Origem
Capítulo 27
– Ouvi, professor.
– Você já sabia disso?
– Não.
Langdon avaliou com muito cuidado as palavras seguintes.
– Winston, não sei se os computadores podem sentir lealdade a seus criadores, mas, se você puder, este é o seu momento da verdade. Sua ajuda seria muito bem-vinda.
C A P Í T U L O 2 7
Enquanto ia na direção do pódio, Langdon ficou de olho em Fonseca, ainda concentrado no telefonema para o Uber. Viu Ambra se deslocar de modo casual para o centro da cúpula, também falando ao telefone – ou pelo menos fingindo que falava
– exatamente como Langdon tinha sugerido.
Diga a Fonseca que você decidiu ligar para o príncipe Julián.
Quando chegou ao pódio, Langdon virou o olhar com relutância para o corpo caído no chão. Edmond. Gentilmente puxou o cobertor que Ambra havia posto sobre ele. Os olhos antes brilhantes de Edmond eram fendas sem vida sob um buraco vermelho na testa. Langdon estremeceu diante da imagem medonha, com o coração martelando de tristeza e raiva.
Por um instante ainda podia ver o jovem estudante com cabelos de esfregão que havia entrado em sua aula cheio de esperança e talento – e tinha realizado tanta coisa em tão pouco tempo. De modo horrendo, alguém assassinara esse ser humano espantosamente dotado, quase com certeza com o objetivo de enterrar sua descoberta para sempre.
E a não ser que eu tome uma atitude ousada, pensou Langdon, o maior feito do meu aluno jamais verá a luz do dia. Posicionando-se de modo que o pódio bloqueasse parcialmente a linha de visão de Fonseca, ajoelhou-se ao lado do corpo de Edmond, fechou os olhos, cruzou as mãos e assumiu uma reverente postura de oração.
A ironia de rezar por um ateu quase fez com que Langdon sorrisse. Edmond, sei que você, mais do que qualquer um, não quer ninguém rezando por sua alma. Não se preocupe, amigo, na verdade não estou aqui para isso.
Enquanto se ajoelhava junto de Edmond, Langdon lutou contra um medo crescente. Eu lhe garanti que o bispo era inofensivo. Se por acaso Valdespino estiver envolvido nisso… Langdon afastou o pensamento.
Assim que teve certeza de que Fonseca o vira rezando, inclinou-se discretamente e enfiou a mão dentro da jaqueta de couro de Edmond, tirando seu grande telefone turquesa.
Olhou brevemente na direção de Fonseca, ainda ao telefone e agora aparentando menos interesse em Langdon do que em Ambra, que parecia concentrada em seu próprio telefonema e ia se afastando cada vez mais.
Langdon voltou o olhar para o telefone de Edmond e respirou fundo para se
acalmar.
Mais uma coisa a fazer.
Com cuidado, abaixou-se e levantou a mão direita de Edmond. Ela já estava fria. Levou o telefone até ela e apertou com cuidado o indicador de Edmond contra o disco de reconhecimento de digital.
O telefone soltou um clique e se destravou.
Langdon percorreu rapidamente o menu de configuração e desabilitou a proteção por senha. Permanentemente desbloqueado. Em seguida enfiou o telefone no bolso do paletó e cobriu de novo o corpo de Edmond com o cobertor.
Sirenes uivavam a distância enquanto Ambra permanecia sozinha no centro do auditório deserto com o celular encostado no ouvido, fingindo se concentrar numa conversa, o tempo todo consciente dos olhos de Fonseca voltados para ela.
Depressa, Robert.
Um minuto antes, o professor americano tinha partido para a ação depois de Ambra lhe contar uma conversa recente que tivera com Edmond Kirsch. Duas noites antes, ela estava trabalhando com Edmond naquele mesmo salão. Já era tarde e os dois cuidavam dos últimos detalhes da apresentação quando ele parou para tomar o terceiro suco de espinafre da noite. Ambra notou como ele parecia exausto.
– Devo dizer, Edmond, que não sei bem se essa dieta vegana está funcionando.
Você está pálido e magro demais.
– Magro demais? – Ele riu. – Olhe quem está falando.
– Eu não estou magra demais!
– Está no limite. – Ele piscou de modo brincalhão diante da expressão indignada de Ambra. – Quanto a estar pálido, fala sério! Sou um geek que fica o dia inteiro sentado à luz de uma tela de LCD.
– Bom, daqui a dois dias você vai falar para o mundo inteiro, e um pouquinho de cor iria lhe fazer bem. Saia ao ar livre amanhã ou invente uma tela de computador que sirva ao mesmo tempo para bronzear.
– Não é má ideia – disse ele, parecendo impressionado. – Você deveria patentear isso. – Ele riu e depois voltou a atenção para o problema imediato. – Então a ordem dos acontecimentos na noite de sábado está clara?
Ambra assentiu, olhando o roteiro.
– Eu recebo as pessoas na antessala, em seguida entramos todos neste auditório para seu vídeo de introdução, depois do qual você vai aparecer magicamente ali no pódio. – Ela apontou para a frente do salão. – E em seguida, no pódio, você faz seu anúncio.
– Perfeito, com um pequeno acréscimo. – Edmond riu. – Quando eu falar no pódio, será mais um intervalo, uma chance de dar as boas-vindas pessoalmente aos convidados, deixar todo mundo esticar as pernas e prepará-los um pouco mais antes de começar a segunda metade do evento: a apresentação multimídia que explica minha descoberta.
– Então o anúncio propriamente dito é pré-gravado? Como a introdução?
– É. Eu o terminei há alguns dias. Nossa cultura é visual, as apresentações multimídia são sempre mais interessantes do que um mero cientista falando no pódio.
– Você não é exatamente “um mero cientista”, mas concordo. Mal posso esperar para ver.
Ambra sabia que, por questões de segurança, a apresentação de Edmond estava armazenada em seus servidores particulares, confiáveis, que ficavam fora dali. Tudo seria transmitido por streaming para o sistema de projeção do museu a partir de um local remoto.
– Quando estivermos prontos para a segunda parte – perguntou ela –, quem vai ativar a apresentação, você ou eu?
– Eu mesmo faço. – Ele pegou seu telefone. – Com isto. – Edmond levantou o smartphone enorme com sua capa turquesa com um desenho de Gaudí. – Tudo faz parte do show. Eu simplesmente acesso meu servidor remoto usando uma conexão criptografada…
Edmond apertou alguns botões e o telefone, no viva voz, tocou uma vez e se conectou.
Uma voz feminina, computadorizada, atendeu.
– BOA NOITE, EDMOND. ESTOU ESPERANDO SUA SENHA.
Edmond sorriu.
– E então, com o mundo todo assistindo, eu apenas digito a senha no telefone e minha descoberta é transmitida imediatamente, aqui para nosso teatro. E, ao mesmo tempo, para todo o planeta.
– Parece dramático – disse Ambra, impressionada. – A não ser, claro, que você esqueça a senha.
– Seria embaraçoso mesmo.
– Imagino que você tenha anotado a senha.
– Blasfêmia – reagiu Edmond, rindo. – Os cientistas da computação nunca anotam senhas. Mas não se preocupe. A minha tem apenas 47 caracteres. Tenho certeza de que não vou esquecer.
Os olhos de Ambra se arregalaram.
– Quarenta e sete?! Edmond, você nem consegue se lembrar do PIN de quatro números do seu cartão de segurança do museu! Como vai memorizar 47 caracteres aleatórios?
Edmond riu de novo do alarme de Ambra.
– Não preciso. Eles não são aleatórios. – Ele baixou a voz. – Na verdade, a senha é meu verso predileto.
Ambra sentiu-se confusa.
– Você usou o verso de um poema como senha?
– Por que não? O verso tem exatamente 47 letras.
– Bom, isso não parece muito seguro.
– Não? Você acha que pode adivinhar meu verso predileto?
– Eu nem tinha ideia de que você gostava de poesia.
– Exato. Mesmo se alguém descobrisse que minha senha era um verso de um poema e mesmo se acertasse o verso exato, entre milhões de possibilidades, ainda precisaria adivinhar o número muito longo que eu uso para me conectar com meu servidor seguro.
– O número que você ligou usando a discagem rápida do seu telefone?
– É, um telefone que tem seu próprio PIN de acesso e nunca sai do bolso do meu peito.
Ambra levantou as mãos, com um sorriso brincalhão.
– Certo, você é que é o chefe. Por sinal, quem é seu poeta predileto?
– Bela tentativa – disse ele, balançando o dedo. – Vai ter de esperar até sábado.
O verso que escolhi é perfeito. – Ele riu. – Tem a ver com o futuro, com uma profecia, e fico feliz em dizer que ela já está se realizando.
Agora, enquanto seus pensamentos voltavam ao presente, Ambra olhou para o corpo de Edmond e percebeu, em pânico, que não podia mais ver Langdon.
Onde ele está?