Origem
Capítulo 72
A DESCOBERTA DE KIRSCH). SE TIVEREM SUCESSO, A APRESENTAÇÃO DE KIRSCH
PODE IR AO AR A QUALQUER MOMENTO. FIQUEM LIGADOS.
Incrível! E vocês ficaram sabendo primeiro aqui. Langdon e Ambra estão fugindo porque querem terminar o que Edmond Kirsch começou! O palácio parece desesperado para impedi-los. (Valdespino de novo? E onde está o príncipe em tudo isso?)
Mais notícias assim que tivermos, mas fiquem ligados porque os segredos de Kirsch ainda podem ser revelados esta noite!
C A P Í T U L O 7 2
O príncipe Julián olhava para a área rural que ia passando do lado de fora do sedã Opel do acólito e tentava entender o comportamento estranho do bispo.
Valdespino está escondendo alguma coisa.
Fazia mais de uma hora que o bispo havia tirado Julián de forma secreta do palácio – uma ação tremendamente irregular – garantindo que era para a própria segurança do príncipe.
Ele pediu que eu não questionasse… apenas que confiasse.
O bispo sempre havia sido como um tio para ele, e era um confidente do seu pai. Mas a proposta de Valdespino, de se esconderem na Casita del Príncipe, tinha parecido duvidosa desde o início. Há alguma coisa errada. Estou isolado, sem telefone, sem segurança, sem notícias, e ninguém sabe onde me encontro.
Agora, enquanto o carro sacolejava pelas trilhas rurais perto da casa de campo, Julián olhou a estrada no meio da floresta. Cem metros à frente, surgia a longa entrada de veículos que levava ao retiro remoto.
Enquanto visualizava a residência deserta, Julián sentiu um súbito instinto de cautela. Inclinou-se à frente e pôs a mão firme no ombro do acólito atrás do volante.
– Pare aqui, por favor.
Valdespino ficou surpreso.
– Estamos quase…
– Quero saber o que está acontecendo! – trovejou o príncipe, com a voz soando alta dentro do carro.
– Don Julián, esta noite foi tumultuosa, mas o senhor deve…
– Devo confiar no senhor?
– Sim.
Julián apertou o ombro do jovem motorista e apontou para o acostamento coberto de capim na estrada deserta.
– Pare – ordenou incisivamente.
– Continue em frente – contrapôs Valdespino. – Don Julián, eu vou explicar…
– Pare o carro! – gritou o príncipe.
O acólito virou para o acostamento, parando no capim.
– Deixe-nos a sós, por favor – ordenou Julián, com o coração batendo rápido.
O acólito não precisou ouvir duas vezes. Saltou do carro e desapareceu na escuridão, deixando Valdespino e Julián sozinhos no banco de trás.
Sob o luar pálido, Valdespino parecia subitamente amedrontado.
– O senhor deveria mesmo ficar com medo – disse Julián numa voz tão autoritária que espantou a si próprio.
Valdespino recuou, atônito com o tom ameaçador que Julián nunca antes tinha usado com ele.
– Sou o futuro rei da Espanha. Esta noite o senhor tirou minha equipe de segurança, me negou acesso ao meu telefone e ao meu pessoal, me proibiu de ouvir qualquer notícia e se recusou a deixar que eu entrasse em contato com minha noiva.
– Peço desculpas… – começou Valdespino.
– O senhor terá que fazer mais do que isso – interrompeu Julián, olhando irritado para o bispo, que agora lhe parecia estranhamente pequeno.
Valdespino respirou fundo e encarou Julián no escuro.
– Eu fui contatado no início desta noite, Don Julián, e orientado a…
– Contatado por quem?
O bispo hesitou.
– Pelo seu pai. Ele está profundamente perturbado.
Está? Julián tinha visitado o pai apenas dois dias antes, no Palacio de la Zarzuela, e o encontrara num ânimo excelente, apesar da saúde deteriorada.
– Por que ele está perturbado?
– Infelizmente ele assistiu à transmissão feita por Edmond Kirsch.
Julián sentiu o queixo se retesar. Seu pai doente dormia quase 24 horas por dia e jamais deveria estar acordado àquela hora. Além disso, o rei sempre proibira aparelhos de televisão e computadores nos quartos dos palácios, que ele insistia que eram santuários reservados ao sono e à leitura – e os enfermeiros do rei teriam o bom senso de impedir que ele tentasse sair da cama para assistir ao espetáculo publicitário de um ateu.
– Foi minha culpa – disse Valdespino. – Eu lhe dei um tablet há algumas semanas, para que ele não se sentisse isolado do mundo. Ele estava aprendendo a mandar mensagens de texto e e-mail. Acabou vendo o evento de Kirsch no tablet.
Julián ficou nauseado ao pensar no pai, possivelmente nas últimas semanas de vida, assistindo a uma transmissão anticatólica e provocadora de discórdia que havia terminado em um sangrento ato de violência. O rei deveria estar refletindo sobre as muitas coisas extraordinárias que tinha realizado pelo país.
– Como o senhor pode imaginar – continuou Valdespino, recuperando a compostura –, as preocupações de seu pai foram muitas, mas ele ficou particularmente perturbado com o tom das observações de Kirsch e com a disposição de sua noiva em ser a anfitriã do evento. O rei sentiu que o envolvimento da futura rainha teria um reflexo muito negativo sobre o senhor… e sobre o palácio.
– Ambra é dona de si. Meu pai sabe disso.
– Seja como for, quando ele telefonou, estava lúcido e com uma raiva que eu não presenciava havia anos. Ordenou que eu levasse o senhor até ele imediatamente.
– Então por que estamos aqui? – perguntou Julián, indicando a entrada de veículos para a casita. – Ele está em Zarzuela.
– Não mais – disse Valdespino baixinho. – Ele deu ordens para que seus ajudantes e enfermeiros o vestissem, colocassem numa cadeira de rodas e o levassem a outro local, para que passasse os últimos dias cercado pela história de seu país.
Enquanto o bispo falava essas palavras, Julián percebeu a verdade.
La Casita jamais foi o nosso destino final.
Trêmulo, Julián deu as costas para o bispo, olhando para além da entrada de veículos da casa de campo, para a estrada rural que se estendia à frente deles. A distância, por entre as árvores, podia vislumbrar as torres iluminadas de uma construção gigantesca.
El Escorial.
A menos de 1,5 quilômetro, parecendo uma fortaleza na base do Monte Abantos, ficava uma das maiores estruturas religiosas do mundo – o fabuloso El Escorial, da Espanha. Com mais de três hectares de área, o complexo abrigava um mosteiro, uma basílica, um palácio real, um museu, uma biblioteca e uma série das mais apavorantes câmaras funerárias que Julián já vira.
A Cripta Real.
O pai de Julián o havia levado à cripta quando ele estava com apenas 8 anos, guiando o menino pelo Panteón de Infantes, um labirinto de câmaras que transbordavam de túmulos de crianças da família real.
Julián jamais se esqueceria de quando viu o horrendo túmulo “bolo de aniversário”: um enorme sepulcro redondo que parecia um bolo branco em camadas e continha os restos de 60 crianças da família real, todas postas em “gavetas” que deslizavam para dentro do “bolo” por toda a eternidade.
O terror de Julián ao ver aquela tumba medonha foi eclipsado alguns minutos depois quando seu pai o levou para ver o lugar de descanso final de sua mãe. Julián tinha esperado encontrar um túmulo de mármore digno de uma rainha, mas em vez disso o corpo da mãe estava numa caixa de chumbo numa sala de pedra nua no fim de um corredor comprido. O rei explicou que, no momento, a mãe de Julián estava enterrada em um pudridero – uma “câmara de apodrecimento” –, onde os cadáveres reais ficavam durante 30 anos, até que da carne só restasse pó, e então eram transferidos para os sepulcros permanentes. Julián se lembrava de ter precisado de toda a força que possuía para lutar contra as lágrimas e a ânsia de vomitar.
Em seguida seu pai o levou para o topo de uma escada íngreme que parecia descer para sempre na escuridão subterrânea. Ali as paredes e os degraus não eram mais de mármore branco, e sim de uma majestosa cor âmbar. A cada três degraus, velas votivas lançavam uma luz tremeluzente na pedra marrom-amarelada.
O pequeno Julián levantou a mão e segurou o antigo corrimão de corda, descendo com o pai, um degrau de cada vez… para o fundo das trevas. Na base da escada o rei abriu uma porta ornamentada e ficou de lado, sinalizando para o menino
entrar.
O Panteão dos Reis, disse seu pai.
Mesmo aos 8 anos, Julián tinha ouvido falar daquela sala – um local de lendas.
Tremendo, passou pela soleira e se viu numa resplandecente câmara ocre. Com a forma de um octógono, a sala cheirava a incenso e parecia entrar e sair de foco à luz desigual das velas que ardiam no lustre do teto. Julián foi para o centro, girando lentamente, sentindo-se frio e pequeno naquele espaço solene.
Todas as oito paredes continham nichos fundos onde caixões pretos idênticos estavam empilhados do chão ao teto, cada qual com uma placa dourada. Os nomes nos caixões vinham das páginas dos livros de história de Julián: rei Fernando…
rainha Isabel… rei Carlos V, sacro imperador romano.
No silêncio Julián sentiu o peso da mão amorosa do pai no ombro e a seriedade do momento o dominou. Um dia meu pai será enterrado nesta mesma sala.
Sem dizer uma palavra, pai e filho saíram do fundo da terra, para longe da morte e de volta à luz. Assim que estavam do lado de fora, sob o sol chamejante da Espanha, o rei se agachou e olhou nos olhos do filho.
– Memento mori – sussurrou o monarca. – Lembre-se da morte. Até para os que detêm grande poder, a vida é breve. Só existe um modo de triunfar sobre a morte: tornando nossa vida uma obra-prima. Devemos aproveitar cada oportunidade de demonstrar gentileza e amar plenamente. Vejo nos seus olhos que você tem a alma generosa de sua mãe. Sua consciência será seu guia. Quando a vida estiver escura, deixe seu coração mostrar o caminho.
Décadas depois, Julián não precisava que ninguém o lembrasse de que fizera pouquíssima coisa para tornar sua vida uma obra-prima. De fato, ele mal conseguira escapar da sombra do rei e se estabelecer como uma pessoa independente.
Desapontei meu pai em todos os sentidos.
Durante anos, Julián havia seguido o conselho paterno e deixado que seu coração mostrasse o caminho; mas essa era uma estrada tortuosa, já que seu coração ansiava por uma Espanha totalmente contrária à do seu pai. Seus sonhos para o país amado eram tão ousados que jamais poderiam ser pronunciados até a morte do rei.
E, mesmo então, Julián não fazia ideia de como seus atos seriam recebidos, não somente pelo Palácio Real, mas por toda a nação. Tudo que podia fazer era esperar, manter o coração aberto e respeitar a tradição.
E então, três meses antes, tudo havia mudado.
Conheci Ambra Vidal.
A beldade vivaz e de personalidade forte tinha virado o mundo de Julián de cabeça para baixo. Dias depois de se conhecerem, Julián entendera finalmente as palavras do seu pai. Deixe seu coração mostrar o caminho… e aproveite cada oportunidade de amar plenamente! A empolgação de se apaixonar era diferente de tudo o que Julián já havia experimentado, e ele sentiu que poderia estar dando os primeiros passos para tornar sua vida uma obra-prima.
Mas agora, enquanto olhava a estrada com expressão vazia, foi dominado por um premonitório sentimento de solidão e isolamento. Seu pai estava morrendo; a mulher amada não queria falar com ele; e ele tinha acabado de censurar seu mentor, o bispo Valdespino.
– Príncipe Julián – chamou o bispo com urgência –, deveríamos ir. Seu pai está frágil e ansioso para falar com o senhor.
Julián se virou lentamente para o amigo de toda a vida de seu pai.
– Quanto tempo o senhor acha que ele tem? – sussurrou.
A voz de Valdespino tremeu como se o bispo estivesse à beira das lágrimas.
– Ele pediu para não preocupar o senhor, mas sinto que o fim vai chegar mais depressa do que todos haviam previsto. Ele quer se despedir.
– Por que não me disse aonde estávamos indo? Por que todas as mentiras e segredos?
– Desculpe, eu não tinha escolha. Seu pai me deu ordens explícitas. Ordenou que eu o isolasse do mundo e das notícias até que ele tivesse a chance de falar com o senhor pessoalmente.
– Me isolar de… quais notícias?
– Acho que será melhor se o seu pai explicar.
Julián examinou o bispo por um longo momento.
– Antes de eu me encontrar com ele, há algo que preciso saber. Ele está lúcido?