Origem
Capítulo 40
O copiloto bateu a porta enquanto o piloto acionava o empuxo reverso do Gulfstream, levando o avião lentamente para trás, para longe da cerca bamba. Então o jato começou a fazer a curva larga em direção à pista.
Na poltrona em frente a Ambra, Robert Langdon fechou os olhos por um momento e soltou o ar. Os motores rugiram lá fora e ele sentiu a aceleração enquanto o jato partia trovejando pela pista.
Segundos depois, o avião subia para o céu e fazia uma curva fechada para sudoeste, mergulhando pela noite em direção a Barcelona.
C A P Í T U L O 4 0
O rabino Yehuda Köves saiu rapidamente de seu escritório, atravessou o jardim e passou pela porta da frente de casa, descendo os degraus até a calçada.
Não estou mais seguro aqui, disse a si mesmo, com o coração martelando inquieto. Preciso ir para a sinagoga.
A sinagoga da Rua Dohány não era somente o santuário de Köves durante toda a vida: era uma verdadeira fortaleza. As barricadas do templo, as cercas de arame farpado e os guardas 24 horas por dia serviam como uma lembrança nítida da longa história de antissemitismo em Budapeste. Köves sentiu-se grato por ter as chaves dessa cidadela.
A sinagoga ficava a 15 minutos de sua casa – uma caminhada tranquila que Köves fazia todo dia –, mas esta noite, enquanto seguia pela Rua Kossuth Lajos, ele não conseguia conter o medo. Baixando a cabeça, examinou com atenção as sombras adiante enquanto começava a jornada.
Quase imediatamente viu algo que o deixou nervoso.
Uma figura sombria estava encurvada num banco do outro lado da rua – um homem corpulento usando jeans e boné – digitando casualmente no celular, com o rosto barbudo iluminado pela tela.
Ele não é deste bairro, Köves sabia, acelerando o passo.
O homem de boné levantou os olhos, observou o rabino por um momento e voltou ao telefone. Köves continuou a andar. Depois de um quarteirão, olhou nervoso para trás. Para sua consternação, o homem de boné não estava mais no banco. Tinha atravessado a rua e andava pela calçada atrás dele.
Ele está me seguindo! Os pés do velho rabino se moveram mais depressa e sua respiração ficou entrecortada. Imaginou se teria sido um erro terrível sair de casa.
Valdespino insistiu para eu ficar lá dentro! Em quem decidi confiar?
Köves tinha planejado esperar que os homens de Valdespino viessem acompanhá-lo até Madri, mas o telefonema havia mudado tudo. As sementes sinistras da dúvida estavam brotando rapidamente.
A mulher ao telefone tinha alertado: O bispo está mandando homens não para transportar o senhor, mas para eliminá-lo – exatamente como fez com Syed al-Fadl.
Depois, ela apresentou provas tão convincentes que Köves entrou em pânico e fugiu.
Agora, andando rapidamente pela calçada, teve medo de não conseguir chegar à segurança da sinagoga. O homem de boné ainda estava atrás dele, seguindo-o a uns
50 metros de distância.
Um guincho ensurdecedor rasgou o ar noturno e Köves deu um pulo. O som, percebeu com alívio, era de um ônibus municipal freando num ponto mais adiante no quarteirão. Köves sentiu como se o ônibus tivesse sido mandado por Deus.
Correu e entrou. O veículo estava apinhado de estudantes barulhentos, e dois deles educadamente abriram espaço para Köves.
– Köszönöm – chiou o rabino, sem fôlego. Obrigado.
Mas, antes que o ônibus pudesse partir, o homem de jeans e boné veio correndo e conseguiu embarcar no último instante.
Köves ficou rígido, mas o sujeito passou por ele sem olhar e se sentou nos fundos. No reflexo do para-brisa, o rabino podia ver que ele tinha voltado ao celular, aparentemente concentrado em algum jogo.
Não seja paranoico, Yehuda, censurou-se. Ele não tem interesse em você.
Quando o ônibus chegou à parada na Rua Dohány, Köves olhou ansioso para as torres da sinagoga a apenas alguns quarteirões de distância, no entanto não conseguia se obrigar a sair da segurança do veículo apinhado.
Se eu sair e o homem me seguir…
Permaneceu no banco, decidindo que provavelmente estava mais seguro no meio de um grupo de pessoas. Posso andar um pouco de ônibus e recuperar o fôlego, pensou, embora agora desejasse ter usado o toalete antes de fugir de casa tão abruptamente.
Foi apenas alguns instantes depois, quando o ônibus saiu da Rua Dohány, que o rabino Köves percebeu a falha terrível do seu plano.
É sábado à noite e todos os passageiros são jovens.
Percebeu que todo mundo naquele ônibus certamente desceria no mesmo lugar: na próxima parada, no coração do bairro judeu de Budapeste.
Depois da Segunda Guerra Mundial, esse bairro tinha ficado em ruínas, mas agora as estruturas decadentes eram o centro de uma das áreas mais vibrantes da Europa, com seus famosos “bares de ruínas” – boates da moda dentro de construções dilapidadas. Nos fins de semana, bandos de estudantes e turistas vinham se divertir nos esqueletos bombardeados de armazéns e antigas mansões cobertas de grafite, agora reformados e com aparelhagens de som de última geração, luzes coloridas e arte eclética.
De fato, quando o ônibus guinchou freando na parada seguinte, todos os estudantes saltaram juntos. O homem de boné permaneceu sentado nos fundos, ainda concentrado no telefone. O instinto mandou que Köves saísse o mais depressa possível, por isso ele se levantou, foi rapidamente pelo corredor e desceu para a rua com o bando de jovens.
O ônibus mudou de marcha para sair, mas parou de repente, com a porta se abrindo com um chiado para liberar um último passageiro: o homem de boné. Köves sentiu a pulsação disparar outra vez, porém o homem não olhou para ele. Em vez
disso, deu as costas para o grupo e foi andando na direção oposta, telefonando ao mesmo tempo.
Pare de imaginar coisas, disse Köves a si mesmo, tentando respirar com calma.
O ônibus partiu e o bando de estudantes andou em direção aos bares. Por segurança, o rabino ficaria com eles pelo maior tempo possível, finalmente virando à esquerda e andando de volta para a sinagoga.
São apenas alguns quarteirões, disse a si mesmo, ignorando o peso nas pernas e a pressão cada vez maior na bexiga.