Origem
Capítulo 57
– Encontre a senha, Robert! – gritou ela por cima do ombro. – Eu já volto.
Langdon a olhou desaparecer numa pequena torre estreita cuja escada subia em espiral até a cobertura notoriamente precária da Casa Milà.
– Tenha cuidado! – gritou ele de volta.
Sozinho no apartamento, Langdon olhou pelo corredor sinuoso feito de costelas de serpente e tentou entender o que tinha visto ali: caixas de vidro com artefatos incomuns, uma citação emoldurada proclamando que Deus estava morto, um Gauguin inestimável que propunha as mesmas questões que Edmond tinha feito ao mundo mais cedo. De onde viemos? Para onde vamos?
Ainda não tinha encontrado nada que sugerisse as possíveis respostas de Edmond para essas perguntas. Até agora a busca na biblioteca só havia revelado um volume potencialmente relevante – Arte Inexplicada –, um livro de fotografias de misteriosas estruturas feitas pelo homem, dentre as quais estavam Stonehenge, as estátuas da Ilha de Páscoa e os enormes “desenhos no deserto” de Nazca: geóglifos desenhados em uma escala tão gigantesca que só eram discerníveis do alto.
Não ajuda muito, decidiu ele, e voltou a procurar nas estantes.
Lá fora as sirenes ficaram mais altas.
C A P Í T U L O 5 7
– Não sou um monstro – declarou Ávila, soltando o ar enquanto se aliviava num mictório sujo num posto de gasolina deserto na Autoestrada N-240.
Ao seu lado, o motorista do Uber estava tremendo, aparentemente nervoso demais para urinar.
– O senhor ameaçou… minha família.
– E, se você se comportar – retrucou Ávila –, garanto que nada de mal vai acontecer com ela. Só me leve a Barcelona, me deixe lá e vamos nos separar como amigos. Vou devolver sua carteira, esquecer seu endereço e você nunca mais precisará pensar em mim.
O motorista ficou olhando para a frente, os lábios trêmulos.
– Você é um homem de fé – disse Ávila. – Vi a cruz papal no seu para-brisa. E
não importa o que pense de mim, você pode encontrar a paz sabendo que hoje está fazendo a obra de Deus. – Ávila terminou de urinar. – O Senhor trabalha de modos misteriosos.
Ávila deu um passo atrás e verificou a pistola de cerâmica enfiada no cinto.
Estava carregada com a última bala que restava. Imaginou se precisaria usá-la esta noite.
Foi até a pia e jogou água nas palmas das mãos, vendo a tatuagem que o Regente o havia instruído a pôr ali, para o caso de ser apanhado. Precaução desnecessária, suspeitou Ávila, agora sentindo-se como um espírito impossível de ser rastreado, movendo-se pela noite.
Levantou os olhos para o espelho imundo, espantado com a própria aparência.
Na última vez em que tinha se olhado, estava usando a farda de gala branca com colarinho engomado e o quepe da Marinha. Agora, depois de tirar a parte de cima do uniforme, mais parecia um chofer de caminhão – usando apenas sua camiseta de gola V e um boné emprestado pelo seu motorista.
Ironicamente, o homem malvestido que Ávila via no espelho o fazia se lembrar de sua aparência nos dias de bebedeira, quando odiava a si mesmo, depois da explosão que tinha matado sua família.
Eu estava no fundo do poço.
O ponto da virada, sabia, tinha sido quando seu fisioterapeuta, Marco, o enganara dizendo que o estava levando para conhecer o “papa”.
Ávila jamais se esqueceria de quando se aproximou das torres fantasmagóricas
da Igreja Palmariana, passando pelos portões enormes e entrando na catedral no meio da missa da manhã, quando uma enorme quantidade de fiéis estava ajoelhada, rezando.
O santuário era iluminado apenas com a luz natural vinda dos altos vitrais, e o ar tinha um cheiro forte de incenso. Quando Ávila viu os altares dourados e os bancos de madeira polida, percebeu que os boatos sobre a enorme riqueza dos palmarianos eram verdadeiros. A catedral era uma das mais lindas que ele tinha visto, no entanto sabia que essa igreja católica era diferente de todas as outras.
Os palmarianos são inimigos jurados do Vaticano.
De pé, ao lado de Marco, no fundo da catedral, olhou para a congregação e se perguntou como essa seita podia ter prosperado depois de expor claramente sua oposição a Roma. Ao que tudo indicava, ao condenar o crescente liberalismo do Vaticano, os palmarianos tinham atraído o interesse de fiéis que ansiavam por uma interpretação mais conservadora da fé.
Mancando pelo corredor com suas muletas, Ávila se sentiu como um mendigo miserável fazendo peregrinação a Lourdes na esperança de uma cura milagrosa. Um funcionário recebeu Marco e levou os dois até lugares reservados na primeira fila.
Paroquianos próximos olharam com curiosidade para ver quem estava recebendo esse tratamento especial. Ávila desejou que Marco não o tivesse convencido a usar seu uniforme cheio de condecorações.
Achei que ia me encontrar com o papa.
Sentou-se e levantou os olhos para o altar, onde um jovem paroquiano vestido de terno fazia uma leitura da Bíblia. Ávila reconheceu a passagem do Evangelho de São Marcos: “Perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas.”
Mais perdão? , pensou Ávila, rancoroso. Achava que tinha ouvido essa passagem mil vezes, por parte dos conselheiros e das freiras, nos meses depois do ataque terrorista.
A leitura terminou e os acordes crescentes de um órgão de tubos ressoaram no santuário. Os fiéis se levantaram ao mesmo tempo e Ávila ficou de pé com relutância, encolhendo-se de dor. Uma porta escondida atrás do altar se abriu e uma figura apareceu, provocando uma onda de empolgação.
O homem parecia ter 50 e poucos anos – ereto e régio, com uma postura graciosa e uma expressão convincente. Usava batina branca, palatina dourada, uma faixa bordada e uma mitra papal cheia de pedras preciosas. Avançou com os braços estendidos para a congregação, parecendo que flutuava enquanto ia até o centro do altar.
– Aí está ele – sussurrou Marco, entusiasmado. – O papa Inocêncio XIV.
Ele se chama de papa Inocêncio XIV? Ávila sabia que os palmarianos reconheciam a legitimidade de todos os papas até Paulo VI, que morrera em 1978.
– Chegamos bem na hora – disse Marco. – Ele vai fazer a homilia.
O papa foi até o centro do altar elevado, passando pelo púlpito formal e descendo, de modo a ficar no mesmo nível dos paroquianos. Ajeitou o microfone de lapela, estendeu as mãos e deu um sorriso caloroso.
– Bom dia – entoou num sussurro.
A congregação trovejou, respondendo:
– Bom dia!
O papa continuou se afastando do altar, mais para perto da congregação.
– Acabamos de ouvir uma leitura do Evangelho de São Marcos – começou ele.
– Uma passagem que escolhi pessoalmente porque hoje gostaria de falar sobre o perdão.
Em seguida foi na direção de Ávila e parou no corredor ao lado dele, a apenas alguns centímetros de distância. Não olhou para baixo nem uma vez. Ávila se virou inquieto para Marco, que assentiu empolgado.
– Todos temos dificuldades com o perdão – disse o papa. – E isso acontece porque há ocasiões em que as ofensas contra nós parecem imperdoáveis. Quando alguém mata pessoas inocentes num ato de puro ódio, será que deveríamos fazer como algumas igrejas nos ensinam e dar a outra face? – A nave ficou num silêncio mortal e o papa baixou a voz ainda mais. – Quando um extremista anticristão detona uma bomba durante a missa da manhã na Catedral de Sevilha, matando mães e filhos inocentes, como podemos perdoar? Explodir uma bomba é um ato de guerra. Uma guerra travada não somente contra os católicos. Uma guerra travada não somente contra os cristãos. Mas uma guerra contra a bondade… contra o próprio Deus!
Ávila fechou os olhos tentando reprimir as lembranças horríveis daquela manhã e toda a fúria e sofrimento que continuavam borbulhando no coração. À medida que sua raiva crescia, de repente sentiu a mão suave do papa em seu ombro. Abriu os olhos, mas o papa não olhou para ele. Mesmo assim seu toque parecia firme e tranquilizador.
– Não vamos nos esquecer do nosso próprio Terror Rojo – continuou o papa, com as mãos jamais saindo do ombro de Ávila. – Durante nossa guerra civil, os inimigos de Deus queimaram igrejas e mosteiros na Espanha, assassinando mais de seis mil padres e torturando centenas de freiras, obrigando as irmãs a engolir as contas dos rosários antes de estuprá-las e jogá-las em poços de mina para morrer. –
Ele parou e deixou as palavras se assentarem. – Esse tipo de ódio não desaparece com o tempo; em vez disso ele infecciona, ficando mais forte, esperando para brotar de novo feito um câncer. Amigos, eu lhes digo: o mal vai nos engolir por inteiro se não lutarmos usando a força contra a força. Jamais venceremos o mal se nosso grito de batalha for “perdão”.
Ele está certo, pensou Ávila, tendo testemunhado em primeira mão, no serviço militar, que ser “frouxo” diante dos erros de conduta era o melhor modo de garantir problemas cada vez maiores.
– Acredito que em alguns casos o perdão pode ser perigoso – continuou o papa.
– Quando perdoamos o mal no mundo, estamos lhe dando permissão para crescer e se espalhar. Quando reagimos a um ato de guerra com misericórdia, estamos encorajando nossos inimigos a cometer outros atos de violência. Chega um tempo em que devemos fazer como Jesus e virar as mesas dos vendilhões do templo, dando um basta.
Concordo! , queria gritar Ávila, diante da congregação.
– Mas nós agimos? – perguntou o papa. – A Igreja Católica de Roma se posiciona como Jesus? Não. Hoje enfrentamos os males mais sombrios do mundo usando apenas a capacidade de perdoar, amar e ser compassivos. E assim permitimos… não, encorajamos... o mal. Em resposta aos repetidos crimes contra nós, verbalizamos com delicadeza nossas preocupações de maneira politicamente correta, lembrando uns aos outros que uma pessoa má só é assim por causa da infância difícil, da vida de pobreza ou porque sofreu crimes contra seus entes queridos. Seu ódio não é culpa dela própria. Eu digo: basta! O mal é o mal! Todos tivemos dificuldades na vida!
A congregação explodiu em aplausos espontâneos, algo que Ávila jamais tinha testemunhado durante uma missa católica.
– Hoje escolhi falar sobre o perdão – continuou o papa, com a mão ainda no ombro de Ávila – porque temos um convidado especial. Gostaria de agradecer ao almirante Luis Ávila por nos abençoar com sua presença. Ele é um membro reverenciado e condecorado da Marinha espanhola e enfrentou um mal impensável.
Como todos nós, ele teve dificuldades com o perdão.
Antes que Ávila pudesse protestar, o papa estava contando em detalhes vívidos as dificuldades da sua vida: a perda da família num ataque terrorista, o alcoolismo e finalmente a fracassada tentativa de suicídio. A reação inicial do almirante foi de raiva por Marco ter traído sua confiança. Mas, ao ouvir sua história ser contada desse modo, sentiu-se estranhamente poderoso. Era uma admissão pública de que havia chegado ao fundo do poço e, de algum modo, talvez milagrosamente, tinha sobrevivido.
– Eu sugeriria a todos vocês – disse o papa – que Deus interveio na vida do almirante Ávila e o salvou… com um objetivo mais elevado.
Com isso, o papa palmariano Inocêncio XIV virou-se e olhou para Ávila pela primeira vez. Seus olhos profundos pareceram penetrar na alma dele, que ficou eletrizado com uma espécie de força que não sentia havia anos.
– Almirante Ávila, acredito que a perda trágica que o senhor suportou está além do perdão – declarou o papa. – Acredito que sua fúria constante, seu desejo justo de vingança, isso não pode ser aplacado dando a outra face. E nem deveria ser! A dor será catalisadora da sua salvação. Estamos aqui para apoiá-lo! Para amá-lo! Para ficar ao seu lado e ajudar a transformar sua raiva numa força poderosa para o bem do mundo! Louvado seja Deus!
– Louvado seja Deus! – ecoou a congregação.
– Almirante Ávila – continuou o papa, olhando-o mais intensamente ainda nos olhos. – Qual é o lema da Marinha espanhola?
– Pro Deo et patria – respondeu Ávila de pronto.
– Sim, Pro Deo et patria. Por Deus e pela pátria. Hoje todos nos sentimos honrados com a presença de um oficial condecorado que serviu tão bem à sua pátria.
– O papa fez uma pausa, inclinando-se à frente. – Mas… e Deus?
Ávila olhou nos olhos penetrantes do homem e se sentiu subitamente desestabilizado.
– Sua vida não terminou, almirante – sussurrou o papa. – Seu trabalho não está terminado. Foi para isso que Deus o salvou. Sua missão só está cumprida pela metade. O senhor serviu bem à pátria, sim… mas ainda não serviu a Deus!
Ávila sentiu como se tivesse sido atingido por uma bala.
– Que a paz esteja convosco! – proclamou o papa.
– E contigo também! – respondeu a congregação.
De repente, Ávila sentiu-se engolido por um mar de pessoas desejando tudo de bom, numa demonstração de apoio diferente de tudo o que já havia experimentado.
Examinou os olhos dos paroquianos em busca de qualquer traço do fanatismo de seita que havia temido, mas só viu otimismo, boa vontade e paixão sincera por realizar a obra de Deus… exatamente o que Ávila percebeu que faltava em sua vida.
A partir desse dia, com a ajuda de Marco e dos novos amigos, Ávila começou sua longa subida para fora do poço de desespero sem fundo. Voltou à rigorosa rotina de exercícios físicos, passou a comer alimentos nutritivos e, mais importante, redescobriu a fé.
Depois de vários meses, quando a fisioterapia acabou, Marco lhe deu de presente uma Bíblia encadernada em couro, em que havia marcado cerca de uma dúzia de passagens.
Ávila folheou algumas delas, ao acaso.
Romanos 13:4
É ministro de Deus,
para fazer justiça e para exercer a ira
contra aquele que pratica o mal.
Salmo 94:1
Senhor, Deus justiceiro,
Deus das vinganças,
aparecei em vosso esplendor!
2 Timóteo 2:3
Suporte comigo os sofrimentos,
como bom soldado de Cristo Jesus.
– Lembre – tinha dito Marco com um sorriso. – Quando o mal levanta a cabeça no mundo, Deus age através de cada um de nós de um modo diferente, para exercer sua vontade na terra. O perdão não é o único caminho para a salvação.