Origem

Dan Brown · Capítulo 21 de 107

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Capítulo 21

Péssimo timing.

Langdon tirou o fone do bolso e o ajeitou na cabeça. No instante em que a almofada tocou o osso do malar, o sotaque de Winston se materializou em sua cabeça.

– … fessor Langdon? Está aí? Os telefones estão desabilitados. O senhor é o meu único contato. Professor Langdon?!

– Sim… Winston? Estou aqui – respondeu Langdon acima dos aplausos ao redor.

– Que bom – disse Winston. – Ouça atentamente. Talvez tenhamos um problema sério.

 

C A P Í T U L O 2 1

Como alguém que havia experimentado incontáveis momentos de triunfo no palco do mundo, Edmond Kirsch era sempre motivado por realizações, mas raramente sentia um contentamento completo. Porém, naquele instante, recebendo uma ovação descontrolada no pódio, permitiu-se o júbilo empolgante de saber que estava para mudar o mundo.

Sentem-se, amigos. O melhor ainda está por vir.

À medida que a névoa se dissipava, Edmond resistiu à ânsia de olhar para cima, onde sabia que um close de seu próprio rosto estava sendo projetado no teto e também para milhões de pessoas em todo o mundo.

Este é um momento global, pensou com orgulho. Transcende fronteiras, classes e credos.

Olhou à esquerda para acenar em agradecimento a Ambra Vidal, que tinha trabalhado incansavelmente para montar aquele espetáculo e agora assistia num canto. Mas, para sua surpresa, Ambra não estava olhando para ele. Em vez disso, observava a plateia, e seu rosto era uma máscara de preocupação.

Alguma coisa está errada, pensou Ambra.

No centro do salão, um homem alto e vestido com elegância estava abrindo caminho pelo público, balançando os braços e acenando na direção dela.

Aquele é Robert Langdon, percebeu, reconhecendo o professor americano que tinha aparecido no vídeo de Kirsch.

Langdon estava se aproximando rapidamente, e os dois agentes da Guardia que estavam com Ambra se afastaram logo da parede, posicionando-se para interceptá-lo.

O que ele quer? Ambra sentiu alarme na expressão de Langdon.

Ela virou na direção de Edmond, no pódio, imaginando se ele também teria notado a agitação, mas Edmond Kirsch não estava olhando para a plateia.

Misteriosamente, estava olhando direto para ela.

Edmond! Há alguma coisa errada!

Nesse instante um estalo ensurdecedor ecoou dentro da cúpula e a cabeça de

 

Edmond foi sacudida bruscamente para trás. Ambra olhou num horror abjeto enquanto uma cratera vermelha brotava na testa dele. Os olhos de Edmond se viraram ligeiramente para trás, mas suas mãos seguraram com firmeza o pódio enquanto todo o seu corpo ficava rígido. Ele cambaleou por um instante, o rosto parecendo uma máscara de confusão. E então, como uma árvore caindo, seu corpo tombou de lado e despencou, a cabeça ensanguentada quicando na grama artificial.

Antes que Ambra pudesse ao menos compreender o que tinha testemunhado, foi jogada no chão por um dos agentes da Guardia.

O tempo parou.

Depois… pandemônio.

Iluminado pela projeção reluzente do cadáver sangrento de Edmond, um maremoto de convidados partiu para os fundos do salão tentando escapar de outro disparo.

À medida que o caos irrompia ao redor, Robert Langdon sentiu-se preso onde estava, paralisado pelo choque. Perto dali, seu amigo estava caído de lado, ainda virado para a plateia, com o buraco de bala na testa jorrando em vermelho.

Cruelmente, o rosto sem vida de Edmond estava iluminado pela forte claridade do refletor da câmera de televisão, que estava num tripé e sem ninguém ao lado, aparentemente ainda transmitindo ao vivo para o teto da cúpula e também para o mundo.

Como num sonho, Langdon sentiu-se correndo para a câmera e virando-a para cima, apontando as lentes para longe de Edmond. Em meio à confusão de convidados que fugiam, olhou para o pódio e para o amigo caído, sabendo com certeza que Edmond estava morto.

Meu Deus… eu tentei alertá-lo, Edmond, mas o aviso do Winston chegou tarde demais.

Não muito longe do corpo de Edmond, no chão, Langdon viu um agente da Guardia agachado, protegendo Ambra Vidal. Foi rapidamente na direção dela, mas o agente reagiu por instinto – lançando-se para cima e para a frente, dando três passos longos e jogando o corpo contra o dele.

O ombro do guarda se chocou contra o esterno de Langdon, expelindo todo o ar dos pulmões e provocando uma onda de dor pelo corpo enquanto ele voava para trás, caindo com força na grama artificial. Antes mesmo que pudesse respirar, mãos poderosas o viraram de bruços, torceram seu braço esquerdo às costas e comprimiram uma palma da mão que parecia de ferro em sua nuca, deixando-o totalmente imobilizado, com a bochecha esquerda espremida contra a grama.

 

– Você sabia disso antes que acontecesse – gritou o guarda. – Qual é a sua participação nisso?

A 20 metros dali, o agente Rafa Díaz, da Guardia Real, passava atabalhoadamente pelo bando de convidados em fuga e tentava chegar ao lugar onde tinha visto o clarão de um tiro, na parede lateral.

Ambra Vidal está em segurança, disse a si mesmo, tendo visto seu parceiro jogá-la no chão e cobrir o corpo dela. Além disso, Díaz tinha certeza de que nada poderia ser feito pela vítima. Edmond Kirsch morreu antes de bater no chão.

Misteriosamente, observou Díaz, parecia que um dos convidados tinha sido avisado sobre o ataque, correndo para o pódio um instante antes do tiro.

Qualquer que fosse o motivo, Díaz sabia que isso poderia esperar.

No momento tinha apenas uma tarefa.

Prender o atirador.

Quando chegou ao local do clarão do tiro, encontrou um corte no tecido que isolava a cúpula. Mergulhando a mão pela abertura, rasgou o tecido violentamente até o chão e saiu para um labirinto de andaimes.

À sua esquerda, vislumbrou uma figura – um homem alto vestido com uniforme militar branco – correndo para a saída de emergência no lado oposto do espaço enorme. Um instante depois o fugitivo passou pela porta e desapareceu.

Díaz foi atrás, se desvencilhando dos aparelhos eletrônicos do lado de fora da cúpula e finalmente alcançando a porta que dava num poço de escada de cimento.

Olhou por cima do corrimão e viu o homem dois andares abaixo, descendo a toda a velocidade. Correu atrás dele, saltando de cinco em cinco degraus. Em algum lugar lá embaixo a porta de saída se abriu com um estrondo e depois se fechou de novo.

Ele está saindo do prédio!

Quando chegou ao térreo, Díaz correu para a porta dupla de saída, com barras de tranca horizontais, e jogou todo o peso contra ela. As bandas da porta, em vez de se abrir como as do andar de cima, moveram-se apenas uns dois centímetros e pararam, emperradas. O corpo do agente se chocou contra uma parede de aço e ele caiu embolado, com uma dor lancinante irrompendo no ombro.

Abalado, levantou-se e testou a porta de novo.

Ela se abriu apenas o bastante para que ele visse o problema.

Estranhamente, as maçanetas externas tinham sido amarradas com um fio de contas de metal. A confusão de Díaz se aprofundou quando ele percebeu que o padrão das contas lhe era familiar, como seria para qualquer católico.

Isso é um rosário?

 

Usando toda a força, pressionou de novo o corpo dolorido contra a porta, mas o fio se recusava a se partir. Olhou outra vez pela abertura estreita, pasmo pela presença de um rosário e também por sua incapacidade de arrebentá-lo.

– ¿Hola? – gritou através da porta. – ¿Hay alguien?!

Silêncio.

Por entre as bandas da porta, conseguiu ver uma parede alta de concreto e um corredor de serviço deserto. Eram poucas as chances de que alguém viesse remover o rosário enrolado. Não vendo outra opção, pegou sua pistola no coldre embaixo do blazer, engatilhou a arma e estendeu o cano através da fresta, encostando-o no rosário.

Vou disparar uma bala contra um santo rosário? Que Dios me perdone.

O crucifixo amputado balançou para cima e para baixo diante dos olhos de Díaz.

Ele puxou o gatilho.

O tiro trovejou no patamar de cimento e a porta se abriu. O rosário se despedaçou e Díaz tombou adiante, cambaleando no corredor vazio enquanto as contas quicavam no pavimento ao redor.

O assassino de branco tinha ido embora.

A 100 metros dali, o almirante Luis Ávila estava sentado em silêncio no banco de trás do Renault preto que agora acelerava para longe do museu.

A força tênsil da fibra de Vectran em que Ávila tinha prendido as contas do rosário havia feito seu serviço, atrasando os perseguidores por tempo suficiente.

E agora estou indo embora.

À medida que o carro acelerava para noroeste, ao longo do sinuoso Rio Nervión, e desaparecia no meio dos veículos que se moviam rapidamente na Avenida Abandoibarra, o almirante finalmente se permitiu exalar.