Origem

Dan Brown · Capítulo 45 de 107

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Capítulo 46

– E se Langdon interferir?

Houve um silêncio pesado.

– Faça o máximo para limitar os danos colaterais. Mas a crise é tão grave que o professor seria uma baixa aceitável.

 

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CASO KIRSCH TOMA CONTA DA MÍDIA!

Esta noite o anúncio científico de Edmond Kirsch começou como uma apresentação pela internet que atraiu o número espantoso de três milhões de espectadores. Mas, depois do assassinato de Kirsch, a cobertura da história suscitou o interesse das grandes redes de notícias de todo o mundo, com uma audiência atual estimada em mais de 80 milhões de pessoas.

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Enquanto o Gulfstream G550 de Kirsch começava a descer em Barcelona, Robert Langdon terminou de beber sua segunda xícara de café e olhou os restos da refeição improvisada que ele e Ambra tinham pegado na cozinha do avião de Edmond: nozes, bolos de arroz e várias “barras veganas”, todas com o mesmo gosto.

Do outro lado da mesa, Ambra tinha acabado de tomar a segunda taça de vinho tinto e parecia muito mais relaxada.

– Obrigada por ouvir – disse ela, parecendo sem graça. – Obviamente não pude falar sobre o Julián com ninguém.

Langdon assentiu, tendo acabado de escutar a história do desajeitado pedido que o príncipe fizera ao vivo pela televisão. Ela não tinha escolha, concordou, sabendo muito bem que Ambra não poderia correr o risco de envergonhar o futuro rei da Espanha em rede nacional.

– Obviamente, se eu soubesse que ele faria o pedido tão depressa – disse ela –, teria dito que não podia ter filhos. Mas tudo aconteceu sem aviso. – Ela balançou a cabeça e olhou com tristeza pela janela. – Eu achei que gostasse dele. Não sei, talvez tenha sido só a empolgação de…

– Um príncipe alto, moreno e bonito? – sugeriu Langdon com um riso torto.

Ambra riu baixinho e se virou de volta para ele.

– Ele tinha isso a favor. Não sei, ele parecia um homem bom. Muito reservado, talvez, mas romântico. Não parecia o tipo de pessoa que se envolveria no assassinato de Edmond.

Langdon suspeitou que ela estivesse certa. O príncipe tinha pouco a ganhar com a morte de Edmond e não havia indícios seguros de que ele tivesse alguma participação – só um telefonema de alguém de dentro do palácio pedindo para colocar o almirante Ávila na lista de convidados. Até o momento, o bispo Valdespino parecia o suspeito mais óbvio, já que soubera do anúncio de Edmond antecipadamente e tivera condições de formular um plano para impedi-lo. Além disso, sabia melhor do que ninguém como esse anúncio poderia ser destrutivo para a autoridade das religiões do mundo.

– Obviamente não posso me casar com Julián – disse Ambra baixinho. – Fico pensando que ele vai romper o noivado, agora que sabe que não posso ter filhos. A linhagem dele manteve a Coroa pela maior parte dos últimos quatro séculos. Algo me diz que a administradora de um museu de Bilbao não será o motivo para o fim da

 

linhagem.

O alto-falante acima deles estalou e os pilotos anunciaram que era hora de se prepararem para o pouso em Barcelona.

Arrancada dos pensamentos sobre o príncipe, Ambra se levantou e começou a arrumar a cabine – lavando os copos na cozinha e jogando fora a comida que tinha sobrado.

– Professor – entoou Winston ao telefone de Edmond sobre a mesa –, acho que o senhor deveria saber que existem informações novas viralizando na internet: evidências fortes apontando uma ligação secreta entre o bispo Valdespino e o assassino, o almirante Ávila.

Langdon ficou alarmado.

– Infelizmente há mais – acrescentou Winston. – Como o senhor sabe, o encontro secreto de Kirsch com o bispo Valdespino incluiu dois outros líderes religiosos: um rabino importante e um imã muito querido. Esta noite, o corpo do imã foi encontrado no deserto perto de Dubai. E, nos últimos minutos, chegaram notícias perturbadoras de Budapeste: parece que o rabino também foi encontrado morto, devido a um aparente ataque cardíaco.

Langdon estava atônito.

– Alguns blogueiros já estão questionando a coincidência de as duas mortes ocorrerem quase ao mesmo tempo – disse Winston.

Langdon assentiu, numa incredulidade muda. De um modo ou de outro, agora o bispo Antonio Valdespino era a única pessoa viva que sabia o que Kirsch tinha descoberto.

Quando o Gulfstream G550 pousou na única pista do Aeroporto Sabadell, ao pé das colinas de Barcelona, Ambra ficou aliviada ao não ver nenhum sinal de paparazzi ou jornalistas esperando.

Segundo Edmond, para evitar os fãs empolgados no Aeroporto El-Prat, ele optava por manter seu avião nesse pequeno aeroporto.

Esse não era o verdadeiro motivo, Ambra sabia.

Na verdade Edmond adorava atenção e admitiu que mantinha o jato no Sabadell somente para ter uma desculpa para ir para casa pelas estradas sinuosas em seu carro esporte predileto – um Tesla Modelo X P90D, que Elon Musk teria entregado a ele em mãos, como presente. Rezava a lenda que Edmond havia desafiado seus pilotos de jato para uma corrida de 1,5 quilômetro pela pista do aeroporto – o Gulfstream contra o Tesla –, mas os pilotos fizeram as contas e recusaram.

Vou sentir falta do Edmond, pensou Ambra, triste. É, ele adorava a boa vida e

corria riscos, mas sua imaginação brilhante merecia muito mais do que o que havia acontecido nesta noite. Só espero que possamos honrá-lo revelando sua descoberta.

Quando o avião chegou ao hangar de Edmond e os motores foram desligados, Ambra viu que tudo ali estava calmo. Aparentemente ela e o professor Langdon ainda não tinham sido descobertos.

Enquanto descia a escada do jato, respirou fundo, tentando clarear as ideias. A segunda taça de vinho tinha surtido efeito, e Ambra se arrependeu de tê-la bebido.

Ao pisar no chão de cimento do hangar, hesitou ligeiramente e sentiu a mão forte de Langdon no ombro, firmando-a.

– Obrigada – sussurrou, sorrindo para o professor, que, depois de duas xícaras de café, estava mais desperto e alerta que nunca.

– Deveríamos sair daqui o mais rápido possível – disse Langdon, olhando o SUV preto e esguio parado na esquina. – Presumo que seja o veículo do qual você falou, não é?

– O amor secreto de Edmond – assentiu ela.

– Placa estranha.

Ambra olhou a placa do carro e deu um risinho.

E-WAVE

– Bom – disse ela. – Edmond me falou que o Google e a Nasa adquiriram recentemente um supercomputador incrível chamado D-Wave, um dos primeiros computadores “quânticos” do mundo. Ele tentou me explicar, mas era bem complicado. Tinha algo a ver com superposições, mecânica quântica e a intenção de criar um tipo de máquina totalmente novo. De qualquer modo, Edmond queria construir uma coisa que deixasse o D-Wave muito para trás. Planejava chamar seu novo computador de E-Wave.

– E de Edmond – supôs Langdon.

E o “E” está um passo além do “D” , pensou Ambra, lembrando-se da história que Edmond lhe contara sobre o famoso computador do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, que, segundo a lenda urbana, tinha sido chamado de HAL porque cada letra vinha alfabeticamente à frente de IBM.

– E a chave do carro? – perguntou Langdon. – Você disse que sabe onde ele a esconde.

– Ele não usava chave. – Ambra levantou o telefone de Kirsch. – Edmond me mostrou quando viemos aqui no mês passado.

Ela tocou na tela do telefone, abriu o aplicativo do Tesla e escolheu o comando para ligar o carro.