Origem

Dan Brown · Capítulo 58 de 107

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Capítulo 60

Clique.

O telefone destravou.

Essa invasão simples vem com os cumprimentos do YouTube, pensou Suresh, achando divertido os usuários dos iPhones acharem que sua senha oferecia alguma privacidade.

Agora com total acesso ao telefone de Valdespino, abriu o aplicativo iMessage, prevendo que precisaria restaurar os textos deletados por Valdespino enganando o backup no iCloud para refazer o catálogo.

De fato, encontrou o histórico de mensagens do bispo completamente vazio.

A não ser por uma mensagem, percebeu, vendo um único texto que havia chegado duas horas antes, vindo de um número protegido.

Abriu a mensagem e leu as três linhas. Por um momento achou que estava alucinando.

Isso não pode ser verdade!

Leu a mensagem de novo. O texto era uma prova concreta do envolvimento de Valdespino em atos de traição e mentira impensáveis.

Para não mencionar arrogância, pensou Suresh, pasmo ao perceber que o velho clérigo se sentia invulnerável a ponto de se comunicar eletronicamente sobre algo tão grave.

Se isso for divulgado…

Suresh estremeceu diante dessa possibilidade e correu imediatamente para baixo, procurando Mónica Martín.

C A P Í T U L O 6 0

Enquanto o helicóptero EC145 voava baixo sobre a cidade, o agente Díaz olhou para as luzes espalhadas lá embaixo. Apesar da hora tardia, dava para ver o tremeluzir de aparelhos de TV e computadores na maioria das janelas dos apartamentos, pintando a cidade com uma leve névoa azul.

O mundo inteiro está assistindo.

Isso o deixou nervoso. Podia sentir essa noite escapando loucamente do controle e temia que a crise galopante estivesse rumando para uma conclusão perturbadora.

À sua frente, o agente Fonseca gritava e apontava, a distância. Díaz assentiu, vendo o alvo imediatamente.

Difícil não ver.

Mesmo de longe o agrupamento pulsante de luzes giratórias dos carros da polícia era inconfundível.

Que Deus nos ajude.

Como Díaz havia temido, a Casa Milà estava cercada de veículos da polícia. As autoridades de Barcelona tinham reagido a uma informação anônima logo depois do anúncio de Mónica Martín no Palácio Real.

Robert Langdon sequestrou a futura rainha da Espanha.

O palácio precisa da ajuda do público para encontrá-los.

Mentira descarada, Díaz sabia. Com meus próprios olhos, vi os dois saírem juntos do Guggenheim.

Apesar de ser eficaz, o ardil de Mónica Martín tinha dado início a um jogo incrivelmente perigoso. Criar uma caçada humana envolvendo autoridades locais era algo arriscado – não somente para Robert Langdon, mas para a futura rainha, que agora tinha uma boa chance de ser apanhada no fogo cruzado de um punhado de policiais amadores. Se o objetivo do palácio era manter a futura rainha em segurança, esse definitivamente não era o modo de fazer isso.

O comandante Garza jamais permitiria que a situação chegasse a esse ponto.

A prisão de Garza continuava sendo um mistério para Díaz, que não tinha dúvidas de que as acusações contra seu comandante eram tão fictícias quanto as feitas contra Langdon.

Apesar de tudo, Fonseca tinha recebido um telefonema com ordens expressas.

Ordens vindas de um posto superior ao de Garza.

 

Enquanto o helicóptero se aproximava da Casa Milà, o agente Díaz examinou o local e percebeu que não haveria como fazer um pouso seguro. A avenida larga e a praça próxima ao prédio estavam apinhadas de furgões da mídia, carros da polícia e uma multidão de curiosos.

Díaz olhou para a famosa cobertura da Casa Milà: um número oito ondulante, feito de caminhos inclinados e escadas que serpenteavam acima do prédio e davam aos visitantes imagens do horizonte de Barcelona capazes de tirar o fôlego… além de uma boa visão dos dois enormes poços de iluminação, cada um dos quais descendo nove andares até os pátios internos.

Não há como pousar.

Além dos morros e vales da cobertura, o terraço era protegido por altas chaminés criadas por Gaudí, lembrando peças de xadrez futuristas – sentinelas com elmos que supostamente haviam impressionado tanto o cineasta George Lucas que ele as usara como modelo para os ameaçadores stormtroopers em Guerra nas Estrelas. Díaz examinou os prédios vizinhos em busca de possíveis locais de pouso, mas de repente seu olhar se deteve numa cena inesperada em cima da Casa Milà.

Uma figura pequena no meio das estátuas enormes.

Junto a um parapeito, na beira da cobertura, a pessoa estava vestida de branco, nitidamente iluminada pelos refletores da mídia que partiam da praça embaixo e focavam lá no alto. Por um instante, isso fez Díaz se lembrar de quando tinha visto o papa em sua sacada acima da Praça de São Pedro, dirigindo-se aos fiéis.

Mas aquela pessoa não era o papa.

Era uma mulher linda usando um vestido branco muito familiar.

Ambra Vidal não conseguia enxergar nada através da claridade das luzes da imprensa, mas podia ouvir um helicóptero chegando perto e soube que o tempo estava se esgotando. Em desespero, se inclinou por cima da amurada e tentou gritar para as pessoas lá embaixo.

Suas palavras foram tragadas pelo rugido ensurdecedor das pás do helicóptero.

Winston tinha previsto que as equipes de televisão na rua virariam as câmeras para o alto no instante em que Ambra fosse vista na beira do terraço. De fato, foi isso que aconteceu, no entanto Ambra se deu conta de que o plano de Winston tinha fracassado.

Eles não conseguem ouvir uma palavra do que estou dizendo!

O terraço da Casa Milà era alto demais acima do tráfego ruidoso e do caos lá embaixo. E agora o barulho do helicóptero ameaçava abafar tudo completamente.

 

– Eu não fui sequestrada! – gritou Ambra de novo, o mais alto que conseguiu. –

A declaração do Palácio Real sobre Robert Langdon não está certa! Eu não sou refém!

Você é a futura rainha da Espanha, tinha lembrado Winston pouco tempo atrás.

Se mandar cancelar essa caçada humana, as autoridades irão parar imediatamente.

Sua declaração vai criar uma confusão absoluta. Ninguém saberá que ordens seguir.

Ambra sabia que Winston estava certo, mas suas palavras tinham se perdido no barulho do helicóptero acima da multidão ruidosa.

De repente o céu irrompeu num uivo trovejante. Ambra se encolheu para longe do parapeito enquanto o helicóptero chegava mais perto e se imobilizava abruptamente, pairando à frente dela. As portas da fuselagem estavam abertas e dois rostos familiares a encaravam com atenção: os agentes Fonseca e Díaz.

Para horror de Ambra, o agente Fonseca levantou algum tipo de instrumento e o apontou direto para sua cabeça. Por um instante a ideia mais estranha atravessou a mente dela. Julián quer que eu seja morta. Sou uma mulher estéril. Não posso lhe dar um herdeiro. Me matar é a única forma de escapar do noivado.

Recuou, cambaleando, para longe daquele instrumento de aparência ameaçadora, segurando o telefone de Edmond com uma das mãos e estendendo a outra para se equilibrar. Mas, quando pôs o pé atrás, o chão pareceu sumir. Por um instante sentiu apenas o espaço vazio onde havia esperado cimento sólido. Seu corpo se torceu enquanto ela tentava recuperar o equilíbrio, mas sentiu-se caindo de lado por um curto lance de escada.

Seu cotovelo esquerdo acertou o cimento e o resto do corpo se chocou um instante depois. Mesmo assim não sentiu dor. Todo o seu foco mudou para o objeto que tinha voado da sua mão: o grande telefone turquesa de Edmond.

Meu Deus, não!

Olhou apavorada enquanto o telefone deslizava pelo cimento, quicando pela escada na direção da queda de nove andares até o pátio interno do prédio. Tentou agarrá-lo, mas ele desapareceu sob a grade protetora, caindo no abismo.

Nossa conexão com Winston…!

Arrastou-se atabalhoadamente atrás dele e chegou à grade bem a tempo de ver o telefone girando em direção ao elegante piso do saguão, onde, com um estalo forte, explodiu numa chuva de vidro brilhante e metal.

Num instante Winston se foi.

Langdon subiu rapidamente a escada e saiu da pequena torre para o terraço da

Casa Milà. Viu-se no meio de um turbilhão ensurdecedor. Um helicóptero pairava muito baixo ao lado do prédio e Ambra não estava em lugar nenhum.

Atordoado, examinou a área. Onde ela está? Tinha esquecido como aquele terraço era bizarro – parapeitos tortos… escadas íngremes… soldados de cimento…

poços sem fundo.

– Ambra!

Quando a viu, sentiu uma onda de pavor. Ambra Vidal estava encolhida no cimento à beira do poço de iluminação.

Enquanto corria na direção dela por uma parte elevada do piso, o zumbido agudo de uma bala passou junto à sua cabeça e explodiu no cimento atrás dele.

Meu Deus! Langdon se jogou de joelhos e se arrastou até uma área mais baixa enquanto mais duas balas passavam sobre sua cabeça. Por um momento pensou que os tiros vinham do helicóptero, mas, enquanto engatinhava até Ambra, viu um bando de policiais com armas nas mãos saindo de outra torre do lado oposto do terraço.

Eles querem me matar, percebeu. Acham que eu sequestrei a futura rainha!

Aparentemente o anúncio dela não tinha sido ouvido.

Enquanto olhava para Ambra, agora a dez metros de distância, percebeu horrorizado que o braço dela estava sangrando. Meu Deus, ela levou um tiro! Outra bala passou por cima da sua cabeça enquanto Ambra começava a agarrar o corrimão que cercava a borda do poço e tentava se levantar.

– Fique abaixada! – gritou Langdon, arrastando-se até ela, segurando-a no chão e se curvando sobre seu corpo para protegê-la.

Olhou para as altas figuras dos stormtroopers espalhados no perímetro do terraço como guardiões silenciosos.

Um rugido ensurdecedor veio de cima e um vento fortíssimo os açoitou enquanto o helicóptero descia e pairava sobre o poço enorme ao lado deles, cortando a linha de visão dos policiais.

– ¡Dejen de disparar! – trovejou uma voz amplificada vinda do helicóptero. –

¡Enfunden las armas! – Parem de atirar! Guardem as armas!

Bem à frente de Langdon e Ambra, o agente Díaz estava agachado junto à porta aberta com um dos pés equilibrado no patim do helicóptero e uma das mãos estendida para os dois.

– Entrem – gritou Díaz.

Langdon sentiu Ambra se encolher embaixo dele.