Origem

Dan Brown · Capítulo 71 de 107

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Origem

Capítulo 73

Está racional?

Valdespino lhe deu um olhar de dúvida.

– Por que pergunta isso?

– Porque as exigências dele esta noite parecem estranhas e impulsivas.

Valdespino assentiu com tristeza.

– Impulsivo ou não, o seu pai ainda é o rei. Eu o amo e faço o que ele ordena.

Todos fazemos.

C A P Í T U L O 7 3

Lado a lado, junto da vitrine de exposição, Robert Langdon e Ambra Vidal olhavam a obra de William Blake, iluminada pela claridade suave da lâmpada a óleo. O padre Beña tinha se afastado para ajeitar alguns bancos, educadamente lhes dando alguma privacidade.

Langdon estava achando difícil ler as letras minúsculas do poema escrito à mão, mas o cabeçalho maior no topo da página era perfeitamente legível.

Os Quatro Zoas

Ao ver as palavras, sentiu instantaneamente um raio de esperança. Os Quatro Zoas era o título de um dos poemas proféticos mais conhecidos de Blake – uma obra gigantesca dividida em nove “noites”, ou capítulos. Os temas do poema, como Langdon recordava da leitura no tempo de faculdade, se concentravam na morte da religião convencional e no domínio subsequente da ciência.

Examinou as estrofes, vendo as linhas escritas à mão terminarem na metade da página num elegantemente desenhado “finis divisionem” – o equivalente gráfico de

“Fim”.

É a última página do poema, percebeu. O final de uma das obras-primas proféticas de Blake.

Inclinou-se e forçou a vista para tentar enxergar a letra minúscula, mas não conseguia ler o texto à luz fraca da lanterna a óleo.

Ambra já estava agachada com o rosto a dois centímetros do vidro. Examinou o poema em silêncio, parando para ler um dos versos em voz alta.

– “E o Homem caminha saindo do fogo, o mal está totalmente consumido.” –

Ela se virou para Langdon. – O mal está totalmente consumido?

Langdon pensou nisso, assentindo vagamente.

– Acho que Blake está se referindo à erradicação da religião corrupta. Um futuro sem religião é uma das suas profecias recorrentes.

Ambra pareceu esperançosa.

– Edmond disse que seu verso predileto era uma profecia que ele esperava que se realizasse.

– Bom – observou Langdon –, um futuro sem religião com certeza é algo que

Edmond desejava. Quantas letras tem esse verso?

– Mais de cinquenta.

Ela voltou a esquadrinhar o poema, parando um instante depois.

– Que tal esta: “Expandindo-se, os olhos do Homem contemplam as profundezas de mundos maravilhosos.”

– É possível – respondeu Langdon, pensando no significado: O intelecto humano continuará a crescer e evoluir com o tempo, nos permitindo enxergar mais profundamente a verdade.

– Letras demais – disse Ambra. – Vou continuar lendo.

Enquanto ela se debruçava sobre a página, Langdon começou a andar de um lado para outro. Os versos que Ambra havia lido ecoavam em sua mente e invocavam uma lembrança distante de quando tinha estudado Blake num curso de Literatura Inglesa em Princeton.

Imagens começaram a se formar, como acontecia às vezes com sua memória fotográfica. Essas imagens suscitavam outras, numa sucessão interminável. De repente, Langdon visualizou o professor diante da turma que tinha terminado de ler Os Quatro Zoas. Parado na frente dos alunos, ele fez a pergunta ancestral: O que vocês escolheriam: um mundo sem religião ou um mundo sem ciência? Antes que a turma se manifestasse, o professor acrescentou: William Blake, sem dúvida, tinha uma preferência, e em nenhum lugar sua esperança para o futuro foi mais bem resumida do que no último verso desse poema épico.

Langdon inspirou subitamente e virou para Ambra, que ainda estava examinando o texto de Blake.

– Vá para o fim do poema! – disse ele, agora se lembrando do último verso.

Ambra foi para o verso final. Depois de focalizar um momento, virou-se para ele com os olhos arregalados.

Langdon se juntou a ela perto do livro, fitando o texto. Agora que conhecia o verso, podia identificar as letras fracas, escritas à mão: The dark religions are departed & sweet science reigns – “As religiões das trevas partiram” – leu Ambra em voz alta. – “E reina a doce ciência”.

O verso era não somente uma profecia que Edmond poderia endossar, mas essencialmente uma sinopse de sua apresentação daquela noite.

As religiões irão desaparecer… e a ciência dominará.

Ambra começou a contar com cuidado as letras do verso, mas Langdon sabia que era desnecessário. É isso. Sem dúvida. Sua mente já estava concentrada em acessar Winston e transmitir a apresentação de Edmond. Depois, em particular, ele

teria que explicar a Ambra seu plano para fazer isso.

Virou-se para o padre Beña, que estava retornando nesse instante.

– Padre? – chamou. – Praticamente acabamos aqui. O senhor se incomodaria em subir e dizer aos agentes da Guardia para solicitarem o helicóptero? Precisamos partir imediatamente.

– Claro – respondeu Beña, indo em direção à escada. – Espero que tenham encontrado o que procuravam. Vejo-os lá em cima num instante.

Enquanto o padre desaparecia na escada, Ambra deu as costas para o livro, subitamente alarmada.

– Robert, esse verso é curto demais. Contei duas vezes. Só tem 46 letras.

Precisamos de 47.

– O quê? – Robert foi até ela e, estreitando os olhos para conseguir ler, contou com cuidado cada letra escrita à mão. “The dark religions are departed & sweet science reigns.” De fato, dava 46. Pasmo, correu os olhos pelo verso de novo. –

Edmond disse mesmo que eram 47, e não 46?

– Com certeza absoluta.

Langdon leu outra vez. Mas tem que ser esse, pensou. O que estou deixando passar?

Com muita atenção, examinou cada letra do último verso do poema de Blake.

Estava quase no final quando viu.

...& sweet science reigns.

– O ampersand – disse bruscamente. – O símbolo que Blake usou em vez de escrever a palavra and.

Ambra o olhou com estranheza e balançou a cabeça.

– Robert, se colocarmos a palavra and… o verso terá 48 letras. É grande demais.

Não é verdade. Langdon sorriu. É um código dentro de um código.

Langdon se maravilhou com o ardil inteligente de Edmond. O gênio paranoico tinha usado um truque tipográfico simples para garantir que, mesmo se alguém descobrisse qual era seu verso predileto, não pudesse digitá-lo de modo correto.

O código do ampersand, pensou Langdon. Edmond se lembrava dele.

A origem do ampersand, sinal gráfico hoje conhecido como “e comercial”, era uma das primeiras coisas que Langdon ensinava em seus cursos de Simbologia. O

símbolo “&” era um logograma – literalmente uma imagem representando uma palavra. Ainda que muitas pessoas presumissem que o símbolo derivava da palavra inglesa and, na verdade derivava da palavra latina et. O desenho incomum do ampersand, “&”, era uma fusão tipográfica das letras E e T – com a ligadura ainda

visível em fontes de computador como a Trebuchet, cujo ampersand ecoava claramente a origem latina: “&”.

Langdon jamais se esqueceria de que, uma semana depois de ter falado sobre esse símbolo para a turma de Edmond, o jovem gênio tinha aparecido com uma camiseta onde estava estampada a mensagem: Ampersand phone home! Uma alusão brincalhona ao filme de Spielberg sobre um extraterrestre chamado “ET” que estava tentando voltar para casa.

Agora, parado junto ao poema de Blake, pôde visualizar perfeitamente a senha de 47 letras.

thedarkreligionsaredepartedetsweetsciencereigns

É a quintessência do Edmond, pensou, compartilhando rapidamente com Ambra o truque esperto que o ex-aluno havia usado para acrescentar um nível de segurança à senha.

Ao entender o jogo de letras, Ambra abriu o maior sorriso que Langdon a vira dar desde que tinham se conhecido.

– Bom – disse ela –, acho que, se eu já tive alguma dúvida de que Edmond Kirsch era um geek…

Os dois riram juntos, aproveitando o momento para respirar fundo na solidão da cripta.

– Você descobriu a senha – disse ela, parecendo agradecida. – E lamento, mais do que nunca, ter perdido o telefone de Edmond. Se ele ainda estivesse conosco, poderíamos transmitir a apresentação de Edmond agora mesmo.

– A culpa não foi sua – Langdon a tranquilizou. – E, como eu disse, sei de um modo para encontrar o Winston.