Origem
Capítulo 79
Segundo documentos exclusivos verificados pelo ConspiracyNet, durante anos Edmond Kirsch tentou processar a Igreja Palmariana por “lavagem cerebral, condicionamento psicológico e maus-tratos”, que supostamente resultaram na morte de Paloma Kirsch – a mãe biológica de Edmond – há mais de três décadas.
Paloma Kirsch teria sido uma participante ativa da Igreja Palmariana que tentara deixar a seita, sendo humilhada e tendo sofrido abusos psicológicos por parte de seus superiores. Ela terminou se enforcando num quarto do convento.
C A P Í T U L O 7 9
– O próprio rei – murmurou de novo o comandante Garza, com a voz ressoando na Armaria do palácio. – Ainda não consigo entender que a ordem de prisão contra mim tenha vindo do próprio rei. Depois de todos os meus anos de serviço.
Mónica Martín encostou um dedo nos lábios para pedir silêncio e olhou através das armaduras junto à entrada, para se certificar de que os guardas não estavam escutando.
– Eu lhe disse, o bispo Valdespino tem a atenção do rei e convenceu Sua Majestade de que as acusações desta noite contra ele foram feitas pelo senhor e que, de algum modo, o senhor está tentando culpá-lo.
Eu virei o bode expiatório do rei, percebeu Garza, que sempre suspeitara de que, se o monarca fosse obrigado a escolher entre o comandante da Guardia Real e o bispo, escolheria o último. Os dois tinham sido amigos a vida toda, e as conexões espirituais sempre tinham mais força do que as profissionais.
Mesmo assim, Garza não conseguia deixar de sentir que alguma coisa na explicação de Mónica parecia não se encaixar.
– A história do sequestro – falou ele. – Você está dizendo que ela foi ordenada pelo rei?
– Foi. Sua Majestade ligou diretamente para mim. Ordenou que eu anunciasse que Ambra Vidal tinha sido sequestrada. Ele inventou a história do sequestro num esforço para salvar a reputação da futura rainha, amenizando a aparência de que ela havia literalmente fugido com outro homem. – Mónica olhou chateada para Garza. –
Por que está me questionando sobre isso? Justo agora que o senhor sabe que o rei ligou para o agente Fonseca com a mesma história?
– Não acredito que o rei se arriscaria a acusar de sequestro um americano importante. Ele precisaria estar…
– Louco? – interrompeu ela.
Garza ficou olhando-a em silêncio.
– Comandante – disse Mónica –, lembre-se de que Sua Majestade está muito doente. Talvez esse tenha sido simplesmente um caso de má avaliação, não é?
– Ou um momento de inteligência brilhante. Quer tenha sido imprudente ou não, agora a futura rainha está em segurança, nas mãos da Guardia.
– Exato. – Mónica o encarou com atenção. – Então o que está incomodando o senhor?
– Valdespino. Admito que não gosto dele, mas meu instinto diz que ele não pode estar por trás do assassinato de Kirsch nem de nenhuma dessas coisas.
– Por quê? – O tom dela saiu ácido. – Porque ele é um sacerdote? Tenho certeza de que nossa Inquisição ensinou algumas coisas sobre a disposição da Igreja para justificar medidas drásticas. Na minha opinião, Valdespino é fanático, implacável, oportunista e cheio de segredos. Estou deixando de citar alguma coisa?
– Está – retrucou Garza, espantado em se ver defendendo o bispo. – Valdespino é tudo o que você disse, mas também é uma pessoa para quem a tradição e a dignidade são tudo. O rei, que quase não confia em ninguém, acredita piamente no bispo há décadas. Acho muito difícil crer que o confidente do rei cometeria o tipo de traição do qual estamos falando.