Origem
Capítulo 54
Nos arredores de Madri, o bispo Valdespino sentia-se grato por ter escapado do palácio antes que os muros se fechassem ao seu redor. Espremido junto do príncipe Julián no banco de trás do minúsculo sedã Opel de seu acólito, esperava que as medidas desesperadas que estavam sendo tomadas por trás dos panos o ajudassem a recuperar o controle de uma noite que ia se desviando loucamente do rumo.
– La Casita del Príncipe – tinha ordenado Valdespino ao acólito enquanto o rapaz os levava para longe do palácio.
A casa de campo do príncipe ficava numa área rural isolada a 40 minutos de Madri. Mais uma mansão do que uma modesta casa no campo, a casita tinha servido como residência particular do herdeiro do trono espanhol desde meados do século XVIII: um local discreto onde garotos podiam agir como garotos antes de assumirem a enorme responsabilidade de comandar um país. Valdespino tinha garantido a Julián que seria muito mais seguro ir para lá do que permanecer no palácio esta noite.
Só que não vou levar Julián para a casa de campo, sabia o bispo, observando o príncipe, que olhava pela janela do carro, aparentemente imerso em pensamentos.
Valdespino se perguntou se Julián era mesmo ingênuo como parecia. Ou se, como o pai, teria dominado a habilidade de mostrar ao mundo apenas o lado que ele desejava que fosse visto.
C A P Í T U L O 5 4
As algemas nos pulsos de Garza estavam desnecessariamente apertadas.
Esses caras estão levando isso a sério, pensou, ainda perplexo com as atitudes dos seus próprios agentes.
– Que diabo está acontecendo?! – perguntou de novo enquanto seus homens saíam da catedral para o ar noturno da praça.
Continuou sem resposta.
Enquanto o grupo atravessava a área ampla em direção ao palácio, Garza percebeu que havia uma grande quantidade de câmeras de TV e manifestantes do lado de fora do portão principal.
– Pelo menos me levem pelos fundos – disse ao agente que estava no comando.
– Não transformem isso num espetáculo público.
Os soldados ignoraram o pedido e foram em frente, obrigando Garza a atravessar a praça. Em segundos, vozes do lado de fora do portão começaram a gritar e as luzes fortes de refletores se voltaram para ele. Ofuscado e furioso, Garza se obrigou a assumir uma expressão calma e manter a cabeça erguida enquanto os homens da Guardia o faziam andar a poucos metros do portão, passando direto pelos cinegrafistas e repórteres que gritavam.
Uma cacofonia de vozes lançava perguntas para Garza.
– Por que o senhor está sendo preso?
– O que o senhor fez, comandante?
– O senhor estava envolvido no assassinato de Edmond Kirsch?
Garza esperava que seus agentes passassem pela multidão sem ao menos um olhar, mas para seu choque eles pararam de súbito, segurando-o imóvel diante das câmeras. Da direção do palácio, uma figura familiar, de terninho, veio andando rapidamente pela praça até eles.
Era Mónica Martín.
Garza não teve dúvida de que ela ficaria chocada com sua situação.
Mas, estranhamente, quando chegou, Mónica o encarou não com surpresa, e sim com desprezo. Os guardas viraram Garza à força para os repórteres.
Mónica Martín levantou a mão para silenciar a turba e depois tirou um papel do bolso. Ajeitando os óculos grossos, leu uma declaração para as câmeras de TV:
– O Palácio Real está prendendo o comandante Diego Garza pela participação no assassinato de Edmond Kirsch e por sua tentativa de implicar o bispo Valdespino
nesse crime.
Antes mesmo que Garza pudesse assimilar a acusação absurda, os guardas já o empurravam para o palácio. Enquanto se afastava, ele pôde ouvir Mónica Martín continuando a ler a declaração:
– Com relação à futura rainha, Ambra Vidal, e ao professor americano Robert Langdon, infelizmente tenho notícias perturbadoras.
No subsolo do palácio, o diretor de segurança eletrônica Suresh Bhalla estava na frente do aparelho de TV, fascinado com a transmissão ao vivo da improvisada entrevista coletiva de Mónica Martín na praça.
Ela não parece feliz.
Apenas cinco minutos antes, Mónica tinha recebido um telefonema pessoal, que ela atendera em sua sala, falando em voz baixa e tomando notas cuidadosamente.
Um minuto depois saiu abalada de um modo que Suresh nunca tinha visto. Sem explicação, levou as anotações direto para a praça e se dirigiu à mídia.
Quer suas afirmações fossem exatas ou não, uma coisa era certa: a pessoa que havia ordenado essa declaração tinha acabado de colocar Robert Langdon num perigo muito sério.