém menos do que o próprio Winston Churchill, o célebre estadista inglês que, além de herói militar, historiador, orador e escritor premiado com o Nobel, era um artista plástico de talento notável. Langdon se lembrou de Edmond citando o primeiro-ministro britânico uma vez, em resposta a um comentário que alguém fizera sobre as pessoas religiosas o odiarem: Você tem inimigos? Bom. Isso significa que você defende alguma coisa!
– O que mais impressionava Edmond era a diversidade dos talentos de Churchill – observou Winston. – Raramente os seres humanos demonstram perícia num espectro tão grande de atividades.
– E foi por isso que Edmond chamou você de “Winston”?
– Foi – respondeu o computador. – Salve Edmond!
Ainda bem que eu perguntei, pensou Langdon, tendo imaginado que o nome de Winston era uma alusão a Watson – o computador da IBM que tinha vencido o programa de perguntas Jeopardy! na televisão uma década antes. Sem dúvida, hoje em dia Watson era considerado primitivo, uma bactéria unicelular na escala evolutiva da inteligência sintética.
– Certo, então – disse indicando os elevadores. – Vamos subir e tentar encontrar o que viemos descobrir.
Nesse exato momento, dentro da Catedral de Almudena, em Madri, o comandante Diego Garza estava segurando seu telefone e ouvindo incrédulo a coordenadora de RP do palácio, Mónica Martín, fazer uma atualização dos fatos.